Patativa do Assaré
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PATATIVA DO ASSARÉ

POETA DO CORDEL. ANÁLISE E RESUMO

DA OBRA DO POETA CORDELISTA

ANTONIO GONÇALVES DA SILVA (1909-2002)


INTRODUÇÃO

Este trabalho objetiva apresentar em resumo a obra de Patativa do Assaré. Com o intuito de apresentar o autor em diferentes contextos, ou seja, nas poesias, na literatura de cordel, nos repentes e desafios com parceiros de viola, transcrevemos neste, vários trechos de suas obras a fim de sedimentar o que será dito em cada leitura.

Patativa do Assaré teve três livros editados, sendo: Inspiração Nordestina (1956), Patativa do Assaré (1970) e Ispinho e Fulô (1991). Mostraremos ao longo deste trabalho, o resultado de várias pesquisas, leituras e consultas que fizemos e elaboramos no decorrer do período em que labutamos na organização e confecção deste trabalho.

Além dos trechos de algumas poesias, apresentaremos, também, outras na íntegra por julgarmos serem verdadeiros clássicos da literatura nordestina e, por que não dizer, da literatura brasileira.

Algumas poesias foram transcritas na forma em que foram publicadas para não perdermos a originalidade e a essência, coisa que com certeza iria deixar o poeta "por dimais insatisfeito".

Colocamos em destaque a oralidade do universo cultural do autor e a experiência como violeiro, que influenciaram profundamente a poesia de Patativa, cuja trajetória como repentista se presentifica nos poemas que se estruturam em forma de peleja e na sua capacidade de esgrimir as palavras construindo uma trama que se tece à medida em que os versos são enunciados.

Encontrar-se-á neste trabalho, dentre as partes que o compõe, algumas fotos ilustrativas e imagens do autor e da gente de sua terra, sumário, introdução, biografia, contexto histórico, prêmios e homenagens, cronologia, entrevistas e, ainda no desenvolvimento, abordaremos sobre a literatura de cordel, sua métrica, seus cantadores, falaremos dos folhetos, das capas e contracapas, enfim, trataremos de reproduzir neste trabalho toda a satisfação que sentimos desde o primeiro contato que tivemos com as obras do autor e, por fim, apresentaremos a conclusão e a bibliografia que nos deu fundamentos e orientações sobre este poeta que tão bem escreve sobre os desmandos, sofrimento e injustiças sofridas pelo povo sertanejo, pelo povo brasileiro.

Apresentamos também um capítulo contendo as comparações e analogia deste rico e imenso trabalho, com obras de Euclides da Cunha e Gonçalves Dias, acentuando em alguns detalhes a intertextualidade destas obras, bem como a importância e a influência deste grande poeta na cultura do povo brasileiro.


PRODUÇÃO LITERÁRIA EM FORMA DE FOLHETOS

O álbum Patativa do Assaré - Cordéis é uma síntese da produção literária de Antônio Gonçalves da Silva: a novela picaresca, o conto fantástico, proselitismo, ecologia e informação estão presentes. A coletânea, organizada pelo pesquisador Gilmar de Carvalho, foi publicada em 1993.

Seria bem natural se o poeta, mesmo aposentada a viola, companheira de começo, saísse a divulgar seus versos no suporte conhecido do cordel. Assim o fazem e fizeram gerações de contadores de história e vates caminhantes pelo sertão. Mas Patativa do Assaré zela por sua musa, comerciar seus poemas nunca seria um mister. E Antônio Gonçalves da Silva pouco se permitiu utilizar a forma do folheto, livreto em quarto de página, a capa resumindo em cromo ou gravura o conteúdo das páginas, em geral 16. Em 1993, por iniciativa do pesquisador Gilmar de Carvalho, saiu uma coletânea de criações do Patativa em 13 cordéis, o conjunto acondicionado numa caixinha de cartolina. Este álbum é amostra representativa da diversidade do artista de Assaré.

Brosogó, Militão e o Diabo é uma novelinha picaresca, com pitadas de fantástico, aqui representado pela figura do Cão. Miçangueiro (ou camelô), Brozogó corria mundo com sua maletinha. Na fazenda de Militão, nada vendeu, saiu devendo meia dúzia de ovos. No dia de pagar, o coronel cobrou uma exorbitância: cada ovo viraria uma poedeira, o pobre do ambulante lhe devia todo um galinheiro. Foi salvo pelo Diabo, que advogou em seu favor, livrando Brozogó com o engodo de plantar feijão cozido. Do clássico árabe As Mil e Uma Noites, Patativa adaptou a História de Aladim e a Lâmpada Maravilhosa; do romanceiro ibero-sertanejo, a saga aventurosa de Abílio e seu Cachorro Jupi.

O sertão nordestino é o tema maior de Patativa. Nessa coleção foram incluídos os poemas Emigração, A Triste Partida e ABC do Nordeste Flagelado. Como elucidam os títulos, a questão da seca e seu séquito de retirantes dão o mote. Em O Meu Livro, o poeta, como o personagem Chico Braúna, conta em versos sua profissão de fé: ser o cantor da natureza, traduzindo em poesia a linguagem dos bichos, das plantas, dos lugares. No folheto O Doutor Raiz, Patativa alerta contra os falsos curandeiros, ao mesmo tempo que também critica a medicina popular. Glosas sobre o Comunismo apresenta um Patativa veemente versando sobre o mote ``o comunismo fatal / não queremos no Brasil''.

Um dos mais belos poemas-denúncia de Patativa do Assaré também está presente no álbum em O Padre Henrique contra o Dragão da Maldade, o poeta conta a trágica história do jovem padre pernambucano, ligado a D. Hélder Câmara e à Teologia da Libertação. Antônio Henrique tinha apenas 27 anos quando foi assassinado pelas forças repressivas, no violento ano 1969, em Recife. Outro folheto onde a lira de Patativa descreve o protesto é Vicença e Sofia ou o Castigo de Mamãe, um libelo contra o preconceito racial.


