Coerência Textual
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Coerência Textual


Verbete: coerência

[Do lat. cohaerentia.]

S. f.

1. Qualidade, estado ou atitude de coerente.

2. Ligação ou harmonia entre situações, acontecimentos ou idéias; relação harmônica; conexão, nexo, lógica.

3. V. congruência (1).

4. Fís. Propriedade apresentada por duas ou mais ondas eletromagnéticas monocromáticas que têm o mesmo comprimento de onda e o mesmo plano de vibração, apresentam diferenças de fase constantes e passam em um mesmo intervalo de tempo, por uma mesma região do espaço.

5. Estat. Propriedade pela qual um estimador de parâmetro de uma população tende aleatoriamente para esse parâmetro quando o número de membros da amostra tende para infinito.

Verbete: coesão

[Do fr. cohésion?]

S. f.

1. União íntima das partes de um todo.

2. Fig. Harmonia, concordância, união:

3. Conexão, nexo, coerência.

4. Fís. Propriedade resultante da ação das forças atrativas existentes entre as partículas (moléculas, átomos, íons) constitutivas de um corpo.


Produção de Textos - Coerência Textual

Produzimos textos porque pretendemos informar, divertir, explicar, convencer, discordar, ordenar, etc., ou seja, o texto é uma unidade de significado produzida sempre com uma determinada intenção. Assim como a frase não é uma simples sucessão de palavras, o texto também não é uma simples sucessão de frases, mas um todo organizado capaz de estabelecer contato com nossos interlocutores, influindo sobre eles. Quando isso ocorre, temos um texto em que há coerência.

A coerência é resultante da não-contradição entre os diversos segmentos textuais que devem estar encadeados logicamente. Cada segmento textual é pressuposto do segmento seguinte, que por sua vez será pressuposto para o(s) que lhe estender(em), formando assim uma cadeia em que todos eles estejam concatenados harmonicamente. Quando há quebra nessa concatenação, ou quando um segmento atual está em contradição com um anterior, perde-se a coerência textual.

A coerência é também resultante da adequação do que se diz ao contexto extraverbal, ou seja, àquilo o que o texto faz referência, que precisa ser conhecido pelo receptor.

Ao ler uma frase como "No verão passado, quando estivemos na capital do Ceará Fortaleza, não pudemos aproveitar a praia, pois o frio era tanto que chegou a nevar", percebemos que ela é incoerente em decorrência da incompatibilidade entre um conhecimento prévio que temos da realizada com o que se relata. Sabemos que, considerando uma realidade "normal", em Fortaleza não neva (ainda mais no verão!).

Claro que, inserido numa narrativa ficcional fantástica, o exemplo acima poderia fazer sentido, dando coerência ao texto - nesse caso, o contexto seria a "anormalidade" e prevaleceria a coerência interna da narrativa.

No caso de apresentar uma inadequação entre o que informa e a realidade "normal" pré-conhecida, para guardar a coerência o texto deve apresentar elementos lingüísticos instruindo o receptor acerca dessa anormalidade.

Uma afirmação como "Foi um verdadeiro milagre! O menino caiu do décimo andar e não sofreu nenhum arranhão." é coerente, na medida que a frase inicial ("Foi um verdadeiro milagre") instrui o leitor para a anormalidade do fato narrado.


Coerência Textual

A coesão colabora com a coerência, porque os conectivos ajudam a dar o sentido à união de duas ou mais idéias: alternância, conclusão, oposição, concessão, adição, explicação, causa, conseqüência, temporalidade, finalidade, comparação, conformidade, condição.

As idéias numa dissertação precisam se completar, a geral se apóia na particular, a particular sustenta a geral. Na narração, se uma personagem for negra no começo, será assim até o fim, só Michel Jackson trocou de cor. A menos que a mudança da coloração seja significativa.

Veja um exemplo de incoerência na dissertação: "O verdadeiro amigo não comenta sobre o próprio sucesso quando o outro está deprimido. Para distraí-lo, conta-lhe sobre seu prestígio profissional, conquistas amorosas e capacidade de sair-se bem das situações. Isso, com certeza, vai melhorar o estado de espírito do infeliz".

Exemplo de incoerência em narração: "O quarto espelha as características de seu dono: um esportista, que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades intelectuais.

Por toda a parte, havia sinais disso: raquetes de tênis, prancha de surf, equipamento de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha, as obras completas de Shakespeare".

DICAS IMPORTANTES

  • Leia atentamente o que está sendo solicitado. Atualmente, as propostas se aproximam da realidade dos candidatos, constituindo-se roteiros confiáveis para a organização de idéias
  • Crie mentalmente um interlocutor. Procure convencer um ouvinte específico do seu ponto de vista
  • Planeje o texto sem utilizar fórmulas prontas. O fio condutor deve ser seu pensamento
  • Evite marcas de língua falada. Escrita e fala são modalidades diferentes do idioma. Evite gírias e termos excessivamente coloquiais
  • Confie em seu vocabulário. Todos guardamos palavras sem uso que podem transmitir com clareza o nosso pensamento. Procure encontrá-las
  • Seja natural. Evite o uso de palavras de efeito apenas para impressionar a banca
  • Acredite em seus pontos de vista e defenda-os com convicção. Eles são seu maior trunfo.

ALGUNS EXERCÍCIOS

Um dos mais importantes elementos estruturais de uma dissertação é a coerência, isto é, a ligação lógica entre as frases. Isto quer dizer que você não pode elaborar proposições "soltas", desconexas. Cada frase deve ser redigida dentro de um contexto harmônico e logicamente organizado. Os exercícios que se seguem visam aprimorar a maneira de escrever de modo que cada frase esteja ligada à anterior e à posterior.

Complete os espaços em branco:

PERÍODO I: "O colapso da União Soviética, no início da década de 90, foi interpretado como o fim do socialismo. Entretanto, ..........
Assim, ao contrário das opiniões dos defensores do capitalismo, a História ainda não acabou e futuro ainda é uma incógnita".

PERÍODO II: "A medicina alopática cura com eficiência, mas, por vezes, provoca danos ao organismo. Um exemplo disso é o uso de radioterapia no tratamento do câncer, que, ao destruir as células malignas, também elimina muitas das saudáveis. Desta maneira, a homeopatia ..........
A medicina, por conseguinte, vive um impasse: a cura rápida e, muitas vezes, maléfica para a integridade do organismo; ou, soluções farmacêuticas mais lentas e, talvez, mais naturais".

ATENÇÃO:a alopatia é o método de se tratar enfermidades por meio do conhecimento de suas causas e do uso de drogas químicas ou técnicas cirúrgicas de efeito rápido.

Coerência textual

As idéias numa dissertação precisam se completar, a geral se apóia na particular, a particular sustenta a geral. Na narração, se uma personagem for negra no começo, será assim até o fim, só Michel Jackson trocou de cor. A menos que a mudança da coloração seja significativa.

A coesão colabora com a coerência, porque os conectivos ajudam a dar o sentido à união de duas ou mais idéias: alternância, conclusão, oposição, concessão, adição, explicação, causa, conseqüência, temporalidade, finalidade, comparação, conformidade, condição.

Veja um exemplo de incoerência na dissertação: "O verdadeiro amigo não comenta sobre o próprio sucesso quando o outro está deprimido. Para distraí-lo, conta-lhe sobre seu prestígio profissional, conquistas amorosas e capacidade de sair-se bem das situações. Isso, com certeza, vai melhorar o estado de espírito do infeliz".

Exemplo de incoerência em narração: "O quarto espelha as características de seu dono: um esportista, que adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades intelectuais. Por toda a parte, havia sinais disso: raquetes de tênis, prancha de surf, equipamento de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças arrumadas sobre uma mesinha, as obras completas de Shakespeare".

Coesão e Coerência Textual

Qualquer falante sabe que a comunicação verbal não se faz geralmente através de palavras isoladas, desligadas umas das outras e do contexto em que são produzidas. Ou seja, uma qualquer sequência de palavras não constitui forçosamente uma frase.

Para que uma sequência de morfemas seja admitida como frase, torna-se necessário que respeite uma certa ordem combinatória, ou seja, é preciso que essa sequência seja construida tendo em conta o sistema da língua.

Tal como um qualquer conjunto de palavras não forma uma frase, também um qualquer conjunto de frases não forma, forçosamente, um texto.

Precisando um pouco mais, um texto, ou discurso, é um objecto materializado numa dada língua natural, produzido numa situação concreta e pressupondo os participantes locutor e alocutário, fabricado pelo locutor através de uma selecção feita sobre tudo o que é dizível por esse locutor, numa determinada situação, a um determinado alocutário1.

Assim, materialidade linguística, isto é, a língua natural em uso, os códigos simbólicos, os processos cognitivos e as pressuposições do locutor sobre o saber que ele e o alocutário partilham acerca do mundo são ingredientes indispensáveis ao objecto texto.

Podemos assim dizer que existe um sistema de regras interiorizadas por todos os membros de uma comunidade linguística. Este sistema de regras de base constitui a competência textual dos sujeitos, competência essa que uma gramática do texto se propõe modelizar.

Uma tal gramática fornece, dentro de um quadro formal, determinadas regras para a boa formação textual. Destas regras podemos fazer derivar certos julgamentos de coerência textual.

Quanto ao julgamento, efectuado pelos professores, sobre a coerência nos textos dos seus alunos, os trabalhos de investigação concluem que as intervenções do professor a nível de incorrecções detectadas na estrutura da frase são precisamente localizadas e assinaladas com marcas convencionais; são designadas com recurso a expressões técnicas (construção, conjugação) e fornecem pretexto para pôr em prática exercícios de correcção, tendo em conta uma eliminação duradoura das incorrecções observadas.

Pelo contrário, as intervenções dos professores no quadro das incorrecções a nível da estrutura do texto, permite-nos concluir que essas incorrecções não são designadas através de vocabulário técnico, traduzindo, na maior parte das vezes, uma impressão global da leitura (incompreensível; não quer dizer nada).

Para além disso, verificam-se práticas de correcção algo brutais (refazer; reformular) sendo, poucas vezes, acompanhadas de exercícios de recuperação.

Esta situação é pedagogicamente penosa, uma vez que se o professor desconhece um determinado quadro normativo, encontra-se reduzido a fazer respeitar uma ordem sobre a qual não tem nenhum controle.

Antes de passarmos à apresentação e ao estudo dos quatro princípios de coerência textual, há que esclarecer a problemática criada pela dicotomia coerência/coesão que se encontra directamente relacionada com a dicotomia coerência macro-estrutural/coerência micro-estrutural.

Mira Mateus considera pertinente a existência de uma diferenciação entre coerência textual e coesão textual.

Assim, segundo esta autora, coesão textual diz respeito aos processos linguísticos que permitem revelar a inter-dependência semântica existente entre sequências textuais:

Ex.: Entrei na livraria mas não comprei nenhum livro.

Para a mesma autora, coerência textual diz respeito aos processos mentais de apropriação do real que permitem inter-relacionar sequências textuais:

Ex.: Se esse animal respira por pulmões, não é peixe.

Pensamos, no entanto, que esta distinção se faz apenas por razões de sistematização e de estruturação de trabalho, já que Mira Mateus não hesita em agrupar coesão e coerência como características de uma só propriedade indispensável para que qualquer manifestação linguística se transforme num texto: a conectividade2.

Para Charolles não é pertinente, do ponto de vista técnico, estabelecer uma distinção entre coesão e coerência textuais, uma vez que se torna difícil separar as regras que orientam a formação textual das regras que orientam a formação do discurso.

Além disso, para este autor, as regras que orientam a micro-coerência são as mesmas que orientam a macro-coerência textual. Efectivamente, quando se elabora um resumo de um texto obedece-se às mesmas regras de coerência que foram usadas para a construcção do texto original.

Assim, para Charolles, micro-estrutura textual diz respeito às relações de coerência que se estabelecem entre as frases de uma sequência textual, enquanto que macro-estrutura textual diz respeito às relações de coerência existentes entre as várias sequências textuais. Por exemplo:

Sequência 1: O António partiu para Lisboa. Ele deixou o escritório mais cedo para apanhar o comboio das quatro horas.

Sequência 2: Em Lisboa, o António irá encontrar-se com amigos.Vai trabalhar com eles num projecto de uma nova companhia de teatro.

Como micro-estruturas temos a sequência 1 ou a sequência 2, enquanto que o conjunto das duas sequências forma uma macro-estrutura.

Vamos agora abordar os princípios de coerência textual3:

1. Princípio da Recorrência4: para que um texto seja coerente, torna-se necessário que comporte, no seu desenvolvimento linear, elementos de recorrência restrita.

Para assegurar essa recorrência a língua dispõe de vários recursos:

- pronominalizações,

- expressões definidas5,

- substituições lexicais,

- retomas de inferências.

