O Amor Sartreano e o Amor Platônico
Sociais Aplicadas > Filosofia

Amor Sartreano e Amor Platônico


Amor e conhecimento

Amor é um dos temas mais abordados de todos os tempos, seu entendimento, suas características, um tanto "indescritíveis" , até hoje são considerado impassíveis ao gênero humano, ou pelo menos de difício controle. O trabalho a seguir leva em consideração a parte do amor relacionada ao conhecimento, de forma que haja uma demonstração simples e clara das principais teorias defenndidas por Sartre e por Platão, e junto com essas diferentes (em partes) posições, seja então, compreendidas como que elas se relacionam, e se completam.


Principais questões analisadas por Sartre e alguns tópicos de Platão em suas concepções do que é o conhecimento e do que é o amor

Sartre expõe três dimensões do ser, o em-si, o para si e o para-outro, de maneira que o em-si sendo facticidade, existe como se fosse a parte da natureza material, ou seja parte objeto em que a encarnação torna-se possível . Dentro dessa primeira definição o conhecimento da natureza do corpo é dado por Sartre como "indispensável para o estudo das relações particulares entre meu ser e o ser do outro" (O ser e o nada pag. 451) , é então nesta primeira parte que se tem uma captação da transcendência-transcedida do outro, e assim é dado o primeiro passo para as relações concretas com o outro. A proposta de Sartre nesse primeiro ponto é explicitar as estruturas das relações mais primitivas com o outro-no-mundo.

Essa parte nos da a impressão de que só passamos a perceber a facticidade do outro, quando, em contra partida, somos também uma facticidade, inviabilizando, segundo o próprio Sartre a existência de uma consciência fundamentadora do em-si, isso é colocado em termos de fuga do para-si para o em-si. Tal consciência é chamada por Sartre como uma definição um tanto psicológica e por isso não conveniente.

E como que, para Sartre, essa fuga resultaria numa relação com o outro?

Segundo as atitudes que são tomadas com relação ao objeto que sou para o outro, Sartre tenta demonstrar que o outro pode deter-me com o olhar, "coagulando-me intgralmente em minha própia fuga" , ou seja, o sentido do meu ser acha-se fora de mim , e sendo assim, posso então, ou tratar o outro como objeto, ou procurar recuperar a liberdade, sem todavia, priva-la de ser liberdade.

Assim estão colocadas algumas estruturas ontológicas do para-si , relacionadas, de certa forma com classificações do em-si como tentativa de fundamento e ao mesmo tempo fuga do para-si , sendo essas uma das príncipais causas das atitudes primitivas que adoto com relação ao outro.

No diálogo O banquete , de Platão(216b e c), estão descritas algumas passagens que retratam tal teoria de Sartre, pois quando Alcibíades diz que foge de seu fundamento dado por Sócrates, é que na verdade, temos uma negação dessa fundamentação, mas de qualquer maneira não há como, ainda colocar uma relação concreta entre Sartre e Platão pois mesmo parecendo um pouco coerente, tais passagens e descrições destes conteúdos, não são tão precisas e por isso a necessidade de outras análises. O fato é que, Platão, sendo essencialista e Sartre, Anti-essencialista, faz com que exista uma barreira entre os pontos de vista desses dois filósofos e daí então surge a dificuldade de aproximá-los.

Colocando o outro como fundamento do meu ser, Sartre constroi um tipo de definição do projeto-amor, como algo-ponte para (necessário para) a realização da liberdade, que de um certo modo passam a ser confundidos um com o outro (projeto-amor e busca da liberdade). Mas essa amalgamação ocorre pelo fato de Sartre estar restringindo o amor a um termo de projeto da consciência, e o que estaria então vinculado à esta restrição? Ou melhor, onde que esta colocada tal restrição em suas observações?

Esta limitação pode ser esclarecida se tomarmos ela como uma estrutura da epistemologia sartreana usada para encontrar a parte comum do projeto, existente quando se analiza o geral, e assim poder demonstrar as disposições funcionais do sentimento humano através da unidade de situação (situação-projeto de recuperação de meu ser). Seria como encontrar o ponto que nos faz compreeder a reta. Para isso é que Sartre se utiliza da lógica de uma consciência-liberdade, ou consciência-tentativa de liberdade, que permita entender a busca-projeto do ser (que sempre é um projeto que fracassa e por isso não deixa o ser encontrar sua plenitude).

