Analise do Filme - Tempo de Matar
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Uma Análise Sócio - Histórica do Filme: Tempo de Matar

Brasília - Campus Asa Sul

Nov/2006


Tempo de Matar

Direção: Joel Schumacher

Com: Matthew McConaughey, Sandra

Instituto de Educação Superior de Brasília

Curso de Psicologia – Noturno (5ª- feira)

Disciplina: Psicologia Social II

Professora: Ana Karina

Bullok, Samuel l. Jackson, Kevin Spacey, Oliver Platt, Charles Dutton, Donald Sutherland, Kiefer Sutherland, Ashley Judd e outros

O filme "Tempo de Matar" ocorre em Canton no Mississipi, onde Carl Lee (Samuel L. Jackson), um negro que, ao matar dois brancos que espancaram e estupraram sua filha de 10 anos é preso, e um advogado branco Jake Brigance (Matthew McConaughey ) e Ellen (Sandra Bullock) uma obstinada estudante de Direito vão contra todo um preconceito e racismo existente na comunidade daquela cidade para tentar defendê-lo.

A garota negra de 10 anos Tonya, é pega à força, estuprada e espancada até quase a morte por dois rapazes brancos enquanto voltava do armazém. Os rapazes são levados à delegacia logo depois para aguardar julgamento, e enquanto isso Carl Lee, pai da garota já sabendo que o racismo impera na cidade, e sendo os negros vistos como lixo, vai à procura do advogado branco Jake Brigance, que já havia defendido seu irmão há alguns anos atrás, e quando pergunta a este que caso venha ficar encrencado se Jake o ajudaria, e obtém afirmação, Carl Lee ainda indaga ao advogado que caso ocorre o mesmo com sua filha branca, o que ele faria? Jake fica sem resposta.

Quando os dois rapazes brancos estão sendo levados ao tribunal para terem o valor da sua fiança decretada, o pai da garota Carl Lee, num acesso de ódio, decide fazer justiça com as próprias mãos e mata os dois, na frente de diversas testemunhas, além de acidentalmente ferir seriamente um policial. Ele é preso rapidamente e vai a julgamento, mas a justiça dificilmente prevalecerá, pois a cidade é majoritariamente branca e racista. Então, Jake e Helen (Sandra Bullock), uma idealista estudante de Direito, resolvem assumir a causa.

Esse advogado acaba tendo sua casa incendiada, o marido de sua secretária é espancado e morto por uma "seita" racista da própria cidade, a jovem Hellen também é ameaçada e espancada por esta seita. Os dois acabam sofrendo diversas ameaças e pressões para abandonar o caso, devido ao preconceito e racismo da comunidade daquela cidade. Ao final, a opinião pública fica dividida entre os que apóiam a atitude do pai da menina e os que não admitem que um negro "acabe" com um branco, começando assim um turbulento julgamento que se torna uma violenta batalha racial, e a cidade se transformando num barril de pólvora.

Quando começam os depoimentos, Ozzie, o xerife que prendeu e interrogou os dois estupradores, afirma ao advogado de defesa Jake, que eles assinaram uma confissão dizendo ter sim estuprado a menina. Há ainda no depoimento do policial que teve a perna amputada por ter sido atingido por Carl Lee no momento do crime, diz a todos que mesmo estando no estado em que se encontra não guarda rancor dele, e que no seu lugar teria feito a mesma coisa. Essas palavras causam alvoroço no tribunal e a ira do juiz que alerta a defesa que não permitirá que no julgamento se mencionasse a razão que fez o pai cometer duplo homicídio, pois o julgamento para ele é de assassinato e não de estupro.

Mesmo assim, quando o psiquiatra do estado vai depor a favor da promotoria e afirma que Carll Lee estava mentalmente sadio quando cometeu o crime, é desmoralizado pela defesa que prova ao júri que tal psiquiatra já havia declarado outros réus como sadios, no entanto os têm enquanto pacientes esquizofrênicos em sua clínica atualmente, o que leva todos a crer que este profissional os declarou sadios na época somente para fins processuais, em comum acordo com a promotoria.

Mas, ao ser interrogado, Carl Lee acabou sendo encurralado pelo promotor e exaltado acaba afirmando aos gritos no tribunal que alguém que faz o que os dois rapazes brancos fizeram com sua filha, merecem arder no fogo do inferno. E com essa declaração joga por terra todas as tentativas do advogado Jake em qualifica-lo como mentalmente perturbado no momento do crime.