Todos estes recursos permitem juntar uma frase ou uma sequência a uma outra que se encontre próxima em termos de estrutura de texto, retomando num elemento de uma sequência um elemento presente numa sequência anterior:

a)-Pronominalizações: a utilização de um pronome torna possível a repetição, à distância, de um sintagma ou até de uma frase inteira.

O caso mais frequente é o da anáfora, em que o referente antecipa o pronome.

Ex.: Uma senhora foi assassinada ontem. Ela foi encontrada estrangulada no seu quarto.

No caso mais raro da catáfora, o pronome antecipa o seu referente.

Ex.: Deixe-me confessar-lhe isto: este crime impressionou-me. Ou ainda: Não me importo de o confessar: este crime impressionou-me.

Teremos, no entanto, que ter cuidado com a utilização da catáfora, para nos precavermos de enunciados como este:

Ele sabe muito bem que o João não vai estar de acordo com o António.

Num enunciado como este, não há qualquer possibilidade de identificar ele com António. Assim, existe apenas uma possibilidade de interpretação: ele dirá respeito a um sujeito que não será nem o João nem o António, mas que fará parte do conhecimento simultâneo do emissor e do receptor.

Para que tal aconteça, torna-se necessário reformular esse enunciado:

O António sabe muito bem que o João não vai estar de acordo com ele.

As situações de ambiguidade referencial são frequentes nos textos dos alunos.

Ex.: O Pedro e o meu irmão banhavam-se num rio.

Um homem estava também a banhar-se.

Como ele sabia nadar, ensinou-o.

Neste enunciado, mesmo sem haver uma ruptura na continuidade sequencial, existem disfunções que introduzem zonas de incerteza no texto:

ele sabia nadar(quem?),

ele ensinou-o (quem?; a quem?)

b)-Expressões Definidas: tal como as pronominalizações, as expressões definidas permitem relembrar nominalmente ou virtualmente um elemento de uma frase numa outra frase ou até numa outra sequência textual.

Ex.: O meu tio tem dois gatos. Todos os dias caminhamos no jardim. Os gatos vão sempre connosco.

Os alunos parecem dominar bem esta regra. No entanto, os problemas aparecem quando o nome que se repete é imediatamente vizinho daquele que o precede.

Ex.: A Margarida comprou um vestido. O vestido é colorido e muito elegante.

Neste caso, o problema resolve-se com a aplicação de deíticos contextuais.

Ex.: A Margarida comprou um vestido. Ele é colorido e muito elegante.

Pode também resolver-se a situação virtualmente utilizando a elipse.

Ex.: A Margarida comprou um vestido. É colorido e muito elegante. Ou ainda:

A Margarida comprou um vestido que é colorido e muito elegante.

c)-Substituições Lexicais: o uso de expressões definidas e de deíticos contextuais é muitas vezes acompanhado de substituições lexicais. Este processo evita as repetições de lexemas, permitindo uma retoma do elemento linguístico.

Ex.: Deu-se um crime, em Lisboa, ontem à noite: estrangularam uma senhora. Este assassinato é odioso.

Também neste caso, surgem algumas regras que se torna necessário respeitar. Por exemplo, o termo mais genérico não pode preceder o seu representante mais específico.

Ex.: O piloto alemão venceu ontem o grande prémio da Alemanha. Schumacher festejou euforicamente junto da sua equipa.

Se se inverterem os substantivos, a relação entre os elementos linguísticos torna-se mais clara, favorecendo a coerência textual. Assim, Schumacher, como termo mais específico, deveria preceder o piloto alemão.

No entanto, a substituição de um lexema acompanhado por um determinante, pode não ser suficiente para estabelecer uma coerência restrita. Atentemos no seguinte exemplo:

Picasso morreu há alguns anos. O autor da "Sagração da Primavera" doou toda a sua colecção particular ao Museu de Barcelona.

A presença do determinante definido não é suficiente para considerar que Picasso e o autor da referida peça sejam a mesma pessoa, uma vez que sabemos que não foi Picasso mas Stravinski que compôs a referida peça.

Neste caso, mais do que o conhecimento normativo teórico, ou lexico-enciclopédico, são importantes o conhecimento e as convicções dos participantes no acto de comunicação, sendo assim impossível traçar uma fronteira entre a semântica e a pragmática.

Há também que ter em conta que a substituição lexical se pode efectuar por

- Sinonímia-selecção de expressões linguísticas que tenham a maior parte dos traços semânticos idêntica: A criança caíu. O miúdo nunca mais aprende a cair!

- Antonímia-selecção de expressões linguísticas que tenham a maior parte dos traços semânticos oposta: Disseste a verdade? Isso cheira-me a mentira!

- Hiperonímia-a primeira expressão mantém com a segunda uma relação classe-elemento: Gosto imenso de marisco. Então lagosta, adoro!

- Hiponímia- a primeira expressão mantém com a segunda uma relação elemento-classe: O gato arranhou-te? O que esperavas de um felino?

d)-Retomas de Inferências: neste caso, a relação é feita com base em conteúdos semânticos não manifestados, ao contrário do que se passava com os processos de recorrência anteriormente tratados.

Vejamos:

P - A Maria comeu a bolacha?

R1 - Não, ela deixou-a cair no chão.

R2 - Não, ela comeu um morango.

R3 - Não, ela despenteou-se.

As sequências P+R1 e P+R2 parecem, desde logo, mais coerentes do que a sequência P+R3.

No entanto, todas as sequências são asseguradas pela repetição do pronome na 3ª pessoa.

Podemos afirmar, neste caso, que a repetição do pronome não é suficiente para garantir coerência a uma sequência textual.

Assim, a diferença de avaliação que fazemos ao analisar as várias hipóteses de respostas que vimos anteriormente sustenta-se no facto de R1 e R2 retomarem inferências presentes em P:

- aconteceu alguma coisa à bolacha da Maria,

- a Maria comeu qualquer coisa.

Já R3 não retoma nenhuma inferência potencialmente deduzível de P.

Conclui-se, então, que a retoma de inferências ou de pressuposições garante uma fortificação da coerência textual.

Quando analisamos certos exercícios de prolongamento de texto (continuar a estruturação de um texto a partir de um início dado) os alunos são levados a veicular certas informações pressupostas pelos professores.

Por exemplo, quando se apresenta um início de um texto do tipo: Três crianças passeiam num bosque. Elas brincam aos detectives. Que vão eles fazer?

A interrogação final permite-nos pressupor que as crianças vão realmente fazer qualquer coisa.

