Hepatite Infecciosa Canina
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Hepatite Infecciosa Canina


1. INTRODUÇÃO:
A Hepatite Infecciosa Canina (HIC) é uma doença viral contagiosa febril, causada pelo adenovírus tipo I, que afeta principalmente o funcionamento do fígado e de outros órgãos, como rins, globo ocular, hemorragias serosas e mucosas e edema de vesícula biliar. Acomete principalmente animais jovens das espécies canídeas, como cães, raposas, coiotes, lobos, e ursos (Mordecai Siegal, 2002). Devido ao uso disseminado da vacina, a HIC é considerada atualmente rara, e observada quase exclusivamente em animais não-vacinados (GREENE, 1998).

1.1 O FÍGADO: O fígado é uma glândula de extrema importância para o metabolismo do animal. Executa dezenas de funções, todas indispensáveis para o seu bem estar. Por ser um órgão parenquimatoso e bastante irrigado, está sujeito ao processo de autólise e putrefação mais rápido (COELHO, 2002). Nos cães, o fígado é distribuído em 6 lobos (lateral esquerdo, medial esquerdo, lateral direito, medial direito, quadrado e caudado). Cada lóbulo hepático compõe um agrupamento de células denominadas hepatócitos, que se dispõem em placas orientadas radialmente, formando cordões de hepatócitos, envolvendo os capilares sinusóides que são revestidos por uma única camada de células, com 2 grupos celulares: células endoteliais típicas dos capilares sanguíneos e células fagocitárias, denominadas células de kupffer (COLES, 1986; COELHO, 2002) .O hepatócito é a célula de maior versatilidade funcional do organismo animal. É um tipo celular com funções glandulares endócrinas e exócrinas simultaneamente. Além de sintetizar e acumular vários compostos neutraliza outros e transporta corante. As principais atividades são (COELHO, 2002):

  • Síntese de proteína (albumina, protrombina, fibrinogênio);
  • Secreção biliar;
  • Acúmulo de alimentos (os lípides e os glicídes são acumulados na célula hepática na forma de gorduras neutras e glicogênio respectivamente);
  • Metabolismo (conversão de lípides e aminoácidos em glicose);
  • Destoxificação e neutralização (várias drogas são neutralizadas nas células hepáticas devido a processos de oxidação e conjugação).


2. HISTÓRICO
: A HIC já foi confundida com cinomose, antes de ser reconhecida em 1920, em raposas silvestres com sinais de encefalites muito proeminentes. Em 1927 foi percebido que era o mesmo vírus que contaminava os cães, porém neles ocorria inflamação no fígado (Mordecai Siegal, 2002). Em 1947 foi identificada como entidade viral específica dos cães (ETTINGER e FELDMAN, 1997).


3. ETIOLOGIA

3.1 O AGENTE: O adenovírus tipo 1 (AVC-1 ou CAV-1 [em inglês]) é um vírus de DNA de tamanho médio (75nm de diâmetro) sem invólucro protéico, e se relaciona antigenicamente somente com o AVC-2 (ou CAV-2) que é uma das causas de traqueobronquite infecciosa canina (MANUAL MERK, 2001).

3.2 RESISTÊNCIA: É resistente aos detergentes e desinfetantes comuns, porém é sensível a iodo, hidróxido de sódio a 3% ou cloro. É inativado após 5 minutos em temperatura entre 50ºC e 60ºC. Sobrevive fora do hospedeiro, no ambiente, por aproximadamente 6 meses (GREENE, 1998).


4. EPIDEMIOLOGIA

  • Distribuição Geográfica: mundial.
  • Acomete predominantemente animais jovens de até 12 meses (cães, raposas, coiotes, lobos e ursos).
  • Homens não são infectados.
  • Os canídeos silvestres permanecem reservatório do agente.
  • O período de incubação é de 4 a 9 dias - de rápida evolução - (GREENE, 1998).

4.1 índices: Os índices de mortalidade são em torno de 10% e de morbidade 25% (Columbia Encyclopedia, 2001).

4.2 fontes e vias de infecção: A fontes de infecção são:

  • Urina
  • Fezes
  • Sangue
  • Saliva
  • Secreções oculares (contato direto)
  • Contato com cortes ou feridas provenientes de animais infectados.

A via de entrada é oronasal (ETTINGER e FELDMAN, 1997). Ectoparasitas podem ser portadores do vírus e estar envolvido na transmissão natural da doença. Os cães recuperados eliminam o vírus na urina por até 6 meses devido a sua presença nos túbulos renais (GREENE, 1998).


