O Que é Linguística?
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RESUMO DE "O QUE É LINGUÍSTICA" DE ENI ORLANDI

São Paulo – 2004


O objetivo deste trabalho é a síntese de idéias apresentadas pela Eni Orlandi no seu livro "O que é a Lingüística".

O homem tem fascínio pelo domínio do mundo em que vive. Uma das ferramentas usadas para o exercício desse poder é o conhecimento e isso justifica a procura incessante por explicações para tudo o que existe. A linguagem é um desses enigmas e, sendo algo próprio do homem e necessário à sua interação com os outros seres humanos, tornou-se objeto de curiosidade desde muito cedo. Foram encontrados registros da atenção dada à linguagem em diferentes épocas: na Grécia antiga pelos seus pensadores, na Idade Média pelos Modistae e no século XIX pelos hindus. Porém, só no começo do século XX se cria a ciência que explica ou descreve a linguagem verbal humana. Esta ciência foi batizada com o nome de Lingüística.

O estudo da linguagem está, num primeiro momento, vinculado ao estudo da gramática. No entanto a Lingüística difere da gramática tradicional. A primeira descreve, explica e reflete tudo o que faz parte da língua verbal. A matéria prima da Lingüística é a fala. Já a gramática regula, normatiza, categoriza o certo e errado e seu campo de atuação é a escrita. Na formação da Lingüística destacam-se dois períodos determinantes. O primeiro passa-se no século XVII onde os estudos se baseiam em teorias lógicas e racionais, separam o que é certo do errado e buscam a perfeição. O seu foco é a procura por uma língua universal que seja o veículo de comunicação para a espécie humana. O resultado destes princípios são as gramáticas gerais. Um importante contributo dado por estas gramáticas à Lingüística é o estabelecimento de uma visão globalizada da linguagem sem se prender às especificidades de uma determinada língua. Já no século XIX o que prende a atenção dos estudos é a transformação das línguas com o tempo. O foco deixa de ser a exatidão e passa a ser as mudanças. Pretende-se demonstrar que estas mudanças são alheias à vontade humana, que a própria língua precisa dessa evolução e que esse processo não se dá aleatoriamente. O alvo passa a ser a origem, a língua mãe. Comparam-se línguas, encontram-se semelhanças e estabelecem-se correspondências. Temos então as gramáticas comparadas. Estas gramáticas deixaram muito claro para a Lingüística que existem mudanças regulares e que esse fato não é um caos como até então se imaginava. Mas existe outro dado importante deixado pelo estudo das regularidades que são as leis fonéticas. Os estudiosos utilizavam uma escrita própria que se baseava em símbolos para anotar as formas de evolução, ou seja, usavam uma linguagem para falar da própria linguagem. A este processo dá-se o nome de metalinguagem. Todas as ciências têm que ter a sua metalinguagem e a Lingüística encontrou nesta escrita simbólica a base para a sua edificação como ciência. Analisando o exposto neste capítulo pode-se resumir que a Lingüística é descendente de duas vertentes. Uma ocupa-se da relação entre a linguagem e o pensamento, aspira o único, o universal e estático e é chamada de formalismo. A outra, de nome sociologismo, estuda a relação entre a linguagem e a sociedade e procura o múltiplo, o diverso e o variado.

A grande personagem, o pai da Lingüística moderna é o suíço Ferdinand de Saussure. O Curso da Lingüística Geral, publicado em 1916 é resultado das anotações de dois dos seus alunos da Universidade de Genebra onde era mestre. Entre 1906 e 1909, além de dar aulas de Lingüística Geral, o seu grande interesse era a analise de anagramas. Anagramas são palavras formadas pela mudança de posição das letras de outras palavras. Saussure pretendia demonstrar que existe um texto por baixo do texto original, ou seja, que existe uma linguagem sob a linguagem. Mas este trabalho nunca foi reconhecido. O seu grande feito é O Curso, pois através deste dá à linguagem uma ciência auto-suficiente e torna-se o seu fundador. A ciência fundada por ele tem quatro níveis de análise: a fonologia (estudo das unidades sonoras); a sintaxe (estudo da estrutura das frases); a morfologia (estudo da forma das palavras) e a semântica (estudo dos significados). Saussure define a língua como o objeto de estudo da Lingüística dentro de um conceito de "sistema de signos". Signo é a agregação entre o som (significante) e a imagem que o cérebro tem ao ouvir esse som (significado). Além disso, dois novos conceitos são propostos: o primeiro que trata da separação entre a língua e a fala e no segundo a separação da sincronia da diacronia sendo que ele exclui a segunda do domínio da Lingüística. A partir daí institui-se a base desta ciência. A organização da língua em que cada elemento se define pela posição que ocupa dentro do sistema e de como se relaciona com o todo é chamado de método estrutural (estruturalismo). No interior da própria Lingüística o estruturalismo teve várias formas, sendo uma delas é o funcionalismo. Como o próprio nome sugere, o objetivo é mostrar a função exercida por cada elemento lingüístico sob qualquer nível: fônico, gramatical e semântico. Porém, se a análise das duas primeiras consegue ser satisfatória o mesmo não acontece a nível semântico e esse limite irá atrapalhar o estruturalismo.