Um aluno que ignore isso e que narre que os pássaros cantavam enquanto as folhas eram levadas pelo vento, será punido por ter apresentado uma narração incoerente, tendo em conta a questão apresentada.

No entanto, um professor terá que ter em conta que essas inferências ou essas pressuposições se relacionam mais com o conhecimento do mundo do que com os elementos linguísticos propriamente ditos.

Assim, as dificuldades que os alunos apresentam neste tipo de exercícios, estão muitas vezes relacionadas com um conhecimento de um mundo ao qual eles não tiveram acesso. Por exemplo, será difícil a um aluno recriar o quotidiano de um multi-milionário,senhor de um grande império industrial, que vive numa luxuosa villa.

2.Princípio da Progressão: para que um texto seja coerente, torna-se necessário que o seu desenvolvimento se faça acompanhar de uma informação semântica constantemente renovada.

Este segundo princípio completa o primeiro, uma vez que estipula que um texto, para ser coerente, não se deve contentar com uma repetição constante da própria matéria.

Alguns textos dos alunos contrariam esta regra. Por exemplo: O ferreiro estava vestido com umas calças pretas, um chapéu claro e uma vestimenta preta. Tinha ao pé de si uma bigorna e batia com força na bigorna. Todos os gestos que fazia consistiam em bater com o martelo na bigorna. A bigorna onde batia com o martelo era achatada em cima e pontiaguda em baixo e batia com o martelo na bigorna.

Se tivermos em conta apenas o princípio da recorrência, este texto não será incoerente, será até coerente demais.

No entanto, segundo o princípio da progressão, a produção de um texto coerente pressupõe que se realize um equilíbrio cuidado entre continuidade temática e progressão semântica.

Torna-se assim necessário dominar, simultaneamente, estes dois princípios (recorrência e progressão) uma vez que a abordagem da informação não se pode processar de qualquer maneira.

Assim, um texto será coerente se a ordem linear das sequências acompanhar a ordenação temporal dos factos descritos.

Ex.: Cheguei, vi e venci.(e não Vi, venci e cheguei).

O texto será coerente desde que reconheçamos, na ordenação das suas sequências, uma ordenação de causa-consequência entre os estados de coisas descritos.

Ex.: Houve seca porque não choveu. (e não Houve seca porque choveu).

Teremos ainda que ter em conta que a ordem de percepção dos estados de coisas descritos pode condicionar a ordem linear das sequências textuais.

Ex.: A praça era enorme. No meio, havia uma coluna; à volta, árvores e canteiros com flores.

Neste caso, notamos que a percepção se dirige do geral para o particular.

3.Princípio da Não- Contradição: para que um texto seja coerente, torna-se necessário que o seu desenvolvimento não introduza nenhum elemento semântico que contradiga um conteúdo apresentado ou pressuposto por uma ocorrência anterior ou dedutivel por inferência.

Ou seja, este princípio estipula simplesmente que é inadmissível que uma mesma proposição seja conjuntamente verdadeira e não verdadeira.

Vamos, seguidamente, preocupar-nos, sobretudo, com o caso das contradições inferenciais e pressuposicionais6.

Existe contradição inferencial quando a partir de uma proposição podemos deduzir uma outra que contradiz um conteúdo semântico apresentado ou dedutível.

Ex.: A minha tia é viúva. O seu marido colecciona relógios de bolso.

As inferências que autorizam viúva não só não são retomadas na segunda frase, como são perfeitamente contraditas por essa mesma frase.

O efeito da incoerência resulta de incompatibilidades semânticas profundas às quais temos de acrescentar algumas considerações temporais, uma vez que, como se pode ver, basta remeter o verbo coleccionar para o pretérito para suprimir as contradições.

As contradições pressuposicionais são em tudo comparáveis às inferenciais, com a excepção de que no caso das pressuposicionais é um conteúdo pressuposto que se encontra contradito.

Ex.: O Júlio ignora que a sua mulher o engana. A sua esposa é-lhe perfeitamente fiel.

Na segunda frase, afirma-se a inegável fidelidade da mulher de Júlio, enquanto a primeira pressupõe o inverso.

É frequente, nestes casos, que o emissor recupere a contradição presente com a ajuda de conectores do tipo mas, entretanto, contudo, no entanto, todavia, que assinalam que o emissor se apercebe dessa contradição, assume-a, anula-a e toma partido dela.

Ex.: O João detesta viajar. No entanto, está entusiasmado com a partida para Itália, uma vez que sempre sonhou visitar Florença.

4.Princípio da Relação: para que um texto seja coerente, torna-se necessário que denote, no seu mundo de representação, factos que se apresentem directamente relacionados.

Ou seja, este princípio enuncia que para uma sequência ser admitida como coerente7, terá de apresentar acções, estados ou eventos que sejam congruentes com o tipo de mundo representado nesse texto.

Assim, se tivermos em conta as três frases seguintes

1 - A Silvia foi estudar.

2 - A Silvia vai fazer um exame.

3 - O circuito de Adelaide agradou aos pilotos de Fórmula 1.

a sequência formada por 1+2 surge-nos, desde logo, como sendo mais congruente do que as sequências 1+3 ou 2+3.

Nos discursos naturais, as relações de relevância factual são, na maior parte dos casos, manifestadas por conectores que as explicitam semanticamente.

Ex.: A Silvia foi estudar porque vai fazer um exame. Ou também: A Silvia vai fazer um exame portanto foi estudar.

A impossibilidade de ligar duas frases por meio de conectores constitui um bom teste para descobrir uma incongruência.

Ex.: A Silvia foi estudar logo o circuito de Adelaide agradou aos pilotos de Fórmula 1.

O conhecimento destes princípios de coerência, por parte dos professores, permite uma nova apreciação dos textos produzidos pelos alunos, garantindo uma melhor correcção dos seus trabalhos, evitando encontrar incoerências em textos perfeitamente coerentes, bem como permite a dinamização de estratégias de correcção.

Teremos que ter em conta que para um leitor que nada saiba de centrais termo-nucleares nada lhe parecerá mais incoerente do que um tratado técnico sobre centrais termo-nucleares.

No entanto, os leitores quase nunca consideram os textos incoerentes. Pelo contrário, os receptores dão ao emissor o crédito da coerência, admitindo que o emissor terá razões para apresentar os textos daquela maneira.

Assim, o leitor vai esforçar-se na procura de um fio condutor de pensamento que conduza a uma estrutura coerente.