Sartre evidencia o uso de uma filosofia da subjetividade, pois é dentro dessa filosofia que se poderia buscar toda a densidade do teor mítico da existência humana. Poderiamos dar dois exemplos desse teor

O primeiro diz respeito a essa coisa já desgastada chamada amor. Piscologias as mais diversas "dizem" o que é o amor. Mas não o dizem, pois sempre se lhes esquiva o que seja o amor. É que as piscologias - sem desmerecer seu precioso estatuto - são palavra segunda. São uma tematização de segundo grau, em cima de uma palavra primeira que é a experiência natural. Sei o que é o amor, porque experiencio intensamente esse grande valor humano. Mas acontece que esse saber meu não é de ordem racional ( e as ciências o são ) mas da ordem do vivido. Mas sei . E esse saber é tanto mais profundo quanto mais intenso o amor. Mas acontece que a razão não consegue medir tal intencidade. Está aí um exemplo da grandeza e da miséria humana (encontramos também em Platão essa caracterização do amor, como o agente que é determinado por fatos opostos como por exemplo: riqueza e pobreza); como diria Pascal, "encontro em mim níveis de conhecimento - experiência natural - e ao tentar eslarecê-los tenho que alça-los ao nível da racionalidade para explica-los, esmiuça-los, quantificá-los. E esbarro na impotência da razão. É por isso que ela enfeza . . ." ( Do mito à razão pag. 28).

Entretanto, neste momento é mais conveniente recuar um pouco mais, em proveito de uma questão ou de uma aprendizagem mais radical. Refiro-me ao conhecimento que se pode ter cada vez mais do ser humano. aprender isso é ir se inteirando a aprendizagem mais profunda e que realmente interessa na vida: conhecer o humano, o mundo humano. Essa experiência, que se dá (ou deveria se dar ) ao nível do vivido e não propriamente do tematizado, configura aquilo que fundamenta um processo de ensino-aprendizagem realmente humano. Ora, em filosofia "aprender o que é humano" é fundamental nesse sentido: dele derivam todas as aprendizagens. Creio que é por aí que vai Rubem Alves, ao dizer que "o saber precisa ter sabor" (Do mito à Razão pag. 29)

Ainda falando em fundamento, em filosofia, ele é um ponto de partida somente, é tarefa, trabalho de reconstruir-se a cada momento, a cada instante em que percebemos que o processo ensino-aprendizagem está deixando de ser humano, quem sabe na imenência de tornar-se um instrumento com o qual aproprio-me de outro, reduzo o outro a mão-de-obra barata por ser eu o dono do capital intelectual.

Quero com isso dizer que, ao longo dos conteúdos que devem ser cuidadosamente planejados e transmitidos, pode e deve ir sendo vivida essa aprendizagem: o humano. Difícil e árdua às vezes essa aprendizagem, pois se da quase dentro dos conflitos que são componentes muito encontradiços no relacionamento humano. Mas deve ser buscada, ou, pelo menos, não impedida. Creio mesmo que se poderia dizer que os títulos acadêmicos que o professor adquiriu só tem sentido na medida em que, entre outras finalidades, lhe propiciem encontros com gente, encontros que, através dos conteúdos arduamente adquiridos na pesquisa, resultem num bem-querer que é o sabor do saber.

Desse modo parece que o amor transcende a categoria do conhecimento: é tambem uma categoria do conhecimento. Não me refiro aqui ao afeto recíproco entre educando-educador. Refiro-me ao amor não como condição de possibilidade do conhecimento, mas ele própio sendo uma categoria epistemológica. Pelo sentimento não só gosto mas conheço mais.

Isso pode ser demonstrado de uma maneira dialética, ou seja, admitindo-se que não podemos amar o que ignoramos, pelo fato de não termos ciência de sua existência, nos faz crer que o amor serve como um caminho para conhecermos algo que "sabemos" que exista.

Mais ou menos, é dessa maneira que Sartre usa o termo do conhecimento para as relações com o outro, e que por vezes se aproxima das relações amante-amado em Platão. É todavia encontrada a natureza do amor em Platão(203d) e estando entre dois opostos o faz torna-se mais abstrato em nível de conhecimento objetivo ou científico-racional.

Por isso podemos dizer que em Platão, temos uma definição de amor que o generaliza um pouco mais que a definição de Sartre, pois aquela admite outros tipos de amar, enquanto esta só é concebida quando levamos em consideração o olhar do outro.

Mas o que seria na verdade esse "outros tipos de amar"?

Um deles seria a própia genialidade dos sábios (o Banquete 203a ) , e um outro é pelo fato do amor ser filósofo (O Baquete 204b) , assim muitas definições tornam-se possíveis e cabíveis dentro do contexto de que os homens nem sempre, ou melhor quase nunca pensam da mesma forma, uns em relação aos outros. Levado, então, a questão por esse lado, como que Sartre explicaria uma pessoa que passe a amar uma outra após ter visto apenas uma única foto dela? Podemos dizer então que o amor segundo Satre-Platão, é único quando tomado apenas em sua parte e muitos quando em sua totalidade. Sartre toma o amor em sua parte, e desclassifica as outras, ele tambem separa desejo de amor, e assim tomando apenas o amor homem-mulher condicionado a princípio pelo olhar um do outro, descreve as relações do em-si e do para-si quando em circunstâncias do amor. É em relação à essa restrição que me referi no início do trabalho, mas na verdade a questão principal não é essa delimitação, e sim o instrumento usado por Sartre para descrição das atitudes com relação ao outro. Isso porque o instrumento usado por Sartre parte da consciência e não da da natureza, como em Platão, e aonde tal instrumentalização ira implicar?