Diante desse quadro, no dia seguinte Jake visita Carl Lee na prisão e diz a ele que não há mais argumentos jurídicos para defendê-lo e que perderão o caso, propõe que façam um acordo com o promotor, desqualificando assim o homicídio como premeditado e consigam a prisão perpétua ao invés da pena de morte. Neste momento, Carl Lee mostra a Jake que o escolheu por ele ter o mesmo pensamento do tribunal e dos jurados, alegando que ambos são diferentes e que embora ele, Jake, fale a respeito de brancos e negros na TV, ele ainda é um branco, portanto deve deixar de lado os argumentos que vem usando de lado, e passar a vê-lo como o júri o vê. Carl Lee pede então ao advogado para começar a pensar se caso ele estivesse no júri, o que seria preciso para convencê-lo a liberta-lo, e que somente assim poderia salvar o caso.

No julgamento final, o promotor pede a pena de morte para Carl Lee, enquanto seu advogado, Jake, diz que não vai ler sua defesa porque quis provar que um negro poderia ser julgado com justiça, e que todos são iguais aos olhos da lei, o que percebeu não ser verdade, pois a justiça continuará sendo um reflexo de nossos preconceitos.

É nesse momento que Jake solicita a todos os presentes que fechem os olhos e ouçam a ele e a si mesmos, então ele começa a contar a história de uma garotinha que volta do armazém, e de repente surge uma "pick-up" de onde saltam dois homens e a agarram, eles a arrastam para uma clareira e, depois de amarrá-la, arrancam-lhe as roupas do corpo e montam nela, primeiro um, depois o outro, eles a estupram tirando toda a sua inocência com brutais arremetidas. Depois de acabarem, e de ter matado qualquer chance daquele pequeno útero ter filhos, os dois rapazes começaram então a usar a garotinha como alvo, acertando-a com latas cheias de cerveja, cortando sua carne até o osso. E não satisfeitos, eles ainda urinaram sobre ela, e com uma corda fizeram um laço enrolando-o no seu pescoço e num puxão repentino ela foi suspensa no ar, esperneando e não encontrando o chão até o galho quebrar e a garota cair no chão. Nesse momento, eles a pegaram colocaram na "pick-up" e, ao chegar a uma ponte, jogam-na de cima da mureta, de onde ela caiu de uma altura de 10m até o fundo do córrego.

Jake então pára a história, e pergunta aos presentes se conseguem vê-la, se conseguem imaginar o corpo daquela garotinha estuprado, espancado, massacrado, molhado da urina, do sêmen deles e do próprio sangue, e depois abandonado para morrer...

E novamente repete para que todos façam uma imagem dessa garotinha, aguarda um instante e pergunta: "Agora imaginem que essa garotinha é branca"!

Mediante essa explanação do advogado, Carl Lee é inocentado pelo júri. O filme termina com o advogado e sua família na casa de Carl Lee no subúrbio, comemorando o resultado da sentença, e observando suas filhas brincando juntas.


Análise Sócio-Histórica

O filme "Tempo de Matar" trata de um tema polêmico, pois traz à tona o preconceito, racismo, essa forma de tratamento ao outro completamente desfavoráveis, e arbitrários, a que certas pessoas ou grupos são submetidos.

Quando a menina negra foi estuprada, ao ser encontrada em frente à sua casa, reuniram-se várias pessoas do grupo, que ficaram indignadas com tal acontecimento, e esse sentimento de revolta ocorreu porque mesmo estes morando numa mesma comunidade, eles se percebem excluídos dela, porque são discriminados e estereotipados, pelo fato de terem a pele negra. Dessa forma, segundo Cimpa (1994), os indivíduos têm sua identidade criada e modificada a todo o momento pelo ambiente, situações e contexto em que estão inseridos. E a construção dessa identidade vem com a percepção de se notar enquanto um sujeito diferente, pois sabem que fazem parte de uma comunidade mista, no entanto se vêem igualados a um outro grupo, que é formado por uma minoria com a cor da pele escura.

Após ver no advogado branco, Jake, uma chance de gritar ao mundo por justiça, pelos seus direitos na sociedade. Carl Lee, ao fazer justiça com as próprias mãos e matar os dois rapazes brancos, tenta mudar uma realidade racista que lhe é imposta dia-a-dia, que de acordo com Codo (1994), ao atuar sobre o momento , a realidade, o ser humano a modifica, e dessa forma acaba por modificar a si mesmo, portanto todo dia os seres humanos produzem um pouco da sua história, num desenvolvimento contínuo.

