O Que Pensam os Professores Sobre a Alfabetização na Perspectiva do Letramento
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O Que Pensam os Professores sobre a Alfabetização na Perspectiva do Letramento


Introdução

Somos professoras alfabetizadoras já algum tempo, lecionamos em várias escolas e com alunos de variadas idades.

Os professores que tivemos enquanto aluna, contribuíram de forma significativa na formação das professoras que somos hoje. Naquela época a concepção de alfabetização era voltada para uma visão mecanicista, e não se ouvia a palavra letramento, nem o uso social da leitura e da escrita. Eram poucas as ocasiões em que os professores partiam de nossas vivências e realidades para a construção de nossos conhecimentos. Refletindo sobre a nossa prática, percebemos que nela existem vestígios dessas vivências: A leitura e a escrita através de cartilhas, treinamento de sílabas e palavras, leituras com personagens vindos de lugares que não existem e muitas outras práticas que me remetem ao meu tempo de alunas.

O trabalho que ora me propomos realizar tem sua origem em observações e questionamentos práticos e teóricos que viemos construindo ao longo de nossa trajetória profissional e da convivência com nossos alunos no cotidiano de sala de aula, e também através de questionamentos e reflexões que viemos construindo desde a entrada no Curso Normal Superior. Tais questionamentos práticos e teóricos nos levaram a perceber uma distinção entre leitura e escrita como codificação e decodificação, em contraponto a seus usos e funções sociais.

Na tentativa de entender essas diferenças, refletimos sobre as seguintes questões:

  • O que é alfabetização?
  • O que é letramento?
  • O que é alfabetizar letrando? Como alfabetizar letrando? E outras.


Capítulo I: Alfabetização e letramento

Este capítulo será baseado no estudo de alguns textos de revistas e informações teóricas sobre o assunto, na tentativa de responder as questões em pauta.

Para responder as questões, procuramos entender o significado do termo alfabetização e letramento, bem como a idéia de alfabetização na perspectiva do letramento. Para tal pesquisamos algumas concepções teóricas e colhemos informações que se destacam no estudo da aquisição da linguagem escrita e da leitura, estudamos suas idéias e destacamos trechos específicos do tema deste estudo.

I.1.O que é alfabetização?

O tema alfabetização, hoje , tem que ser considerado no conjunto de significados que foi assumido, a partir de contribuições de pesquisas e práticas dos últimos vinte anos. Dessa forma, cabe considerar que a alfabetização precisa ser entendida no contexto de problemas históricos, culturais, econômicos e políticos que envolvem a sociedade. Várias são as áreas que contribuem para nos mostrar que a alfabetização é uma questão complexa, tais como os campos da linguagem, da psicologia, da sociologia, da antropologia, da história da educação e da pedagogia, entre outros. Magda Soares (1985), em artigo que se tornou referência, apresenta as múltiplas facetas desse fenômeno.

Alfabetização é um tema instigante e básico para a problemática da instrução e da educação como um todo. Assim, sempre permanece como problema a ser resolvido e, a cada novo problema que surge, tem-se a idéia de ampliar o seu conceito.

As pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky contribuíram muito para nos mostrar que não é a escola que apresenta a escrita para as crianças. Evidenciaram também que, desde que elas estejam envolvidas em usos e funções da escrita e se questionam sobre o seu funcionamento, está ocorrendo uma aprendizagem. Com as novas descobertas sobre a psicogênese da língua escrita, houve uma curvatura em direção à observação prioritária dos processos do aprendiz. No entanto, para que se complete um contrato didático é necessário que tenhamos três vértices de um triângulo: quem aprende, um conteúdo a ser ensinado/aprendido e, finalmente, quem ensina e como ensina.

Em outras palavras, sabe-se que um tipo de conteúdo da alfabetização continua estável: trata-se, em diversos momentos, de ensinar as relações entre letras e sons. No entanto, sabemos que ao planejar as atividades de alfabetização que exploram as questões da decifração, devemos planejar junto um rico contexto de uso da escrita, este quase sempre em transformações.

I.2.O que é letramento?

Aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras , mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.

Paulo Freire

Letramento é o resultado da ação de "letrar-se" é a ação de ensinar e aprender as práticas da leitura e escrita. É o estado ou condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais.

Apropriar-se da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever, significa adquirir uma tecnologia, a de codificar em língua escrita e de decodificar a língua escrita; apropriar-se da escrita é tornar a escrita "própria", ou seja, é assumi-la como sua "propriedade".

O termo letramento surgiu em decorrência do avanço no desenvolvimento social, cultural, econômico e político das sociedades, que trouxe novas práticas de leitura e escrita. A sociedade está se tornando cada vez mais grafocêntrica, cada vez mais centrada na escrita. O índice de analfabetismo tem abaixado consideravelmente, no entanto as pessoas aprendem a ler e a escrever, mas não incorporam tal prática. SOARES (1998), falando sobre a necessidade de saber fazer uso da leitura e da escrita, deixa bem claro que faze-lo não basta apenas saber ler e escrever, é preciso responder às exigências que a sociedade faz. Houve uma mudança na maneira de considerar o significado do acesso à leitura e à escrita. Até os anos 40, esse critério foi baseado na mera aquisição da "tecnologia"do ler e do escrever, ou seja, o indivíduo que sabia apenas escrever seu nome era considerado alfabetizado. No entanto, a partir dos anos 40, o novo critério envolve a capacidade de usar a leitura e a escrita para uma prática social, e alfabetizado é o indivíduo que sabe ler e escrever um bilhete, pelo menos. Na verdade, com isto, o que se está avaliando é o letramento e não o índice de alfabetização.

I.2.1. O Significado atual do termo letramento

A mudança na maneira de considerar o significado do acesso à leitura e à escrita em nosso país – da aquisição de códigos que permitem a leitura e escrita – reflete-se, por exemplo,nos critérios utilizados. Anteriormente a essa concepção, analfabeto era aquele que não sabia escrever o próprio nome (a escrita do nome envolve a capacidade de memorização das letras e a habilidade de codificação); depois dessa concepção, para ser considerado alfabetizado, escrever / grafar o nome apenas não bastava. Analfabeto passou a ser o indivíduo que não era capaz de ler e escrever um bilhete simples (que envolve mais que a codificação, envolve o uso da leitura e da escrita num determinado contexto social). Assim, procura-se evidenciar a busca de um "estado ou condição de quem sabe ler e escrever" (SOARES, 1998), ou seja, evidencia a tentativa de avaliação de letramento e não apenas a presença ou ausência do domínio de códigos da escrita.

Para SOARES (1998) define letramento como

"o resultado da ação de letrar-se, se dermos ao verbo letrar-se o sentido de tornar-se letrado. ...Letramento é o resultado da ação de ensina re aprender as práticas sociais de leitura e escrita; é o estado ou condição que adquire um grupo social ou indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita e de suas práticas sociais." ( p. 38/39)

Significa utilizar a leitura e a escrita de modo diferente da simples ação de ler e escrever com codificação e decodificação; é pois, realmente utilizar-se da leitura e da escrita em suas diferentes funções, no contexto de práticas sociais, fazendo uso de diversos portadores de textos com competência e freqüência. Letramento é o que as pessoas fazem com habilidades de leitura e escrita, em um determinado contexto e que fazem essas habilidades serem úteis no cotidiano. Exemplos de letramento são a capacidade de localização de um endereço no catálogo telefônico, saber fazer leitura e interpretação de gráficos encontrados em revistas e jornais,ser capaz de conseguir escrever recados contendo informações suficientes para o entendimento do destinatário., etc...

I.3. Concepção de alfabetização e letramento:

A língua é um sistema discursivo, que se estrutura no uso e para o uso, escrito e falado, sempre contextualizado. No entanto, a condição básica para o uso escrito da língua que é a apropriação do sistema alfabético, envolve, da parte dos alunos, aprendizados muitos específicos, independentes do contexto de uso, os quais concernem aos componentes do sistema fonológico da língua e às suas inter-relações. Explicando e exemplificando: as relações entre consoantes e vogais, na fala e na escrita, permanecem as mesmas, independentemente do gênero textual em que aparecem e da esfera social em que ele circule; numa piada ou nos autos de um processo jurídico, as consoantes e vogais são as mesmas e se inter-relacionam segundo as mesmas regras.

Algumas questões conhecidas dos professores podem tornar mais acessíveis essas ponderações. A opção pelos princípios do método silábico, por exemplo, contempla alguns aspectos importantes para a apropriação do código escrito, mas supõe uma progressão fixa e previamente definida e reduz o alcance dos conhecimentos lingüísticos, quando subtrai o valor de uso e as funções sociais da escrita. Da mesma forma, os métodos de base fônica, embora focalizando um ponto fundamental para a compreensão do sistema alfabético, que ´a relação entre fonema e grafema, persistem em práticas reducionistas quando valorizam exclusivamente o eixo da codificação e decodificação pela decomposição de elementos que transitam entre fonemas e sinais gráficos. Por sua vez, os métodos analíticos, que orientam a apropriação do código escrito pelo caminho do todo para as partes, apesar de procurarem situar a relação grafema/fonema em unidades de sentido, como palavras, sentenças e textos, tendem a se valer de frases e textos artificialmente curtos e repetitivos, para favorecer a estratégia de memorização, considerada fundamental. Essas três tendências podem ser consideradas perseverantes e coexistentes no atual estado das práticas escolares em alfabetização e da produção de livros e materiais didáticos em geral.

As práticas fundamentais no ideário construtivista, ao longo das últimas décadas, trazem como ponto positivo a introdução ou o resgate de importantes dimensões da aprendizagem significativa e das interações, bem como dos usos sociais da escrita e da leitura, articulados a uma concepção mais ampla do letramento. Mas, mesmo essa teoria tem acarretado outras formas de reducionismo, na medida em que relegam aspectos psicomotores ou grafonemas a um plano secundário, reduzindo-os a restritas noções de prontidão ou de maturação, desprezando o impacto desses aspectos no processo inicial de alfabetização e descuidando de instrumentos e equipamentos imprescindíveis a quem se inicia nas práticas da escrita e da leitura.

Do mesmo modo que as opções pelos métodos silábicos, fônico ou global e as práticas inspiradas no construtivismo, algumas orientações inadequadas fundadas no conceito de letramento valorizam de forma parcial importantes conquistas como o prazer pelo ato de escrever e a inserção nas práticas sociais da leitura e da escrita, mas fragilizam o acesso da criança ao sistema alfabético e às convenções da escrita.

Nesta proposta, entende-se alfabetização como o processo específico e indispensável de apropriação do sistema de escrita, a conquista dos princípios alfabético e ortográfico que possibilita ao aluno ler e escrever com autonomia. Entende-se letramento como o processo de inserção e participação na cultura da escrita. Trata-se de um processo que tem início quando a criança começa a conviver com as diferentes manifestações da escrita na sociedade (placas, rótulos, embalagens comerciais, revistas, etc.) e se prolonga por toda a vida, com a crescente possibilidade de participação nas práticas sociais que envolvem a língua escrita (leitura e redação de contratos, de livros científicos, de obras literárias, por exemplo). Esta proposta considera que alfabetização e letramento são processos diferentes, cada um com suas especialidades, mas complementares e inseparáveis, ambos indispensáveis.


Capítulo II: Alfabetização e letramento: contribuições para a prática pedagógica.

Pretendemos neste capítulo oferecer contribuições para o debate, hoje instaurado nas escolas, que se refere às questões que envolvem alfabetização e letramento. Sem pretensão de retomada histórica e conceitual, buscamos refletir sobre o tema, a partir do que a literatura tem-nos oferecido a respeito, tendo como foco a função da escola e do ensino das práticas discursivas na e para a contemporaneidade.

Do ponto de vista de cultura pedagógica escolar. Diante dos impasses conceituais ou metodológicos, manifesta-se a necessidade de fazer escolhas, em processo que nega e/ou aceita certos pressupostos e metodologias. Nessa esteira a escola tem-se perguntado a respeito do que fazer: alfabetizar ou letrar? Ou outros impasses, tais como: é possível alfabetizar letrando? Se alfabetizo, não letro? Se letro não alfabetizo? Muitos equívocos e mitos vão se construindo em torno desse debate e algumas análises da prática pedagógica nas primeiras aprendizagens apontam que houve preocupação, por parte da escola, em letrar, deixando de lado o alfabetizar. Gostaríamos de discutir esses aspectos, compactuando com o parecer de que, no mínimo, esta constatação possui um equívoco: uma concepção de que letramento se refere a conhecimento, entre eles, dos gêneros textuais que circulam na sociedade, de suas funções e de seus portadores. Trata-se, no entanto, de uma concepção equivocada, (algo compreensível historicamente, na medida que se coloca a questão no interior das relações teoria e prática) pois letramento não é apenas conhecimento, é, acima de tudo, envolvimento, prática, atividade.

Além disso, podemos relacionar essa dicotomia às diferentes concepções de educação e de linguagem que sustentaram as práticas de ensino da linguagem na escola. Por um bom tempo, alfabetização se constituiu em preocupação central dos educadores, no sentido de oferecer as melhores condições para a aquisição do alfabeto – o que levava a uma habilidade de decodificar, de conhecer e articular sons e letras, de ser alfabetizado. Essa perspectiva, somada a uma concepção de linguagem como código ou instrumento, conduziu a uma pedagogia do ensino de linguagem. À escola, como muitos programas testemunham, cabia uma educação em que o que contava era o conhecimento, não como processo, como algo a ser construído, mas transmitido e assimilado.

É preciso, no entanto, situar o nosso momento: educamos no contexto de um novo século, com demandas diferenciadas e que se alteram em um dinamismo irrefreável, fruto das transformações e dos avanços em uma sociedade em constante mudança. Vivemos hoje novas orientações e desafios: à educação não cabe apenas repassar ou transmitir conhecimentos, mas favorecer a formação humana, desenvolvendo as potencialidades dos sujeitos, por meio de uma aprendizagem que conduza os alunos a aprender a pensar e a aprimorar habilidades necessárias ao enfrentamento com o mundo que ora se apresenta. A uma concepção de língua como código, contrapõe-se a de linguagem como interação – a de que os sujeitos praticam ações, produzem efeitos sobre os outros, buscam alcançar intenções. Em especial, destaca-se a concepção de interação social: os sujeitos aprendem a pensar e a estabelecer seus vínculos dentro da sociedade, em comunhão com os outros, o que faz da linguagem uma atividade social, fruto das condições históricas e culturais.

II.1.Em busca de uma conceituação

Segundo SOARES (1998), "letramento, refere-se à condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mas que cultiva e exerce as práticas sociais da escrita". Isto posto, vale ressaltar que alfabetização e letramento são conceitos que se interpenetram, embora, a depender de quem fala e de onde fala, possam produzir significados distintos ou semelhantes. Explicando melhor: uma pessoa pode-se referir à alfabetização como o momento específico de aprendizagem do código, sem, com isso, deixar de se preocupar com letramento. Outra, ao " enunciar" letramento, já apresenta embutida a noção de alfabetização. Na verdade, em relação ao que compete à escola, o letramento inclui alfabetização. Assim, não é uma coisa ou outra, mas uma e outra. SOARES destaca: " não só sabe ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais". Esse "não só" produz alargamentos e considerações significativas: incorpora uma concepção de linguagem como ação e interação entre sujeitos, ou seja, exercemos e cultivamos a linguagem em nossas relações cotidianas. Só pode exercer e cultivar as práticas sociais de escrita o sujeito que vive uma relação com a linguagem e não apenas com a língua. Acrescenta a noção de dinamismo, de movimento: se aprendemos a ler e escrever, precisamos exercitar essas competências no esforço de nos tornar-mos mais humanos. Também permite entender que o desenvolvimento dos sujeitos encontra-se indissociavelmente relacionado à linguagem, aqui assumida como espaço de constitutividade humana. Incorpora ainda mais: o letramento é uma relação, construída social e historicamente, entre sujeitos e mundo, entre sujeitos e linguagem. À medida que exercemos e cultivamos as práticas sociais de escrita, relacionamo-nos com o mundo, com as pessoas, e com a própria linguagem. Homem e linguagem estão sempre no porvir, necessitando de força e de energia criadora para seu processo de constituição. Assim sendo, falar em letramento significa colocar em discussão, na verdade, o que temos feito de nossas vidas, o que temos construído, que identidade estabelecemos. O letramento, enfim, produz ações, o que permite aproximação com o outro e, nesse processo, aprender e reaprender novas relações e novos lugares. E, nessas relações, entender que o outro nos completa, dada a incompletude própria dos seres humanos, é apreender no outro o que nos falta e podermos igualmente nos constituir em fonte de completude do outro.

II.2.Então, o que é letramento?

Trata-se de um paradigma que vai orientar nossas decisões: ensinar a língua, para que os sujeitos a conheçam ou ensinar a língua como linguagem, como uso, como prática.

Segundo SOARES (1998), "trata-se de uma condição, portanto, de um modo de existência. Compete à escola exatamente propiciar essas condições e às sociedade, com um todo, ampliar, enriquecer e estabelecer relações com espaços reais de letramento".

Os sujeitos necessitam aprender diferentes maneiras de ler e de escrever, que correspondem não só aos diferentes objetivos e expectativas dos leitores e dos produtores de texto, mas ao fato de que circulam na sociedade tipos e gêneros textuais diversos. Não se realiza o direito de ler e de escrever sem que os objetos culturais de leitura e de escrita estejam garantidos. Objetos que contemple variação de suportes, (jornais, livros de literatura, livros de informações, revistas diversas, vídeos, documentários) e, que, respeitadas as especificidades lingüísticas e diferentes propostas de interlocução, também contemplem variação de mídias (rádios, internet, televisão).

Um olhar sobre a realidade cultural, em geral e, em especial, um olhar sobre as práticas escolares de leitura e escrita, aponta um certo lado perverso desse processo: estimula-se a prática de ler e de escrever, mas não há preocupação em mobilizar espaços de leitura e de produção textual: bibliotecas e salas de leitura abandonadas; acervo precário; ausência de preparação dos professores para o uso desse espaço; inexistência de projetos que despertem razões para ler e razões para escrever ou, ainda projetos isolados, eventos, sem relação produtiva com os objetos mais amplos de formação de leitores e de produtores de textos.

Temos testemunhado esforços de muitas instituições escolares, privadas e públicas, na luta pela melhoria na formação de sue alunos. Esforços para alterar currículos, para organizar os tempos escolares, para capacitar professores, entre outros. Mas, raramente, verificamos esforços para dinamizar e mobilizar os espaços de ler e escrever como condição humana para mudança. Evidentemente que essas opções são decorrentes do projeto de futuro que queremos para aqueles que formamos, das concepções que temos dos processos de ensino e de aprendizagem e, principalmente, do tipo de homem que desejamos formar. São elas que formatarão o desenho de nossas ações e poderão ou não favorecer a eliminação da exclusão do direito ao poder ler e ao poder escrever.

É indiscutível que o desenvolvimento dos alunos encontra-se relacionado ao nível de letramento que na escola conseguem assegurar, uma vez que construir conhecimento pressupõe ler e produzir textos escritos, em seus diferentes gêneros e tipos, não apenas verbal, mas também não-verbal; não apenas na modalidade escrita, mas, sobretudo na modalidade oral, considerando-se a sociedade de discursos em que nos encontramos inserido. É reconhecer que a escrita, cada vez mais fortalecida em nossa sociedade, permite não só o resgate do conhecimento já selecionado e transmitido historicamente, mas se constitui em ferramenta essencial para o alcance de novas descobertas, permitindo também a elaboração e a sistematização de novos conhecimentos.

Adotando o conceito de letramento como condição e como manifestação humana, negar essa condição é, na verdade, tornar aos sujeitos analfabetos. Conhecer a escrita, mas não saber usa-la, constitui-se hoje em uma forma de exclusão e de abandono, assim como vivem e viveram muitos dos que não dominam ou dominavam o código escrito.


Capítulo III: Inclusão agora? Alfabetização já!

O Ensino Fundamental está produzindo analfabetos...E, no entanto, o paradigma atual é o da inclusão!...

Não se pode ignorar o grave contexto sócio-político-econômico e cultural: o aprofundamento das distâncias econômicas entre diferentes segmentos sociais; o empobrecimento e o encolhimento da classe média; as pífias políticas agrárias promovendo o êxodo rural e o inchaço das grandes metrópoles, contribuindo para níveis crescentes de desemprego e miserabilidade; a crescente e descontrolada violência urbana; a desnutrição infantil; a desestruturação familiar. Tudo isso afeta negativamente o universo da escola, pois ela é um subsistema desse macrossistema.

Nesse universo – o da escola – constata-se a precariedade dos prédios, a escassez de material didático – mormente livros didáticos e de literatura, dicionários, enciclopédias, computadores – e a reduzida jornada de trabalho dos alunos. Não se pode esquecer a situação de nossos professores: ausência de planos de carreira, inexistência de condições de trabalho, salários reduzidos, obrigando-os a tripla jornada de trabalho em diferentes escolas e redes, uma formação deficiente, quando não, a laicidade.

Para completar o quadro das dificuldades, temos de focalizar o aluno da nossa escola pública: seu perfil mudou substancialmente nas últimas décadas. Temos hoje crianças e adolescentes oriundos, em grande parte, de famílias cujos pais não freqüentaram a escola e por isso não sabem enfatizar a importância da educação; crianças e adolescentes que são vítimas da violência, que se deixam seduzir pelo tráfico de drogas que lhes acena com dinheiro fácil; crianças e adolescentes cujos valores estão muito distanciados dos valores que a escola, supostamente, deveria trabalhar; crianças e adolescentes precocemente despertados para o sexo, bebidas e outras drogas; crianças e adolescentes violentados pela violência, mas fazendo uso dela.

No âmbito macro, pouco ou nada, nós, educadores, podemos fazer. Resta-nos o espaço da escola e da sala de aula e as perguntas óbvias: o que se pode fazer por essa clientela? Em que momento a escola perdeu o controle da aprendizagem de seus alunos, tornando-se incapaz de desenvolver-lhes competências mínimas, fundamentais, indispensáveis ao pleno exercício da cidadania numa sociedade letrada, entre elas, a mais fundamental: a capacidade de LER?

III. 1. Mas o que está em jogo quando se assume o letramento:

Em primeiro lugar, uma escola que assume uma proposta para o letramento precisa alterar as relações não só com o que acontece na sala de aula, mas com todo o seu entorno. Oferecer práticas de leitura e de escrita em que os sujeitos encontrem razões para ler e escrever. Assim, não se refere apenas ao uso eventual dessas práticas, mas a algo que se incorpora ao cotidiano dos alunos e que não se esgota no espaço escolar nem nos limites da sala de aula.

Em segundo lugar, a escola precisa encontrar teorias sobre leitura e escrita, aportes para um referencial metodológico que oriente o desenvolvimento das habilidades necessárias ao letramento, ou melhor, das habilidades cognitivas que se encontram envolvidas nesse processo. Precisa responder e oferecer condições de atender a seguinte questão: que usos efetivos, reais e concretos os sujeitos precisarão dominar para a experiência plena de letramento?

Este é um dos desafios: uma escola que sempre se preocupou em mandar ler e escrever, precisa agora ensinar a ler e a escrever.

Deve, do mesmo modo, possibilitar que os professores e demais profissionais da educação envolvidos na formação dos alunos desenvolvam, eles mesmos, os saberes, habilidades e as competências que almejam desenvolver nos alunos. O professor necessita ampliar o conhecimento teórico a respeito da leitura e da escrita; precisa saber ensinar, isto é, capacitar-se para um saber didático capaz de mobilizar, nos seus alunos, o desejo de ler e de escrever.

Desse modo, o letramento exige, para além do ensinar a ler, que a escola testemunhe e viva, ela mesma, essa condição: uma escola que sempre se preocupou em mandar ler, precisa agora não só ensinar a ler, mas a ler; não só ensinar a escrever, mas, de fato, escrever.


Considerações finais:

Nosso diálogo, neste momento, se encerra aqui, dadas as condições de produção, mas não se finda. É preciso que essas concepções sejam debatidas entre gestores, professores, alunos e comunidade em geral.

Com efeito, letrar para a completude do sujeito requer esforços e investimentos em todos os níveis, pois, para nós, o sujeito torna-se completo quando tem o direito de ocupar o seu lugar, não só no espaço econômico, como também social, no político e no cultural. Assim, esse sujeito completo será resultado da democracia, fruto da justiça e da dignidade humana. Ou seja, preparar para o letramento não significa um acréscimo, um adendo às necessidades do educando, mas uma mudança no modo de olhar e conduzir a educação, ou seja, dar a todos a experiência de ler e de escrever, como sujeitos que vivenciam a liberdade e a justiça. Permitir igualmente relações éticas, em que o sujeito entenda o uso e a prática dos conhecimentos e das habilidades lingüísticas, para respeitar a vida. Sob o signo absoluto de respeito à vida é que os sujeitos se completam, fazendo do mundo lido e do mundo escrito um alicerce para uma vida melhor. Não falamos aqui de uma ética que conduz ao imobilismo, à aceitação passiva do que rodeia o homem, mas de uma ética criativa, capaz de mobilizar nos sujeitos sua bondade; de acreditar nas suas potencialidades; de fazer valer os seus direitos e deveres, como os direitos e deveres dos outros; é exercitar a cidadania. Acreditamos que esse papel da escola: o de oferecer condições reais de letramento – o que confere a cada escola e a cada profissional da educação o privilégio que poucos têm: o de preparar e formar sujeitos e não objetos, seres pensantes e não robotizados, na indiscutível compreensão de que não existimos em vão. Pertencemos todos à humanidade e precisamos deixar nossas marcas para os que vierem a nos suceder. Em conclusão, destacamos que letramento não é modismo, é uma necessidade:

Segundo LEAL (2003):

ainda somos um país de silenciados ou de pessoas que, mesmo lendo ou escrevendo, são anlfabetas em realçao às sua expectativas de vida, de seu bairro, de seu estado, de seu país. Aprender a ler e a escrever para sair da ignorância humana, para saber reivindicar e acreditar, saber fazer e cooperar, paritlhar e viver esperanças. ( p. 126).

A matriz do letramento não se constitui em elemento que redime e faz da escola o espaço de transformação social, mas, sem dúvida, nos oferece caminhos e nos aponta novas direções, novas opções, relacionadas aos sonhos e aos desejos de quem acredita e luta por uma educação que contemple a dignidade humana como eixo construtor de sua própria ação.


Bibliografia:

MINAS GERAIS. Secretaria de Estado da Educação. Caderno do professor: Alfabetização. Belo Horizonte. 2003. nº 11.

MINAS GERAIS. Secretaria de Estado da Educação. Dicionário do professor: avaliação. Belo Horizonte. 2002.

LEAL, Leiva de Figueiredo Viana. Leitura e escrita: exercício para a cidadania. AEC. Rio de Janeiro, n.126. jan/mar.2003.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.