Produtos de Origem Vegetal no Desenvolvimento de Fármacos
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PRODUTOS DE ORIGEM VEGETAL NO DESENVOLVIMENTO DE FÁRMACOS


INTRODUÇÃO

Historicamente, as plantas medicinais sempre foram objeto de estudo de uma área denominada farmacognosia, um dos ramos da farmacologia, voltado a examinar e caracterizar as drogas ou bases medicamentosas de origem natural, utilizadas como matéria-prima para a preparação de medicamentos.

Este trabalho procura mostrar a combinação de conhecimentos já existentes em relação às plantas fitoterápicas e uma reflexão do quanto precisamos saber, sobre este assunto e, especialmente, no desenvolvimento de fármacos.

A pesquisa farmacológica de plantas medicinais tem propiciado não só avanços importantes para a terapêutica de várias patologias, como também tem fornecido ferramentas extremamente úteis para o estudo teórico de fisiologia e farmacologia.

A química de produtos naturais representa, dentro da área de pesquisa com plantas medicinais, um ponto de grande importância e valor, na media em que somente por meio dos métodos utilizados nessa área pode-se obter tanto o isolamento e a purificação de novos compostos, como a correta determinação estrutural e posterior síntese total ou parcial. Os avanços nessa área são enormes, especialmente nas últimas décadas, e o futuro das descobertas de novos medicamentos passa obrigatoriamente por esse campo da ciência.

Mesmo considerando-se a imensa importância das plantas medicinais como fonte inesgotável de novos medicamentos, fato este incontestável, não podemos negar que novas descobertas nesta área dependem, exclusivamente da eleição de uma nova abordagem de estudo que permita, de forma racional, a obtenção de alternativas de tratamento e a cura de inúmeras doenças que afetam a população.


I. FITOTERAPIA, SEU USO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE E NA ATUALIDADE

O termo fitoterapia deriva de duas palavras gregas, a saber: phyton, que significa planta, e therapeia, que encerra a idéia de tratamento.

Fitoterapia é o método de tratamento de enfermidades que emprega vegetais frescos, drogas vegetais ou, ainda, extratos vegetais preparados com esses dois tipos de matérias-primas. Etimologicamente, fitoterapia significa tratamento por meio das plantas.

Hipócrates pode ser conhecido hoje em dia como o pai da medicina, mas durante séculos foi dado crédito na Europa medieval a Galeno, um médico do século II, que escreveu sobre quatro "humores" - sangue, fleuma, bílis negra e bílis amarela - e classificou as quatro plantas pela suas qualidades essenciais: quentes ou frias, secas ou úmidas. Estas teorias foram desenvolvidas mais tarde pelos médicos árabes do século VII, como Avicena e, hoje em dia, as teorias galênicas continuam a dominar a medicina Unami, praticada no mundo muçulmano e na Índia. As descrições das plantas feitas por Galeno como, por exemplo, "quente no terceiro grau" ou "fria no segundo" ainda eram utilizadas no século XVIII.

Entre as mais antigas civilizações, a medicina, através das plantas medicinais, já era praticada e transmitida desde os tempos mais remotos: na Antigüidade egípcia, grega e romana, quando acumularam-se conhecimentos empíricos e foram transmitidos posteriormente, através dos Árabes à seus descendentes europeus.

Papiros egípcios que datam de cerca de 1700 a.C. demonstram que muitas plantas comuns, como o alho e o zimbro, são usadas medicinalmente há cerca de 4000 anos. Na época de Ramisés III, o cânhamo era utilizado para os problemas dos olhos tal como pode ser receitado para o glaucoma hoje em dia, enquanto que os extratos da papoula eram utilizados para acalmar crianças a chorar. O primeiro manuscrito conhecido a seu respeito é o chamado Papiro de Ebers, que leva o nome do notável egiptólogo que o descobriu em Luxor e o traduziu.

1.1 Plantas no Brasil

No Brasil, desde da época do descobrimento, os colonizadores observavam e anotavam o uso freqüente de ervas pelos Índios.

O reino vegetal, além de ser o maior reservatório de moléculas orgânicas conhecido, é um poderoso laboratório de síntese. Até hoje diversas moléculas com estrutura complexa dependem de síntese biológica, pois a síntese em laboratório não pode ser feita ou é economicamente inviável, como é o caso dos digitálicos, da pilocarpina ou dos esteróides. Por isso plantas medicinais são usadas até hoje como matéria-prima para a fabricação de medicamentos.


II. PRODUTOS DE ORIGEM VEGETAL EMPREGADOS NO DESENVOLVIMENTO DE FÁRMACOS

A pesquisa sistemática para obtenção de novas substâncias com finalidade terapêutica pode ser executada por meio de vários processos. Os mais utilizados são a síntese de novas moléculas, a modificação molecular de substâncias naturais e/ou sintéticas, com propriedades farmacológicas definidas, e extração, isolamento e purificação de novos compostos, de fontes naturais, especialmente de origem vegetal, a qual se caracteriza como uma fonte inesgotável de substâncias potencialmente ativas como medicamento. Por outro lado, as plantas medicinais devem ser consideradas não apenas como matéria-prima, ponto de partida para a descoberta de novas moléculas, mas também como um recurso natural potencialmente ativo na forma de fitoterápico padronizado e eficaz.

Recentemente, os estudos com plantas medicinais têm sido responsáveis por inúmeras e importantes descobertas; o desenvolvimento desta área de pesquisa deve-se a vários fatores, dos quais se destaca a participação de um número cada vez maior de profissionais. No entanto, resultados promissores dependem de uma maior inter-relação entre os diversos profissionais e disciplinas que compõem o estudo das plantas medicinais, pois a continuidade de tais estudos de forma isolada perpetuará a falta de resultados, impedindo conseqüentemente o desenvolvimento de novos medicamentos.

As investigações científicas com plantas medicinais envolvem inúmeros elementos apaixonantes, sendo um deles o próprio caráter inter e multidisciplinar que, se por um lado, representa problemas, obstáculos e cuidados, por outro, permite aos pesquisadores obterem conhecimentos mais amplos e ricos que aqueles obtidos em linhas específicas de pesquisa. Estes elementos permeiam desde a cultura popular até o prazer e o desafio de estudar detalhadamente uma espécie vegetal, determinando de modo exato e racional a estrutura de uma nova molécula com potencialidades de se transformar em um medicamento disponível e aprovado. Um outro caminho, contendo um forte componente social e cultural, especialmente em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, encontra nas plantas medicinais uma importante oportunidade de solução de problemas de saúde, por meio de produção, comercialização e utilização de fitoterápicos padronizados.