Ao perguntar ao advogado, se caso ocorresse o mesmo com filha branca dele, o que este faria? Carl Lee faz com que o advogado reflita e comece a produção de um pouco mais de si mesmo enquanto um ser consciente, até porque Jake afirma futuramente à sua esposa que assumiu o caso porque também teria feito o mesmo, caso fosse sua filha. Que para Cimpa (1994), é um comportamento refletido do contexto histórico e social em que o homem vive, pois é daí que ocorrem suas determinações e emergem as possibilidades de alternativas para recriar sua identidade enquanto sujeito.

Jake e Helen, os advogados que assumiram o caso, passam por várias dificuldades no decorrer do julgamento, mas permanecem firmes no objetivo de fazer valer a justiça. E segundo Codo (1994) é esperado, pois o homem precisa da convivência em grupo, precisa do outro para divisão do trabalho, para se sentir mais forte e ainda para sobreviver enquanto ser humano.

Com o andamento do julgamento, a opinião pública fica dividida entre os que apóiam a atitude do pai, e os racistas que não admitem que um negro acabe com a vida de um branco. Aqueles que defendiam Carl Lee nas ruas se identificavam com sua história e seus motivos, Cimpa (1994) afirma que as identidades refletem a estrutura social, ao mesmo tempo em que reagem sobre ela, conservando ou transformando-a, pois o sujeito é construtor de sua própria história, e ainda segundo Cimpa (1994), só em optar por algo estes já estão influenciando na construção de si mesmo, enquanto sujeitos, e ainda na estrutura da consciência da sociedade.

Quando Jake solicita a todos no tribunal que fechem os olhos e conta a historia de uma garotinha que foi violentada e espancada, com riqueza de detalhes, e somente no final do relato solicita que todos os presentes a imaginem com sendo uma menina branca, esse advogado teve o objetivo de trazer à tona uma identificação, e reflexão sobre os problemas vividos por causa do racismo. Ao fazer tal relato, Jake ainda quis mostrar aos presentes e ao júri que foi o fato de dois rapazes branco terem estuprado e espancado a menina de negra de 10 anos, que afetou o comportamento daquele pai. Pode-se ilustrar com isso o que Cimpa (1994), afirma ser reflexo da cisão entre o sujeito e a sociedade, que faz com que cada vez mais o indivíduo não reconheça o outro como ser humano, e sendo assim, não reconhece a se próprio como humano.


Análise Behaviorista

O filme ocorre numa sociedade onde o racismo é predominante, e a diferença social é quase palpável. Isso nos faz notar que o comportamento reforçado varia de momento para momento, dependendo da condição do agente reforçador, o que nos leva a perceber que para Carl Lee, o pai da garotinha de 10 anos, foi mais reforçador matar os dois rapazes, mesmo sabendo que poderia ir para a câmara de gás, do que não fazer nada, e vê-los soltos nas ruas após pagar fiança.

O mesmo ocorre com o advogado Jake Brigance, que defender um negro, livrando-o da pena de morte se torna mais reforçador, do que se deixar envolver pelo racismo.

No filme em questão, o estupro da menina negra foi o estímulo social que mudou as contingências de todos os personagens envolvidos ali, pois foi a partir desse estímulo que houve o comportamento do pai, que veio ainda gerar uma outra conseqüência, a luta contra o racismo que ocasionou uma verdadeira guerra na cidade do Mississipi.

Ainda ressaltamos o controle de grupo, onde o comportamento é selecionado pelas conseqüências. No filme em questão fica evidente tal fato quando alguns jovens se unem e ressuscitam uma antiga "seita", com o intuito de punir severamente um negro que ousou matar 02 brancos, fato esse que não teria ocorrido no passado, quando a tal "seita" agia a seu modo e era respeitada, e temida.

Quando o advogado assume o caso, logo depois percebe que não era só uma questão de estupro, mais de racismo, esse passou a se tornar seu estímulo reforçador principal para que não abandonasse o caso, mesmo com toda a pressão e ameaças sofridas no decorrer do julgamento.


Referências Bibliográficas

- Cimpa, A.C. (1994). Identidade e O Fazer e a Consciência. Em S. Lane, & W. Codo (Org), Psicologia Social: O Homem em Movimento, pp. 48-75. São Paulo: Ed. Brasiliense.

- Skinner, B.F. (1994) Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes