O Compromisso do Profissional com Indivíduos e Sociedade
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O Compromisso do Profissional com Indivíduos e Sociedade


INTRODUÇÃO

O lançamento desta obra de Paulo Freire em português se dá no momento em que o educador brasileiro retorna de quinze anos de exílio.

Foi exilado por que seu método de alfabetização foi considerado uma ameaça à ordem, pelos militares, e passou a viver no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento na área da educação.

Sua obra exprime a realidade e a estratégia do oprimido.

Foi por essa razão que não foi tolerado após o golpe militar de 1964: por ser o "Pedagogo dos Oprimidos".

Paulo Freire reconhece que a educação é essencialmente um ato de conhecimento e de conscientização e que, por si só, não leva uma sociedade a se libertar da opressão.

Nesta obra, ele aborda a questão da mudança e o caráter de dependência da educação em relação à sociedade.

Depois de Paulo Freire ninguém mais pode ignorar que a educação é sempre um ato político, na verdade ela sempre foi política, pois sempre esteve a serviço das classes dominantes.

Os educadores socialistas brasileiros entendem que a estrutura econômica do País, comandada pelos grandes capitalistas, é que determina a estrutura do Poder Político, dividindo a sociedade brasileira em dois grupos (classes), o da minoria que detêm a riqueza e o poder e o da grande maioria que nada tem e vive à margem do progresso.

Com tudo isso, lembramos que o Brasil tem uma história educacional importante.


1. O Compromisso do Profissional com a Sociedade

A questão do compromisso do profissional com a sociedade nos coloca alguns pontos que devem ser analisados.

A primeira condição para que um ser pudesse exercer um ato comprometido era a sua capacidade de atuar e refletir. É exatamente esta capacidade de atuar, operar, de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem, à qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis.

Assim, como não há homem sem mundo, nem mundo sem homem, não pode haver reflexão e ação fora da relação homem-realidade.

Impedidos de atuar, de refletir, os homens encontram-se profundamente feridos em si mesmos, como seres do compromisso. Compromisso com mundo, que deve ser humanizado para a humanização dos homens, responsabilidades com estes, com a história.

O compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas "águas" os homens verdadeiramente comprometidos ficam "molhados", ensopados. Somente assim o compromisso é verdadeiro. Assim, o verdadeiro compromisso é a solidariedade, e não a solidariedade com os que negam o compromisso solidário, mas com aqueles que, na situação concreta, se encontram convertidos em "coisas".

Antes de ser profissional, o homem deve ser comprometido por si mesmo.

Não posso um dia assumir compromisso como homem e em outro, assumir compromisso como profissional. Uma vez que "profissional" é atributo de homem, não posso, quando exerço um atributo negar o sentido do outro.

Quanto mais o profissional se capacita, mais aumenta sua responsabilidade com os homens, com o destino do país, ou seja, tem compromisso com o seu povo, com o homem concreto, com o ser mais deste homem.

Enfim, fugir da concretização deste compromisso é não só negar-se a si mesmo como negar o projeto nacional.


2. A Educação e o Processo de Mudança Social

Não é possível fazer uma reflexão sobre o que é a educação sem refletir sobre o próprio homem.

Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.

O homem deve ser o sujeito de sua própria educação e não objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém.

A educação tem caráter permanente. Existem graus de educação, mas estes não são absolutos. Somente Deus sabe de maneira absoluta.

Todo saber traz consigo sua própria superação. Portanto, não há saber, nem ignorância absoluta: há somente uma relativização do saber ou da ignorância.

É preciso saber reconhecer quando os educandos sabem mais e fazer com que eles também saibam com humildade.

Não há educação sem amor e sem esperança, pois não amando, o educador não saberá compreender o próximo, não o respeitará; e se educação é uma constante busca, não seria possível buscar sem esperança.

O homem não está apenas no mundo, ele têm objetivos e relaciona-se com o seu meio e quando passa a compreender sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desfio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com o seu trabalho pode criar um mundo próprio, ou seja, o homem tem uma consciência capaz de captar o mundo e transformá-lo.

É necessário, darmos oportunidade para que os educandos sejam eles mesmos. Caso contrário significa a negação da educação, porque a necessidade do desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a realidade se faz cada vez mais urgente, pois o homem tem que ser sujeito de sua ação.


3. O Papel do Trabalhador Social no Processo de Mudança

Falar do papel do trabalhador social implica na análise da mudança e da estabilidade como expressões da forma de ser da estrutura social. Estrutura social que se lhe oferece como campo do seu quefazer.

É necessário, porém, que o trabalhador social se preocupe com algo já enfatizado nestas considerações: que a estrutura social é obra dos homens e que, se assim for, a sua transformação será também obra dos homens. Isto significa que a sua tarefa fundamental é a de serem sujeitos e não objetos de transformação. Tarefa que lhes exige, durante sua ação sobre a realidade, um aprofundamento da sua tomada de consciência da realidade, objeto de atos contraditórios daqueles que pretendem mantê-la como está e dos que pretendem transformá-la.

