Efeitos Fisiológicos da Altitude
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A ACLIMATAÇÃO E A PREVENÇÃO DOS EFEITOS FISIOLÓGICOS NA ALTITUDE

Porto Alegre, Novembro de 2000.

 

AGRADECIMENTOS

Primeiramente gostaria de agradecer aos meus pais, meus maiores incentivadores. Ao professor Orlei Jr., noivo, companheiro de muitas escaladas e colega de profissão pelo incentivo à realização deste trabalho. E a todos os meus amigos, especialmente Silvana Brayer, pela incansável ajuda.

 

O montanhista não é somente um atleta. Precisa ter conhecimentos de história, geografia e cultura dos povos. Tem que saber como se forma uma nuvem, ter noções de direção dos ventos, de pressão atmosférica. E mais, deve ter conhecimentos de: mecânica, eletricidade, radiocomunicação, funcionamento de um gerador, fazer reparos, ...

Além disso deve, essencialmente, possuir noções de medicina para conseguir detectar problemas graves como um início de edema pulmonar.

Waldemar Niclevicz

 

01. INTRODUÇÃO

As enfermidades das alturas começaram a ser descritas, pela primeira vez, pelo padre jesuíta José de Acosta, no ano de 1590, durante sua estadia no Peru. Porém foi em 1922, que Carlos Monje, realizou um estudo exaustivo nos Andes Peruanos, verificando os verdadeiros efeitos da altitude sobre o sistema fisiológico.

O número de pessoas que buscam esportes na altitude tem aumentado surpreendentemente. Com isso, aumentou o número de pessoas que vem sofrendo sérios problemas com a altitude. A falta de informações, quanto às adaptações a altitude, conhecida por "Aclimatação", tem levado muitos atletas a sérios problemas de saúde, podendo levar a morte em poucos dias.

O principal problema enfrentado pelos atletas e, descobrir se a aclimatação diminuiria os efeitos fisiológicos sofridos pelo organismo, em altitudes de 2.000 a 7.000 metros, em indivíduos do sexo masculino, de 20 a 30 anos de idade.

O presente estudo teórico, tem como objetivo geral, verificar se a aclimatação diminuiria os efeitos fisiológicos, durante a permanência em altitudes elevadas.

Como objetivo específico, pretendo estudar os efeitos fisiológicos como o Mal Agudo de Montanha, o Edema Pulmonar de Altitude e o Edema Cerebral de Altitude, associando aos principais métodos de adaptações (aclimatação), os melhores meios de ascensão, tempo apropriado de ascensão e tempo de permanência na altitude.

As realizações deste estudo têm muitas contribuições para os atletas que praticam esportes ligados à altitude. São poucos, os que encontram uma única fonte bibliográfica que trate diretamente sobre os efeitos fisiológicos e a aclimatação adequada. Assim, através deste trabalho, poderemos contribuir, para aumentar as fontes de conhecimento e, diminuir os altos índices de atletas que ainda sofrem ao contato com a altitude.

A pesquisa bibliográfica é baseada nos principais autores, William Ganong, Brian Sharkey, Fox Foss, Mc Ardle, Stephen Gldberg, Guyton & Hall, Máximo Murcia além de outros.

 

02. A ALTITUDE

Mais de 40 milhões de pessoas vivem, trabalham e se divertem em regiões entre 2.000 e 7.000m acima do nível do mar. Na terra, essas elevações abrangem são consideradas grandes altitudes.

Apesar dos nativos das grandes altitudes serem auto-suficientes, vivendo em acampamentos permanentes a até 5.486m de altitude nas montanhas dos Andes e do Himalaia, a exposição prolongada de uma pessoa não aclimatada a essa altitude pode causar a morte por Hipóxia, até mesmo quando a pessoa permanece inativa. O desafio fisiológico até mesmo de uma altitude média se torna prontamente evidente durante a prática de qualquer atividade física.

Classificação da altitude em três escalas:

ALTA

2.500 a 3.500m

MUITO ALTA

3.500 a 5.500m

EXTREMAMENTE ALTA

Acima de 5.500m



Graydon & Hanson (1998, p.115) "Nos Estados Unidos, cerca de 1 milhão de pessoas por ano sobem ao Pikes Peak, Colorado( 4.300m), dentro de uma hora por trem, e milhares de outras fazem por alpinismo ou até mesmo correndo. Muitos milhões mais em todo mundo sobem as grandes altitudes com a finalidade de alpinismo, migração, turismo, negócios e excursões científicas e militares. Seja qual for a finalidade, muitos recém chegados às altitudes não tiverem tempo para se aclimatar ao desafio fisiológico causado pela pressão parcial reduzida do oxigênio nessas altitudes."

 

03. OS EFEITOS FISIOLÓGICOS DA EXPOSIÇÃO À ALTITUDE

À medida que subimos a altitudes elevadas, começam a surgir trocas na fisiologia em nosso organismo. Existem fatores atmosféricos que influenciam a aparição de problemas fisiológicos na altitude. O desafio da altitude resulta diretamente da menor PO2 ambiente e não da pressão barométrica total reduzida em si, nem de qualquer mudança nas concentrações relativas dos gases no ar inspirado.

3.1 PRESSÃO ATMOSFÉRICA

A pressão atmosférica ou pressão barométrica é a soma das pressões parciais de todos esses gases (nitrogênio, oxigênio, vapor de água, dióxido de carbono e gases inertes).

Ao nível do mar, a pressão barométrica é de 760 mm Hg. Se o ar deve ser movimentado para dentro e para fora dos pulmões, a pressão alveolar deve ser alternativamente menor e maior do que a pressão atmosférica. A 3.000m a pressão é de apenas 523 mm Hg; e a 15.000m e de 87 mm Hg. Embora o ar seco ao nível do mar e, numa determinada altitude contenha 20,93% de oxigênio, a PO2 ou densidade das moléculas de oxigênio no ar cai em proporção direta com a queda na pressão barométrica ao ascender para maiores altitudes (20% x 760 = 152mm Hg).