5. PATOGENIA:
Após a entrada pela via oronasal, o vírus infecta tonsilas e linfonodos regionais, ocorrendo multiplicação primária. Através do ducto torácico penetra na corrente sanguínea (viremia) e 4 a 8 dias depois ocorre sua disseminação, infecta células parenquimatosas hepáticas e reticuloendoteliais na maioria dos sistemas do organismo, como células – alvo, para multiplicação secundária (efeito citotóxico). O vírus - detectado por imunofluorescência e ultraestrutural - também está localizado no endotélio glomerular. Com isso, ocorre acúmulo glomerular de complexos imunológicos circulantes (CIC) e proteinúria. O vírus não é detectado no glomérulo após 14 dias, pois está agora persistente no túbulo renal, ocorrendo excreção do AVC-1 na urina (ETTINGER e FELDMAN, 1997; GREENE, 1998 ). Complicações clínicas localizadas no globo ocular proveniente do AVC-1 ocupam aproximadamente 20% dos cães infectados, e menos de 1% após serem vacinados. O desenvolvimento da lesão ocular começa durante a viremia, com aproximadamente 4 a 6 dias após o contato do vírus no animal.

O AVC-1 entra no humor aquoso pelos vasos e se replica nas células endoteliais da córnea, ocasionando um nebulosamento da mesma, conhecido coloquialmente como "olho azul". Edema de córnea e uveite ocorre após o 7º dia, período correspondente com a neutralização dos títulos de anticorpos. A deposição de CIC resulta em deposição de células inflamatórias na câmara anterior, danificando extensivamente o endotélio da córnea. O rompimento deste endotélio causa acúmulo de fluido edematoso dentro do estroma corneal. Uveites e edema são normalmente autolimitantes, a não ser que complicações de massiva destruição endoteliais ocorram. O clareamento do edema da córnea coincide com a regeneração endotelial e restauração do gradiente hidrostático entre o estroma da córnea e o humor aquoso (isso ocorre em aproximadamente 21 dias após o início da infecção). Se as mudanças inflamatórias forem severas suficientes para bloquear a filtração angular, inclusive a pressão ocular, pode resultar em glaucoma (GREENE, 1998).

Em casos agudos, ocorre necrose centrolobular hepática e posterior panlobular, sendo fatal. Se a necrose for limitante e restringir-se somente ao centrolobular, o animal poderá sobreviver, pois haverá regeneração. No 4º ou 5º dia, cães demonstrando títulos neutralizados de anticorpos progridem para uma fibrose hepática. Se a inflamação hepática continuar, o animal terá um quadro crônico da doença (ETTINGER e FELDMAN, 1997; GREENE, 1998). As complicações que ocorrem na HIC são proporcionais ao grau de sua patogenicidade. Cães estão mais sujeitos a desenvolver pielonefrites devido ao dano renal que ocorreu com a HIC. Coagulação Intravascular Disseminada (CID, ou DIC [em inglês]) é uma freqüente complicação da HIC, que começa na fase de viremia da doença, onde pode ter iniciado o processo dos danos das células endoteliais, difundindo a ativação do mecanismo de coagulação ou por inabilidade no fígado de remover os fatores de coagulação (GREENE, 1998). A lesão hepática é tão grande que o fígado perde a função da produção de vitamina K e protrombina - fatores de coagulação do sangue - (COELHO, 2002). Embora a causa da morte por HIC seja incerta, o fígado é o primeiro foco do ataque viral. Insuficiência hepática e hepatoencefalopatia podem resultar em um estado de semicomatose e posterior morte. Alguns cães morrem tão subitamente que a disfunção hepática não ocorre por falta de tempo. O primeiro sinal é hipertermia passageira de 24 a 48 horas, temperatura de 40º a 40.5ºC, caindo logo após. A morte nesses cães pode ter sido por danos no Sistema Nervoso Central (SNC), pulmão, outro órgão parenquimatoso vital ou desenvolvimento da CID (GREENE, 1998).