O trabalhador social não pode ser um homem neutro frente ao mundo, um homem neutro frente à desumanização ou humanização, frente à permanência do que já representa os caminhos do humano ou à mudança destes caminhos.

O trabalhador social, como homem, tem que fazer sua opção. Ou adere à mudança que ocorre no sentido da verdadeira humanização do homem, de seu ser mais, ou fica a favor da permanência. Deste modo, sua opção irá determinar tanto o seu papel, como seus métodos e suas técnicas de ação.

O que opta pela mudança não teme a liberdade, não prescreve, não manipula, não foge da comunicação, pelo contrário, a procura e vive; e o que opta pela antimudança não pode realmente interessar-se pelo desenvolvimento de uma percepção crítica da realidade por parte dos indivíduos.

O trabalhador social tem que lembrar a estes homens que são tão sujeitos como ele no processo da transformação.

O trabalhador social tem a necessidade constante de ampliar cada vez mais seus conhecimentos, não só do ponto de vista de seus métodos e técnicas de ação, mas também dos limites objetivos com os quais se enfrenta no seu quefazer.

Cabe a ele também, tentar a mudança de sua percepção da realidade.

A mudança da percepção distorcida do mundo pela conscientização é algo mais que a tomada de consciência, que pode inclusive ser ingênua.

Tentar a conscientização dos indivíduos com quem se trabalha, enquanto com eles também se conscientiza este e não outro nos parece ser o papel do trabalhador social que optou pela mudança.


CONCLUSÃO

O Brasil ainda é, entre os países em processo rápido de crescimento, um dos mais atrasados em matéria de educação, ostentando a cifra vergonhosa de cerca de 15% de analfabetos entre a população adulta acima de 20 anos.

Inúmeras tentativas foram realizadas visando a alfabetização de adultos, entre as quais se destaca o MOBRAL. Todas essas iniciativas fracassaram inclusive esta, que conseguiu alfabetizar alguns milhões de brasileiros, mas não teve continuidade, de modo que o pouco que aprenderam foi rapidamente esquecido.

A população adulta é a que trabalha e que vota, elegendo seus representantes políticos. Daí a importância da educação sob dois aspectos:

1º) com o objetivo de preparar o trabalhador para melhor desempenhar o seu trabalho, podendo ler e interpretar os manuais de operação dos equipamentos. No mundo moderno, o conhecimento técnico é indispensável para adquirir alguma especialização, que aumenta a produtividade do trabalhador e lhe garante melhores salários.

2º) com o objetivo de preparar o trabalhador para o exercício da cidadania, conferindo-lhe status político e lhe permitindo que, através da politização, possa participar do poder diretamente ou através da eleição de seus representantes.

Conforme vimos antes, Paulo Freire investe contra o discurso liberal em matéria de educação, condenando a educação puramente técnica e científica.

Para ele, o trabalhador precisa adquirir uma consciência política, para desempenhar com inteira liberdade sua cidadania.

Paulo Freire continua sua crítica, afirmando que o que pretendem os opressores é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime, e, isto, para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os domine.

Por isso, a educação libertadora do homem visa a construir o diálogo, através do qual os oprimidos possam confrontar os opressores. Paulo Freire propõe uma nova concepção da relação pedagógica. Não se trata de conceber a educação apenas como transmissão de conteúdos por parte do educador. Pelo contrário, trata-se de estabelecer um diálogo, isso significa que aquele que se educa, isto é, está aprendendo também. A pedagogia tradicional também afirmava isso, só que no método de Paulo Freire o educador também aprende do educando da mesma maneira que este aprende dele. Não há ninguém que possa ser considerado definitivamente educado ou definitivamente formado. Cada um, a seu modo, junto com os outros, pode aprender e descobrir novas dimensões e possibilidades da realidade na vida. A educação torna-se um processo de formação mútua e permanente. Segundo Paulo Freire, a educação deve ser um ato coletivo, solidário, um ato de amor. Evidentemente, o sentido pedagógico do método Paulo Freire é a politização do trabalhador, único meio de fortalecer a classe dos oprimidos e dar-lhe armas para lutar pela revolução social, contra as desigualdades e a favor da liberdade.

Uma das tarefas dos Assistentes Sociais também é essa, propor alternativas de ação com criatividade, senso crítico e domínio da comunicação, contribuindo para que a população tenha acesso a serviços sociais básicos, na perspectiva de efetivação da cidadania. Pois a intervenção desse profissional está voltada para a melhoria das condições de vida da população e se dá tanto pela oferta de bens, recursos e serviços, como pelo exercício de uma ação sócio-educativa. A ação sócio-educativa do Assistente Social tanto pode assumir características disciplinadoras, voltadas ao enquadramento do cliente em sua inserção institucional e na vida social, como pode se voltar para uma perspectiva emancipatória, defendendo, preservando e efetivando direitos sociais.

Concluindo, esses profissionais têm compromisso com eles mesmos e com todos os indivíduos que deles precisarem.


BIBLIOGRAFIA

Estudo do Livro:

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. 5ª edição, Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1982.