Tudo isto para dizer que deve existir nos nossos sistemas de pensamento e de linguagem uma espécie de princípio de coerência verbal (comparável com o princípio de cooperação de Grice)8 estipulando que, seja qual for o discurso, ele deve apresentar forçosamente uma coerência própria, uma vez que é concebido por um espírito que não é incoerente por si mesmo.

É justamente tendo isto em conta que devemos ler, avaliar e corrigir os textos dos nossos alunos.

Anotações:

1-M. H. Mira Mateus, Gramática da Língua Portuguesa, Ed. Caminho, 19923, p.134;

2-M. H. Mira Mateus, op. cit., pp.134-148;

3- "Méta-regles de cohérence", segundo Charolles, Introduction aux problèmes de la cohérence des textes, in Langue Française, 1978;

4- "Méta-regle de répétition", segundo Charolles (op. cit.);

5- "Les déficitivisations et les référentiations déictiques contextuelles", segundo Charolles (op. cit.);

6-Charolles aponta igualmente as contradições enunciativas. No entanto, vamos debruçar-nos apenas sobre as contradições inferenciais e pressuposicionais, uma vez que foi sobre este tipo de contradições que efectuámos exercícios em situação de prática pedagógica.

7-Charolles refere inclusivamente a existência de uma "relation de congruence" entre o que é enunciado na sequência textual e o mundo a que essa sequência faz referência;

8-Para um esclarecimento sobre este princípio, ver O. Ducrot, Dire et ne pas dire, Paris, Herman, 1972 e também D. Gordon e G. Lakoff, Postulates de conservation, Langages nº 30, Paris, Didier-Larousse, 1973.

Bibliografia:

Charolles, M.-Intoduction aux problèmes de la cohérence des textes, in Langue Française, 38, Besançon, 1978;

Fonseca, J.-Linguística e texto/discurso: Teoria, Descrição, Aplicação, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Lisboa, 1992;

Heringer, H.J. e Lima, J.P.-Palavra puxa palavra. Comunicação e gramática dependencial, ICALP, Lisboa, 1987;

Lima, J. P.-Linguagem e acção. Da filosofia analítica à linguística pragmática, Apáginastantas, Lisboa, 1983;

Mateus, M. H. M. et alii-Gramática da Língua Portuguesa, Caminho, Lisboa, 19923.


A coerência na promoção de leitura crítica

Thelma Belmonte

mestre em Letras pela UFSC

1. INTRODUÇÃO

O nosso país já vive um franco clima de disputa eleitoral para a sucessão de FHC. Em recente artigo da revista Veja (edição 1715, p. 40, 29 de agosto de 2001), o ex-presidente Itamar Franco aparece junto a Ciro Gomes e Leonel Brizola, em uma primeira tentativa de união de forças de oposição:

O curioso é que Itamar é o pai do Plano Real, viga mestra da política econômica em vigor, e até se irrita quando lhe negam essa paternidade. Por coerência, poderia ter reparos a fazer, mas fica difícil entender como rejeita em bloco tudo o que sua própria gestão fez.

Analisando o trecho do texto da renomada revista, perguntamos: Como a noção de ‘coerência’, que permeia os discursos dos vários atores do tecido social, pode contribuir para a compreensão dos atos sociais?

O presente trabalho tentará, ao término de suas considerações, apresentar sugestões que satisfaçam, mesmo que parcialmente, tal questionamento. O objetivo central será tecer considerações em relação à coerência como parte constituinte de um texto, levantando a sua importância na leitura crítica do discurso (LCD).

Para tanto, apresentaremos inicialmente uma breve exposição teórica a respeito de conceitos de ‘texto’ e ‘discurso’, a partir dos trabalhos de Halliday & Hasan (1976, 1989), Halliday (1985), Kress (1989) e Fairclough (1992a, 1995), que se encontram dentre os estudiosos que vêm o texto não apenas como fenômeno lingüístico mas também como fenômeno sociocognitivo.

Em seguida a essa exposição preliminar, apontaremos relevantes abordagens teóricas sobre ‘coerência’, um dos princípios de constituição e interpretabilidade de um texto, baseadas nas obras de de Beaugrande & Dressler (1981), Brown & Yule (1983), Charolles (1983, 1989), Koch & Travaglia (1990) e Shiro (1994). Visto isso, apresentaremos alguns pressupostos teóricos concernentes à LCD, sob os conceitos de Fairclough (1989, 1992a, 1992b, 1995), Wallace (1989) e Luke (1995). Por fim, encerraremos o trabalho fazendo dialogar os conceitos de LCD e coerência ora apresentados, em uma tentativa de elucidar quão significativo é o desenvolvimento da percepção da coerência através de uma postura crítica na leitura, partindo da premissa que o texto é uma representação lingüística através da qual manifestam-se práticas, valores e significados de diferentes grupos sociais.

2. O TEXTO E O DISCURSO

Os textos tornaram-se objeto de preocupação e interesse desde a Antigüidade Clássica. Mais recentemente, tornaram-se escrutínio de diferentes áreas de conhecimento como a antropologia, sociologia e psicologia. A lingüística textual, por sua vez, elegeu o texto como objeto de análise para estudar as diferentes manifestações da linguagem que as gramáticas de frase não davam conta e deixavam lacunas no tratamento de fenômenos lingüísticos que transcendem os limites do enunciado. Vários conceitos têm sido apresentados para explicar como textos são identificados como tal. Os por nós abordados neste trabalho atribuem à linguagem, também um caráter social.

Uma das definições de texto mais influente é a oferecida por Halliday & Hasan (1976, pp. 1 e 2), que definem o texto como "uma unidade de língua em uso ... e não é definido por seu tamanho ... Um texto é melhor considerado como uma unidade semântica: uma unidade não de forma e sim de significado. ... Um texto tem tessitura e é isso que o distingue de um não-texto. Essa tessitura é obtida pelo fato do texto funcionar como uma unidade em relação ao seu ambiente" (minha tradução). Um texto, então, é mais que a soma de períodos ou orações; é uma unidade semântica completa que contém em sua realização certas características lingüísticas que contribuem para a sua unidade total e lhe imprimem tessitura. A tessitura, por sua vez, advém de relações coesivas, que, a seu turno, contribuem para a coerência textual. Os autores atribuem ao conceito de tessitura a propriedade de garantir que um texto seja um texto, devido aos princípios de conexão que unem um texto e promovem a interpretação.