Assim sendo, ao nível do mar, a pressão de PO2 é de 150 mm Hg. Porém em torno dos 3.048m é de apenas 107 mm Hg. No ponto culminante do Monte Everest, a pressão barométrica fica em torno dos 250 mm Hg com uma pressão alveolar de 25 mm Hg. A quantidade de O2 que pode estar fisicamente dissolvida no sangue, é diretamente proporcional a PO2 do sangue. È essa redução na PO2 que desencadeia os ajustes fisiológicos imediatos à altitude, assim como o processo de aclimatação em longo prazo.

Quadro comparativo entre altitude e pressão.

Altitude(metros)

Pressão
barométrica(mm Hg)

PO2 em ar(mm Hg)

PO2 alveolar
(mm Hg)

Saturação
O2 arterial(%)

0

760

150

105

97

973

680

142

94

96

1.976

600

125

78

94

3.040

523

111

62

90

4.286

450

94

51

86

5.594

380

75

42

80

6.992

305

64

31

63

8.859

230

48

19

30


 

3.2 HIPÓXIA

Segundo Ganong (1993) as modificações na pressão de oxigênio no meio ambiente (e em vários componentes do corpo), são conhecidas como: Cascata de Transporte de Oxigênio. À medida que reduz a pressão de O2, o organismo encontra maiores dificuldades para conseguir oxigênio necessário para o seu metabolismo, este fenômeno é chamado Hipóxia.

HIPÓXIA: Diminuição da quantidade de oxigênio disponível

HIPÓXIA AGUDA: Hipóxia que se apresenta durante as 10 primeiras horas de exposição a altitude.

HIPÓXIA CRÔNICA: Deve-se a uma exposição prolongada a altitude.

A Hipóxia é definida como uma diminuição parcial de O2 no sangue arterial, ocasionando uma diminuição no número de moléculas de oxigênio disponível para o bom funcionamento celular, e ao sofrimento (degeneração) celular. A hipóxia devido à exposição a grandes altitudes é mais conhecida como Hipóxia hipóxica.

Alguns efeitos agudos importantes da hipóxia hipóxica, começando a uma altitude de cerca de 3.700m, são: sonolência, prostração, fadiga mental e muscular, cefaléia, náuseas e algumas vezes euforia. Esses efeitos progridem até um estágio de abalos e convulsões acima de 5.500m e terminam acima dos 7.000m na pessoa não aclimatada em coma.

Ganong (1997) afirma que um dos efeitos mais importantes da Hipóxia Hipóxica é a proficiência mental diminuída, que compromete o julgamento, a memória e o desempenho de movimentos motores discretos.

O ar se move por fluxo de volume de um local de alta pressão para outro de baixa pressão. Para o fluxo aéreo, nos dois sentidos, as duas pressões são relevantes, são a pressão atmosférica e a pressão alveolar.

3.3 A PO2 ALVEOLAR E A FIXAÇÃO DE O2 NA ALTITUDE

O dióxido de carbono e o vapor de água diminuem o oxigênio alveolar. Mesmo em altitudes elevadas, o dióxido de carbono é continuamente excretado a partir do sangue pulmonar para dentro dos alvéolos. Além disso, a água se vaporiza para dentro do ar inspirado, a partir das superfícies respiratórias. Portanto, estes dois gases diluem o oxigênio nos alvéolos, reduzindo assim a concentração do oxigênio.

A pressão do vapor de água, nos alvéolos, permanece a 47 mm Hg, enquanto a temperatura do corpo for normal, qualquer que seja a altitude. Na pessoa aclimatada, que aumenta sua ventilação cerca de 5 vezes, a diminuição é de até cerca de 7 mm Hg, devido a respiração aumentada. Até uma altitude de 3.050m, mesmo quando se respira ar, a saturação de oxigênio arterial permanece elevada até, pelo menos 90%. Acima de 3.000m a saturação de oxigênio arterial cai progressivamente até que seja de 70% a 6.100m, onde a PO2 alveolar cai para cerca de 40 mm Hg na pessoa não aclimatada, e bem menos em altitudes elevadas.

Observa-se apenas uma pequena mudança na saturação percentual da hemoglobina ao diminuir a PO2, até alcançar uma altitude de aproximadamente 3.048m. Por exemplo, a 1.981m a PO2 alveolar é reduzida de seu valor ao nível do mar de 100 mm Hg para 78 mm Hg, porém a hemoglobina ainda é aproximadamente 90% saturada com o oxigênio. Embora essa redução relativamente pequena na quantidade de oxigênio carreada pelo sangue possa exercer pouco efeito sobre o indivíduo em repouso ou até mesmo durante um exercício leve, as atividades aeróbias e intensas são sensíveis a altitude. As atividades de potência anaeróbia e de curta duração, não são afetadas negativamente na altitude.

Em elevações maiores como na Cordilheira dos Andes onde encontramos altitudes de até 7.000m, a menor carga (fixação / saturação) da hemoglobina com o oxigênio é evidenciada, prontamente, e a atividade física constante se torna difícil.

Uma exposição aguda a altitude de 4.300m, por exemplo, acarreta uma redução de 32% na capacidade aeróbia, em comparação com os valores ao nível do mar. Em altitudes acima de 5.182m, a vida permanente é quase impossível e a escalada de montanhas acima dessa elevação é feita habitualmente com o auxílio de equipamentos de oxigênio. Aos 5.486m, a saturação da hemoglobina é de 73%.

Como essa PO2 fica na exposição em declive na curva de dissociação da oxiemoglobina, qualquer aumento adicional na altitude (redução na PO2), acarretará uma redução relativamente grande na saturação da hemoglobina e na capacidade de transportar oxigênio.

Segundo Katch & Katch (1997) ao atingir altitudes elevadas, surgem modificações nas funções sensoriais e mentais em relação às mudanças na saturação do oxigênio arterial. Essas relações neurológicas variam de uma queda de 5% na sensibilidade à luz aos 1.524m, para uma queda adicional de 25% na sensibilidade à luz e uma diminuição de 30% na acuidade visual quando a altitude é duplicada para 3.048m, até uma deterioração de 25% nas tarefas de codificação e no simples tempo de reação aos 6.096m (Katch & Katch).