5.2 ESQUEMA DEMONSTRATIVO DA PATOGENIA

6. ACHADOS CLÍNICOS – SINTOMAS: É difícil selecionar os sutis sintomas que ocorrem em cães jovens que morrem subitamente, pois nestes ocorrem apenas hipertermia por 24 a 48 horas e temperatura de 40º a 40.5ºC (GREENE, 1998). É mais freqüente observar a HIC em jovens cães de até 1 ano e cães não- vacinados de todas as idades. Comumente a temperatura declina dentro de 24 horas, e nos casos incipientes, o cão pode recuperar-se após uma breve enfermidade, de apenas 1 a 2 dias. Em cães com moléstia moderada, a temperatura declina, mas freqüentemente não retorna ao normal. Após 1 a 2 dias de febre de baixa intensidade, a temperatura aumenta novamente, ocorrendo:

  • Letargia
  • Relutância em movimentar-se
  • Sensibilidade abdominal
  • Membranas mucosas pálidas
  • Hepatomegalia
  • Anorexia
  • Tonsilite
  • Faringite
  • Linfadenopatia cervical

Cães com casos descomplicados de hepatite moderadamente grave comumente recuperam-se após uma enfermidade com duração de 3 a 5 dias. Nos cães mais gravemente afetados, ocorre:

  • Diátese hemorrágica, com hemorragias petequiais e quimóticas
  • Distensão abdominal devido ao acúmulo de fluídos serosanguíneos ou hemorragias
  • Epitaxis
  • Anormalidades da coagulação típicas da CID
  • Pneumonia (com a percussão e a auscultação consegue-se perceber ruídos respiratórios, indicando uma progressão para pneumonia (a tosse pode ocorrer, como resultado da bronquite))
  • Linfoadenomegalia cervical com edema subcutâneo na cabeça, pescoço e porções dependentes do tronco
  • Taquicardia desproporcional a febre
  • Panleucopenia (correlacionado com a gravidade da doença)
  • Sinais do SNC, como depressão, desorientação, ou coma terminal (ocorre em qualquer fase após a infecção)

O edema corneal e uveite anterior freqüentemente ocorrem quando a recuperação do animal começa a se iniciar e talvez seja a única anormalidade observada no cão com inaparente infecção. Cães com edema de córnea apresentam fotofobia, secreção serosa ocular e dor. A dor pode ser persistente quando ocorre o desenvolvimento de glaucoma ou ulceração corneal e perfuração. Em casos complicados, o clareamento da córnea começa centralmente (GREENE, 1998).


7. DIAGNÓSTICO:
O diagnóstico deve ser baseado em exames clínicos semiológicos (baseado nos sintomas) e exames complementares laboratoriais.

7.1 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL: Exames Hematológicos demonstram leucopenia com linfopenia e neutropenia (durante os estágios iniciais da moléstia). Neutrofilia e linfocitose ocorrem tardiamente em cães com complicações clínicas recorrentes. Números crescentes de colorações negras de linfócitos e eritrócitos nucleados podem ser encontrados. Anormalidades da coagulação são característicos da HIC e são mais pronunciados em estágios virêmicos da doença. Trombocitopenia com ou sem alteração da função plaquetária é aparente.

Exames de Bioquímica séria mostram Proteína sérica alterada, detectado somente por eletroforese, são transitoriamente encontrados a -2-globulina (com 7 dias após infecção) e g -globulina (com 21 dias após a infecção). O aumento ou diminuição das atividades da alanina-aminotransferase (ALT enzima hepatoespecífica em cães), aspartato-aminotransferase (AST) e fosfatase alcalina (ALP) depende do tempo e quantidade da agressão ou até da necrose hepática.

Em Exames de Urina, Bilirrubina é freqüentemente encontrada (hiperbilirrubinemia é incomum). Hipoglicemia pode ser encontrada em cães de fase terminal da doença. Proteinúria é uma conseqüência dos danos renais causados pelos vírus que são detectados em urinálises, pois a concentração é superior a 50mg/dL. O aumento da permeabilidade glomerular resulta da localização do vírus no estágio inicial da infecção. (ETTINGER e FELDMAN 1997; GREENE 1998;). Resultados laboratoriais devem ser feitos com uma prévia discussão do resultado do exame clínico. Com uma confirmação antemortem, podem ser feitos Testes Sorológicos (Indireto Hemaglutinação de Anticorpo (IHA), Fixação de Complemento (FC, [CF em inglês]), imunodifusão e ELISA), Isolamento do vírus, e Imunofluorescência. Estes testes demonstram altos títulos virulentos em contrastes com os presentes em animais vacinados (GREENE, 1998).