O universo de toda estas disciplinas envolvidas na pesquisa de produtos naturais é extremamente complexo e imbricado, seja quando se buscam novos compostos quimicamente definidos, seja na padronização de preparados tradicionais, fitoterápicos ou fitofármacos, ambos com atividade farmacológica determinada.

O uso das espécies vegetais, com fins de tratamento e cura de doenças e sintomas, remonta ao início da civilização, desde o momento em que o homem despertou para a consciência e começou um longo percurso de manuseio, adaptação e modificação dos recursos naturais para seu próprio benefício. Esta prática milenar, atividade humana por excelência, ultrapassou todas as barreiras e obstáculos durante o processo evolutivo e chegou até os dias atuais, sendo amplamente utilizada por grande parte da população mundial como fonte de recurso terapêutico eficaz.

Torna-se inconcebível, portanto, que uma prática que se perpetuou na história da civilização não tivesse na atualidade o merecido reconhecimento da ciência e daqueles que a executam. Durante muitos anos a pesquisa com plantas medicinais foi subestimada no meio científico, e os preconceitos velados a químicos e farmacologistas, que desenvolviam pesquisas com produtos de origem natural, se verificavam pelos pequenos espaços dentro dos congressos, publicações e instituições científicas. Felizmente, esta situação foi se modificando à medida que os resultados das pesquisas com plantas medicinais mostravam-se promissores em relação à obtenção de novas substancias com atividade farmacológica definida e com grande potencialidade de transformação em medicamentos. Os espaços foram se ampliando, congressos e simpósios específicos foram surgindo, as revistas cientificas passaram a aceitar publicações desta área, ao mesmo tempo que revistas especializadas surgiram e grandes instituições de pesquisas abriram oportunidades para o desenvolvimento de projetos nesta linha, tendo como conseqüência a absorção de um grande número de especialistas em plantas medicinais. Paralelamente, verificou-se a inclusão das plantas medicinais nas linhas de pesquisa de inúmeros profissionais de várias áreas do conhecimento, que passaram a executar e, em alguns casos, até mesmo a priorizar estes estudos em relação aos anteriormente realizados.

É de conhecimento geral que na área de medicamentos não se pode propor, buscar ou pensar em soluções reais, mantendo-se diferentes, e algumas vezes divergentes, linhas de pensamento e ações dos grupos de pesquisa, institucionais ou não, preocupados com o desenvolvimento deste setor no país. Todos sabemos que tanto os problemas de saúde, em decorrência da falta de medicamentos para a maioria da população, como a ausência de uma política eficaz neste setor, possuem origem não apenas na falta de unidade de pensamentos, mas também na completa ausência de incentivos e interesses na solução destes problemas. Se, por um lado, ainda não produzimos um único medicamento genuinamente brasileiro, por outro, estamos ainda distantes de padronizarmos uma forma de ação efetiva que resolva boa parte dos problemas de saúde da população, que pode ser claramente alcançada com os esforços conjuntos dos pesquisadores, instituições e órgãos governamentais na padronização de medicamentos de fácil acesso e de utilização em massa.

Neste contexto, é importante constar que a associação e a inter-relação entre os mais variados profissionais tornam-se hoje não apenas um princípio de trabalho em equipe, mas uma prioridade diante das necessidades da população. Não podemos mais passar ao longe destas necessidades e realizarmos pesquisas descompromissadas, voltadas apenas para o avanço cientifico e sem aplicações e implicações, mesmo que indiretas na solução de nossos problemas.

Verificamos, hoje, que o Brasil comporta uma quantidade ainda pequena de pesquisadores dentro da área de plantas medicinais, quando comparado a países como a China, mas possui, sem dúvida, as condições mínimas para priorizar estes estudos e avançar a ponto de apresentar soluções de curto, médio e longo prazo. Todas essas questões passam por outros inúmeros problemas, tais como: a dimensão do país e as dificuldades de intercâmbio entre os profissionais, a ausência de uma política de saúde eficiente, a falta de interesse dos governos que entram e saem, as pequenas verbas disponíveis, muitas das quais inadequadamente utilizadas, para a realização destas pesquisas, no entanto, não podemos deixar de notar que poucas são as pesquisas que estão vinculadas ao saneamento dos problemas da nação. Esta questão depende sobretudo da base filosófica que rege as pesquisas científicas no país e da falta de compromisso e interesse profissional em pesquisas de maior aplicabilidade e de interesse nacional. Dados recentes evidenciam que as pesquisas na área de saúde estão voltadas para a busca de novas soluções e/ou novas drogas anticâncer, antivirais (herpes e HIV), novos analgésicos e anti-hipertensivos, enquanto a lista de problemas de saúde responsáveis pelo maior número de óbitos, como a diarréia, causada por bactérias e pela Entamoeba histolytica (que representam atualmente a quinta causa de morte no planeta), a malária, a hanseníase e outras, são muito pouco estudadas em nosso país. Este divórcio entre os interesses nacionais e as atividades desenvolvidas pelo nosso corpo de pesquisadores representa um sério problema na determinação de diretrizes e de propostas que, efetivamente, deveriam estar voltadas para a solução de nossos problemas. Não se deseja aqui afirmar que o pesquisador obrigatoriamente deva desenvolver projetos apenas nestas áreas, nem mesmo considerar que a atividade do pesquisador deva ser cerceada por ingerência de políticas de saúde, mas, por outro lado, é importante que cada pesquisador considere o papel social que ele possui e o quanto ele, por meio de seus estudos e pesquisas, pode colaborar com o desenvolvimento do país, especialmente na criação de melhores condições de saúde para a população.

Dados recentes mostram, também que 80% da população mundial vive nos denominados países em desenvolvimento ou subdesenvolvimento e que apenas 20% da população mundial, que habita os países desenvolvidos, é responsável pelo consumo de 85% dos medicamentos industrializados disponíveis no mercado. No Brasil, os dados são parecidos, 20% de nossa população consome 63% dos medicamentos disponíveis e o restante encontra nos produtos de origem natural, especialmente nas plantas medicinais, a única fonte de recurso terapêutico. Esta situação pode ser melhorada de maneira incontestável, a partir do momento em que esforços conjuntos forem efetuados para solucionar os problemas básicos de saúde, contando-se com a imensa colaboração das pesquisas com plantas medicinais.