Basicamente no tipo de explicação que terá que ser elaborada para legitimação de sua teoria, então, sendo assim Sartre elegeu a consciência como instrumento, portanto, tendo de explicar o amor através deste ponto. Sartre, levou em conta então, a maneira com que o amor age sobre a consciência, mas dessa forma, o reconhecimento do amor na consciência passa a ser uma consequência e não a causa do amor, ou seja o amor já existe, e nós através da consciência podemos aceitá-lo ou negá-lo, mas a consciência não pode ser juiza do amor , e assim o amor acaba se tornando mais uma questão de busca da própia identidade da consciência como sendo completa em si mesma. Na verdade, Sartre propõe que o amor só passará a existir se nós aceitarmos a nossa fundamentação do em-si que não está em nós e sim no outro. Assim Sartre está colocando o amor como uma condição que aparece após a decisão da consciência. Mas o amor tambem é um instrumento que deseja capturar a consciência (O ser e o nada página 457) e daí surge a pergunta que está nesta mesma página: Por que o amor deseja capturar a consciência?

Se o amor não é desejo e o amor deseja, como poderiamos conceber o amor sem a participação do desejo? Essa não é a resposta e sim uma questão de sintaxe.

"É da liberdade do outro enquanto tal é que queremos nos apoderar" ? Diz Sartre. Tambem em outras palavras "o amante não deseja possuir o amado como se possui uma coisa:. . .Quer possuir uma liberdade enquanto liberdade"?

Assim se o amor é um capturar da liberdade passa a não ser mais, então, o amor em si e sim um projeto-liberdade. Mas como explicar o amor em si, separando-o do desejo e da liberdade? Essa é uma questão muito mais complexa, e mais próxima do objetivo de Platão. De qualquer modo vou tentar fazê-lo me influenciando em uma definição sartroplatônica, ou seja, buscando uma relação que se aproxime na mesma proporções, tanto de um quanto de outro, mesclando a natureza e a consciência como seu principal motivo. levando então em consideração isso: o que é o amor?

O amor é uma tendência ( natural) da minha consciência encontrar um equilíbrio perante as coisas e conceitos que estão em minha volta, no mundo material e imaterial a partir do contrapeso de outra(s) consciêcia(s) ou "símbolos de consciências" ( o mais proximo possível da que ditamos a nos mesmos como ideal) de modo que a existência dessa(s) consciência(s) , eleitas por nós, haja como um juiz na determinação das coisas que me definem, junto às minhas próprias definições, e assim faça com que eu tenha uma ideologia mais forte ( em termos de concreticidade ) da existência.

Entede-se aqui , por símbolo de consciência o objeto que nos transmite algum tipo de relação com nossos conceitos humanos-abstratos.

Esse conceito coloca o amor tão mais próximo do conhecimento, quanto da liberdade, pois um se mescla ao outro, em diferentes movimentos e posições.

O termo ideologia, serve, principalmente para construírmos definições de nós mesmo e do mundo com base nas perguntas essenciais do ser humano, ou seja, a consciência é subordinada à ideologia, e por conseguinte a primeira é consequência da segunda. Resumindo: Somos a nossa própria ideologia e nada mais.

Assim tentei contruir um conceito de amor baseado nos pensamentos de Sartre e Platão, analisando um pouco de cada lado e comentando seus pontos de vista, por vezes, de maneira superficial para em seu fim, casar da melhor maneira os dois modos de se observar o tema. Este tema que ao mesmo tempo que é falado e divulgado, com uma certa simplicidade possa, talvez, ser explicado de maneira tão complexa e completa sem jamais ser definitiva.


BIBLIOGRAFIA

LUFT, Celso pedro. Mini dicionário. São Paulo, Ática/Scipione

MORAIS, Regis de. As razões do mito. São Paulo, Papirus 1988

PLATO. O banquete. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo 1966

SARTRE, Jean Paul . O ser e o nada. Ensaio de ontologia fenomenológica . Petrópolis, RJ: Vozes,1997


Análise relacionada a dois mitos platônicos sobre o tema do amor

A proposta dessa análise é colocar os pontos no qual Platão está baseado para a concepção de tais mitos. Assim esse breve trabalho demanda um pouco de especulação crítica e analítica, pois, em certos aspectos não será possivel a demonstração retilínia da forma como o mito está proposto, mas isso não quer dizer que há uma impossibilidade de se chegar a um viés claro e conciso.