Em uma versão posterior, Halliday & Hasan (1989) acrescentam ao critério da tessitura o de ‘estrutura’, "Textos são caracterizados pela unidade de sua estrutura e pela unidade de sua textura" (p. 117; minha tradução). Conta-se como estrutura, a organização das sentenças de acordo com uma formatação textual reconhecida (p. ex., seqüência cronológica) e com as relações oracionais (p. ex., causa-efeito). Com a inclusão de ‘estrutura’ ao conceito anterior, os autores tentam abarcar elementos tanto da microestrutura quanto da macroestrutura para sugerir como um texto se torna ‘completo’ e pode ser julgado coerente. A esse conceito ampliado de texto, Halliday & Hasan (ibid.) também incluem uma dimensão social.

O texto é considerado pelos autores como um exemplo de linguagem em uso, que tem papéis específicos em contextos de situações específicas. É uma realização lingüística essencialmente semântica que deve ser abordada sob duas perspectivas: a de produto e a de processo. É um produto quanto à realização lingüística dos indivíduos, e é um processo quanto às escolhas semânticas conforme o contexto da situação. Alinhando-se a esse entendimento, um texto é uma unidade semântica complexa entrelaçada que resulta de um processo multidimensional e reflete uma realização sócio-semântica acima da linguagem. Os textos são produzidos e ganham sentido dentro de práticas discursivas e sociais específicas (Halliday, 1985; Halliday & Hasan, 1989). A essa altura, vale partirmos para a relação ‘discurso e texto’ de modo que o pano de fundo para a temática ‘coerência’, na próxima seção, esteja disponível.

Para tal, contaremos com os conceitos de Kress (1989) e Fairclough (1992a, 1995) sobre a relação discurso e texto. Inicialmente, é preciso ter em mente que um indivíduo é um agente social que faz parte de uma rede de relações sociais que acontecem em lugares e com grupos sócio-culturais específicos. Também é preciso lembrar que cada grupo social é regido por um conjunto de instituições que têm suas práticas, valores e significados que, por sua vez, exercem influência sobre os participantes desses grupos. Por fim, as práticas, valores e significados de cada grupo social são expressos e articulados principalmente através da linguagem. Segundo os autores, o discurso é o conjunto de afirmações que, articuladas através da linguagem, expressam os valores e significados das diferentes instituições, e o texto é a realização lingüística na qual se manifesta o discurso

É lícito concluir, portanto, que o texto é uma entidade física, uma produção lingüística de um ou mais indivíduos, e que o discurso é o conjunto de princípios, valores e significados subjacentes ao texto. Kress (1989) afirma que é o discurso que organiza o texto e até estabelece quais os tópicos, objetos ou processos que serão abordados e de que maneira serão organizados. A importância desse panorama neste trabalho é que, se um texto reflete determinados discursos e, portanto, espelha as maneiras de comunicação de diferentes instituições que regulam a comunidade onde o indivíduo está inserido, é mister contemplar criticamente as partes que integram um texto para que o leitor, como agente social, possa adquirir uma perspectiva e reflexão mais cuidadosa sobre como os textos podem intervir no fluxo aparentemente natural da vida institucional.

Nosso objetivo agora, dentro das perspectivas acima referendadas, é analisar como a noção de coerência pode contribuir para uma postura crítica em relação ao texto. Segue-se, então, uma sucinta exposição em relação à temática central deste trabalho.

3. ALGUNS ASPECTOS DA COERÊNCIA TEXTUAL

A coerência como fenômeno é tão ampla que se torna difícil apresentar um conceito que dê conta de todas as suas particularidades. Pretendemos, então, contemplar traços relevantes da coerência que possam nos dar subsídios para a reflexão sobre a interpretabilidade de textos na perspectiva geral de linguagem como prática social. A abordagem terá como ponto de vista o receptor leitor, pois é através da leitura de texto escrito que conduziremos nossa observação para relacionar a coerência e a LCD.

De modo geral, leitores raramente têm dificuldade quanto a um julgamento sobre a relativa coerência de um texto. Contudo, quando são questionados sobre o que torna um texto mais coerente que outros, seus critérios variam bastante (Davies, 1995). De acordo com os pressupostos de Halliday & Hasan (1976, 1989), abordados na seção 2 deste trabalho, a coerência de um texto é uma função da estrutura e tessitura textual, elementos que tornam um texto um texto, o qual representa práticas sociais. Dessa noção, nos serviremos oportunamente de sua dimensão social, pois a atribuição à tessitura e à estrutura textual como fatores determinantes de constituição de um texto e, conseqüentemente da coerência, é deveras limitada devido à abrangência reticular e não-linear da coerência.

Brown & Yule (1983), através de análise detalhada de vários trechos de textos, demonstram que a tessitura de Halliday & Hasan (1976) não garante a identificação de um texto como texto e tampouco a coerência textual. Segundo eles, o leitor tentará construir uma imagem coerente dos eventos descritos ao invés de trabalhar com as conexões verbais isoladas para realizar a interpretação textual. À interpretação, o leitor trará sua noção de estrutura sentencial, de formatação textual padronizada, de conexões lexicais e, quando esses últimos se fizerem ausentes, também, contará com princípios de contigüidade para preencher as lacunas entre as sentenças.

A essa idéia de contigüidade, porém em um sentido mais amplo, vale a pena mencionarmos a de continuidade de sentidos apresentada por de Beaugrande & Dressler (1981). Para os autores, a coerência é definida em função da continuidade de sentidos entre os conhecimentos ativados através do texto, para satisfazer um ato comunicativo. Essa continuidade estabelece uma certa coesão conceitual cognitiva elaborada tanto pelo produtor como pelo receptor do texto. A descontinuidade, por outro lado, não é considerada como um conjunto aleatório de frases sem condições de formar um texto. Ela também pode ser usada como recurso na construção de texto. A coerência, então, segundo eles, se estabelece na interação do produtor e do receptor em uma dada situação comunicativa.

Quanto à interação dos interlocutores, Koch & Travaglia (1990) fazem lembrar que tanto aquele que produz quanto o que recebe um texto, age cooperativamente tentando atribuir-lhe sentido e, portanto, calculando sua coerência. Conforme os autores, quem produz o texto pretende realizar um ato comunicativo e quem recebe aceita a seqüência como texto e tenta determinar-lhe sentido. Para que isso aconteça, o receptor ativa seu conhecimento de mundo trazendo à tona seu mundo textual e tenta estabelecer as ligações não explícitas entre os elementos do texto através de inferências, para torná-lo coerente.