Ocasionalmente, uma pessoa que permanece muito tempo em altitudes elevadas desenvolve a doença das montanhas, na qual ocorrem os seguintes efeitos:

  • A massa eritrocitária e o hematócrito tornam-se excepcionalmente altos;
  • A pressão arterial pulmonar se eleva mais que a elevação normal observada durante a aclimatação;
  • O lado direito do coração aumenta excessivamente;
  • A pressão arterial periférica começa a cair;
  • Ocorre insuficiência cardíaca congestiva;

A morte sobrevém, freqüentemente, a não ser que a pessoa seja removida para uma altitude mais baixa. A causa desta seqüência de eventos é provavelmente tripla: primeiro a massa de eritrócitos torna-se tão grande que a viscosidade do sangue aumenta várias vezes; isto então diminui o fluxo sangüíneo para os tecidos de modo que o aporte de oxigênio começa também a decair.

Segundo, as arteríolas pulmonares tornam-se excepcionalmente vasoespásticas por causa da Hipóxia pulmonar. Isto resulta do efeito constritor vascular da hipóxia que normalmente opera para desviar o fluxo sangüíneo dos alvéolos com oxigenação baixa para os de alta oxigenação. Mas como todos os alvéolos estão num estado de baixa oxigenação, todas as arteríolas entram em constrição, a pressão arterial pulmonar sobe excessivamente e o lado direito do coração entra em falência.

Terceiro, o espasmo arteriolar pulmonar desvia grande parte do fluxo sangüíneo para os vasos pulmonares não-alveolares, causando assim um excesso de derivação do fluxo sangüíneo para onde o sangue não é oxigenado; isto agrava ainda mais o problema.

Alguns desses problemas são transitórios e ligeiros e se dissipam dentro de poucas horas ou de alguns dias, dependendo da rapidez de ascensão e do grau de exposição; outras complicações médicas podem ser graves e podem comprometer muito a saúde global e a segurança do indivíduo. Três condições médicas geram problemas potenciais para os que ascendem a uma grande altitude

  • MAL AGUDO DAS MONTANHAS (MAM), ou também conhecido por alguns autores como: DOENÇA AGUDA DAS MONTANHAS (DAM), a mais comum das enfermidades;
  • EDEMA PULMONAR DAS GRANDES ALTITUDES (EPAE- HAPE, de high-altitude pulmonary edema).
  • EDEMA CEREBRAL DAS GRANDES ALTITUDES (ECAE- HACE, de high-altitude cerebral edema.

3.4 MAL AGUDO DAS MONTANHAS

Apesar da defesa rápida do organismo contra o estresse da altitude, aproximadamente 50% das pessoas que vivem ao nível do mar, sofrem algum grau do MAL AGUDO DAS MONTANHAS, quando se deparam rapidamente a altitudes moderadas (2.500 a 4.000m). Essa condição relativamente benigna é observada mais freqüentemente nas pessoas que sobem rapidamente até uma grande altitude sem serem beneficiadas por uma aclimatação gradual e progressiva em altitudes menores.

Denomina-se Mal de Altura, a um conjunto de sintomas inespecíficos que pode lembrar uma gripe, uma intoxicação por monóxido de carbono ou uma ressaca. O Mal de Altitude pode apresentar diferentes graus de gravidade, e é importante distinguir este transtorno de outras patologias muito mais graves, que podem ser um EPAE ou ECAE.

Esses sintomas, que regridem habitualmente dentro de poucos dias, incluem cefaléia (sintoma mais freqüente devido provavelmente à dilatação dos vasos sangüíneos cerebrais) e que persiste mais à noite e não para com acetil salicílico (aspirina) ou paracetamol, apatia, falta de coordenação, inchaço em torno dos olhos ou do rosto, tosse, pressão no peito, respiração irregular, perda de apetite, vertigens, náuseas, constipação, vômitos, débito urinário deprimido (até mesmo com uma hidratação adequada), visão turva, insônia (não é indicado o uso de medicamentos para dormir, pois esses diminuem a Freqüência respiratória e pode aumentar a hipóxia durante o sono) e fraqueza generalizada (Nãcle, Juan & Bohórquez).

Segundo a Associação Francesa de Alpinismo – ARPE (Association Pour la Recherche en Pysiologie de L’ Environement), uma pessoa em cada duas é afetada pelo MAM, e uma em cada cem pode apresentar complicações graves em forma de edema pulmonar ou cerebral.

Sintoma

Percentual

Cefaléia

96% dos casos

Insônia

70% dos casos

Perda do apetite

38% dos casos

Náuseas

35% dos casos


 

Os sintomas se amenizam habitualmente dentro de 4 a 12 horas após alcançar uma grande altitude e costumam regredir no transcorrer da primeira semana. Algumas pessoas terão sintomas com apenas 2.500m, porém a maioria desses sintomas torna-se prevalente em altitudes acima dos 3.000. A ascensão rápida para os 4.200m, produzirá quase certamente alguma forma de MAM.

De acordo com Bohórquez & Nãcle (1998, p.95) "Para tratar os problemas relacionados com as grandes altitudes alguns atletas, utilizam alguns dos vários medicamentos como: Acetazolamida (Diamox - 125mg, 2x ao dia) ou Dexametasona (4mg, 4x ao dia), durante os dias prévios da ascensão, afim de prevenir o Mal de Altura. Um dos possíveis efeitos secundários destes medicamentos estão o formigamento nas extremidades, zumbido nos ouvidos e troca no sentido do gosto. São contra-indicado as pessoas alérgicas a sulfamidas."

O atleta poderá realizar um controle do seu estado de saúde através da pontuação clínica estabelecida apartir dos sinais observados:

Sinais

Pontuação

Dores de cabeça

1 ponto

Náuseas e perda de apetite

1 ponto

Insônia

1 ponto

Vertigem

1 ponto

Cefaléias resistentes a aspirina

2 pontos

Vômitos

2 pontos

Dispnéia em repouso

3 pontos

Fadiga anormal

3 pontos



Pontuação

Definição do Mal de Altura

Tratamento

1 a 3

Ligeiro

Aspirina e Paracetamol

4 a 6

Moderado

Aspirina e repouso

+ de 6

Grave

Descer


 

3.5 EDEMA PULMONAR DAS GRANDES ALTITUDES

Mellion (1994) diz que por razões desconhecidas, cerca de 2% das pessoas que permanecem por pouco tempo em altitudes acima de 3.048m experimentam uma complicação grave do Mal Agudo das Montanhas que recebe a designação de Edema Pulmonar das Grandes Altitudes (HAPE). Em geral os sintomas da HAPE se manifestam dentro de 12 a 96 horas após uma ascensão rápida para as grandes altitudes. Nessa condição, que pode ameaçar a vida, acumula-se líquido nos pulmões.