PATATIVA DO ASSARÉ, UM POETA POPULAR

Fiel à tradição dos poetas de cordel, ele mesmo autor de cordéis, Patativa do Assaré compõe uma poesia essencialmente narrativa que testemunha a história quotidiana do sertanejo e torna-se, de qualquer maneira, "o mediador encarregado de traduzir o mundo exterior aos sertanejos". Esta obra, "nascida no seio do povo, aplaudida e amada por esse mesmo povo", coloca-se ao lado das referências literárias do Nordeste como A Bagaceira, Pedra Bonita, Vidas secas, O Quinze, Grande Sertão: veredas, na medida em que o autor contribui para a elaboração de uma imagem da identidade nordestina e de representações simbólicas que nos permitem compreender melhor os valores fundamentais do sertanejo através das personagens encenadas. Se a origem social do poeta e a origem social de seu público são determinantes para qualificar esta poesia como popular, é preciso igualmente levar em consideração outros critérios que permitem caracterizar sua obra: os assuntos tratados, a função do poeta e a filosofia empregada. Ao longo da leitura de títulos de cordéis recentemente editados pela URCA, constata-se a presença de numerosos temas habitualmente abordados na literatura popular nordestina: o ciclo religioso e o messianismo, a tradição épica, a descrição da vida do Nordeste com seus flagelos, caatinga, inundações, secas, migrações: Saudação ao Juazeiro do Norte, História de Aladim e a lâmpada maravilhosa, ABC do Nordeste flagelado, A Triste Partida, Emigração…

Uma leitura mais abrangente da obra descobre também a presença de personagens tradicionais do sertão: o vaqueiro, o caboclo, o roceiro, o caçador, o mendigo, sem esquecer os animais familiares como o cavalo, o boi e o cachorro. É preciso ressaltar, enfim, a grande variedade de personagens que habitam os poemas e que são nomeados de forma tradicional e popular, seja por referência ao pai(Zé Geraldo), à mãe (Zé de Ana), ou à atividade profissional (Ciça do Barro Cru).

Entretanto, nem as narrativas das aventuras de um destes habitantes do sertão (Brosogó, Militão e o Diabo, As façanhas de João Mole, Vicença e Sofia, ou o castigo de mamãe), nem a descrição das dificuldades encontradas pelo sertanejo são jamais apresentadas fora de uma preocupação educativa: divertindo o ouvinte ou o leitor, o poeta tem por tarefa instruí-lo, transmitindo valores morais. Do ponto de vista da função determinada para a poesia popular, encontramos paradoxalmente um dos componentes do ideal clássico: "agradar e instruir". Quanto à estrutura mesma dos textos, eles estão muito próximos do modelo da fábula: conduz o leitor à abertura, narra, formulação da moral no desfecho. Com efeito, os primeiros versos focalizam a atenção sobre as intenções do autor ou sobre os valores morais que ele se propõe a transmitir aos receptores; como, por exemplo, a abertura de As Façanhas de João Mole, a seguir:

"Neste pequenino drama

O caro leitor verá

Que dentro de cada homem

Um pouco de ação está

E um só homem sem coragem

No nosso mundo não há"

Esta vontade didática está claramente afirmada na medida em que os cordéis terminam geralmente por uma evocação direta do leitor e por uma lembrança da lição que convém extrair da história escutada. A última estrofe do cordel acima citado se encerra nestes termos:

"Agora, caro leitor,

Não desaprove o que digo

Todo homem tem coragem

O rico, o pobre e o mendigo

No ponto da hora H

Insulte um, e verá

O mais feroz inimigo"

Os valores morais aos quais se refere Patativa do Assaré não são fundados sobre os princípios teóricos; são ou simples heranças de gerações anteriores, ou fruto direto de uma experiência vivida. Sua concepção do mundo e sua relação com o outro repousam sobre uma crença que se poderia qualificar de humanista ou de cristã e que corresponde, além disto, à uma realidade cultural nordestina. Assim a abertura de Brosogó, Militão e o Diabo afirma como ponto de partida os valores seguintes:

"O melhor da nossa vida

É paz, amor e união

E em cada semelhante

A gente vê um irmão"

Raymond Cantel já havia, por sua vez, sublinhado largamente as intenções moralistas da literatura popular nordestina: "Os sentimentos tradicionais, a família e o amor do próximo são celebrados, mas trata-se, antes de tudo, de ensinar ao sertanejo, sempre distraindo-o, que se ele não souber resistir aos impulsos de seu temperamento, ele terá de suportar as conseqüências". Patativa do Assaré explica a origem de certas composições por estas mesmas razões: melhor que punir um de seus netos desobedientes ou um menino da vizinhança que lhe havia enganado para melhor roubá-lo, ele optou por recorrer à poesia, com o duplo objetivo de expor publicamente aquele que cometeu uma falta (punição que ele julga mais eficaz do que um acerto de contas cara a cara) e ensinando-o, ao mesmo tempo, o perdão e a boa conduta (Incelência das Cuinhas). Esta atitude de sabedoria popular constitui um ensinamento moral prático que toma suas referências no quotidiano. Em "La Littérature Populaire Brésilienne", 1993, Poitiers, p.16, Cantel afirma "A literatura popular existe em outros países, mas nenhuma é tão relevante quanto à do Nordeste (...) Aqui, no Nordeste, ela resiste e se transforma cada vez mais".

É assim que Patativa do Assaré preenche sua função de educador tanto junto às crianças consideradas por ele como um elemento fundamental "A criança, para mim, é a maior riqueza do mundo", quanto junto aos seus compatriotas sertanejos: "Ele (o poeta) deve empregar a sua lira em benefício do povo, em favor do bem comum. Ele deve empregar a sua poesia numa política em favor do bem comum, uma política que requer os direitos humanos e defende o direito de cada um". Em um contexto de miséria e analfabetismo largamente propagado, em outros termos, em meio à ausência de estruturas educativas de base, o poeta popular desempenha um papel importante no despertar da consciência cívica e política, Patativa do Assaré afirma sua solidariedade com a luta dos sertanejos pelo reconhecimento de seus direitos e com a reivindicação de uma reforma agrária que lhe permitiria ter um nível de vida mais digno: "A temática social que domina sua poesia está assentada em aspirações universais de justiça e igualdade, sem qualquer refinamento ideológico".

Agricultor, ele denuncia a morosidade dos políticos que jamais tentaram eliminar a seca, flagelo maior do Nordeste, que é a origem das constantes migrações de sertanejos: "A seca pertence ao império da natureza, mas pode ser resolvida pelo homem. Em países de clima igual ou pior que o nosso, o problema de abastecimento de água foi superado. A diferença aqui é que os donos do poder não se interessam pela solução. "Eles vivem do problema", declara Patativa do Assaré. Na coletânea Cante lá que eu canto cá, ele confere uma posição preponderante à questão da terra e numerosos poemas evocam esta realidade dramática: O poeta da roça, Eu e o sertão, E coisa do meu sertão, Vida sertaneja, Caboclo roceiro, Cabocla da minha terra, No terreiro da choupana, A terra é natural, O retrato do sertão, Serra de Santana, Minha Serra, Coisas do meu sertão, ABC do Nordeste flagelado. O poeta, com efeito, ergue não somente uma atestação amarga da realidade quotidiana,

"Minha vida é uma guerra

E duro o meu sofrimento

Sem tê um parmo de terra:

Eu não sei como sustento

A minha grande famia…"

(Terreiro da Choupana)

mas, reivindica a necessidade de uma reforma agrária:

"A bem do nosso progresso

Quero o apoio do congresso

Sobre uma Reforma Agrária

Que venha por sua vez

Libertar o camponês

Da situação precária"

(Eu quero)

Defendendo, assim, a principal reivindicação dos habitantes do sertão, ele torna-se verdadeiramente a voz do Nordeste e o símbolo de um processo de reconhecimento dos direitos elementares: "Em todas as grandes lutas sociais e políticas do Ceará, Patativa disse: presente ". Este comprometimento, faz com que um certo número de poemas como Triste partida, Lição do Pinto, Vaca Estrela e Boi Fubá tenham se tornado emblemas do povo nordestino, atestando a importância do sucesso que ele alcançou junto aos sertanejos.

Com efeito, Patativa do Assaré passou de uma poesia sentimental e lírica para uma poesia de protesto: "uma poesia que pede reforma agrária, reclama contra o abandono do nordestino, contra o sistema de meação vigente no campo, contra a seca".

VACA ESTRELA E BOI FUBÁ

Seu dotô, me dê licença

Pra minha histora eu contá.

Se hoje eu tou na terra estranha

E é bem triste o meu pená,

Mas já fui muito feliz

Vivendo no meu lugá.

Eu tinha cavalo bom,

Gostava de campeá

E todo dia aboiava

Na portêra do currá.

Ê ê ê ê Vaca Estrela,

Ô ô ô ô Boi fubá.

Eu sou fio do Nordeste,

Não nego o meu naturá

Mas uma seca medonha

Me tanjeu de lá pra cá.

Lá eu tinha meu gadinho

Não é bom nem maginá,

Minha bela Vaca Estrela

E o meu lindo Boi Fubá,

Quando era de tardezinha

Eu começava a aboiá.

Ê ê ê ê Vaca Estrela,

Ô ô ô ô Boi fubá.

Aquela seca medonha

Fez tudo se trapaiá;

Não nasceu capim no campo

Para o gado sustentá,

O sertão esturricou,

Fez os açude secá,

Morreu minha Vaca Estrela,

Se acabou meu Boi Fubá,

Perdi tudo quanto tinha

Nunca mais pude aboiá.

Ê ê ê ê Vaca Estrela,

Ô ô ô ô Boi fubá.

E hoje, nas terras do Sú,

Longe do torrão natá,

Quando vejo em minha frente

Uma boiada passá,

As água corre dos óio,

Começo logo a chorá,

Me lembro da Vaca Estrela,

Me lembro do Boi Fubá;

Com sodade do Nordeste

Dá vontade de aboiá.

Ê ê ê ê Vaca Estrela,

Ô ô ô ô Boi fubá.


PATATIVA DO ASSARÉ, UMA IDENTIDADE SERTANEJA

É verdade que não somente a língua, os personagens e o quotidiano descrito pertencem ao mundo rural sertanejo que viu nascer e viver Patativa do Assaré, mas também as aspirações sociais, as reivindicações políticas e econômicas. O combate que ele conduz é aquele do "caboclo roceiro, do camponês sertanejo, da classe matuta". Com efeito, o elemento mais tocante da identidade sertaneja é esta evocação constante de uma vida extremamente difícil, de uma terra particularmente hostil, de um universo encerrado sobre si mesmo. Patativa do Assaré testemunha de forma direta:

Cá no sertão eu infrento

A fome, a dô e a misera.

P’ra sê poeta divera

Precisa tê sofrimento…"

(Cante lá que eu canto cá),

ou ainda:

"Pois aqui vive o matuto

De ferramento na mão.

A sua comida é sempre

Mio, farinha e fejão"

(Coisas do meu sertão)

Por outro lado, as numerosas expressões colhidas por Plácido Cidade Nuvens em seu estudo intitulado O Universo fascinante do sertão, fazendo referência a um quotidiano brutal, massacrante, absurdo, asfixiante, traduzem esta luta constante do sertanejo: "vida apertada, lida pesada, sina tirana, grande labutação, vida de cativo, correr estreito, tormento do triste agregado, vida mesquinha, rojão seguro, gaio duro, situação crua, quebradeira, horrível peleja, aperreio, grande canseira, meu cativeiro, constante lida, batalha danada, verdadeiro inverno, situação mesquinha". Todas estas denominações refletem o abandono, o isolamento, a extrema penúria. Manifestam a tenacidade, a obstinação, a resistência do sertanejo. A coragem, a paciência, a resistência à fadiga aparecem como atributos fundamentais dos sertanejos. A poesia cabocla, feita de suor, de fome e de fatiga, e nascida desta miséria, reivindica sua diferença face a poesia de salão:

"Meu verso rastêro, singelo e sem graça,

Não entra na praça, no rico salão,

Meu verso só entra no campo e na roça

Nas pobre paioça, da serra ao sertão"

(O poeta da roça).

Uma das figuras recorrentes desta afirmação de identidade é a oposição: o sertanejo se determina essencialmente pela diferença. O poema inaugural de sua obra escrita, "Ao leitô", avisa ao leitor que ele vai descobrir uma poesia marcada pela deficiência; a ladainha das negações e das restrições sublinha estilisticamente esta confissão:

"Não vá percurá neste livro singelo

Os cantos mais belo da lira vaidosa,

Nem brio de estrêla, nem moça encantada,

Nem ninho de fada, nem chêro de rosa". (IN, p.15)

Em Cante lá que eu canto cá, o poeta sertanejo salienta, sempre por negações anafóricas, a pobreza que o condena ao duro trabalho da terra:

"Sou matuto sertanejo

Daquele matuto pobre

Que não tem gado nem quêjo,

Nem ôro, prata nem cobre"

(Vida sertaneja)

Igualmente, o sistema de negações parece ser a pedra angular de uma percepção desvalorizada de si. Patativa do Assaré tece, paralelamente a isto, uma rede semântica de conotação negativa. No poema O poeta da roça, ele se apresenta como "cantô de mão grossa, poeta das brenha, não tenho sabença, meu verso rastêro, singelo e sem graça". Em Seu Dotô me conhece?, ele se define como "o mendigo sem sossêgo, desgraçado, aquêle rocero sem camisa e sem dinhêro"(IN, p.69). Em No meu sertão, Patativa do Assaré salienta sua falta de educação "Inducação eu não tenho"(IN, p.75). Em "Aos poetas clássicos", ele recorda sua origem humilde: "Sou um caboclo rocêro, sem letra e sem instrução" (CLCC, p.19). Em "O retrato do sertão", ele recorda que é "poeta de mão calosa, (…) que não conhece cinema, teatro, nem futebol"(CLCC, p.238). Em "Emigrante nordestino no sul do país", ele define seus compatriotas como "vagando constantemente, sem roupa, sem lar, sem pão". Toda descrição, toda desvalorização se faz sempre em referência ao cidadão urbano, ao letrado, ao rico, ao Sul.

Patativa do Assaré propõe uma visão dicotômica do mundo tanto sobre o plano espacial (sertão / cidade; Nordeste / Sul) quanto sobre o plano temporal (passado / presente). Na coletânea Cante lá que eu canto cá, esta oposição espacial anunciada desde o título, se traduz por uma constante recordação das diferenças de identidade. A oposição mundo urbano/mundo rural está construída a partir de diferenças sócio-culturais e do sistema de valores: educação e saber contra analfabetismo e ignorância; dinheiro e bem-estar contra pobreza e sofrimento; hipocrisia e vaidade contra honestidade e modéstia. Patativa do Assaré rejeita o "poeta niversitaro, poeta de cademia de rico vocabularo cheio de mitologia" (Aos poetas clássicos) a quem ele recomenda cantar "a cidade que é sua", porque ele teve inducação, aprendeu munta ciença, mas das coisa do sertão não tem boa esperiênça" (Cante lá que eu canto cá)

. Assim como faz com o ensinamento moral, as tomadas de posição de Patativa do Assaré são fundadas sobre a experiência: aquele que não conheceu o sertão na carne, dele não pode falar; a única legitimidade admissível é a de pertencer a seu povo:

"Na minha pobre linguage

A minha lira servage

Canto que a minha arma sente

E o meu coração incerra,

As coisa de minha terra

E a vida da minha gente’

(Aos poetas clássicos).

Ao dinheiro, ele opõe a felicidade; assim, em "Ser Feliz" ele ressalta que a felicidade "nasceu na simplicidade sem ouro, sem lar nem pão". Opõe os bens materiais à riqueza interior: "Dentro da minha pobreza, eu tinha grande riqueza"(A morte de Nana) e fustiga aqueles que são escravos dos bens materiais em detrimento do respeito aos valores humanos. (A escrava do dinheiro). Com efeito, o sertanejo confere uma importância maior à qualidade das relações humanas: "O que mais estima e qué, é a paz, a honra e o brio, o carinho de seus fio e a bondade da muié"(Vida sertaneja).

Ser Feliz

Que tens, rico poderoso,

Que em vez de um supremo gozo

Tu vives tão desgostoso,

Cabisbaixo e triste assim?

Nessa tristeza absorto,

Com o teu coração morto,

Não acharás um conforto

Nos teus tesouros sem fim?

Se aí por esse ambiente,

Ante o cofre reluzente

Tua pobre alma não sente

Prazer e consolação,

Abandona o teu tesouro,

O brilhante, a prata e o ouro,

E vem consolar teu choro

Nas cabanas do sertão.

Vem matar o teu desejo

Aqui, onde o sertanejo,

Fruindo um prazer sobejo,

Não sente o peso da cruz,

E onde a lua cor de prata,

Linda, majestosa e grata,

Estende por sobre a mata

Sua toalha de luz.

(...)

Ser nobre é ser venturoso,

Não é ser um poderoso,

Ser rico é ter posição.

A doce felicidade

É filha da soledade,

Nasceu na simplicidade

Sem ouro, sem lar, sem pão.

Este olhar sobre o mundo, numa perspectiva espacial, recupera também uma oposição passado/presente; tradição/modernidade. A situação do sertanejo obrigado a abandonar sua terra em função da seca, a ir em direção às cidades do litoral, ou então em direção às cidades do Sul, é uma posição delicada, na medida em que ele passa sem transição de um mundo rural à escala humana a um mundo urbano onde impera o anonimato. O encontro destes dois universos é, não raro, doloroso e acompanhado de um voltar-se para os valores tradicionais. As cidades, o progresso, a técnica são acusados de veicular os piores males da civilização: "Mas a civilização faz coisa que eu acho ruim"(O puxadô de roda). O sul, em particular, é tido como a sede da corrupção: "Nos centros desconhecidos Depressa vê corrompidos Os seus filhos inocentes, Na populosa cidade de tanta imoralidade e costumes diferentes" (Emigrante nordestino no sul do país). Assim, o universo descrito por Patativa do Assaré é percebido como um espelho da realidade. O aspecto quase documental da sua poesia foi salientado por um certo número de críticos, entre os quais Luzanira Rego que afirma que sua obra: " reflete em seus poemas todo o mundo visionário e fantasmagórico do caboclo nordestino, pintando, em ácidas estrofes, a realidade de uma região, onde o homem e a terra se unem pela força do mesmo abandono".

Para sustentar esta afirmação presenteia-nos com o poema: A Triste Partida.


A TRISTE PARTIDA

Setembro passou com oitubro e novembro

Já tamo em dezembro

Meu Deus que é de nós

Assim fala o pobre do seco Nordeste,

Com medo da peste da fome feroz.

A treze do mês ele fez esperiença,

Perdeu sua crença

Na pedra de sá.

Mas nouta esperiença

Com gosto se agarra

Pensando na barra

Do alegre natá.

(...)

Trabaia dois ano, trêis ano e mais ano,

E sempre no prano

De um dia inda vortá.

Mas nunca ele pode, só veve devendo,

E assim vai sofrendo

É sofrê sem pará.

Se arguma nutiça das banda do Norte

Tem ele por sorte

O gosto de uvi

Lhe bate no peito sodade de móio

E águas dos óio

Começa a caí

Do mundo afastado sofrendo desprezo

Ali veve prêso,

Devendo ao patrão.

O tempo rolando, vai dia e vem dia

E aquela famia

Não vorta mais não

Distante da terra tão seca mais boa,

Exposto à garoa

A lama e ao paú

Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,

Vivê como escravo

No Norte ou no Sú.


INTERTEXTUALIDADE ENTRE AS OBRAS DE PATATIVA E "OS SERTÕES" DE EUCLIDES DA CUNHA (1866-1909)

OS SERTÕES têm por tema os personagens e cenários da insurreição de Canudos em 1897, no Nordeste da Bahia. Divide-se em três partes -- "A terra", "O homem", "A luta", ao longo das quais o autor analisa as características geológicas e hidrográficas da região, sua flora, sua fauna e a gente sofrida que fez a história daqueles dias: gente convulsionada pela esperança messiânica e pelo desespero social, capaz de resistir até os últimos frangalhos humanos.

Patativa do Assaré, em suas poesias, também retrata o povo nordestino e suas agruras, retrata com extrema retidão as situações e coisas de sua terra, ou seja, retrata a realidade do homem e na terra.

"O SERTANEJO"

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente acurvada, num manifestar de displicência, que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo -- cai, é o termo -- de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável. É o homem permanentemente fatigado.

Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene em tudo: na palavra demorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à mobilidade e à quietude.

Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendente do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas.

O homem transfigura-se. Impertiga-se estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu achamboado, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento inesperado de força e agilidade extraordinárias"...

POESIA DE PATATIVA DE ASSARÉ.

CABOCLA DE MINHA TERRA.

Quem me dera sê poeta

Da mais rica inspiração

Prá na linguage correta

Fazê do choro canção

Fazê riso do gemido

Ah! Se os ispiritu sabido

De Catulo e Juvená

Falasse por minha boca

Pru modi cantá cabôca

Da minha terra natá.

Dessa terra de gulora

Meu quirido Ceará

Que é conhecido na históra

Por terra dos Alencá

Terra dos indios valente

E que mataro muita gente

De flecha e também de pau

E terra aonde premero

O povo do cativêro

Se livrô dos bacaiau.

A sua pobre cabôca

È bela, forte e gentil

Porém minha idéia é pôca

Prá eu dizê tudo aqui

Tem ela o corpo composto

Também a marca no rosto

Do quente sol do sertão

E tem a cabeça chata

De tanto carregá lata

Com água do cacimbão.

Ela não anda decente

Nem pissui inducação

Pois veve constantemente

De alpragata e pe´ no chão

Não tem de letra ricurso

Não sabe fazê discurso

Não sabe lê nem contá

(...)

É simples muito singela

Porém tem grande valor

Quem veve pertinho dela

Tem um anjo protetô

Ela não tem pele fina

Como as donzela grã-fina

Que tivero inducação

Nem tem dedo despontado

O seu dedo é achatado

De enchada e de pilão.

Mas porém a gente nota

Nela um jeito não sei quê

Com rizinho ela bota

Qualquer rapaz prá corrê

É boa magra e bonita

E quando o amor palpita

Querendo arranjar xodó

Tem cabôca teu feitiço

Não precisa de artifíço

Não bota ruge nem pó.

Pensando no casamento

Veve cheia de prazê

O bêjo do atrevimento

Não gosta de recebê

Não gosta de certas graça

E muitas veiz até passa

Deiz ano sem namorá

Esperando o noivo amado

Que saiu do seu estado

Prás banda do Paraná.

(...)

Muita prova tu tem dado

Da mais disposta muié

Eu que vivo do teu lado

Tô vendo e sei quem tu é

Bela forte muito boa

Mas te peço me perdoa

Eu não te posso cantá

Pru que não sô potregido

Pelos espirito sabido

De Catulo e Juvená.


INTERTEXTUALIDADE ENTRE PATATIVA DO ASSARÉ E "A CANÇÃO DO EXÍLIO" DE GONÇALVES DIAS 1823-1864.

Encontramos na obra de Patativa do Assaré alguns traços que nos remete "a canção do exílio" de Gonçalves Dias.

Na Poesia "Lamento Nordestino" o poeta apresenta-se muito aborrecido por estar longe de sua terra e saudoso por querer reencontrá-la. Apresenta as mesmas figuras de Gonçalves Dias (sabiá), as árvores (palmeiras) em Gonçalves Dias e cajueiro em Patativa, além de toda a igualdade do contexto, ou seja, suplica para voltar à terra natal devido o descontentamento com o desterro.


CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem Palmeiras,

Onde canta o Sabiá,

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá,

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar – sozinho, à noite –

Mais prazer encontro eu lá,

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá,

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o sabiá.


POESIA DE PATATIVA

LAMENTO NORDESTINO

Eu sou sertanejo das terras do Norte,

Mas a negra sorte me faz arribar.

Hoje vivo ausente,

Sem ver minha gente,

O meu sol ardente

E o meu branco luar.

Ai quem dera voltar

Ai quem dera voltar

Ao meu lar!

Oh! Terra querida da minha amizade,

A dor da saudade me faz soluçar.

Há tempo não vejo

O São João sertanejo

Com o seu festejo

De fogo do ar.

Ai quem dera voltar

Ai quem dera voltar

Ao meu lar!

Pra ver o meu casebre

de pilha de côco,

Tapando a reboco que eu deixei lá

E ouvir no terreiro

Sobre o cajuzeiro

Cantar prazenteiro

O meu sabiá.

Ai quem dera voltar

Ai quem dera voltar

Ao meu lar!

Santa Aparecida, Rainha Celeste,

Me leva ao Nordeste, que eu quero escutar

A vaca mugindo,

Chocalho tinido,

Cachorro latindo

Vaqueiro aboiar.

Ai quem dera voltar

Ai quem dera voltar

Ao meu lar

 

LITERATURA DE CORDEL

Quando se fala de literatura brasileira ou de qualquer outra, geralmente se aborda a literatura dos "grandes escritores", isto é, daqueles que escrevem "livros difíceis", como diria toda a faixa de público que não tem acesso a tais obras. Extensíssima no Brasil, essa faixa não conhece a literatura "tradicional", a literatura oficial.

Mas não é preciso ter tido acesso à cartilha para gostar de contar e ouvir histórias... Em todo o mundo, desde tempos imemoriais, à grande tradição, da literatura escrita correspondeu sempre, em todas as culturas, a pequena tradição oral de contar. Às vezes, porém, o contador pegava lápis e papel e se punha a escrever ou a ditar o que já estava havia tempo em sua memória, ou o que de novo inventava, ampliando um pouco o seu público.

Quando surgiram as máquinas impressoras, a divulgação dessas obras de pequena tradição literária estendeu-se a um número maior de leitores: algumas eram escritas em prosa; a maioria, porém, aparecia em verso, pois era mais fácil, a um público analfabeto, decorar versos e mais versos, lidos por alguém.

Esta foi a trajetória daquilo que se chamou, na França, literatura de colportage (mascate); na Inglaterra, chapbook ou balada; na Espanha, pliego suelto; em Portugal, literatura de cordel ou folhas volantes.

No Brasil, e também na América espanhola, a mesma trajetória foi seguida. Também aqui se conta e se canta, em prosa e verso. Há, em todo o país, uma longa tradição e a presença sempre atuante de cantorias, improvisos e desafios: os poetas populares dizem, em versos, suas mágoas, alegrias, esperanças e desesperos do dia-a-dia.

Esta atividade literária adquiriu características próprias no Nordeste brasileiro, muito provavelmente pelas condições da região, que fazem dela, até hoje, um foco especialmente rico em manifestações culturais populares. Reintroduzindo a denominação portuguesa, os estudiosos chamaram essa literatura popular em versos de literatura de cordel.

Mas, seus produtores e consumidores nordestinos chamam-na simplesmente de folhetos. O público apreciador dessa literatura é geralmente constituído pelas camadas humildes da população rural ou urbana; mas há também leitores de classes mais elevadas que a admiram. E já foram comprovados casos de pessoas que aprenderam a ler e a escrever com os folhetos de cordel.

O folheto é um livrinho geralmente impresso em papel-jornal, com número variado de páginas, sempre múltiplas de quatro. O número de páginas prende-se, em geral, ao conteúdo: 8, 16, 32, 48 páginas.

Os folhetos noticiosos, isto é, os que contam fatos acontecidos, são os menores. Os romances, que narram uma história de ficção, vão de 16 a 64 páginas. Por intermédio de revendedores e editores espalhados em pontos estratégicos, os folhetos de cordel foram acompanhando as andanças dos seus autores, os migrantes nordestinos. Daí sua ampla área de divulgação: Amazonas, Rondônia, Brasília (para onde foram levados pelos candangos, pelos trabalhadores da construção civil) e em quase todo o Brasil.

Em todas as localidades, os folhetos de cordel eram comercializados nas feiras, nas portas das igrejas, nas estações, em bancas fixas ou espalhadas pelo chão, "a cavalo" num barbante, ou amontoados em cima de um caixote.

O comprador, que em geral nem sabe ler, vai chegando, hesita, manuseia o livrinho. Mas, para saber se o livro lhe agrada, é preciso ouvi-lo. Por isso, forma uma roda com outras pessoas em torno do vendedor, o qual lê a história, com habilidade de todo camelô de feira. E a leitura, feita em tom declamado (às vezes com auxílio de um amplificador), é interrompida nos momentos emocionantes, para dar tempo ao público de exprimir seus sentimentos, sua curiosidade, sua indignação. Assim, o camelô faz seu público rir ou chorar, retomando a leitura em tom sempre crescente, até o momento de maior suspense, quando a interrompe outra vez: "O valente vai conseguir vencer o fazendeiro?" "O mocinho vai conquistar a princesa?" "Quem quiser saber é só comprar o folheto..." Começa então a vendagem. E, pouco depois, volta a se formar a roda em torno do folheteiro, que começa a ler outro folheto... e assim por diante.


CAPAS E CONTRACAPAS DOS FOLHETOS

Costuma-se associar o folheto à ilustração em xilografia que aparece em sua capa. Mas estas ilustrações são relativamente recentes. De início, o folheto apresentava na capa apenas a indicação da autoria, o título e um ou outro ornamento tipográfica. Na contracapa vinha o endereço do autor, que quase sempre era também o vendedor de seus folhetos.

Atribui-se a João Martins de Athayde a introdução de ilustrações na capa, como um modo de chamar a atenção do comprador. Assim, surgiram os clichês de artistas de cinema ou de cartões postais, poses de namorados para histórias de amor, ilustrações de filmes de mocinho para folhetos que narrassem valentia.

Depois, a xilografia passou a constituir-se numa gravura, feita num taco de madeira (imburana), que podia ilustrar diversos folhetos de temas análogos. Entre os xilógrafos atuais destacam-se os seguintes nomes: J. Borges ( Bezerros, Pernambuco); Dila (Caruaru, Pernambuco); Stênio (Juazeiro); J. Barros (atualmente em São Paulo).

As capas coloridas são as preferidas do público que compra os folhetos. As contracapas são também muito importante no folheto, pois constituem uma útil fonte de informações. Podem trazer nome, endereço e até foto do autor e também conselhos patrióticos, avisos diversos, propagandas de horóscopos e almanaques, quando não de casas comerciais e remédios.

Exemplos:

FOLHETERIA BORGES

De José F. Borges

Av. Capitão Eulino Mendonça, 193

Bezerros – PE

ATENÇÃO!

J. BORGES aceita pedidos para qualquer

parte do mundo. Entrega imediata de folhetos e

cópias de xilogravuras em vários tamanhos.

ATENÇÃO PREZADOS LEITORES!

É com carinho e extrema devoção

que resolvi trazer a todos vocês uma

nova série, de novos livros, versados

carinhosamente com assuntos novos

e diversos, como também atualizados

na nova fonética. A partir de hoje

estarei com vocês, vivendo os dramas

apaixonantes, dos mais variados

personagens, sejam lendários ou

naturais.

Cujos livros são escritos dentro do

conceito de Literatura de Cordel,

antes Poesia Popular.

Onde quer que vocês estejam, eu

lá estarei, levando a minha mensagem

poética. Seja no campo, nas feiras,

no passeio ou no descanso.

Pois o Cordel traz as alegrias que

vocês tanto merecem. O Cordel hoje,

mais enriquecido no seu vocabulário,

é o melhor passatempo, pois além de

melhorado, é apoiado pelas autoridades

a ponto de já haver chegado ao critério das Universidades.

Do poeta amigo

João José da Silva


AUTORES DE CORDEL

" SOU CANTADOR: CANTO A VIDA, A MORTE, EU CANTO O AMOR"

É importante distinguir, entre os poetas populares nordestinos, aqueles que se dedicam à cantoria, ou cantadores daqueles que escrevem histórias em poesia. Cantadores são os poetas populares que perambulam pelos sertões ou engenhos, cantando versos próprios ou às vezes alheios. Os melhores não temem o desafio, peleja intelectual em que, perante auditório numeroso, são postos em evidencia os dotes de improvisação de dois ou mais artistas. Já o poeta que escreve histórias em verso não costuma ser repentista e pode ser chamado de poeta de bancada.

Temos três tipos de poetas populares segundo o modo de produção do poema. Primeiramente há o poeta das áreas rurais, este divide seu tempo entre a poesia e a agricultura, geralmente são analfabetos ou semi-alfabetizados e ditam suas obras. Recorrem a gráficas alheias e vendem eles próprios seus folhetos pelas cercanias em épocas de trabalho reduzido no campo. È comum encontrar em seus versos assuntos locais como enchentes, eclipses, acidentes, bem como temas religiosos e moralizadores.

O segundo tipo é o poeta-editor-artesão, ou seja, o que possui prelos manuais, estabelecidos em pequenas cidades. Editam poemas seus e de outros, bem como orações, benditos e horóscopos. Quando a produção é pequena, eles mesmos a vendem em suas tendas ou feiras. Costumam freqüentar centros maiores para comprar material tipográfico, alargando, por conseguinte, sua visão de mundo.

Finalmente, há o poeta que se fixam em centros urbanos maiores no Nordeste, Rio de Janeiro ou São Paulo.

Quando o poeta migra para o sul, continua a desenvolver certos temas antigos, mas inventam também histórias novas de acordo com o sistema em que estão inseridos. Os temas rurais são tratados com muita nostalgia, como é o caso da canção sertaneja. Aceitam encomendas para temas publicitários ou de propaganda política.

Todos vivem em condições modestas, da exclusiva venda de folhetos seus e de outros autores. E, curiosamente, todos eles têm a consciência de seu papel de porta-voz de uma comunidade, quer no descrever, quer no interpretar um evento e, também do seu papel de poeta, graças à sua capacidade de fabulação e inspiração.


PIONEIROS DA POESIA DE CORDEL:

SILVIANO PIRAUÁ E LEANDRO GOMES DE BARROS

Silviano Pirauá de Lima (1848-1913) é considerado um gênio no seu mundo cultural. Introduziu várias inovações na cantoria, no tempo em que esta ainda seguia a linha tradicional da quadra (quatro versos ou quatro linhas), sentiu necessidade de expandir as idéias e introduziu a sextilha ( seis versos) e a obrigação do adversário compor o primeiro verso resposta rimando com o último deixado pelo contendor. Contribuiu assim para a explosão de cantoria que ocorreu na região do Teixeira, tornada o centro sertanejo da poesia popular. Atribuí-se a Pirauá a idéia de rimar as histórias tradicionais, que vêm sendo reeditadas e consumidas pelos nordestinos há cerca de setenta anos.

Do rimar a história e imprimi-la havia um outro passo, e este foi dado por Leandro Gomes de Barros.

Leandro Gomes de Barros (1865-1918) soube aliar sua vivência de poesia vinda da mocidade( viveu no Teixeira até os quinze anos), a um fato técnico novo: a multiplicação de tipografias no Nordeste em fins do século XIX que, embora destinadas a impressão de jornais, dispunham de tempos livres para a impressão de outros textos.

Leandro começou a escrever folhetos em 1889 e seus primeiros impressos datam de 1893. Ele comercializava seus folhetos em Recife, no Mercado São José, nos botequins perto do largo da estação, nos trens ou em sua própria casa, vendia os folhetos que ele mesmo escrevia e que ele mesmo imprimia.


CONCLUSÃO

Patativa do Assaré, cantor das "coisas rudes e belas do sertão", tornou-se o mais fiel cronista popular do Nordeste, improvisando sobre o tema da miséria e da injustiça social.

Exemplo é esse trecho de sua cantoria Reforma agrária: "Se a terra foi Deus quem fez / Se é obra da criação / Deve cada camponês / Ter seu pedaço de chão."

O Poeta Patativa do Assaré se enquadra num movimento ultra-moderno, com visões realistas, utilizando-se de símbolos e, em muitas vezes beirando o trovadorismo medieval, expressos na oralidade de suas poesias que tão bem retrata a vida do homem na terra, bem como a luta deste homem. Prendê-lo a um único movimento literário seria difícil e até "perigoso", pois Patativa transita livremente por todos eles. Encontramos traços românticos em vários sonetos, poesia épica aos montes, poesias concretas e, muitos outros tipos encontrados em diferentes escolas literárias. Em sua maioria contendo um apelo social fortíssimo, visto que suas poesias são de denúncia.

Denúncia do sofrimento do povo nordestino, das mazelas, dificuldades e de todos os tipos de injustiças a que estão expostos.

Suas poesias são compostas de uma musicalidade e uma perfeição métrica que aliadas à uma excelente descrição dos temas abordados, nos coloca diante destes fatos como se estivéssemos inseridos em seu contexto. Faz uso de uma linguagem simples, porém riquíssima e, com poder e força suficientes para incomodar e desmascarar os responsáveis pela "indústria da seca e da miséria" e suas terríveis conseqüências.

Nas obras do autor, encontra-se a realidade nua e crua do povo do sertão. Patativa do Assaré expõe a todos, aquilo que todo mundo sabe, conhece e vê, mas, que, fingem desconhecer, por comodidade, por omissão ou por não sentir que o problema também é seu.

Com isso, podemos concluir que, em toda a obra do autor não ocorre o princípio de mímese ( imitação da realidade ), pois não encontramos imitação de nada e sim a mostra de um panorama cruel e de uma situação lamentavelmente penosa e inacreditavelmente real.

O compositor e músico Zé Ramalho disse:

"Patativa do Assaré é um diamante belo e bruto da poesia nordestina. Simples e profundo, carregado de natureza e atitudes humanas, expressa sua força em versos que, como um turbilhão, derrama-se em palavras que se assentam na alma do povo do sertão e dos solo nordestino".

O que se pode concluir das utopias em Patativa (ou de Patativa) é que ele não renega o sonho, mas trabalha numa interferência do real que necessita de uma transformação, em todos os níveis.

Sua utopia não abre as porta para uma dimensão que não seja a humana, vivenciada em toda sua dramaticidade. O que ele pleiteia é a importância da participação, é a ruptura com o imobilismo e a instauração de uma nova ordem. Isso fica bem claro pela leitura de seus poemas.

Neste sentido, solidariedade, paraíso, abundância e justiça constituiriam as ferramentas básicas de construção desse novo quadro ou as premissas de um novo contrato social.

É possível encontrar em seus poemas eco de um medievo que está sempre próximo do Nordeste (e não apenas no Armorial), de um tardo-romantismo e de um socialismo cristão que encontra na ilha mágica de Thomas Morus, a contundência da denúncia, a lógica da argumentação e o sentido de utopia enquanto sonho que se constrói a partir de muitas mãos, de muitas vozes e de múltiplos sentidos.


BIBLIOGRAFIA

ÂNGELO, Assis. O poeta do povo. Vida e Obra de Patativa do Assaré. São Paulo: ed. CPC UMES, 1999.

ÂNGELO, Assis. O Coronel e a Borboleta e outras histórias nordestinas. São Paulo: ed. Stúdio F, 1992.

ASSARÉ, Patativa do. Inspiração Nordestina. Ceará: Fundação Patativa do Assaré, 1999.

AUTORES de Cordel. Seleção de textos e estudo crítico. Literatura comentada. São Paulo: Abril educação, 1980.

CASCUDO, Luís Câmara. Vaqueiros e Cantadores: Folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

CORDEL, literatura de. Os melhores do 01º concurso de cordel 2002.organizado pela Cia. Do Metropolitano de São Paulo – Metrô e Companhia de Trens Metroplitanos – CPTM.

CULT, Revista brasileira de literatura. Nº 54, pgs. 4- 13

NICOLA, José de. Literatura Brasileira das origens aos nossos dias. São Paulo: ed. Scipione, 08ªed, 1988.


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