Por outro lado, verifica-se que durante as últimas décadas um grande número de estudantes e pesquisadores passaram a se interessar pela pesquisa com plantas medicinais, cada qual dentro de uma determinada disciplina. Este grande fluxo de novos recursos humanos para a área de plantas medicinais encontra, logo no início de seus estudos, enormes problemas e obstáculos, dos quais se destaca a falta de uma bibliografia que aborde o assunto de modo multidimensional e que forneça as informações básicas das principais disciplinas que compõem o universo das plantas medicinais. Sabemos que todas estas informações existem, mas estão distribuídas, cada qual, em revistas e livros especializados de cada área do conhecimento, nem sempre disponíveis para todos os interessados, tornando extremamente difícil o planejamento racional de projetos, estudos e pesquisas.


III. CONCEITOS BÁSICOS NA PESQUISA DE PLANTAS MEDICINAIS

Muitos termos comuns na pesquisa de plantas medicinais devem ter seus conceitos estabelecidos em uma linguagem universal dentro desta abrangente área de pesquisa. Muitas expressões deixaram de ser utilizadas e foram paulatinamente substituída à medida que o avanço da tecnologia abriu amplas possibilidades de estudo, englobando linhas específicas de pesquisa.

Historicamente, as plantas medicinais sempre foram objeto de estudo de uma área denominada farmacognosia, a qual se ocupa pelos estudos voltados para examinar e caracterizar as drogas ou bases medicamentosas de origem natural, utilizadas como matéria-prima para a preparação de medicamentos.

O termo droga, quando objeto de estudo específico da farmacognosia, limitava-se a descrever um produto de origem natural. Esta definição origina-se do termo holandês droog, que se refere a ‘seco’. Atualmente, esse conceito passou a ser usado como sinônimo de medicamentos ou como qualquer substância quimicamente definida que possua ação sobre os sistemas orgânicos.

Quando essa atividade é benéfica ao organismo, esse complexo passa a ser denominado de drog-medicamento ou simplesmente medicamento ou fármaco.

Limitada ao universo das plantas medicinais, a expressão princípios ativos tem sido muito utilizada pelos mais diferentes profissionais que atuam na área, caracterizando-se como a(s) substância(s) química(s) obtida(s) de produtos de origem natural e que possuem uma ou mais atividades biológicas em determinado organismo vivo.

Comumente, verifica-se a utilização do termo produtos naturais como sinônimo de plantas medicinais. No entanto, a distinção entre ambas as expressões é óbvia e muito clara. Os produtos naturais representam qualquer substância ou produto de origem natural, seja útil como medicamento ou não, e podemos aqui reunir produtos derivados do petróleo, substâncias de origem animal e de microorganismos e muitas outras; as plantas medicinais referem-se única e exclusivamente às espécies vegetais que durante séculos foram sendo incorporadas na cultura de todos os povos graças às suas potencialidades terapêuticas e que após estudos criteriosos representam uma fonte inesgotável de medicamentos aprovados e comumente utilizados.

O conceito de homeopatia anuncia que todo medicamento ativo provoca no organismo humano uma espécie de doença, tanto mais peculiar, mais característica e mais intensa, quanto mais ativo é o medicamento.

A fitoterapia, cujo princípio está baseado na alopatia, diferenciando-se desta pelo uso de preparados tradicionais padronizados, eficazes, com inocuidade e qualidade controladas, elaborados de plantas medicinais e não preconizando o uso de substâncias quimicamente definidas, isoladas, purificadas e de estrutura molecular determinada. Deste modo, a fitoterapia se aproxima da homeopatia à medida que esta se utiliza de produtos de origem natural e muitas vezes de tinturas padronizadas de plantas medicinais.


IV. INFORMAÇÕES BÁSICAS NO ESTUDO DE PLANTAS MEDICINAIS

A pesquisa de plantas medicinais inclui, dentre suas diversas etapas de desenvolvimento, a botânica, que contribui com informações básicas de outras áreas de atividades, complementando-as.

A atividade botânica em plantas medicinais é iniciada pela coleta do material vegetal.

4.1 O que é e qual a importância da coleta

Amostras vegetais, devidamente preparadas ou exsicatas, são partes vegetais retiradas da planta, prensadas e secas, contendo estruturas vegetativas e reprodutivas, acompanhadas de uma etiqueta ou rótulo contendo informações sobre algumas características de planta e do local de coleta.

As exsicatas são importantes instrumentos para a identificação de plantas. Armazenadas em locais apropriados, permitem a utilização por pesquisadores sem haver necessidade de se deslocar até o local de coleta, acompanhadas pelas informações ambientais contidas na etiqueta.

4.2 Material e coleta

O material de coleta varia conforme as características ou grupo de plantas e mesmo da região ou modo de coleta. Os principais materiais são:

  • Lápis – usado para escrever as anotações de campo;
  • Caderneta de campo – usada para anotar as observações de campo;
  • Tesoura de poda – para cortar galhos e outras partes vegetais;
  • Facão – para abrir eventuais picadas ou cortar galhos mais grossos;
  • Mochila ou sacola – para carregar materiais de necessidade no trabalho de campo;
  • Jornal – é o material mais utilizado para as prensagens no campo, por ser barato e de fácil obtenção.
  • Lupa de mão – útil para observação de características morfológicas difíceis de serem observadas a olho nu;
  • Binóculo – muito utilizado em florestas para se observar flores ou frutos em árvores altas;
  • Barbante – para amarrar grupo de ramos das coletas ou sacos de plástico;
  • Fita métrica – para medir diâmetros de caules ou comprimentos de partes vegetais;
  • Faca ou canivete – para corte de frutos ou outras partes vegetais;
  • Sacos de papel – são utilizados normalmente para adicionar frutos grandes, que pelo seu tamanho não podem ficar presos aos ramos, pois atrapalham a prensagem;
  • Sacos de plástico – de tamanho que permitam acondicionamento de amostras vegetais, dentro dos jornais;
  • Álcool – usado para melhor conservação do material vegetal, sejam folhas, flores ou frutos.

4.3 Como, quanto e qual parte da planta coletar

As amostras coletadas devem ser representativas do aspecto geral da planta, escolhendo as partes das plantas que tenham melhor representatividade.

As amostras com danos causados por insetos, fungos ou dano mecânico devem ser evitadas.

Para auxiliar na identificação, é interessante a coleta de flores e frutos. Se isso não for possível na mesma coleta, colete primeiro no florescimento e depois na frutificação.

Plantas de hábito herbáceo ou pequenos arbustos devem ser coletados inteiros, ou seja, devem conter folha, ramos, flores e partes subterrâneas inteiras.

Arbustos maiores, árvores ou cipós devem ser coletados em amostras com cerca de 30 a 40 cm.