A Hipóxia grave faz com que as arteríolas pulmonares se contraiam fortemente, mas esta constrição é muito maior em algumas regiões que noutras, de modo que cada vez mais sangue é forçado, para cada vez menos vasos pulmonares que ainda não entraram em constrição. O resultado postulado, é que a pressão capilar nestas áreas dos pulmões se torne especialmente altas, ocasionando o edema (Guyton & Hall).

A pressão capilar pulmonar (de aproximadamente 7 mm Hg), é baixa em comparação com a pressão capilar mais alta (17 mm Hg), observada nos tecidos periféricos. Nos pulmões, a pressão do líquido intersticial é levemente mais negativa do que no tecido subcutâneo periférico. Os capilares pulmonares são relativamente permeáveis às moléculas de proteínas, de modo que a pressão osmótica colidal dos líquidos pulmonares é de aproximadamente 14 mm Hg.

Segundo Guyton (1996) as paredes alveolares são extremamente finas e o epitélio que recobre as superfícies alveolares são tão frágeis que se rompem a qualquer pressão positiva (pressão supra-atmosférica), nos espaços intersticiais, o que permite passagem de líquido dos espaços intersticiais para o interior dos alvéolos.

Entre as células do epitélio alveolar, existe um pequeno n° de aberturas, podendo, através delas, passar grandes quantidades de água, e, até mesmo grandes moléculas protéicas.

O mecanismo que o organismo mantém para evitar que este líquido passe para os pulmões é sabendo que os capilares pulmonares e o sistema linfático pulmonar normalmente mantêm nos espaços intersticiais uma pressão levemente negativa, então ficará claro que sempre que surgir excesso de líquidos nos alvéolos, tal excesso será de pronto sugado mecanicamente para o interstício pulmonar através das pequenas aberturas existentes entre as células do epitélio alveolar.

O excesso de líquidos é então carregado através dos linfáticos pulmonares ou absorvidos pelos capilares pulmonares. Assim, em condições normais, os alvéolos são mantidos "secos", à exceção de uma pequena quantidade de líquido que emana do epitélio e recobre a superfície interna dos alvéolos, mantendo-os úmidos.

Qualquer fator que faça com que a pressão do líquido intersticial pulmonar passe da negativa para a positiva, provoca uma súbita inundação dos espaços intersticiais e dos alvéolos pulmonares, com grande quantidade de líquido livre. Usualmente o volume de líquido intersticial pulmonar não consegue aumentar em mais de 50% (o que representa de 100ml de líquido), antes que a membrana epitelial dos alvéolos se rompa e o líquido comece a fluir dos espaços intersticiais para dentro dos alvéolos. A causa disto, reside simplesmente na pequena força tensional do epitélio alveolar, mesmo a pressão mais leve (positiva), nos líquidos dos espaços intersticiais, provavelmente até mesmo apenas 1 mm Hg, parece causar a imediata ruptura desse epitélio.

Por isso, exceto nas formas mais brandas de edema pulmonar, o líquido sempre passa do interstício para dentro dos alvéolos. Se esse edema for suficientemente intenso, pode causar morte por Asfixia.

No início, os sintomas não parecem ser excessivamente graves (fadiga geral, dispnéia aos esforços, tosse persistente seca e irritante sem produção de muco e sem infecção pulmonar preexistente, dor ou pressão na área subesternal, cefaléia e náuseas). Isso resulta em edema pulmonar e retenção de líquido pelos rins. O exame do tórax revela sons sibilantes e estridentes conhecidos como estertores.

Caso possa ouvi-los com um estetoscópio, escutaremos um som crepitante devido o aumento de líquidos nos pulmões. Se permitindo o avanço do edema pulmonar, acabará se ouvindo sons burbujeantes durante os esforços respiratórios, inclusive sem o uso do estetoscópio. Os lábios e as unhas podem adquirir uma tonicidade escura ou azulada (Cianose), refletindo uma incapacidade do organismo para transferir O2 a circulação arterial, devido a barreira líquida nos tecidos pulmonares e ocasionando febre.

Ao agravar-se a tosse pode dar lugar a uma expectoração abundante, de cor rosada e aspecto espumoso. Aparece ansiedade e agitação, além de uma sudorese intensa e aumento da Freqüência cardíaca.

Até mesmo nos indivíduos bem aclimatados, HAPE pode manifestar-se após um esforço intenso em elevações acima de 5.486m, e, provavelmente, está relacionado a aumentos na pressão da artéria pulmonar. O melhor tratamento para prevenir a incapacidade profunda ou até mesmo a morte induzida por HAPE consiste na descida imediata para uma altitude menor em uma maca, pois qualquer aumento na atividade física em virtude da deambulação pode potencializar as complicações.

Trata-se do aumento da pressão intracraniana podendo evoluir para o coma e, finalmente a morte. Os sintomas iniciais são semelhantes aos de MAM e HAPE, porém eventualmente tornam-se mais graves. O Edema Cerebral de Altitude ocorre em aproximadamente 1% das pessoas expostas a altitudes em geral acima de 2.700m.

Ganong (1993) afirma que o edema cerebral é devido provavelmente a vasodilatação cerebral e uma pressão hidrostática capilar elevada, causada pela Hipóxia. A dilatação arteriolar aumenta a pressão capilar, que, por sua vez extravase o líquido cerebral adicional para dentro das estruturas cerebrais, o que irá exacerbar os sintomas do mal das montanhas e aumentar as atividades do sistema nervoso simpático. Como o diagnóstico numa grande altitude é difícil, a descida imediata para uma menor elevação é imperativa para poder realizar o tratamento nesta condição.

Os sintomas desta enfermidade mortal incluem: perda da coordenação (ataxia) envolvendo os músculos do tronco, alterações da visão podendo surgir pequenas hemorragias oculares, disfunção vesical, paralisia em um lado do corpo, reflexos precários, dor de cabeça insuportável (que não melhora com aspirina), falta de energia, dificuldade de permanecer em pé, vertigens, fadiga extrema, vômitos em forma de jato. De forma benigna o excesso de líquidos no organismo pode antes manifestar-se também por inchaços, principalmente no rosto, além de transtornos de comportamento. A ataxia pode confirmar-se mediante um teste de coordenação que consiste em pedir que a pessoa caminhe alguns metros em linha reta como se estivesse contando os pés. Durante os testes podem aparecer náuseas e vômitos violentos.

Fox (1991, p. 335) "A medida que o edema cerebral evolui( esta evolução pode ser rápida), a vitima mostra confusão mental e começa a apresentar problemas neurológicos, como pode ser a perda do controle muscular em um lado do corpo. O edema cerebral pode aparecer em altitudes não exclusivamente elevadas ( 3.000m). A descida é fundamental para a sobrevivência. Uns dos medicamentos utilizados é o Decadron."

Pode ser administrado oxigênio de forma continua, prednisona (100mg, seguido de 50mg de (8-12h) e acetazolamida- Edemox). Outro grande fator é a câmara hiperbárica.

Os principais efeitos fisiológicos causados pela exposição à altitude.

 

MAM

EPAE

ECAE

Localização

Acima dos 2.400m.

Geralmente acima dos 3.050m.

Acima dos 3.660m.

Ocorrência

1 a 2 dias após a subida.

3 a 4 dias após a subida ou possivelmente mais tarde.

4 a 7 dias após a subida ou possivelmente mais tarde.

Sintomas

Cefaléia, letargia, distúrbios do sono, anorexia, náuseas.

Dispnéia em repouso, debilidade, tosse.

Cefaléia intensa, confusão e alucinações.

Sinais

Leve taquicardia, possível edema periférico.

Taquicardia, taquipnéia, febre baixa, cianose.

Ataxia, sinais neurológicos e visuais, hemorragia letiniana.

 

 

04. A ACLIMATAÇÃO

Durante os anos em que os alpinistas tentaram escalar os picos mais altos do mundo, sabia-se que eram necessários semanas para que os habitantes do nível do mar se adaptassem a altitudes sucessivamente mais elevadas.

Katch & Katch (1997) "As respostas adaptativas na fisiologia e no metabolismo que aprimoram a tolerância individual à hipóxia da altitude são denominadas coletivamente de aclimatação."

Cada ajuste a uma altitude mais elevada é progressivo e a aclimatação plena leva tempo. O ajuste bem-sucedido a uma altitude média representa um ajuste apenas parcial para uma elevação maior. Entretanto, os que residem em altitudes moderadas mostram menores reduções na capacidade fisiológica e na realização dos exercícios, em comparação aos habitantes das planícies, quando ambos os grupos se transferem para uma grande altitude.

 

Quadro de respostas fisiológicas dos mecanismos de aclimatação.

Resposta

Mecanismo

Tempo

Ventilação.

Estimulação por hipóxia.

Imediata e progressiva.

Troca de gases nos pulmões.

Melhor competição da ventilação e da perfusão para otimizar o transporte do oxigênio do ar para o sangue.

Imediata.

Sangue.

Aumento das hemácias para aumentar a capacidade de transporte de O2. Alteração da curva de dissociação da Oxigeniohemoglobina.

Dias a semanas.

Tecidos.

Aumento da densidade capilar. Aumento da densidade mitocondrial.

Provavelmente meses.

 

4.1 ACLIMATAÇÃO À BAIXA PO2

Uma pessoa que permaneça em altitudes elevadas por dias ou anos, torna-se mais aclimatada à baixa PO2, permitindo a esta pessoa, trabalhar em altitudes ainda mais elevadas sem que sofra os efeitos hipóxicos causados pela altitude.

Após alcançar elevações de 2.300m e até maiores, ocorrem ajustes fisiológicos rápidos destinados a compensar o ar mais rarefeito e a concomitante redução na PO2. As mais importantes dessas respostas são:

  • Um aumento no impulso respiratório, que resulta em uma hiperventilação relativa.
  • Um aumento no fluxo sangüíneo tanto em repouso quanto durante o exercício submáximo. Isso levará ao aumento no número de hemácias.
  • Aumento da capacidade de difusão dos pulmões.
  • Vascularização aumentada dos tecidos
  • Capacidade aumentada das células para utilizar oxigênio apesar da baixa PO2.

 

05. RESPOSTAS IMEDIATAS NA ACLIMATAÇÃO

5.1 HIPERVENTILAÇÃO

Guyton (1996, p.496) "A resposta imediata mais importante e nítida do nativo das planícies ao ficar exposto a uma grande altitude é a hiperventilação desencadeada pela redução na PO2 arterial".

Uma vez iniciado este "impulso hipóxico", aumenta durante as primeiras semanas e pode continuar elevado por um ano ou mais durante uma permanência prolongada na altitude.

Receptores especiais sensíveis a uma pressão de oxigênio reduzida estão localizados na croça da aorta e na ramificação das carótidas do pescoço. Qualquer redução significativa na PO2 arterial, que ocorre a uma altitude acima de aproximadamente 2.000m estimula progressivamente esses quimiorreceptores periféricos até um máximo de 65% acima do normal. Esse aumento imediato faz com que sejam exaladas grandes quantidades de dióxido de carbono, reduzindo a PCO2 e elevando o pH dos líquidos corporais.

Normalmente a maior quantidade de dióxido de carbono é carreada na forma de ácido carbônico (H2CO3). Esse ácido relativamente fraco se dissocia prontamente em H+ e HCO3-, que a seguir são transportados para os pulmões pela circulação venosa. Nos capilares, H+ e HCO3- voltam a combinar-se para formar H2CO3, que a seguir forma carbono e água; a seguir forma dióxido de carbono se difunde do sangue para os alvéolos. Uma redução no dióxido de carbono, como ocorre na hiperventilação, acarreta uma subida do pH (em virtude de uma perda de ácido carbônico) e o sangue torna-se mais alcalino.

Como a hiperventilação é uma resposta normal e persistente da exposição á altitude, deverão ser feitos ajustes durante a aclimatação para minimizar os "efeitos colaterais" concomitantes que afetam o equilíbrio ácido-base. Esse controle da alcalose respiratória é efetuado lentamente á medida que os rins excretam bases (HCO3-) através dos túbulos renais. Por sua vez, a restauração de um pH normal aumenta a "responsividade" do centro respiratório, permitindo dessa forma que a ventilação alcance níveis mais altos para se ajustar a hipóxia da altitude.

Ambas essas alterações inibem o centro respiratório e, desta maneira, opõe-se ao efeito da baixa PO2 de estimular os quimiorreceptores respiratórios. Durante até cinco dias subseqüentes, esta inibição se desvanece, permitindo que o centro respiratório responda com toda força aos estímulos quimioceptores resultantes da hipóxia.

Acredita-se que a causa desta inibição que se desvanece seja, sobretudo uma redução da concentração do íon bicabornato no líquido cefalorraquidiano bem como nos tecidos corporais. Isto diminui o pH dos líquidos que cercam os neurônios quimiossensíveis do centro respiratório, aumentando assim a atividade do centro.

Por sua vez, isso modifica a atividade inspiratória de forma a aumentar a ventilação alveolar, o que produz um aumento da Po2 alveolar na direção do nível que vigora no ar ambiente quanto maior a hiperventilação, maior será a semelhança entre ar alveolar e ar inspirado. O aumento na Po2 alveolar observado com a hiperventilação facilita a captação de oxigênio nos pulmões e proporciona a primeira linha rápida de defesa contra a Po2 ambiente reduzida na altitude.

Se esta pessoa permanecer em uma altitude muito elevada, por vários dias, a ventilação gradativamente aumenta até uma média de cinco vezes o normal (400% acima do normal).

Os montanheses que respondem com um poderoso impulso ventilatório hipóxico podem realizar tarefas relacionadas ao exercício muito melhor em altitudes extremas e conseguem alcançar uma altitude maior, em comparação com outros alpinistas que mostram uma resposta ventilatória bastante abafada quando expostos a uma Po2 ambiente reduzida.(Katch& Katch).

5.2 O SISTEMA CARDIOVASCULAR

Nos estágios iniciais da adaptação à altitude, a freqüência cardíaca submáxima e o débito cardíaco podem aumentar 50% acima dos valores que vigoram ao nível do mar, enquanto o volume de ejeção sistólica do coração se mantém inalterado. Como o custo de em oxigênio do exercício na altitude não é diferente daquele do nível do mar, o aumento do fluxo sangüíneo na altitude compensa parcialmente a redução de oxigênio no sangue arterial. Por exemplo: Um aumento de 10% no débito cardíaco em repouso ou no exercício moderado compensa uma redução de 10% na saturação do oxigênio arterial, pelo menos em termos do oxigênio total circulado através do corpo (Katch&Katch).

Outra adaptação circulatória é um aumento do número de capilares nos tecidos, o que é chamado de capilaridade aumentada. Isso ocorre principalmente em animais nascidos e criados em altitudes, porém menos em animais que mais tarde foram expostos à altitude. Nos tecidos ativos expostos a hipóxia, o aumento da capilaridade é especialmente acentuado.

 

06. RESPOSTAS EM LONGO PRAZO NA ACLIMATAÇÃO

6.1 ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS

Guyton (1996) afirma que a hipóxia é o estímulo principal causador do aumento da produção de hemácias. A PO2 arterial reduzida nas grandes altitudes estimula também um aumento no número total de hemácias, condição essa denominada POLICITEMIA (aumento na capacidade sangüínea de transportar oxigênio).

Essa resposta é imediata por um hormônio estimulante das hemácias ERITROPOETINA, que é liberado pelos rins e por outros tecidos dentro de 15 horas após a ascensão a uma grande altitude. Qualquer acúmulo adicional de hemácias faria aumentar a viscosidade do sangue e, provavelmente, restringiria o fluxo sangüíneo e a difusão de oxigênio para os tecidos.

Geralmente na aclimatação completa ao oxigênio baixo, o hematócrito sobe de um valor normal de 40 a 45 até cerca de 60 em média, com um aumento médio da concentração de hemoglobina de um normal de 15 g/dl até em torno de 20 g/dl.

O volume sangüíneo costuma aumentar de 20 a 30% resultando num aumento total da hemoglobina circulante de 50% ou mais. Este aumento da hemoglobina e do volume sangüíneo é lento, quase não tendo efeito mesmo depois de duas semanas, atingindo a metade do seu desenvolvimento em um mês.

6.2 PARADOXO DO LACTATO

O estabelecimento do equilíbrio ácido-base com a aclimatação se processa às expensas de uma perda da reserva alcalina absoluta. Assim sendo, apesar de as vias do metabolismo anaeróbio não serem afetadas nas grandes altitudes, a capacidade de tamponamento do sangue para ácidos diminui grandemente e o nível crítico para acúmulo de metabólitos ácidos é reduzida. Uma depressão geral na concentração máxima de lactato se torna particularmente evidente durante o exercício máximo em altitudes superiores a 4.000m.

Katch & Katch (1997), diz que o fenômeno de uma concentração máxima reduzida de lactato durante o exercício realizado com grandes grupos musculares após a aclimatação à altitude foi denominado o "paradoxo do lactato". Esse termo é utilizado para identificar uma aparente contradição fisiológica, pois a hipoxemia associada com as grandes altitudes deveria promover o acúmulo de lactato (Katch&Katch).

A menor quantidade de lactato sangüíneo foi atribuída em parte a uma produção reduzida das catecolaminas responsáveis pela mobilização da glicose (com a glicose sendo o único macronutriente anaeróbio) durante o exercício em grandes altitudes. As reduções nos níveis máximos de lactato durante a hipóxia crônica foram atribuídos a um menor impulso do sistema nervoso central.

 

07. A ACLIMATAÇÃO E A PREVENÇÃO DOS EFEITOS FISIOLÓGICOS

O melhor método para combater os transtornos causados pela altitude, é preveni-los, e a melhor maneira de preveni-los e subir progressivamente e lentamente. O organismo necessita de tempo para aclimatar-se a cada dia. Deve-se evitar muitos esforços até que te encontres bem aclimatado, e de programas de descanso após dias de esforços duros.

Cada pessoa reage de forma diferente ao contato com a altitude. Atletas com baixo nível de hemoglobina podem beneficiar-se do treinamento em altitude, mas outros não se saem melhor, talvez porque o treinamento em altitude seja mais estressante ou porque sua hemoglobina que já é alta seja elevada mais ainda, tornando o sangue mais viscoso e difícil de bombear ao nível do ar.

Após a revisão teórica dos diversos assuntos pertinentes ao nosso estudo, podemos relacionar a aclimatação e os efeitos fisiológicos, através de três tópicos, que se forem cuidados, amenizariam os efeitos que tanto afetam nossos atletas:

  • Métodos de ascensão;
  • Velocidade de ascensão;
  • Tempo de permanência em diferentes altitudes.

7.1 MÉTODOS DE ASCENSÃO

Antes de iniciar alguma atividade física em um ambiente de alta montanha, informe-se das principais rotas de ascensão (trilhas, caminhos ou algum meio de transporte), as altitudes a serem superadas durante o percurso e locais de paradas ou acampamentos.

Após o levantamento das informações sobre a montanha, siga o método de ascensão, descrito abaixo, que poderá ajudá-lo a prevenir os efeitos da altitude e conduzi-lo a uma aclimatação adequada:

  • O ideal é que para se realizar uma escalada de 7.000m, o primeiro acampamento chamado de "campo base", se encontre a aproximadamente 4.800 e 5.200m acima do nível do mar.
  • As subidas lentas e graduais são chaves importantes para evitar a EPAE e a ECAE. Elas geralmente ocorrem em altitudes mais elevadas do que a DAM (3.050 a 4.270m).
  • O ideal para ascensão é o chamado "dente de serra", favorável à aclimatação, que previne os esforços excessivos, com períodos de repouso.
  • Subidas em linhas retas levam a grandes esforços, e o ideal em grandes altitudes é uma perfeita aclimatação, para a prevenção de possíveis efeitos fisiológicos desagradáveis que podem acabar com toda a atividade.
  • Não é importante o ponto mais alto alcançado durante a ascensão, mas sim a altitude que descemos para descansar ao final do dia (fase de repouso=noite). O organismo se aclimata mais rapidamente estimulado pelo esforço e se recupera com mais facilidade em altitudes mais baixas.
  • Duas ou três vezes por semana passe a noite extra no mesmo ponto da noite anterior.
  • Para que ocorra uma melhor adaptação, o atleta deverá definir até que altitude ele atingirá naquele dia e a noite retornar ao acampamento anterior.
  • Aos poucos se ganhará altitude de forma gradual e sem exigir demasiadamente do organismo.

 

7.2 VELOCIDADE DE ASCENSÃO

Quanto mais devagar for a subida, mais tempo o organismo terá para se adaptar as novas diferenças de pressão.

Conforme a altitude, o número de semanas necessárias para uma boa aclimatação pode variar.

Altitude

Tempo

2.700 metros

7 a 10 dias

3.600 metros

15 a 21 dias

4.500 metros

21 a 25 dias



Estes dados podem variar de indivíduo para indivíduo.

  • Não ascender demasiadamente rápido sobre os 3.500m, a média e de 300 a 500m/dia, para uma atividade de mais de três dias de ascensão. E mais de 700m/dia se atividade for menos exigente.
  • Na hora de subir, todo o anterior pode resumir-se em: não subir rápido, evitar excesso de peso e evitar subidas muito altas rápido demais.
  • É grande o número de pessoas que com a ansiedade de atingir altas altitudes rápido demais, sofrem de algum dos efeitos fisiológicos indesejáveis.
  • Cada atleta deve respeitar o seu limite, realizando ascensões dentro de suas capacidades físicas e psicológicas, prestando muita atenção às alterações e quaisquer mal-estar que possa surgir.
  • Determine um ritmo de ascensão apropriada para cada atleta, não tente seguir a velocidade de outras pessoas.

 

7.3 TEMPO DE PERMANÊNCIA

  • O tempo inicial de aclimatação, o tempo joga a nosso favor, onde a fase é ótima, entre uma a quatro semanas, onde o organismo pode realizar o máximo de esforços no estado de boa forma.
  • São necessárias cerca de duas semanas para se adaptar a altitudes de até 2.300m. Daí em diante, para cada aumento de 610m de altitude, será necessário mais uma semana para adaptação plena, até uma altitude de aproximadamente 4.600m.
  • Para os atletas que desejam competir em uma grande altitude, o treinamento intensivo deveria começar logo que possível durante o período de aclimatação.
  • O ideal é permanecer menos de 3 semanas acima dos 4.000m
  • Depois da fase de aclimatação, vem a fase de degradação que joga contra nós. Nesta fase nosso organismo caminha decrescentemente e os esforços diminuem.
  • Não permanecer muito tempo em altitudes extremas. Apartir dos 6.500m o organismo não consegue mais se recuperar mesmo em repouso.
  • Acima dos 5.500 a 6.000m quase todas as pessoas começam a deteriorar-se fisicamente ao longo de sua aclimatação.
  • Qualquer esforço físico (como caminhar), diminui apartir dos 1.500m a razão de 1% a cada 100m, e este aumenta muito com o passar de uma semana e com o aumento da altitude.
  • A performance psicológica diminui 50% aos 7.000m.
  • Apartir dos 6.500m a fadiga aumenta e a insônia é freqüente, assim como diminui o apetite e transportar peso se torna algo horrível.

Além de todos estes cuidados, existem outros também importantes que podem prevenir futuros problemas com a falta de aclimatação. São eles:

  • Uma adequada hidratação evita os problemas de altitude. Os níveis de hidratação devem estar sempre acima do normal. Depois de longas caminhadas, o ideal e beber de 3 a 4 litros de líquido por dia, afim de compensar as perdas hídricas que aumentam consideravelmente com a altitude e o exercício.
  • Mesmo se o atleta não sentir sede deve-se obriga-lo a beber muito líquido, pois ajuda na melhor aclimatação. É importante também purificar a água e se for necessário derreter neve, deve-se ter cuidado com a falta de sais minerais que podem levar a diarréias. Por isso é importante misturar com a água do derretimento da neve, sucos, chás ou mesmo soro fisiológico.
  • Devido ao ambiente extremamente seco e frio, não se sente a perda de líquidos pelo suor.
  • As dietas pobres em sal e ricas em carboidratos são bem mais toleradas durante o início de permanência nas altitudes.
  • Altos índices de gordura reduzem a saturação do oxigênio arterial.
  • Os complementos ideais para aclimatação são aqueles ricos em hidratos de carbono.
  • Em geral uma dieta rica em carboidratos tende a:
    • ü Aprimorar a tolerância às altitudes.
    • ü Reduzir a intensidade do Mal das Montanhas
    • ü Melhorar as quedas no desempenho físico durante os primeiros estágios da exposição a uma determinada altitude.
  • Alimentos mais pastosos como sopas ou purês são mais bem aceitos pelo organismo enquanto esse sofra com a falta de apetite.
  • A alimentação deve ser adequada. Recomenda-se ingerir de 3.500 a 4.000 calorias diárias em caminhadas de aproximação e 5.000 calorias/dia nas subidas.
  • Deve-se controlar a quantidade de urina e sua coloração. A urina deve ser abundante e clara; urina escura indica insuficiente ingesta de líquidos.
  • É preferível evitar a ingesta de bebidas de álcool, pois estes favorecem a desidratação.
  • Pode-se prevenir os edemas empregando tratamento com ação diurética (aumentar secreção urinária para eliminar o excesso de líquidos), como o uso de Acetazolamida.
  • A quantidade de radiação ultravioleta (RUV), mesmo absorvida pela ozonosfera e, tanta mais importante quando mais se sobe. A quantidade de RUV recebida aumenta, em torno médio de 3% a 4% por cada 100m que aumenta. Por isso um filtro solar de proteção 30 é o ideal para prevenir problemas com a radiação.
  • Para as pessoas que pretendem ascender a grandes altitudes é não dispõem de tempo nem ou de montanhas próximas, é importante submeter-se a treinamentos aeróbios como corridas, ciclismo ou caminhadas em terrenos irregulares e de preferencia morros acima. Apesar destes treinamentos não garante que o atleta não sofrerá dos efeitos fisiológicos.

 

08. CONCLUSÃO

Após a realização deste estudo, podemos concluir que, os principais efeitos fisiológicos causados pela altitude e que são considerados os mais fatais, estão diretamente relacionados com a falta de informações e despreparo dos atletas ligados a esportes em altitudes. Muitos desses efeitos fisiológicos poderiam ser amenizados e até evitados se os atletas possuíssem mais informações dos métodos apropriados de ascensão, velocidade de ascensão e tempo máximo de permanência em cada altitude.

Conforme se atinge altitudes mais elevadas, o organismo sofre com as novas adaptações. A queda da pressão do oxigênio é o principal desencadeador dos principais efeitos fisiológicos, e para isso precisa-se de tempo para suportar essa nova fase. Uma aclimatação correta previne esses efeitos desagradáveis, mas para isso é necessário ter conhecimento dos principais meios de adaptações descritos anteriormente no presente trabalho.

Após constatarmos a aclimatação adequada, respeitando velocidade de ascensão de 300 a 500 metros/dia, com paradas para pernoite em altitudes mais baixas, permanecer pouco tempo em altitudes acima dos 6.000 metros, pode-se prevenir muitos dos efeitos fisiológicos indesejáveis. O ideal é que primeiro o atleta se informe a respeito da altitude a realizar suas atividades, as rotas ou caminhos a seguir, as diferentes altitudes durante o percurso, assim como tempo que necessitará para o total de atividade. Controlar, durante a fase de adaptação, como o seu corpo responde a cada altitude alcançada, dando muita atenção à hidratação e alimentação adequadas.

Cada vez mais, o homem se supera, e cada vez mais pessoas rompem barreiras, superando altitudes acima dos 8.000 metros, e sem auxílio de oxigênio artificial. Para isso, basta respeitar as principais regras de ascensão e o seu próprio organismo, sabendo a hora de progredir, mantendo um ritmo particular, e saber a hora certa de parar e retornar.

Uma aclimatação apropriada diminui mais de 50% os índices de aparecerem os efeitos fisiológicos, como o Mal agudo das montanhas e os edemas pulmonar e cerebral.

Acredito que com a realização deste estudo, poderemos de alguma forma contribuir como uma fonte de informação e de consulta bibliográfica, para que os atletas que futuramente enfrentarão altitudes entre 2.000 a 7.000m, possam de alguma maneira se preparar e precaver dos possíveis efeitos fisiológicos, assim como diagnosticar se alguém está com um possível mal das montanhas e o que deverão fazer para ajudá-lo. O principal objetivo, além de estudar esses efeitos, está na possibilidade de contribuir para que, futuramente, possamos diminuir o número de mortes ainda causadas pela má adaptação a altitude.

 

09. BIBLIOGRAFIA

Livros:

FOSS, Fox. Bases Fisiológicas da Ed. Física e dos Desportos. 4° edição. 1991.

VANDER, Arthur & SHERMAN, James & LUCIANO, Dorothy. Fisiologia Humana. Makron Books do Brasil. 1993.

GANONG, W. Fisiologia Médica. Hall do Brasil. 1993.

MELLION, M. Segredos em Medicina Desportiva. Artes Médicas. 1994.

HALL & GUYTON. Tratado de Fisiologia Médica. 9° edição. 1996.

GOLDBERG. Descomplicando Fisiologia. Artes Médicas. 1997.

KATCH & KATCH, Mc. Fisiologia do Exercício. 3º edição. 1997.

SHARKEY, Brian. Condicionamento Físico e Saúde. Artes Médicas. 1998.

GRAYDON, Don & HANSON, Kurt. Montañismo la Libertad de las Cimas. Ediciones Desnivel. 1998.

BOHÓRQUEZ, Antonio & NÃCLE, Juan. La Cordillera Blanca de los Andes. Ediciones Desnivel. 1998.

MURCIA, Máximo. Escalada en Nieve y Hielo. Ediciones Desnivel. 1999.

 

Revistas especializadas:

Revista Desnivel, nº 145, Madrid – Espanha. Novembro de 1998.

Revista Desnivel, nº 146, Madrid – Espanha. Dezembro de 1998.