7.2 ACHADOS DE NECRÓPSIA: Os achados de necropsia podem favorecer ao diagnóstico post-mortem. Lesões macroscópicas como hemorragia das serosas (peritônio visceral), fígado apresentando aumento de volume, amarelado - devido a metamorfose gordurosa e à necrose das células hepáticas - untuoso ao corte e friável, com exudato fibrinoso nas fissuras interlobares são comuns e patognomônicos .A maior alteração para se obter um diagnóstico definitivo é o edema e hemorragia da vesícula biliar. Observam-se focos branco-acinzentados no córtex renal. Pode-se encontrar também um edema tímico. Hemorragias na superfície serosa do estômago são achados comuns. Microscopicamente encontram-se corpúsculos intranuclear basófilo => Rubbarth, corpos de inclusão intranuclear característicos podem ser detectados nas células do parênquima hepático, mediante a coloração de lâminas contendo material de impressão "imprints". Esta é uma lesão patognomônica (ETTINGER e FELDMAN 1997; COELHO, 2002).


8. TRATAMENTO:
Nos cães gravemente doentes pode-se tornar necessárias transfusões sanguíneas, administração de dextrose a 5% em solução salina isotônica Intravenosa (IV). Nos cães com prolongamento no tempo de coagulação, a administração Subcutânea (SC) de fluidos pode ser perigosa. Deve-se administrar um antibiótico de amplo espectro para infecções bacterianas secundárias -tetraciclinas não devem ser utilizadas em cãezinhos devido causar descoloração nos dentes durante o desenvolvimento dentário -. Embora a opacidade corneana seja transitória, não requerendo nenhum tratamento, uma pomada oftálmica de atropina pode aliviar o espasmo ciliar doloroso. Se houver um turvamento corneano, deve-se proteger o cão contra luz brilhante. Geralmente são contra-indicados corticoesteróides sistêmicos para tratamento da opacidade corneana associada a HIC (MANUAL MERK, 2001). Devido a possibilidade de um estado de hipoglicemia, administração de glicose (0.5 mL/kg) IV pode ser conveniente. Administração parenteral de potássio e análise para correção de enzimas podem ajudar na insuficiência renal (GREENE, 1998; MANUAL MERK, 2001).


9. CONTROLE

9.1 IMUNIDADE MATERNAL: A duração da imunidade adquirida pela mãe ao filhote é dependente da concentração dos anticorpos da cadela. A meia-vida dos anticorpos recebidos é de 8.6 dias, e esse valor correlaciona com a meia-vida das globulinas caninas. Imunização para HIC normalmente obtém sucesso quando os títulos de anticorpos estiver abaixo de 100, que pode ocorrer nas primeiras 5 a 7 semanas de vida. O nível de anticorpos maternais no neonato decline nas 14º a 16º semanas (GREENE, 1998).

9.2 VACINAÇÃO: O melhor método de controle para HIC é a vacinação. Encontram-se disponíveis vacinas de vírus modificados e estas são com freqüência, combinadas com outras. As vacinas de AVC-1 atenuado produzem opacidade corneana uni ou bilaterais transitórias, e o vírus pode ser eliminado na urina. Utilizam-se, de preferência, vírus das cepas AVC-2 vivos e atenuados, que proporcionam proteção cruzada contra o AVC-1, pois têm tendência muito pequena de provocar opacidade corneana ou iveítes, e também não são eliminados na urina (MANUAL MERK, 2001).

 

Série Inicial de Aplicações 8 sm 12 sm

Intervalos

Comentários

Adenovírus

+ +

12 meses

Recomendada para todos os cães

Fonte: West Boulevard Veterinary Clinic

O início do esquema de vacinação deve-se ter início após o período de ação dos anticorpos maternais – nas primeiras 5 a 7 semanas de vida (títulos de anticorpos abaixo de 100).

9.3 PROFILAXIA

  • Isolamento
  • Higienização do ambiente (canis)
  • Filhotes ainda sem completar todas as vacinas, evitar contato com animais não vacinados.


10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFIASGREENE, C., Infectious Diseases of The Dog and Cat. 2º edição. WB Saunders Company. 1998;

BIRCHARD S., SHERDING R., Manual Saunders – Clínica de Pequenos Animais. Roca. 1998;

ETTINGER, S., FELDMAN, E., Tratado de Medicina Interna Veterinária. 4º edição. Volume 1. Manole. 1995;

COELHO, H., Patologia Veterinária. Manole. 2002;

Manual Merck de Veterinária. 8º edição. Roca. 2001;

COLES., Veterinary Clinical Pathology. 4º edição. WB Saunders Company. 1986;

http://puccamp.aleph.com.br/netcao/doencas.html#HEPATITE INFECCIOSA CANINA;

http://www.brisbio.ac.uk/

http://arilton.hypermart.net/doenca.htm;

http://www.nortes.com.br/emavet/doencas;

http://membros.aveirodigital.net/rottweiler/;

http://www.humaneservices.org/hepatitis.htm;

http://www.bartleby.com/65/in/infect-ca.html;