Para amostras de plantas medicinais, é importante também coletar a parta da planta utilizada. Se for casca ou raiz, colocar junto à amostra da planta um pedaço da casca ou raiz, e assim por diante.

Com relação à quantidade de amostras coletadas, ela é definida pela necessidade e/ou objetivos da coleta. Em geral, no mínimo, são coletadas três amostras. E em média de seis a oito amostras. Tal quantidade é necessária para envio e intercâmbio com cientistas e instituições de pesquisa e também para as comunidades de onde foram realizadas as coletas, se elas assim o desejarem.

4.4 Anotações de campo

Numa pesquisa botânica, uma exsicata sem dados de campo não tem valor. As notas de campo são importantíssimas. Existem várias formas de fazê-las, cada um deve escolher a mais conveniente para si próprio.

Muitos coletores preferem anotar à medida que cada amostra é coletada. É um pouco mais demorado, porém mais seguro. Outros confiam em sua memória, não anotando dados durante a coleta, deixando para fazê-los no momento da prensagem.


V. ABORDAGENS UTILIZADAS NA SELEÇÃO DE ESPÉCIES

Estudos farmacológicos, envolvendo plantas medicinais, têm sido tema de inúmeras análises nos mais variados tipos de eventos, entretanto, apesar de discutido há décadas, o tema ainda é polêmico, especialmente quando são analisadas questões como: estratégias a serem empregadas neste tipo de estudo, tipos de extrato a serem preparados, modelos empregados e reprodutividade, em animais de experimentação, da posologia empregada popularmente.

5.1 Seleção de espécies

Devido aos custos da pesquisa envolvendo plantas medicinais, a seleção da espécie a ser investigada é um dos pontos críticos desse campo de trabalho. Uma seleção inadequada de espécies pode levar ao desperdício de tempo e de recursos, sem levar em conta a frustração que esse tipo de insucesso acarreta.

Existem três tipos distintos de abordagem para a seleção de espécies medicinais para investigação farmacológica:

  • Randômica, que não utiliza qualquer critério para a seleção de plantas, ou seja, elas são investigadas aleatoriamente, sempre que houver disponibilidade de espécies;
  • Quimiotaxonômica ou filogenética, na qual são selecionadas as espécies de acordo com a ocorrência de uma dada classe química de substâncias em um gênero ou família;
  • Etnofarmacológica, que seleciona plantas de acordo com o uso terapêutico alegado por um determinado grupo étnico.

A abordagem randômica possibilita a descoberta de novas substâncias químicas, úteis ou não para a terapêutica. Este tipo de triagem acaba por se transformar em uma fonte infinita de novas estruturas, pois a natureza é o grande laboratório. Em adição, a abordagem quimiotaxonômica ou filogenética favorece a obtenção de substâncias químicas conhecidas a partir de novas fontes ou de outras ainda não exploradas. Entretanto, dos três tipos de seleção, o único que oferece oportunidades de descobrir protótipos, ou seja, novas estruturas com novas atividades é a abordagem etnofarmacológica.

Para o sistema biomédico o uso racional de eficácia das plantas medicinais aponta para a necessidade de pessoal, em campo, com formação biomédica e a associação deles com antropólogos.

Além disso, na abordagem etnofarmacológica, não é suficiente determinar que planta é utilizada par uma dada patologia. Dados como: parte empregada do vegetal, conservação, posologia, modo de preparo e, em alguns casos específicos, efeitos colaterais ou adversos fornecem pistas importantes tanto para o farmacólogo selecionar o modelo apropriado para investigação da espécie, quanto para o fitoquímico que irá trabalhar para isolar as substâncias ativas.


VI. PRINCIPAIS CLASSES DE COMPOSTOS NATURAIS ATIVOS

As substâncias ativas das plantas medicinais são de dois tipos: os produtos do metabolismo primário (essencialmente sacarídeos), substâncias indispensáveis à vida da planta que se formam em todas as plantas verdes graças à fotossíntese; o segundo tipo de substâncias é composto pelos produtos do metabolismo secundário, ou seja, processos que resultam essencialmente da assimilação do azoto. Estes produtos parecem freqüentemente ser inúteis a planta, mas os seus efeitos terapêuticos, em contrapartida, são notáveis.

Geralmente, estas substâncias não se encontram na planta em estado puro, mas sob a forma de complexos, cujos diferentes componentes se completam e reforçam na sua ação sobre o organismo. No entanto, mesmo quando a planta medicinal só contém uma substância ativa, esta tem sobre o organismo humano um efeito mais benéfico que o produzido pela mesma substância obtida por síntese química.

A natureza química da droga é determinada pelo seu teor em substâncias pertencentes aos seguintes grupos principais: alcalóides, glucosídeos, saponinas, princípios amargos, taninos, substâncias aromáticas, óleos essenciais e terpenos, óleos gordos, glucoquininas, mucilagens vegetais, hormonas e anti-sépticos vegetais.

6.1 Os alcalóides

Os alcalóides são compostos de caráter básico que ocorrem naturalmente, sobretudo no reino vegetal. Esses compostos possuem origem biossintética a partir das vias do ácido shiquímico ou mevalônico em combinação com diversos aminoácidos apresentando uma enorme diversidade química, porém de fácil sistematização. A função desses compostos nas espécies vegetais é pouco conhecida, contudo representam uma classe de metabólitos de grande importância como marcadores filogenéticos. A toxicidade de alguns grupos desses alcalóides para a espécie humana está bem descrita na literatura, assim como sua importância na medicina moderna. Os alcalóides se subdividem em inúmeras subclasses, com destaque para os alcalóides indólicos, quinolínicos, isoquinolínicos e tropano. No reino vegetal, esses compostos estão distribuídos em um amplo número de famílias botânicas.

Os alcalóides com núcleo isoquinolínico incluem substâncias como a emetina, obtida da espécie Cephaelis ipecacuanha, e outras espécies de gênero Cinchona. A emetina é potente amebicida, utilizado durante cinqüenta anos contra a disenteria amebiana até ser substituído na clínica médica por compostos sintéticos como o metronizadol. Pertencem a essa classe química substâncias como a morfina.

Substâncias como a quinina, quindina e cinchonina, compostos úteis como antimalárico, representam, alguns exemplos de alcalóides quinolínicos obtidos de várias espécies do gênero Cinchona, muitos dos quais também considerados pela via biossintética como alcalóides indólicos.

Os alcalóides quinolizidínicos são compostos originados de lisina e reúnem substâncias como lupanina, esparteína e matrina, todos com atividade hipotensora, estimulante muscular e úteis como ocitócitos.