Antes de abordarmos os termos conhecimento de mundo, mundo textual e inferências acima citados, façamos um leve desvio para o Princípio da Cooperação de Grice (1975) e sua máximas, de modo que tenhamos um quadro mais completo em relação à atitude cooperativa, citada por Koch & Travaglia (1990).

O Princípio da Cooperação se constitui na tentativa de explicar as linhas gerais que determinam a lógica da interação por meio da linguagem. Ele tenta explicar, por exemplo, como pode-se dizer uma coisa e, realmente, querer dizer outra coisa, diferente daquilo que foi dito literalmente. O Princípio da Cooperação é uma espécie de contrato velado entre os interlocutores, quando estes participam de uma interação e tendem a contribuir conforme a exigência da interação ou do sentido em que a interação se desenvolve, seguindo as máximas de: qualidade (dizer a verdade), quantidade (informação suficiente), relevância (informação relevante), e modo (informação clara). Entretanto, nem sempre as máximas são obedecidas e, o objetivo de tal desobediência é provocar implicaturas, ou seja, significados inferidos por meio de cálculos mentais. Através desse cálculo mental, o leitor faz inferências conforme sua visão de mundo e com base nos discursos com os quais convive e dá um sentido coerente ao texto. Acontece, também, que nem sempre as máximas são seguidas de modo cooperativo, dificultando, nesse caso, a comunicação ou tornando-a impossível, pois o receptor não consegue inferir o que era pretendido,.

Pelo que vimos até então, a coerência está ligada à possibilidade de estabelecer um sentido ao texto, podendo ser entendida como um princípio de interpretabilidade de texto, levando em conta seu o sentido global. Para abordarmos a questão da interpretabilidade, voltemos agora ao ponto onde citamos Koch & Travaglia (1990), logo acima.

Os autores mencionam as ativações de conhecimento de mundo e de mundo textual e a realização de inferências quando um receptor busca compreender e interpretar uma seqüência lingüística, estabelecendo-lhe sentido e, por sua vez, coerência. A esses fatores, e também ligado à ação cooperativa, incluem o conhecimento partilhado, que passaremos a expor na seqüência.

O conhecimento de mundo é aquele que adquirimos à medida que vivemos, baseado no mundo que nos cerca e nas experiências que vivenciamos. São armazenados em blocos na nossa memória. Ele é de crucial importância para o estabelecimento da coerência porque, se o texto apresenta assuntos desconhecidos pelo receptor, este não conseguirá calcular-lhe sentido, nem coerência. Acredita-se, então, que esse conhecimento de mundo deve ser partilhado pelo produtor e pelo receptor do texto, caso contrário, o receptor não conseguirá estabelecer as relações não explícitas entre os elementos do texto através de inferências, nem tampouco estruturar o texto quanto a informações tidas como novas ou dadas. É lícito deduzir, portanto, que quanto maior for o conhecimento partilhado, maior será a capacidade do receptor de preencher as lacunas através de inferências (Koch & Travaglia, ibid., p. 64).

Além da importância dos conhecimentos de mundo e partilhado supracitados, também o mundo textual é importante porque através dele o receptor constrói um modelo de mundo que é representado em cada texto. Esse é o chamado mundo textual, que é uma recriação de mundo, baseada em conhecimentos que já temos, sob determinadas ótica e objetivo, e que darão subsídios para os sentidos das palavras e expressões de um texto, colaborando na construção da coerência.

Para Koch & Travaglia (ibid.), a ativação dos conhecimentos de mundo e partilhado e a criação do mundo textual auxiliam o receptor a estabelecer um sentido para as relações não explícitas no texto. Essa operação de compreensão e interpretação para tornar um texto coerente, é a inferência que o receptor realiza.

Numa linha semelhante de raciocínio, colocamos a posição de Shiro (1994) que também aponta a inferência como produtora de coerência textual. Segundo a autora, a inferência não está presente no texto, mas advém da interpretação textual e fornece informações necessárias adicionais à informação textual para criar um novo significado. Assim, o leitor constrói um mundo textual através das informações textuais e das inferências, para formar um todo coerente. Shiro (ibid.) conclui que a coerência não é uma característica textual, mas sim o resultado de um processo interpretativo que depende da relação e propósitos do leitor com o texto – ao que ela inclui as máximas de Grice (1975), identificação do contexto, decodificação de sinais lingüísticos, conhecimento de mundo e capacidades cognitivas.

Charolles (1983) aborda a coerência também como um princípio de interpretabilidade, não sendo um problema tipicamente lingüístico ou exclusivamente textual, e que depende da capacidade do usuário em recuperar o sentido do texto. Inicialmente, o autor aplica esse princípio de interpretabilidade às ações humanas e, posteriormente, a do discurso, pois considera o discurso como resultado de uma série de atos de enunciação. A análise que ele faz sobre o papel da coerência na interpretação das ações humanas engloba tanto a produção quanto a recepção das mesmas.

O autor nos coloca que qualquer ação verbal é produzida com a intenção de significar algo para alguém. O receptor de uma mensagem deve analisá-la a fim de compreender, deduzir e justificar a intenção comunicativa deliberada do produtor. Todavia, o receptor pode entender as ações mas não perceber a intenção global, ou a coerência da série de ações. Para resolver esse problema, ele sugere que o receptor realize uma abordagem processual que formalize as operações utilizadas para interpretar e tornar um discurso coerente. Charolles (ibid., p. 83) apresenta um esquema cíclico, de natureza heurística e inventiva, que formaliza as operações processuais realizadas pelo receptor na interpretação de um discurso. O autor admite, porém, que tal esquema permite a manipulação do significado de forma indeterminada e é um risco para a interpretação.

Na tentativa de oferecer sugestões para o processo de interpretação do discurso, Charolles (1983) apresenta a interpretação complementar, quando provém da coerência mínima (ou suplementar) que só indica uma continuidade e a interpretação global, que explica essa continuidade e que forma a coerência explanativa. O autor ainda sugere que uma análise dos marcadores de coesão pode contribuir para determinar quais contribuem para a coerência suplementar e quais favorecem as ligações explanatórias. Contudo, observa que a coesão ajuda a estabelecer a coerência na interpretação dos textos, mas nem sempre é necessária, nem suficiente para garantir textos coerentes. Haverá necessidade do receptor recorrer a conhecimentos exteriores ao texto, tais como dos interlocutores, do conhecimento de mundo, das normas sociais dentre outros.

Em outro artigo, Charolles (1989) também aborda a função de marcadores no discurso na promoção da interpretação, com ênfase na produção discursiva, mas que não exclui o receptor. Nesse artigo Charolles (ibid.) mantém que a coerência não é uma propriedade inerente dos discurso, mas que é construída pelos interpretadores que determinam uma configuração aceitável das relações entre os indivíduos e as situações apresentadas pelas ocorrências discursivas.