O ponto de partida para a análise será a descrição simples dos mitos escolhidos considerando as disposições dos fatos, junto com uma crítica e interpretação das prováveis metáforas em questão, pois assim teremos uma visão generalizada do tema. Este tema, como se observa, é o ponto comum do livro Banquete de Platão ( alguns tópicos já mensionado no lísis) e no decorrer dos discursos ele é abordado de várias formas. O mito é uma delas .

Um dos mitos utilizados é o mito dos andrógenos, contido no discurso de Aristófanes. Tal mito consiste na explicação do porque do amor através da origem humana colocada como uma teoria dos Andróginos. "Outrora a nossa natureza era diferente da que é hoje. Havia três sexos humanos e não apenas, como hoje, dois"(189) . A escolha de tres sexos para os andróginos propõem a relação também sobre as tres formas de relações "normais" determinadas em seu tempo, não havia contudo o amor pois os andróginos sendo completos ( por serem formados de duas metades ) não possuíam a nessecidade de procurar uma parte que os completassem ou seja, não careciam de relações uns com os outros. As alusões ao cosmos determinam a forma desses andróginos que por serem ditos descendentes de astros ou deuses celestes de forma redonda tambem eles também eram assim. Essa afirmação, é bastante condescedente com a filosofia de Platão, ou melhor dizendo, com uma de suas "crenças" . Qual "crença"? A teoria de que, quanto mais perfeito alguma coisa for, também mais próxima será da forma mais perfeita, alguns filósofos atribuíram essa forma ao circulo, e pelo fato dos astros serem deuses, eles eram assim desse formato. Esse raciocínio serve do mesmo modo para colocar bases no que Aristófanes havia pronunciado pouco antes, e que afirmava sobre o poder de Eros.

Por consequência dos Andróginos serem de formas parecidas com a dos deuses e pela coragem que tinham, o orador (Aristófanes), relata que o homens se acharam em condição de atacar os deuses do céu, essa ação levou Zeus a tomar uma decisão, protecionista e utilitária, que foi a de cortar cada um deles em duas partes proporcionando assim duas vantagens: primeiro, ficarão mais fracos. Segundo, serão mais úteis, pois serão mais numerosos. E assim foi feito. Apolo, então, foi requerido para curar a ferida provocada pela cisão feita, essa explicação serve para várias questões outras que se observam nos seres humanos, e tenta, de certo modo, interpretar algumas características de seu corpo. A colocação do sexo, após algum tempo foi resultado da condição em que ficou os seres, após a divisão, primeiramente na parte superior, o que permitião apenas a procriação na terra "como as cigarras" (191) . Depois, como Zeus percebeu que os homens estavão se estinquindo, resoveu colocar os orgãos genitais para frente de modo que o homem pudesse gerar na mulher seus descendentes.

"É daí que se origina o amor que as criaturas sentem uma pelas outras; e esse amor tende a recompor a antiga natureza, procurando de dois fazer um só, e assim restaurar a antiga perfeição"(191).

A estrutura desse mito serve como pano de fundo para considerar as posições de Platão. Primeiro demonstra-se uma origem, ou melhor como as coisas estavam normalmente, no caso deste mito, as condições eram mais harmoniosas mas por um fato não justo ou correto teve-se um determinado castigo dos deuses aos homens. Esse castigo levou a uma reorganização das condições e passaram a atuar novas dinâmicas. Então valores surgiram juntamente com os modos de relações que antes não existiam. No caso em questão pode-se supor o porque de colocar o amor como resultado de um castigo, pois nem sempre esse sentimento traz felicidade, e essa felicidade só aconteça no amor quando ele chega ao seu objetivo, ou seja, podemos conotar que essa realização não é em si uma conquista e sim o fim desse castigo. Há, tambem, intrinseca a essas idéias, a noção de que o amor só pode atingir seu objetivo quando ela junta duas partes que antes eram uma só, assim se tem o ponto onde há uma explicação do objeto do amor, por fim, observa-se que Platão universaliza o amor pois as pessoas não estão, e não se tem notícia de estarem, mais juntas ( grudadas) as outras. ao mesmo tempo que impossibilita aos humanos de amarem-se a todos ao mesmo tempo.

O uso do mito em Platão serve como um apoio onde são colocadas idéias e posições própias. A análize, então, desses mitos auxiliam-nos para que possamos entender e até certo ponto especular algumas teorias platônicas. O tema amor faz parte do conjunto desses mitos e nesse trabalho tentou-se colocar algumas interpretações que podem ajudar no entendimento dos temas que estão sendo abordados.


BLIBLIOGRAFIA

Banquete;Platão