Os alcalóides com núcleo tropano incluem compostos de grande interesse farmacológico, tais como: a atropina obtida de Atropa belladona,a escopolamina extraída de Scopolia carniolica e a hiosciamina obtida de Hiosciamus niger.

A segunda subclasse de alcalóides com maior número de compostos ativos é representada por substâncias que contêm o núcleo indólico. Incluem substâncias como a reserpina, que é de grande utilidade em estudos farmacológicos. Estricnina, ioimbina e fisostigmina também estão incluídas nessa subclasse.

Os alcalóides pirrolizidínicos incluem substâncias como necina e são substâncias muito tóxicas, agindo de forma deletéria especialmente sobre os hepatócitos.

No grupo dos alcalóides com núcleo pirrólico, encontramos, como exemplo a nicotina, que possui importante ação colinérgica e estimulante ganglionar, sendo uma droga de grande importância na compreensão da farmacologia do Sistema Autônomo. (Anexo – 1)

6.2 Os terpenos

Os compostos terpenóides que representam a segunda classe com maior número de constituintes ativos, assim como os alcalóides, estão subdivididos em várias subclasses. Estes constituintes possuem uma composição molecular típica C10H15e são assim denominados devido à sua origem na espécie Pistácia terebinthus.São classificados de acordo com as unidades de 5 carbonos, e de acordo com as várias formas de ciclização, os terpenos apresentam diversos esqueletos cíclicos ou não. Estão subdivididos em monoterpenos, sesquiterpenos, diterpenos, sesteterpenos, triterpenos e tetraterpenos.

Os monoterpenos representam uma subclasse que inclui compostos muito comuns como citral, linalol, cânfora, terpienen-4-ol, carvacrol, p-cimeno e outros. Compostos como a cânfora, além de sua utilização em preparações farmacêuticas para o tratamento de dores musculares e reumatismo, também são úteis como antipruriginoso e como tranqüilizante.

Quanto aos sesquiterpenos verifica-se que se aumentando o número de carbono ocorre um aumento do número de ciclizações e modificações nas moléculas, levando a uma grande variedade de compostos.

Os diterpenos, terpenos com 20 unidades de carbono, possuem origem no pirofosfato de geranilgeranil e se caracterizam como um grupo de compostos onde cadeias acíclicas são raras.

Os compostos de subclasse de sesteterpenos ocorrem em número muito pequeno na natureza e poucos são conhecidos. Não incluem exemplo de interesse farmacológico isolados a partir de espécies vegetais.

Por outro lado, os triterpernos se caracterizam por sua abundância e grande número de constituintes ativos. Neste grupo estão incluídos metabólitos de grande importância biológica, como colesterol, vitamina D, hormônios sexuais dos mamíferos e inúmeros outros esteróides.

Alguns exemplos de triterpenos ativos são o ginsenosídeo RC e outros gingenosídeos que reúnem ações antiespasmódica, analgésica, antiestresse, antilipolítica e de redução do peso corporal. Inúmeros triterpenos possuem atividade antiprotozoários, especialmente contra amebíase e malária, dos quais se destacam a bruceantina, glaucarubolone, bruceínas A, B e C, chaparrinona, bruceantinol e a quassina.

Os terpenos com 40 unidades de carbono, tetrapernos, do ponto de vista farmacológico, são compostos de pequena importância, mas extremamente úteis quanto ao seu papel biológico, como é o caso da vitamina A. (Anexo – 4)

6.3 As lignanas

As lignanas são dímeros obtidos por reações de espécies químicas monoméricas, especialmente dos alcalóides hidroxinamil, coniferil e sinapril. Inúmeras lignanas possuem importantes ações farmacológicas, das quais se destacam o eugenol, que além de seu uso em preparações farmacêuticas, perfumaria, cosméticos, flavorizante de alimentos; possui ações antimitótica, anticonvulsivante, depressora geral do SNC, antibacteriana, inibidora da respiração celular e outras.(Anexo – 5)

6.4 Os flavonóides

Como derivados das vias biossintéticas do acetato e shiquimato, os flavonóides compreendem uma série de compostos secundários que ocorrem exclusivamente em plantas superiores, sendo responsáveis, na planta, pela coloração das flores.

Inúmeros desses compostos possuem atividades farmacológicas, destacando-se a apigenina, taxifolina, morina, naringenina, genisteína e epicatequina. A naringenina reúne atividades anti-PAF, indutora da formação de hemoglobina, antiespasmódica e anti-hepatotóxica.(Anexo – 3)

6.5 As cumarinas

As cumarinas estão amplamente distribuídas no reino vegetal e representam uma classe de lactonas, que se abrem sobre tratamento básico e ciclizam-se novamente quando submetidas a tratamento ácido. A cumarina possui efeito antipirético e inibidor da carcinogênese. Outras cumarinas reúnem um amplo espectro de ações farmacológicas, destacando-se a escopoletina que é antiarrítimica, vasodilatadora, hipontesora, broncodilatadora, bloqueadora da junção neuromuscular, espasmolítica e simpatolítica; a umbeliferona que possui atividades inibidora da carcinogênese, antiespasmódica, antiarrítimica, e antifúngica.(Anexo – 6)

6.6 Outras classes de substâncias

Além de classes de substâncias naturais ativas já apresentadas, inúmeros outros metabólitos de interesse farmacológico estão distribuídos em grupos específicos de substâncias, como esteróides, holosídeos, heterosídeos cianogenéticos, heterosídeos antracênicos, saponosídeos, xantinas, xantonas, lactonas, benzenóides, quinóides e outros.

6.7 Glucosídeos

Os glucosídeos são produtos do metabolismo secundário das plantas. Compõem-se de duas partes. Uma contém açúcar, por exemplo a glucose, e é geralmente inativa, embora favoreça a solubilidade do glucosídeo, a sua absorção e mesmo o seu transporte para determinado órgão. O efeito terapêutico é determinado pela segunda parte, a mais ativa, designada aglícono. Segundo a composição química, distinguem-se vários grupos de glucosídeos.

6.8 Saponinas

As saponinas são muito comuns nas plantas medicinais. Do ponto de vista químico, caracterizam-se igualmente por um radical glucídico (glucose, galactose) ligado a um radical aglícono. A sua propriedade física principal é reduzir fortemente a tensão superficial da água. Todas as saponinas são fortemente espumosas e constituem excelentes emulsionantes. Têm uma outra propriedade característica: proporcionam a hemólise dos glóbulos vermelhos (eritrócitos), isto é, libertam a sua hemoglobina, o que explica o efeito tóxico de algumas delas, tornando-as impróprias para consumo.

6.9 Princípios amargos

A farmacologia agrupa, sob o nome de princípios amargos, as substâncias vegetais terpênicas susceptíveis de libertar azuleno, assim como glucosídeos de diversas estruturas bioquímicas. O primeiro grupo engloba, por exemplo, os sucos amargos do absinto e do cardo-santo. O segundo grupo é o mais comum: reúne os sucos das gencianáceas (genciana, trifólio),da centáurea, etc.

6.10 Taninos

Estas substâncias de composição química variável apresentam uma característica comum: a capacidade de coagular as albuminas, os metais pesados e os alcalóides. São hidrossolúveis. O seu interesse medicinal reside essencialmente na sua natureza adstringente: possuem a propriedade de coagular as albuminas das mucosas e dos tecidos, criando assim uma camada de coagulação isoladora e protetora, cujo efeito é reduzir a irritabilidade e a dor, deter os pequenos derrames de sangue. (Anexo – 1 ,2,4)

6.11 As substâncias aromáticas

É neste grupo que encontramos, nomeadamente, os glucosídeos fenólicos de que já falamos, ou os derivados do fenilpropano, como as cumarinas de perfume característico. Os caules folhosos do meliloto, da aspérula odorífera, são ricos em cumarina.

6.12 Os óleos essenciais (essências naturais) e os terpenos

Os óleos essenciais são líquidos voláteis, refringentes, de odor característico. Formam-se num grande número de plantas como subprodutos do metabolismo secundário.O uso farmacêutico dos óleos essenciais fundamenta-se nas suas propriedades fisiológicas: o perfume e o gosto (corrigentia); o efeito irritante sobre a pele e as mucosas (derivantia); as propriedades desinfetantes e a ação bactericida. O efeito de irritar a pele é aproveitado através de aplicações externas anti-reumatismais. Os linimentos contêm quer substâncias extraídas dos óleos essenciais (mentol, cânfora), quer essências de menta, de alecrim, de lavanda e de terebentina, verificando-se, na maior parte dos casos, uma mistura de todos estes produtos.

6.13 Os óleos gordos

São óleos vegetais líquidos à temperatura ambiente. O frio torna-os turvos e os faz coagular, são insolúveis na água, mas solúveis em solventes orgânicos (clorofórmio, acetona, por exemplo). Entre os óleos não sicativos, pode citar-se o azeite e o óleo de amêndoas, entre os semi-sicativos, o óleo de amendoim, de girassol e de colza.. O óleo de rícini é fortemente laxante.

6.14 As glucoquininas (insulinas vegetais)

São substâncias que têm influência sobre a glicemia; são também chamadas fito-insulinas. Existem nos vegetais seguintes: vagem de feijão sem sementes (Fructus phaseoli sine semine), cimeiras de galega (Herba galegae), folhas de mirtilo.

6.15 As mucilagens vegetais

São misturas amorfas de polissacarídeos que formam na presença de água sistemas coloidais fortemente viscosos. Nas infusões e decocções, as mucilagens das plantas medicinais têm como efeito reduzir a irritação quer física quer química. Exercem assim uma ação favorável contra as inflamações das mucosas, especialmente as das vias respiratórias e digestivas, atenuam as dores das contusões, amaciam a pele quando são aplicados cataplasmas. Reduzem o peristaltismo intestinal, e o seu efeito de absorção age favoravelmente em casos de diarréia. São usadas abundantemente como emulsionantes (carraguinatos, extraídos das algas marinhas).

6.16 As hormonas vegetais (fito-hormonas)

São substâncias de composição química muito complexa, geralmente biocatalisadores que atuam sobre o crescimento e as trocas metabólicas (biostimulantes). Existem, por exemplo, no lúpulo, no anis, na salvia, na sorveira, na altéia, na bolsa-de-pastor, na aveia e na cenoura.

6.17 Os anti-sépticos vegetais

São substâncias antibióticas produzidas pelos vegetais superiores, exercendo uma ação antimicrobiana de largo espectro, na maior parte dos casos instáveis e voláteis. Atuam mesmo em aerossol, por via respiratória. Existem no alho, na cebola, na mostarda, no rábano silvestre, no salgueiro, no zimbro, no pinheiro, na tanchagem, etc.


VII. EMPREGO DOS FITOTERÁPICOS

Pós

Devem ser cortadas em pedaços de tamanho conveniente e depois moídas. Drogas pulverizadas não devem ser armazenadas por mais de um ano. Com freqüência, efetua-se a moagem na ocasião do uso. Os pós devem ser empregados na obtenção de formas extrativas ou algumas vezes podem ser usados como tal.

Preparações obtidas por extração:

Chás

Chás devem ser preparados em geral em utensílio de barro, louça ou cobre. A regra geral para a proporção água-erva é para cada litro de água, acrescentas 4 colheres de sopa de erva fresca ou 2 colheres de sopa de erva seca.Tomar três vezes ao dia: jejum, depois do almoço e antes de dormir.

Todas as ervas devem ser socadas num pilão de madeira antes de usadas, ativando assim seu princípio ativo, porém não é necessário esmagá-las, devemos socá-las até que exalem seu cheiro.

Infusão

Do latim infusio: verter líquido dentro de um vaso dobre alguma matéria. Verte-se água fervente sobre a droga, mantendo-a encerrada em recipiente fechado por 30 minutos agitando-se com freqüência. Filtra-se a mistura e leva-se o resíduo completando-se o volume desejado. A porcentagem da droga empregada varia para cada caso, e geralmente é de 5% . 

Decocção

No processo de decocção (do latim decoctio: operação a fazer ferver em um líquido a substância da qual se quer extrair os princípios solúveis), o líquido em contato com a droga é submetido a ebulição durante 20 a 30 minutos, sendo a seguir esfriado e filtrado. O resíduo é levado com líquido extrator de maneira a obter o volume desejado. CA porcentagem da droga utilizada varia. (Geralmente é de 5 %).

Maceração

Do latim maceratio: submeter um corpo sólido à ação de um líquido. Preparação (realizada a frio) que consiste em colocar a parte da planta medicinal dentro de um recipiente contendo álcool, óleo, água ou outro líquido. Folhas, flores e outras partes tenras ficam macerando por 18 a 24 horas. Plantas onde há possibilidade de fermentações não devem ser preparadas direta, podendo ser agitado periodicamente. Fim do tempo previsto, filtra-se 0 líquido e pode-se acrescentar uma quantidade de diluente (água por exemplo), se achar necessário para obter um volume final desejado.

Tinturas

Do latim tinctura: Que guarda a idéia de tingir. Tinturas são medicamentos líquidos resultantes da extração de drogar vegetais geralmente por líquido extrator constituído de mistura de álcool e água. As tinturas, a maior parte das vezes, são preparadas a 20% p/v, isto é, a partir de 20g da droga obtém-se 100ml da tintura. A Farmacopéia Brasileira recomenda o preparo de tinturas de drogas heróicas a 10% (Oliveira, F. & Akisue, G., 2000).

Xarope

Os xaropes medicinais geralmente são preparados pela adição do extrato fluido da droga ao xarope simples. A concentração do extrato fluído varia de 5% a 10% dependendo da droga em questão. Solução com grande quantidade de açúcar, capaz de conferir uma alta viscosidade ao produto. Serve para mascar o gosto amargo de alguns produtos, conservar por mais tempo a solução e tornar possível a dissolução de certos componentes que na se solubilizam em água.

Pomada

As pomadas são preparações untuosas, ou seja, repelem a água. São feitas com matérias-primas untuosas e possuem uma penetração leve e superficial, epidérmica. Elas formam uma barreira, impedindo a transpiração e retendo o sangue e as secreções das feridas.

Cataplasma

São obtidas por diversas formas:

  • Amassar as ervas frescas e bem limpas, aplicar diretamente sobre a parte afetada ou envolvidas em um pano fino ou gaze;
  • As ervas secas podem ser reduzidas a pó, misturadas em água, chás ou outras preparações e aplicadas envoltas em um pano fino sobre as partes afetadas.

Água aromática

As águas aromáticas consistem basicamente em uma maceração e devem ser sempre preparadas em recipientes de barro.

Alcoolaturas

Alcoolaturas são formas farmacêuticas obtidas pela ação dissolvente ao álcool sobre uma ou várias partes vegetais frescas. A alcoolatura, via de regra, é preparada de modo a promover a extração de 50 g de planta para obter 100 ml do alcoolato. As alcoolaturas são preparadas por maceração.

Óleos medicinais

Óleos medicinais são obtidos pela solução de diversos princípios medicamentosos, em óleos fixos, tais como óleo de amendoim, óleo de gergelim, óleo de ricino, óleo de oliva. Os óleos medicinais de plantas, geralmente obtidos por maceração, alteram-se com facilidade.

Sucos

Do latim succus: líquido de órgãos vegetais. São preparações obtidas por expressão de plantas frescas. Empregam-se com mais freqüência os sucos de frutas. A Farmacopéia Brasileira inclui o suco de amora, de framboesa e de limão. Os sucos são empregados na elaboração de produtos farmacêuticos, produtos cosméticos e na indústria de alimentos.

Essências

Do latim essentia: o que faz com que uma coisa seja o que é: propriedade especial. Essências ou óleos essenciais são misturas complexas de substâncias de origem vegetal responsáveis pelo odor agradável ou mesmo desagradável das plantas. São produzidas dentro de estruturas secretoras especiais (pêlos glandulares, glândulas, canais secretores, bolsas secretoras) e podem ser obtidas por hidrodestilação com auxílio de aparelho de Clevenger.

Vinagre

Do latim vinum + acrem: produto obtido por fermentação acética do vinho. Vinagres são formar farmacêuticas líquidas aquosas que se empregam como líquido extrator acompanhadas ou não de outro solvente, neste caso geralmente o álcool. O vinagre, segundo a Farmacopéia Brasileira, é constituído de solução aquosa de ácido acético glacial a 6% em água.

Vinhos medicinais

Do latim vinum: líquido alcoólico obtido por fermentação do suco de uva. São preparações líquidas obtidas pela maceração de drogas vegetais em vinho. O vinho é um líquido alcoólico obtido pela fermentação do suco de uvas maduras e frescas sem nenhuma adição, admitindo-se somente a presença de substâncias necessárias ao seu tratamento de acordo com a vinificação natural

Sabão

Os sabões medicinais são utilizados na higiene pessoal, mas podem servir de veículo para substâncias medicamentosas. A quantidade de princípios ativos que permanecem no corpo é pequena, devido ao enxagüe. É de fácil aplicação, podendo distribuir-se rapidamente por todo o corpo.

Banho

Faz-se uma infusão ou decocção mais concentrada que deve ser coada e misturada na água do banho. Outra maneira é colocar ervas em um saco de pano firme e deixar boiando na água do banho. Os banho podem ser parciais ou de corpo inteiro, e são normalmente indicados uma vez por dia.

Salada

As ervas podem ser comidas cruas em formas de saladas ou preparadas junto com os alimentos, como temperos. Porém muito cuidado deve ser tomado quanto à qualidade e limpeza das ervas. Lave-as bem com água corrente e depois deixe-as de molho por algum tempo em água, sal marinho e vinagre.

Elixir

Os elixires são preparados com ervas e bebidas alcoólicas, possuem sabor agradável e muitas propriedades medicinais. Podemos preparar elixires de diferentes ervas para várias finalidades.


CONCLUSÃO

A produção de fármacos no intento de combater doenças, e no sentido de prevenção vem recentemente ampliando seus espaços junto aos segmentos de pesquisa e seu consumo junto às pessoas. O desafio de estudar algumas espécies vegetais de modo racional através de seus aplicativos na causa de males proporciona nesta atividade um alongamento do saber relativo aos diversos elementos que compõem a pesquisa em farmacologia.

A diversidade de espécies de plantas medicinais nos chamados países em desenvolvimento forma um enorme ambiente de pesquisa, ampliando alternativas de formulação de novos medicamentos e por isso grandes empresas do setor postulam patentes de fórmulas populares já de domínio público através de nomenclaturas e categorias, extraindo dessas nações e povos o direito autoral dos retornos financeiros. Nas recentes análises desenvolvidas em laboratórios de universidades brasileiras mediante participação de profissionais responsáveis por interdisciplinares conhecimentos de diversas plantas vem sendo aprimoradas superando o senso comum de gerações sabedoras de suas funções, sem entretanto, desvendar o metabolismo e ou os princípios ativos existentes no reino vegetal.

Os avanços metodológicos na farmacologia empregada nos mais variados tipos de eventos, extração e comprovação vêm sistematicamente selecionando famílias e grupos de acordo com o uso terapêutico, e neste segmento o Brasil vem desempenhando papel estratégico inclusive na geração e distribuição de riquezas e na constituição de um know how específico, o que certamente fará diferença no futuro.

Por fim considerando a grande biodiversidade existente no reino vegetal pode-se afirmar que a natureza contribuiu de forma elementar e perene, com os estudos voltados a esta área de produção, fornecendo a matéria-prima essencial de onde são extraídos todos os princípios ativos e substâncias empregadas no desenvolvimento de fármacos.


BIBLIOGRAFIA

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PRISTA, L. N., ALVES, A.C., MORGADO, R.M.R. Técnica farmacêutica e Farmácia Galénica. 4.ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991. 1134p.

CARLINI, E.A. Pesquisa com plantas medicinais em medicina popular. Rev. Assoc. Med. Brás., v.29, n.516,p.109-10, 1983.

FIDALGO, O., BONONI, V.L.R. Técnicas de coleta, preservação e herborização de material botânico. São Paulo: Instituto de Botânica, 1989. 62p.

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ABREU MATOS, F.J. Introdução à fitoquímica experimental. Fortaleza, 1980. 129p. (Apostila).

CRAVEIRO, A.A. et al. Óleos essenciais de plantas do Nordeste. Fortaleza: Ed. UFC, 1981. 209p.

FRANÇA, J. L., BORGES, S. M., VASCONCELLOS, A. C., MAGALHÃES, M. H. A. Manual de Publicações Técnico-Científicas. 4 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

SILVA, Irenice. et al. Noções Sobre o Organismo Humano e Utilização de Plantas Medicinais. Universidade Estadual de Maringá.


ANEXO

PLANTAS MEDICINAIS

(1) ROMÃ

NOME CIENTÍFICO: Punica granatum L.

FAMÍLIA: Punicaceae.

NOMES VULGARES: Romã, Romeira, Granado.

PARTE USADA: Pericarpo, cascas da raiz e do caule.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: A casca da fruta contém taninos, alcalóides e uma sustância antibiótica. As cascas do caule e das raízes contêm peletierina (punicina), alcalóide tóxico para platelmintos, vermífugo para tênias e áscaris.

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Vermífugo, anti-séptico local e adstringente, utilizado nas inflamações da boca, gengiva, amídalas, e laringe.

(2) CONFREI

NOME CIENTÍFICO: Symphytum officinale L.

FAMÍLIA: Boraginaceae.

NOMES VULGARES: Confrei, Consolada, Consolada-menor, Consólida, Consólida-menor, Erva-do-cardeal, Língua-de-vaca, Orelha-de-burro, Orelha-de-vaca.

PARTE USADA: Raízes e folhas.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: Mucilagens, taninos e alantoína. As raízes contêm os alcalóides pirrolizidínicos (sinfitina e equimidina) e os ácidos clorogênico e cafeico.

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Queimaduras, cicatrização, lábios secos ou rachados.

(3) HORTELÃ

NOME CIENTÍFICO: Menta piperita L.

FAMÍLIA: Labiatae.

NOMES VULGARES: Hortelã, Hortelã-pimenta, Menta, Vique, Erva-boa, Hortelã-cheirosa, Hortelã-chinesa, Hortelã-da-horta, Hortelã-de-tempero, Hortelã-rasteira, Mentrasto, Hortelã-de-panela.

PARTE USADA: Folhas e flores frescas e secas, pó da planta toda.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: Os principais componentes estão no óleo essencial: isomenta, mentenona, pulegona, jasmona, cineol, mentofurano, a -pineno, limoneno, cadineno, cariofileno, felandreno, azuleno, l -mentol livre e esterificado, acetato de mentila, d e l -mentona, piperitona, álcool etílico, canfeno. Contém também vitamina C, D2 e aminoácidos livres, flavonóides, betaina e tocoferois, ácidos cumárico, ferúlico, cafeico e clorogênico.

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Antiinflamatório,. Analgésico, antiúlcera, colerético, antiespasmódico, antiemético, antimicrobiano e antiviral, antiflatulento, anti-séptico bucal e combate a protozoários.

(4) MELISSA

NOME CIENTÍFICO: Melissa officinalis L.

FAMÍLIA: Labiatae.

NOMES VULGARES: Erva-cidreira, Melissa, Melissa-romana, Chá-da-frança, Cidrilha, Erva-cidreira-da-folha-miúda.

PARTE USADA: Folhas frescas ou secas e sumidades florais.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: As folhas e sumidades florais apresentam elementos minerais, taninos, catequina, ácidos fenólicos (cafeico, clorogënico e rosmarínico), ácido succínico, princípio amargo, mucilagens, resina e óleo essencial. O óleo essencial contém terpenos, pineno, limoneno, e álcoois (geraniol e linalol), aldeídos (citral e citronelal).

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Antiespasmódico, digestivo, colerético, antiflatuleno, expectorante, antiinflamatório local, cicatrizante e germicida.

(5) QUEBRA-PEDRA

NOME CIENTÍFICO: Phyllantus niruri L.

FAMÍLIA: Euphorbiaceae.

NOMES VULGARES: Quebra-pedra, Arranca-pedra, Arrebenta-pedra.

PARTE USADA: Raiz e folhas.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: Tanino e matérias pécticas. O óleo da semente é rico em ácidos linoléico. As folhas das plantas jovens apresentam compostos fenólicos e vitamina C, enquanto nas plantas maduras, proteínas. Contêm lignanas identificadas como filantina, hipofilantina, linfetalina, nirantina, nitretalina, filtetralina e um triterpenóide obtido também dos talos Isolaram-se flavonóides: quercitrina, quercetina, rutina. Verificou-se a presença, em pequena quantidade, de astragolina.

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Litolítico (destróis cálculos renais), uricosúrico (estimula a eliminação de ácido úrico pela urina), antiespasmódico (relaxa a musculatura lisa e combate cólicas) de vias urinárias, colerético (estimula a produção de bile e melhora a digestão) e antiviral (contra vírus de hepatite B).

(6) SABUGUEIRO

NOME CIENTÍFICO: Sambucus canadensis L.

FAMÍLIA: Caprifoliaceae.

NOMES VULGARES: Sabugueiro, Sabugueirinha, Sabugueirinho, Sabugueiro-negro.

PARTE USADA: Folhas, flores, raiz e, eventualmente, a entrecasca.

COMPOSIÇÃO QUÍMICA: Óleo essencial, cardenolídeos, cumarina, flavonóides (rutina), alcalóides, materiais mucilaginosos, e resinosos, taninos (ácido tânico), pectina, ácidos fenólicos, etilamina e isobutilamina.

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS: Antiflamatório, sudorífico, emoliente, cicatrizante, anticatarral.