Outro tipo de funcionalismo é o que estuda as funções de cada elemento no esquema da comunicação. São chamadas de funções constitutivas: a expressiva (emissor), a conativa (receptor), a referencial (objeto), a fática (canal), a poética (mensagem) e a metalingüística (código). Além deste, existe também o funcionalismo que descreve os "desvios", ou seja, erros, inovações, usos populares, gírias, etc. A contribuição desta vertente para a Lingüística é a visão de que "falhas" devem ser consideradas produtivas e não apenas erros a serem descartados da reflexão. Desvios fazem parte da linguagem e do seu próprio funcionamento. As reflexões até agora apresentadas vêm da Europa e o americano Bloomfield traz uma nova teoria estrutural: o distribucionalismo. Pela prática da descrição propõe uma análise feita a partir do contexto em que a palavra apareceu sem se referir ao seu significado ou histórico. Para tal usa-se a segmentação da frase usando a técnica binária de subdivisão até chegar a unidades mínimas indivisíveis. O objetivo é apurar unidades e através de comparações estabelecer classes de equivalências. Ao tornar este método rigoroso e automático pode-se produzir mecanicamente uma descrição gramatical. Aqui fica explícito o interesse da Lingüística na relação da língua com a máquina. O contínuo desenvolvimento da Lingüística deve-se muito aos círculos lingüísticos (grupos de estudo da linguagem): 1915 em Moscou, 1929 em Praga, 1931 em Copenhague e depois em Viena.

Até 1950 é o estruturalismo, nas suas diversas formas, que domina na Lingüística. Nesta época o americano Chomsky questiona a reflexão tão atrelada aos dados e propõe uma teoria que centra o seu estudo na sintaxe. A idéia não é a imposição de normas, mas permitir que através de um número limite de regras se gere um número infinito de seqüências. Nasce então a Gramática Gerativa propondo-se a ser o modelo psicológico do falante e uma máquina que produz frases. Chomsky quer que a Lingüística passe do estágio descritivo para o explicativo e científico. Para tal aprofunda os seus estudos, elege a gramática transformacional e institui a noção de estrutura superficial (ES) e a noção de estrutura profunda (EP) onde ambas se relacionam por meio de transformações. A vantagem deste modelo em relação ao distribucionalismo é que ao incluir a estrutura profunda possibilita tratar relações gramaticais ocultas que são semanticamente importantes e que não acontecia anteriormente. Em 1965 a publicação desta teoria torna-se um marco para o gerativismo. Aparece então uma discordância sobre a natureza da EP: ela é sintática ou semântica? No modelo de Chomsky ela é uma estrutura sintática, mas existe outra frente que defende que é a semântica quem tem o poder gerativo. Assim abrem-se dois caminhos: de um lado a semântica interpretativa de Chomsky e de outro a semântica gerativa de G. Lakoff seguidor discordante do primeiro. As reformas que surgiram serviram para questionar a organização que serviu de base de sustentação ao estruturalismo. Por esta razão pode-se concluir que na evolução desta ciência nada tem uma resposta definitiva nem é descartado. A visão de Lingüística de Saussure e Chomsky é voltada para o virtual e abstrato (abandonando a fala e o desempenho) e embora seja uma tendência no século XX temos estudos paralelos voltados para a linguagem dos falantes reais.

As variantes da linguagem, vistas pelo âmbito sócio-espacial, podem ser divididas em grupos: Ideoleto (forma de falar do próprio indivíduo), dialeto (formas de falar regional), língua nacional (forma de falar própria de um país). Observada a relação entre linguagem e sociedade surgem algumas metodologias com a proposta de classificar a natureza dessa relação. Assim, a Sociolingüística explica as variações através de fatores sociais (efeito) e a Etnolinguística considera a linguagem não como o reflexo, mas sim como a causa das estruturas sociais. Uma terceira visão, a Sociologia da Linguagem mostra a interação da língua com a realidade daqueles que a falam. Nas teorias começa a ser importante tanto a relação linguagem/pensamento como a relação linguagem/sociedade. Entre as teorias que são propostas para estudar a significação está a Pragmática que incluí ao estudo da sintaxe e da semântica, o estudo das relações entre os signos e seus usuários. Com a teoria da enunciação mostra-se que a comunicação é conseqüência da constituição do sujeito. É chegado o momento, dentro do processo de evolução da Lingüística, de se fazer a passagem da teoria científica explicativa para uma teoria crítica da produção da linguagem. Não se chega a um acordo para essa mudança e enunciam-se duas frentes de análise de discurso: a americana e a européia.

Como conclusão a autora apresenta uma breve reflexão do tema tratado. Chama a atenção para a existência de várias formas de estudar a linguagem. Deixa claro que estando a Lingüística em permanente análise não cabem comportamentos ou idéias rígidas e que questionamentos serão retomados infinitas vezes. Para elaborar o seu livro optou por seguir as mesmas linhas que fizeram parte da sua formação. Resume o que foi o seu propósito deste trabalho: quais os métodos da ciência apresentada, enfatiza as rupturas e continuidades ao longo da evolução e de como se identificam algumas linhas de pensamento que unem pensadores de épocas diferentes. Opina que embora todas essas linhas já tenham certa importância – a formalista – logicista ainda é a dominante na Lingüística e procura impedir o desvio do saber diferente do lingüístico. Termina com um pensamento de Saussure: a linguagem é uma fonte não só de organização e métodos, mas também de ilusões e mistérios e é isso que seduz esta busca incessante.


Bibliografia:

ORLANDI, Eni. O que é a Lingüística. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.