Tal configuração é construída observando-se os marcadores presentes no discurso, utilizados para sinalizar apenas um esquema relacional. O receptor tem, então, que preencher esse esquema com componentes discursivos para ter acesso à forma com que o produtor liga os indivíduos e/ou as situações. O produtor, por sua vez, é quem calcula as indicações relacionais relevantes para que a coerência de seu discurso seja captada pelo receptor, facilitando-lhe, assim, a tarefa da interpretação.

A essa estratégia, o autor denomina gerenciamento inteligente que pressupõe um processo de decisão, estratégias de emissão e de interpretação inteligentes para atingir uma meta. Existe nesse gerenciamento um plano comunicativo e a representação das habilidades interpretativas do receptor. As interpretações do receptor, conforme as apresentações de informações do produtor, podem ser transparentes (ocorre o conhecimento partilhado) ou opacas (os interlocutores não compartilham do mesmo universo). Nesse último caso, o receptor é obrigado a reconsiderar sua estratégia interpretativa para poder preservar a coerência.

Para clareza da exposição feita nessa seção mas também, e sobretudo para alinhavarmos as questões abordadas até agora com a parte subseqüente e final desse trabalho, apresentaremos, a seguir, um resumo das principais questões abordadas.

Em linhas gerais, dentre as idéias dos autores supracitados, podemos afirmar que a coerência não é uma característica inerente ao texto, mas deve ser percebida como um princípio de interpretabilidade decorrente de uma multiplicidade de fatores de diversas ordens, que ocorrem na interação do produtor e receptor em uma dada situação comunicativa. Nessa interação, podemos incluir a ocorrência, mesmo que parcial, das máximas de cooperação, as quais os autores, por mais que refiram-se a elas de formas diversas, são necessárias para a produção e recepção de um ato comunicativo. Outros fenômenos também observados, mesmo com diferentes denominações, e necessários para a interpretação e conseqüente coerência, são a ativação de conhecimento de mundo, a correspondência de conhecimento partilhado, a construção de um mundo textual e a realizações de inferências. Os autores também citam o papel da coesão no processo interpretativo e, apesar de sua importância, consideram-na nem indispensável, nem suficiente para produzir a coerência.

Também verificou-se importante nas abordagens aqui apresentadas, a visão que se tem de um texto como um ato comunicativo que representa uma ação social que acontece em um determinado contexto. Destarte, a construção da coerência na interpretação de um texto resulta, também, na construção de sentidos dos princípios, valores e significados subjacentes ao texto, que fazem parte da sociedade onde o indivíduo está inserido. É a partir dessa dedução que passaremos à noção da LCD na próxima seção.

4. NOÇÕES DE LEITURA CRÍTICA DO DISCURSO (LCD)

Baseados nas considerações sócio-semânticas de texto e discurso apresentadas na seção 2 deste trabalho, e para retomar essa linha de pensamento, podemos resumidamente afirmar que um texto é uma produção lingüística que representa práticas discursivas específicas e que ocorre dentro de um contexto social específico (Halliday & Hasan, 1989). Analisar um texto, ou a linguagem em uso, não é independente da análise dos propósitos e funções da linguagem que, a seu turno, representam práticas sociais.

A LCD tem como preocupação desafiar o conteúdo ideológico dos textos, que, a seu turno, representam discursos. Discursos representam práticas sociais. Práticas sociais determinam gêneros. Gêneros apresentam escolhas lingüísticas. Escolhas lingüísticas implicam em leitor pretendido. O leitor nos remete ao indivíduo que é parte de uma estrutura social, que restringe e modela discursos, e quem deve olhar criticamente a função da linguagem na transmissão de sua mensagem (Wallace, 1989).

Fairclough (1992b) nos coloca a leitura como prática social e os leitores como agentes sociais que precisam desenvolver e incorporar a sua prática de leitura uma consciência crítica da linguagem e de práticas discursivas. Com isso, terão bases não só para críticas e resistência, mas também, e principalmente, para transformação, reconstrução e construção de cidadania democrática.

A LCD tem como interesse o desenvolvimento de uma consciência sobre o papel da linguagem e do poder, pois não podemos dissociar a produção lingüística daquilo que ela representa e reflete. O estudo do poder, nesse âmbito, é para estabelecer como ele é legitimado, negociado e contestado para fins políticos (Fairclough, 1989).

Segundo Fairclough (1992a), a questão de poder tem estreitas relações com ideologias, pois surge em sociedades onde há relações de domínio, seja de classe, de sexo ou cultural, dentre outras. Ideologia significa, também maneiras de ver o mundo e construir realidades. A esse panorama da linguagem, poder e ideologia, o autor acrescenta o conceito de hegemonia. Por hegemonia ele entende um equilíbrio instável de liderança e dominação através de relações ideológicas, culturais, políticas e econômicas entre classes e fragmentos de classes. Com essa base, Luke (1995) atribui ao discurso uma função hegemônica, que tem por meta principal ser considerado uma forma de senso comum, e que tem sua função naturalizada através de seu aparecimento em textos cotidianos nas práticas sociais diárias. Essas considerações estão sendo levantadas aqui só para que possamos ter um alcance da extensão do assunto onde estamos inserindo esse trabalho, pois não cabe, nesse momento, uma abordagem mais profunda do tema.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho tem como objetivo final uma reflexão sobre a prática pedagógica do ensino da leitura. Vemos a leitura como um processo social que pode promover ou inibir a capacitação de indivíduos. Acreditamos que o ensino de uma leitura crítica seja parte do processo de desenvolvimento e ampliação da consciência do indivíduo e seu papel na sociedade. A postura crítica na leitura pode ajudar o indivíduo adquirir uma reflexão mais cuidadosa e uma perspectiva crítica em relação aos atos sociais em que está inserido.

A inclusão do estudo da coerência junto à LCD é justamente pelo princípio de interpretabilidade que o rege. Percebemos que a noção de coerência exerce um papel fundamental para a compreensão e interpretação de textos. Logo, se a LCD tem como objetivo a compreensão e interpretação da real intenção do texto, é lícito concluirmos que o ensino da coerência deve ser incluído como item indispensável para o desenvolvimento de postura crítica em aulas de leitura. Acreditamos, também, que essa nossa conclusão sirva para respondermos o questionamento primeiro desse trabalho.