A Influência dos Estados Unidos no Brasil
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Influência dos Estados Unidos no Brasil


INTRODUÇÃO

Com certeza você já deve ter tido em suas mãos um manual de instruções em inglês, manual este que para grande maioria dos brasileiros pouco lhes instruirão, visto que essa pessoas não conhecem, conhecem pouco, ou não conhecem o bastante para poderem usufruir plenamente manual.

Não só numa situação como a que citamos acima, mas também em nosso cotidiano nos deparamos com uma infinidade de termos ingleses os quais em muitos casos nem sabemos, ao certo, seus verdadeiros significados, porém são repetidos inúmeras vezes mais por imitação do que por necessidade de utilizarmos o temo da língua britânica.

A pesquisa que realizamos disserta sobre esta questão, ou seja, a influência da língua inglesa em nosso país. Como não podemos tratar um idioma como um caso isolado- uma vez que é produto de um conjunto fatores sociais, políticos, econômicos e culturais interagindo entre si- então precisaremos discorrer também sobre a constante presença norte-americana entre nós como a maior disseminadora da língua e cultura inglesa.

Os norte-americanos passaram a exercer forte influência aqui no Brasil, principalmente após a Primeira Guerra Mundial, quando passaram da posição de um dos maiores devedores do mundo para a de grande potência. A partir desse momento eles assumiram a tutela dos países da América Latina recém independentes de suas metrópoles européias.

Hoje nós comemos lanches do MacDonald’s, bebemos Coca-cola, vestimos Nike, assistimos aos desenhos da Disney, e muito mais.

O nosso trabalho objetiva, fazer com que passemos a refletir sobre as causas e efeitos do idioma inglês, e do mundo visto através de ótica norte-americana, pela qual desde muito pequenos aprendemos a enxergar, por influência da TV, das músicas, do cinema, e de todo um mercado dominado pelos ianques.  


CONTEXTO HISTÓRICO

TUDO COMEÇOU…

Era uma vez um índio, um negro e um português . . .

Influências culturais todos os povos recebem e exercem, no decorrer da sua história, conforme o nível e a natureza de suas relações.

No caso do Brasil, desde o início da sua história isso se verifica com a convivência e consequentemente a troca de elementos culturais do branco europeu, invasor e colonizador, com o índio, habitante original desta terra, e depois com o negro, trazido da África como escravo.

A cultura dita brasileira se moldou portanto a partir do intercâmbio de três elementos de raças, continentes e habitats distintos e portadores de técnicas, crenças e formas de expressão diversas.

No entanto, a história de nosso país foi sempre analisada apenas sob o ponto de vista da dominador. Por isso encaramos a chegada, conquista e dominação européia na América como mais uma etapa gloriosa de uma civilização "superior", cumprindo seu destino inexorável de espalhar pelo mundo as verdades engendradas durante o seu específico e particular processo de desenvolvimento histórico.

Usamos expressões como "descobrimento", "europeização do mundo", "transplantação de cultura" etc., que mal disfarçam a supervalorização do modo de ser e estar no mundo do europeu em detrimento da cultura daqueles povos que, em nossa História Oficial, acabaram relegados a papéis secundários, embora nos tivessem legado também maneiras de falar, fazer, se expressar e tantos outros elementos culturais.

Segundo essa concepção europocêntrica, tudo se passaria como se a dominação do branco fosse essencialmente natural e todo o legado indígena ou africano tivesse permanecido entre nós devido a algum processo de "descuido" da história ou algo como um "vazamento cultural acidental". Por isso mesmo, esses legados têm sido encarados como remanescentes do "exótico" e classificados como folclóricos durante o processo de "embranquecimento" pelo qual passou o nosso continente.

Formando nossa identidade nacional

Consolidado o domínio de Portugal sobre o Brasil, consolidou-se, consequentemente, o domínio de sua cultura sobre a indígena e a africana. Contudo, no transcorrer do tempo outras influências culturais, européias também, aqui se exerceram: a holandesa, no século XVII, a francesa, iniciada sobretudo durante o século XVIII, e a inglesa, no século seguinte.

O domínio holandês no nordeste açucareiro (1630-1654) deixou algumas influências que não chegaram contudo a abalar os alicerces portugueses da cultura local, atuando mais nos poucos centros urbanos existentes, sobretudo em Recife. Como marcas de sua passagem os holandeses deixaram alguns prédios, pontes e, conforme cita Joel Rufino dos Santos em sua História do Brasil (Marco Editorial, 1979), "alguns meninos de cabelos ruivos e o sobrenome Wanderley".

A presença francesa, que se prolongou pelo século X I X até os primeiros anos do atual, agiu, porém, sobre uma pequena parcela da também quantitativamente minúscula (mas poderosa) classe dominante, que enviava seus filhos para estudar na Europa, onde tomavam contato com a cultura francesa, que, na época, gozava de grande prestígio.

Num país onde a posse de terras e escravos definia o nível de poder, a educação escolar, as letras e as artes eram consideradas bens de consumo supérfluo e usadas como objetos de ostentação para obtenção de sucesso nas rodas sociais, conferindo status e garantindo, além disso, poderes suplementares. Nessas terras onde as mais poderosos eram analfabetos ou semi-alfabetizados, aqueles que falavam, liam e moldavam suas maneiras tendo como protótipo a cultura francesa eram tão poucos que não podemos falar em invasão mas apenas em influência cultural francesa.

A influência inglesa, por outro lado, exerceu-se muito mais do ponto de vista político e econômico do que propriamente intelectual. Embora bens de consumo britânicos fossem adquiridos pelo comércio direto ou usufruídos graças aos investimentos ingleses no Brasil, a intelectualidade, numericamente bastante insignificante naquela época, continuaria ainda a seguir, por mais algum tempo, principalmente o modelo francês.

Muitas palavras até hoje empregadas por nós atestam essas duas influências: abat-jour, peignoir, baton, rouge, Iingerie e outros "francesismos" e as ligadas ao foot-ball (esporte, aliás, introduzido no Brasil pelos ingleses) como team, score, goal, back, etc.

No final do século XIX e início do XX entrariam várias levas de imigrantes em nosso país: italianos, espanhóis, alemães, árabes, eslavos e japoneses. Evidentemente da convivência com eles alguns elementos novos passaram a ser incorporados à nossa cultura. Mas foram relativamente poucos e facilmente identificáveis, sentidos e reconhecidos como estrangeiros. Além disso são encontrados sobretudo nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, mais em algumas cidades ou bairros do que em outros, e não em todo o país.

Esses elementos culturais estrangeiros não foram, contudo, propositadamente divulgados entre nós com finalidades políticas ou interesses econômicos por parle das nações de onde vinham os imigrantes. Sua difusão se deu devido ao contato direto e espontâneo com eles e à observação pessoal de seus costumes, quer pela vizinhança, casamento ou aproximação em ambientes de trabalho.

Tendo sido absorvidos por nós, eles não assumiram, no entanto, qualquer caráter de dominação. Não se tornaram exclusivistas, substituindo ou eliminando algumas de nossas antigas práticas culturais, não foram vistos como superiores aos nossos e não veicularam camufladamente nenhum sistema de valores que pudesse interferir em nossa prática política e social. Devemos ressaltar contudo que foi com os imigrantes italianos e espanhóis que conhecermos a teoria c a prática anarquistas. Como elas eram condenadas pelos governos de seus países de origem, não estavam portanto a seu serviço.

Podemos ter algumas palavras oriundas dos idiomas dos imigrantes, bem como alguns de seus pratos compondo nossos cardápios, ou algum modo particular de falar, gesticular, e até algumas crenças. No entanto, enquanto povo, de norte a sul do país, nós, brasileiros, nos distinguimos acentuadamente deles.

Por tudo isso não consideramos os imigrantes como nossos invasores culturais, embora italianos, alemães, japoneses etc. tenham representado esse papel em nações africanas e asiáticas, sobre as quais seus países exerciam algum tipo de dominação.

A segunda onda de invasores culturais - a primeira foi representada pela colonização portuguesa - estaria ainda para acontecer.

Para não nos prolongarmos muito, começaremos a discutir sobre as influências do inglês a partir do século XIX (1801-1900), quando se intensificaram, mais diretamente, as influências dos países de língua inglesa, Inglaterra- que já nos manipulava através de suas relações com Portugal- e os Estados Unidos da América.

Primeiro, a Inglaterra

Podemos notar a presença do idioma bretão através dos almanaques e dos registros comerciais do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife da primeira metade do século XIX que estão cheios de nomes ingleses. Gente estabelecida nas cidades mais importantes do litoral brasileiro com armazéns de fazendas, fundições, oficinas, casas de leiloeiro, escritórios comerciais, shipchandlers. Também alguns médicos e professores da língua inglesa.

Os anúncios de jornais brasileiros da primeira metade do século XIX também deixam claro - no que são confirmados por outros documentos - que os negociantes ingleses eram então os donos dos melhores armazéns de fazendas nas principais cidades da colônia e depois do império. Os grandes importadores de panos para as roupas dos senhores finos e nem sempre escrupulosos no pagamento de suas contas.

Nessa época, não raro encontrar nos jornais brasileiros anúncios escritos em inglês, como o que abaixo demonstramos:

"for account of the British Government: Sale of 380 casks or thereabouts of English Bread; on Thursday next the 29 Inst will be sold by public Auction for account of the British Government at n. 187 rua Direita at 11 o'clock in the forenoon a quantity of English Biscuit of good quality as well as 160 bags of inferior quality. -The Bread in Casks is well worth the attention of ship chandlers & c. It will be put in lots each not less than 20 casks as will suit the purchaser. Samples may be had on application at the Store n. 187 rua Direita".

Certas ruas do Rio de Janeiro, como a rua Direita citada no anúncio acima, ofereciam aos olhos dos compradores uma abundância de artigos ingleses, inclusive produtos de Manchester. Um negociante do Rio de Janeiro daquela época chegou a dizer a um viajante inglês que por aqui passara que o Brasil era menos uma colônia de Portugal do que da Inglaterra - para onde ia, na verdade, o melhor ouro do Brasil e de onde nós recebíamos os artigos de primeira necessidade.

Tanto no Brasil, como no Chile e no Peru, eram os ingleses que forneciam a populações há pouco libertadas da tutela política da Espanha e de Portugal os gêneros de primeira necessidade, conservando-as sob um domínio econômico que no Brasil, pelo menos, se revestiria por algum tempo, de influência política.

A posição privilegiadíssima que, ainda na fase colonial do Brasil, a Inglaterra conseguira para seus produtos nos mercados brasileiros, não poderia deixar de dar à influência inglesa na América portuguesa o perfil aquilino das influências imperiais. Os cônsules de Sua Majestade Britânica chegando a estimar eles próprios os direitos que deviam pagar no Brasil mercadorias inglesas, quando no caso das demais importações do estrangeiro era exclusivamente às autoridades portuguesas que incumbia fixar o valor das mercadorias nas faturas, ganharam um prestígio quase de semi-deuses nas terras brasileiras. E é um tanto com o ar de semi-deuses que as figuras de alguns cônsules passam pelos anúncios das gazetas do tempo do Brasil-Reino, presidindo a leilões, convocando reuniões, ostentando enfim uma autoridade toda especial; do mesmo modo que é com voz quase de mando que eles se dirigem às autoridades portuguesas do Brasil-Reino e às autoridades brasileiras dos primeiros tempos do Império, através das cartas, ofícios e comunicações. Entretanto, era menos nesses papéis ilustres do que nos anúncios das gazetas, que dava no vista a autoridade especial dos senhores cônsules de S. M. B. no Brasil. Essa situação de autoridade excepcional dos cônsules ingleses no nosso país - para não falar na dos juizes especiais - não podia deixar de irritar os outros estrangeiros nem proclamada a independência brasileira - de ferir aos patriotas exaltados nos seus rnelindres mais caros: o de ser o Brasil um país independente de toda a tutela européia. Foi precisamente o que se deu, resultando daí impopularidade do inglês entre certos elementos da população brasileira na primeira metade do século XIX: entre aqueles mais influenciados pelos franceses, tão ativos, então em propaganda anti-britânica. Propaganda que era a expressão de intensa rivalidade comercial: os franceses contra os senhores quase absolutos dos mercados brasileiros.

Baseando-nos nos relatos acima, podemos comprovar que, mesmo com o byronismo presente no século XIX, as maiores influências se deram no campo político-econômico. 


Agora, os EUA ( para quem preferir USA)

Os Estados Unidos, e seu resto de mundo

Num período glorioso como o de agora, os Estados Unidos crescem um Brasil a cada dois anos. Os soluços recessivos nos anos que precederam esta fase de ouro do presidente Bill Clinton arrancavam-lhes anualmente a riqueza de uma Argentina. A Califórnia consome mais água, vinho, automóveis e computadores do que a China. O PIB americano supera a totalidade dos PIBs somados da França, da Alemanha e do Japão. Ainda que tecnicamente não seja imperial, já que não ocupa fisicamente territórios alheios, como fizeram todos os outros impérios, inclusive o soviético, os Estados Unidos iniciam este século como potência hegemônica planetária. Têm um domínio econômico, cultural, científico e militar inquestionável. Mesmo com todo o tamanho e solidez, o império está sendo observado com certa preocupação pelos outros países. Os próprios americanos temem que o ciclo de crescimento em que navegam há uma década possa estar exagerado. Falam a todo momento em "exuberância irracional" nas bolsas de valores. Estão com medo de que a bolha estoure, de que a economia esfrie, mesmo que ela se mantenha aquecida contra todas as expectativas. Aliás, a economia americana está tão aquecida, artificialmente aquecida para alguns, que o banco central americano vem aumentando gradativamente os juros básicos para evitar um crescimento além do razoável, porque o risco lá na frente poderia ser maior. Vive-se um milagre econômico nos EUA. Mas será mesmo que milagres existem? E, se existem, quanto tempo duram?

Em 1997, a Ásia teve uma gripe, o mundo entrou em pânico e o Brasil se contorceu numa crise financeira de malária. Em 1998, o urso que mora na Rússia entrou em hibernação forçada sob o chicote de uma quebradeira colossal. O mundo ficou em pânico outra vez e o Brasil também foi para a cama, com dengue hemorrágica. Em janeiro de 1999, ainda machucado pelas crises da Ásia e da Rússia, o Brasil sofreu uma fuga selvagem de capitais e teve de deixar o real flutuar de 1,20 por dólar para o pico de 2,17, no prazo de dez dias. Muito bem, agora imagine a seguinte hipótese. Foi ruim com a Ásia, péssimo com a Rússia e dramático com o Brasil da âncora cambial estilhaçada. E se, por acaso, o porta-aviões americano é que desse agora uma guinada fora do padrão? Não seria preciso chegar ao ponto improvável, quase impossível, de voltar a sofrer uma daquelas crises como a que enfrentou em 1929. Nem mesmo seria necessário, para causar comoção econômica mundial, que entrasse em ritmo passageiro de paralisia, como aconteceu no poderoso Japão nesta mesma década de ouro dos EUA. O que se está perguntando é: o que aconteceria se o porta-aviões americano apenas mudasse um pouco a rota ou a velocidade? Muita coisa, pode-se ter certeza.

Alguns analistas acreditam que bastaria uma queda duradoura de 20% na poupança que os americanos possuem em suas bolsas de valores para lançar os EUA numa recessão. A bolsa, como sabem todos os que vêm acompanhando os índices Dow Jones e Nasdaq nas últimas semanas, está corcoveando nos Estados Unidos, com uma tendência preocupante de baixa. E o resto do mundo dificilmente escaparia de um período recessivo se esse porta-aviões diminuísse o ritmo. A influência americana é simplesmente grande demais. O México desova 80% de suas exportações no quintal do vizinho Tio Sam. De cada dólar que o Brasil recebe em pagamento pelos produtos que exporta, 22 centavos vêm dos Estados Unidos. A recuperação das economias asiáticas depois do baque de 1997 é atribuída em grande parte à gula do mercado interno americano, que consome com a mesma intensidade desde pentes de ossos de baleia até complexos chips de memória e telas de cristal líquido para computadores produzidos na Ásia.

À sombra dessa máquina de produzir riqueza, o mundo se pergunta se não está excessivamente dependente de seus humores. Mesmo entre os próprios americanos, muitos estão desiludidos com alguns aspectos do modelo adotado dentro de casa e da sua tradução para o exterior: a economia globalizada do novo milênio. Em Washington na semana passada, enquanto os ministros das Finanças de 182 países se reuniam a portas fechadas sob o patrocínio do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, sindicalistas protestavam nas ruas contra a transferência de fábricas e empregos para os países pobres, e integrantes de ONGs pediam mais ajuda às nações miseráveis do planeta. A primeira alegação é uma tolice. Da mesma forma que o operário da fábrica de pneus do Colorado reclama porque sua empresa transferiu a fábrica para o México, deixando-o sem emprego, o sindicalista brasileiro reclama da globalização porque acha que ela transfere riqueza para os capitalistas americanos. A globalização é um fenômeno inescapável, tem muitas vantagens e produz alguns cadáveres por onde passa. É também uma dança da qual todos os países, queiram ou não, estão participando, a menos que sejam uma Ruanda ou um Zimbábue. Os EUA são, no entanto, a locomotiva do processo. "A História recente do mundo foi marcada por dois eventos extraordinariamente únicos. O surgimento e a derrocada dos regimes totalitários e a inabalável, metódica e crescente concentração de poder pelos Estados Unidos da América", diz o pesquisador J.M. Roberts em seu formidável relato do século XX – Twentieth Century, publicado no ano passado nos Estados Unidos e ainda sem tradução no Brasil.

Olhar de perto as condições de saúde da economia americana tornou-se, portanto, obrigatório para os cidadãos dos outros países. Ninguém sabe ao certo se o ciclo de prosperidade que coincidiu com os dois mandatos do presidente Bill Clinton está no fim. Mas ninguém discute que suas feições econômicas têm um desenho nunca visto na história da riqueza das nações. Para começar, os Estados Unidos estão crescendo seu Brasil a cada dois anos, acumulam um PIB anual de 9 trilhões de dólares, praticamente não têm desemprego e, este é o maior mistério, com todo esse aquecimento, a inflação está domada no patamar baixíssimo de 2,5% ao ano. O motivo é simples: a economia americana está ganhando competitividade a um ritmo altíssimo e isso evita que os preços subam. Onde está o perigo, então? Um deles: os Estados Unidos importam muito mais do que exportam. Ao fim de cada ano, ficam devedores em 300 bilhões de dólares nessas trocas internacionais. A dívida corresponde, aproximadamente, a toda a produção de uma Argentina por ano. Há também a instabilidade do mercado de ações.

Há três semanas, o presidente Bill Clinton convocou uma reunião de cúpula em Washington para esclarecer um ponto. Aliás, dois pontos. O primeiro: se a riqueza americana em ações da chamada nova economia, lastreada nas empresas de internet, é real ou virtual. O segundo ponto: se há perigo de as pessoas, excessivamente otimistas, estarem inflando artificialmente o mercado de ações. A resposta que ele obteve foi esta: ninguém sabe ao certo. Ninguém sabe ao certo, portanto, se vão para cima ou para baixo os cerca de 15 trilhões de dólares em ações que os americanos tinham na semana passada. É mais dinheiro do que todos os impérios do passado, da Antiguidade clássica aos dominadores modernos, jamais puderam juntar. E ninguém sabe ao certo.

"As pessoas comuns que acabaram de chegar ao mercado de ações via internet estão se achando muito espertas. Elas se mostram excessivamente confiantes em suas ações e esse sentimento está inflando artificialmente o mercado", disse a VEJA na semana passada o economista Robert Shiller, professor da Universidade de Yale, cujo livro Exuberância Irracional, lançado recentemente nos Estados Unidos, tem sido lido como o mais erudito alerta a quem está colocando todas as suas fichas no mercado acionário americano (veja entrevista). Há portanto críticos mais eruditos da presente situação dos EUA que os radicais barulhentos que protestavam nas ruas de Washington na semana passada. Ouça-se outro professor americano, Thomas Skidmore, historiador que leciona na Brown University: "Os Estados Unidos têm o poder da força, pois são os detentores do maior arsenal do planeta, têm o poder econômico, já que são os mais ricos e prósperos, e, para completar, ainda têm os artistas de Hollywood, que convencem a humanidade de que seu estilo de vida é o que há de mais sensacional".

Historicamente, os impérios se formaram a partir do domínio territorial, militar e tributário sobre outros povos. Os impérios clássicos, como o romano, o árabe e mesmo o britânico, se impuseram pela força militar e quase sempre acabaram afundando em razão de conflitos com os povos dominados. Por mais invasivos e onipresentes que sejam no mundo moderno, os Estados Unidos não podem ser descritos, pelo critério da historiografia clássica, como um império. Pelo critério puramente econômico, porém, os EUA são inescapavelmente imperiais. A economia americana gera 1 em cada 3 dólares da riqueza em circulação no planeta. A presença dos Estados Unidos na chamada nova economia é ainda maior: eles são responsáveis por 73 centavos de cada dólar gerado pelas empresas de computação e de internet. Nem mesmo o poderoso império britânico, sobre o qual o sol jamais se punha, teve uma presença econômica tão maciça no mundo. É um poder que eclipsa a fortaleza militar associada aos Estados Unidos. Um estudo recente do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA concluiu que seus soldados podem intervir em qualquer ponto do planeta em menos de 24 horas. O mesmo estudo, porém, sustenta que as Forças Armadas americanas não poderiam engajar-se ao mesmo tempo em duas guerras totais por um tempo prolongado. Ou seja, o poderio militar dos Estados Unidos está aparelhado para dar um golpe de mão num inimigo transitório, por maior que seja, mas não pode sozinho meter-se em aventuras de conquista que ampliem esse objetivo inicial para a forma de um leque.

Embora boa parte de seu território tenha sido arrancada do vizinho México pelo poder das armas, os Estados Unidos renunciaram à guerra de conquista e à expansão territorial, por força de lei, ainda nos anos 20. Foi quando se lançaram em outra batalha, a da conquista econômica. Enquanto seus empresários, como Henry Ford, faziam as inovações que preparariam a suprema revolução econômica do século, o consumo de massa, a classe política dava sustentação a essa nova guerra. Os principais movimentos políticos nessa direção:

  • Primazia dos negócios – O brado definitivo veio de um presidente desastrado e cercado de denúncias de corrupção chamado Calvin Coolidge. "O negócio deste país são os negócios", disse Coolidge em 1928 com uma premonição de rara felicidade. A frase dele poderia ser inscrita num panteão de definições clássicas da alma americana no século XX feitas por seus presidentes. A seu lado, poderiam constar outras três, ditas em épocas distintas pelos presidentes Franklin Roosevelt, John Kennedy e Ronald Reagan.
  • A guerra justa – Em dezembro de 1941, ainda sob o impacto do ataque de surpresa japonês a Pearl Harbor, que arrastou os americanos para a II Guerra Mundial, Roosevelt disse a sentença histórica: "O povo americano, com o poder dos justos, vai triunfar pela vitória absoluta". Ou seja, os Estados Unidos, na visão de Roosevelt, não devem ser apenas fortes, mas estar ao lado da virtude. Não devem ir para a guerra apenas por decisão de militares ou políticos, mas, sim, por escolha do próprio povo.
  • O patriotismo – "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país." Com esta frase do discurso de posse, John Kennedy, o 35º presidente americano, não apenas refletiu as incertezas da Guerra Fria mas deu contornos modernos a uma das características mais típicas dos americanos, o patriotismo.
  • A liberdade econômica – "O governo não é parte das soluções para este país. O governo é o problema", disse Ronald Reagan, o quadragésimo presidente dos Estados Unidos. Falava da política de gastança pública de seus antecessores imediatos, que gerou inflação e estagnação, a ponto de ameaçar a hegemonia do país no mundo. Japão e Alemanha mostraram suas garras econômicas nesse período e foram descritos como os novos líderes do mundo ocidental por autores como o economista americano Lester Thurow. Embora tenha sido ele próprio um feroz produtor de déficits estatais, Reagan acabou acendendo a luz vermelha da ineficiência da máquina pública. Com isso, contribuiu para reconduzir os Estados Unidos à austeridade fiscal. A cômoda situação atual, que combina pleno emprego e prosperidade sem inflação, não poderia ter sido atingida sem as sementes plantadas durante o governo de Ronald Reagan.

O processo de "re-colonização" do Brasil

Já na década de 30, mas sobretudo a partir da 2ª Guerra Mundial, a influência política e econômica da Inglaterra na América foi cedendo espaços cada vez maiores à norte-americana.

Encontrando no Brasil desse período a política getulista de desenvolvimento industrial, o capital norte-americano foi se infiltrando em nossa economia sob a forma de empréstimos e equipamentos, estabelecimento de subsidiárias (filiais), assistência técnica etc.

Abriram-se então nossas portas para as multinacionais, empresas gigantes que, a partir da empresa matriz, que atua como centro decisório no país de origem, atuam em vários países onde possuem ramificações de seus negócios. As que no Brasil iniciaram suas atividades tinham sede sobretudo nos USA e foi sob a tutela do capitalismo internacional, sobretudo yankee, que se desenvolveu nosso próprio capitalismo industrial.

Coincidindo esse momento com a 2ª Guerra Mundial e a guerra fria, os USA usaram nossa dependência econômica para garantir também o alinhamento político do Brasil ao seu lado, primeiramente contra as potências do Eixo (Alemanha, Japão e Itália) e depois contra a expansão do socialismo e do poder da URSS.

Não foi entretanto só nossas indústrias de bens de consumo materiais que surgiram ligadas ao capital norte-americano. Os setores de comunicação de massa se constituíram, da mesma forma, ou com investimentos diretos de multinacionais ou com a associação de empresários yankees aos brasileiros, ou ainda, quando de capital nacional, utilizando tecnologia e modelos de produção oriundos dos USA.

Além disso, a importação de filmes, músicas e quadrinhos dos USA não parou de crescer desde os anos 30, sobretudo nas últimas três décadas.

Dessa maneira, sem que os norte-americanos se apropriassem do nosso território, tivessem de vir pessoalmente até o Brasil ou destruíssem fisicamente seus habitantes, como no passado fizeram os portugueses, passamos a sofrer quase o mesmo processo de invasão, dominação e colonialismo cultural experimentado pelos índios após 1500.

Tratava-se agora de uma "invasão teleguiada", sem a presença do invasor, que, mesmo lá da América do Norte, fazia chegar até nós seus produtos culturais.

Exatamente, porém, como a cultura européia chegara e se impusera aos nossos índios como expressão de um estágio evolutivo pretensamente mais adiantado e civilização supostamente superior, também assim nos chegava a cultura norte-americana em meados do século XX. Só que agora com a conivência da classe dirigente e a aceitação pacífica e quase unânime de toda a população.

Realmente a ausência física do novo invasor e a imposição de sua cultura através do consumo, e não da escravidão, nos dariam a ilusão de estarmos preservando nossa liberdade e exercendo uma auto-determinação.

Além disso, a entrada no país desses novos elementos culturais pareceria a muitos bastante conveniente e até natural, uma vez que nossos projetos "desenvolvimentistas" tinham como meta levar o Brasil a atingir, o mais rápido possível, o estágio em que se encontravam os USA.

Tal como antes ocorrera com os nossos índios, que para trabalhar e viver com os portugueses tiveram de adotar os seus costumes, nós também, agora, como assalariados das multinacionais norte-americanas ou importadores dos produtos de sua ciência, arte e tecnologia, tivemos de aprender o inglês, manejar seus artefatos e nos moldar aos seus padrões, a fim de produzir e consumir, em primeiro lugar, o que lhes era mais favorável.

E tanto quanto os índios, que ao serem catequizados foram incorporando o modo de ser do dominador, também nós absorvemos, com os produtos consumidos, a idéia de que "o que é bom para os USA é bom para o Brasil".

Se os jesuítas usaram, no passado, a música e as representações teatrais para atrair os indiozinhos, de forma a chegar mais facilmente até seus pais, também desta vez nossa juventude foi maciçamente doutrinada pelos enlatados divulgados pelos meios de comunicação e pelos objetos destinados ao seu lazer.

As primeiras gerações de brasileiros que sofreram essa nova onda invasora ainda puderam perceber claramente o processo de submissão econômica, política e cultural que estavam vivenciando. O passado, não tão remoto, ainda estava vivo em suas lembranças, proporcionando-lhes condições de discernimento e reflexão.

Por isso, até a promulgação do Ato Institucional n. 5, em 1968, que legitimou por decreto a censura aos veículos de comunicação e as prisões, exílio, cassações de mandatos e de direitos políticos como forma de acabar com a oposição, algumas resistências importantes se fizeram sentir em defesa dos interesses brasileiros.

Depois, pela força da repressão, pelo volume avassalador de material "desinformativo" que propositadamente a ditadura nos lançava e pela intensa convivência com elementos culturais "invasores", fomos nos adaptando ao que era estrangeiro e nos esquecendo de nossas próprias raízes culturais.

A invasão cultural da qual trataremos se refere, portanto, à introdução massiva e maciça de elementos culturais norte-americanos, tanto materiais quanto imateriais, no dia-a-dia de quase todos nós, transformando-nos em milhões de brasileiros americanizados, que bebe coca-cola, fuma Hollywood, pratica surf, curte rock, veste jeans, freqüenta os fliperamas, come no McDonald’s, sonha com uma viagem ao Havaí, assiste Rambo, luta para adquirir sempre um maior status, acredita que no mundo capitalista há chances para todos, que dinheiro não traz felicidade ( . . . mas ajuda), repudia o socialismo e pode se emocionar até as lágrimas com cenas do filme Love Story ou, mais modernamente, do ET, embora não preste muita atenção aos dramas sociais vividos intensamente por compatriotas brasileiros, bem mais próximos, ali mesmo em sua cidade.

Enfim, estamos falando da disseminação de elementos produzidos fora do Brasil, muitas vezes inadequados às nossas reais condições e necessidades sociais, e que não está restrita apenas a alguns segmentos sociais ou regionais da população, mas à grande maioria de brasileiros, embora seja mais marcante no eixo Rio-São Paulo, onde se concentram as multinacionais e grandes empresas de comunicação.

O brasileiro não tem consciência plena de que essa imposição de hábitos, modas e valores se realiza por processos artificiais, beneficiando as grandes multinacionais norte-americanas e garantindo nosso alinhamento político aos USA.

Trata-se, enfim, de uma penetração cultural, fruto de um planejamento cuidadosamente elaborado pelo governo dos USA (mas essencialmente pacífica, no sentido de não-utilização de força ou material bélico), da qual nem sempre nos damos conta, mas que cerra nossos olhos e ouvidos e nos anestesia a razão e os sentidos para outras formas estrangeiras de arte, literatura, tecnologia, lazer etc.- Trata-se, principalmente, de uma invasão que fecha amplos espaços para a criatividade e produção cultural mais ligada à nossa brasilidade.

Em outras palavras, é do monopólio da cultura norte-americana em alguns de nossos setores e da sua influência extremamente marcante em outros que estaremos falando. Um monopólio que transforma o que é estrangeiro em algo tão habitual, tão aparentemente natural em nosso meio, que às vezes nem mesmo é reconhecido como importado.

Brasil e EUA, nas guerras ou na paz

Com relação ao Brasil, a penetração dos capitais norte-americanos cresce na medida em que o imperialismo inglês definha, sobretudo a partir da 1ª Guerra Mundial.

Desde meados do século XIX já vendíamos café para os USA. Em 1870 essas vendas representavam 75% do total de exportação do produto, que era responsável por mais da metade de nossas divisas.

No início do nosso século, 43% dos produtos que vendíamos ao exterior eram comprados pelos USA. A economia brasileira já se encontrava praticamente em suas mãos.

O inglês e o alemão, seus rivais e competidores na disputa de nosso mercado, logo seriam tirados da linha de frente da batalha econômica quando foram lançados aos fronts e às trincheiras pela 1ª Guerra Mundial.

Mantendo-se fora da luta até 1917, os USA estariam no entanto, em 1918, entre os países vencedores, com sua estrutura territorial e econômica totalmente inabalada, uma vez que se encontravam geograficamente distantes do cenário das lutas que se travavam sobretudo na Europa. E foram altamente beneficiados pelos planos de reconstrução das nações mais fortemente abaladas pela destruição provocada pela nova tecnologia bélica. As dívidas com eles contraídas foram pagas em ouro ou transformadas em compromisso de aquisição de mercadorias industrializadas norte-americanas excedentes, mesmo que não tivessem muita utilidade para o país importador.

Em 1921 os USA emprestam ao nosso governo federal 50 milhões de dollars e quase no final dessa década já serão os credores de 35% da nossa dívida externa.

É a partir daí que começam a chegar os primeiros "convidados" para o grande banquete que o Brasil, passaria a oferecer ao capitalismo internacional: Firestone, Armour, Refinações de Milho Brasil, Burroughs, Pan American e Anterican Foreign Power (Electric Bond & Share), que deteve por muito tempo, juntamente com a canadense Light & Power, o monopólio da eletricidade em nosso país.

No período entreguerras o capital norte-americano no Brasil, além de produzir e distribuir a energia elétrica, controlava ferrovias e portos importantes, estabelecia aqui algumas de suas filiais mais poderosas, exportava-nos grande porcentagem de seus produtos e voltava sua atenção também para nossos minérios, obtendo, entre outras, a concessão para a exploração do ferro.

O governo de Getúlio tentou tomar algumas "precauções" contra esse estado de coisas. Porém, se formos analisar o período Vargas, veremos nele uma série de contradições, às vezes abrindo as portas de entrada do país ao capital estrangeiro, às vezes apontando-lhe a porta de saída, mas, na maioria dos casos, deixando-lhe alguma brecha toda vez que se aproximasse de nossas fronteiras econômicas.

Se pela Constituição de 1934 os minérios do nosso subsolo deveriam passar a ser propriedade do governo e as jazidas já exploradas progressivamente nacionalizadas, o seu aproveitamento industrial dependeria, no entanto, de concessões federais, que eram dadas não só a brasileiros como também a empresas estrangeiras desde que "organizadas" no país.

Daí o arranjo utilizado pelas múltis que se associaram a brasileiros, "forjando armações" que se mostrariam eficientes sobretudo com a Constituição do Estado Novo (ditadura de Vargas, de 1937 a 1945), pela qual as concessões seriam dadas apenas a brasileiros ou a empresas constituídas por maioria de acionistas brasileiros.

Nessa época, ou mais precisamente nos anos que antecederam a eclosão da 2ª Guerra Mundial (1939), o governo dos USA, apoiado por empresários nacionais, planejaria cuidadosamente , uma estratégia de penetração cultural na América Latina objetivando a conquista de mercados e o alinhamento político de seus países.

A expansão do seu poder nessa área continental fazia parte de um plano de defesa militar dos USA para enfrentamento dos países do Eixo, sobretudo porque a potência nazista estava ampliando seu comércio na região e conquistando algumas adesões importantes nos altos escalões dos exércitos locais.

Neste contexto, o Brasil se apresentava particularmente interessante aos planos yankees, pois além de oferecer matérias-primas importantes para o esforço de preparação para a guerra (borracha, manganês, quartzo, areia monazítica etc.), a Amazônia e o Nordeste eram, devido à sua proximidade com a África, pontos estratégicos extremamente favoráveis ao estabelecimento de bases aéreas e navais norte-americanas.

Por isso o então presidente Franklin Roosevelt criou um "Birô" (escritório) destinado a coordenar as relações econômicas e culturais com a América Latina, visando a consolidação de seu país como grande potência.

Conhecido oficialmente por Office of the Coordinator of Inter-American Affairs e dirigido por Nelson Rockfeller, esse Birô esteve em atividade de 1940 a 1946, aplicando seus recursos no setor de informação, educação, saúde e alimentação dos países latino-americanos.

Interferindo nas agências de notícias internacionais e nas imprensas locais, distribuindo panfletos, bandeiras, retratos etc., o Birô ia difundindo uma imagem positiva do governo, do povo e do estilo de vida norte-americano. Influenciava também na produção cinematográfica, inclusive de Hollywood, estimulando ou produzindo diretamente filmes de ficção, documentários e "jornais da tela" e os distribuindo para a América Latina. Ao mesmo tempo em que fazia a promoção do seu país, também atraía a simpatia para o bloco dos Aliados. Fez o mesmo com as programações radiofônicas.

Os investimentos em projetos nas áreas da ciência, educação, saúde e alimentação, por exemplo, tinham principalmente a finalidade de passar para os vizinhos a idéia de que a preocupação dos USA com eles estava toda imbuída do espírito de "solidariedade hemisférica", convencendo-os, ao mesmo tempo, das vantagens de estarem e permanecerem ao seu lado.

Outra tática adotada pelo Birô foi a de providenciar a ida de profissionais e estudantes latino-americanos para os USA, de modo que conhecessem (e sobretudo admirassem) o "alto nível" da civilização norte-americana, funcionando, na volta, como difusores das "maravilhas" lá encontradas. Ao mesmo tempo mandava artistas, técnicos, cientistas, escritores etc. para cá, oferecendo-nos assistência e assessoria e testemunhando a superioridade cultural de seu país.

Cursos e escolas foram organizados nos países latino-americanos, onde também se incentivou o ensino de inglês (por meio dos Institutos Brasil-Estados Unidos), que, aos poucos, foi substituindo o francês como língua de maior prestígio nas elites culturais nativas.

O american way of life (estilo de vida americano) era de todas as formas oferecido como modelo de modernidade e progresso, e utilizado como estímulo para o consumo dos produtos que o simbolizavam.

O Birô teve amplo sucesso em seus objetivos. Os países latino-americanos se aliaram aos USA, colaborando de várias formas para a "defesa continental" (entenda-se, da América do Norte) durante a 2ª Guerra e, quando ela terminou, garantindo mercados consumidores para as indústrias norte-americanas, intensamente reativadas.

Foi principalmente o fato de a penetração cultural norte-americana ter sido planejada pelo governo dos USA com objetivos imperialistas que nos levou a caracterizá-la como invasão e não influência.

Em 1946 o Birô foi desativado. O primeiro e decisivo passo para nos transformar em colônia cultural dos USA havia sido dado. Depois disso, mesmo sem grandes esforços do governo norte-americano, esse processo se manteve e até se intensificou, sobretudo através da importação de enlatados culturais, conforme acontece até hoje.

Acabada a guerra acabavam também de ser inaugurados no Brasil o esquema de alinhamento político incondicional aos USA, a longa trajetória do processo de dependência econômica e o endividamento externo em relação às financeiras norte-americanas, particulares ou oficiais.

Em plena guerra Getúlio havia assinado com o governo de Washington os acordos pelos quais o monopólio da exportação de ferro e borracha se tornava estatal e seus preços congelados ao nível desejado pelos compradores, nossos aliados da América do Norte. Também bases militares norte-americanas foram estabelecidas em nosso território. Dávamos assim em troca o que "devíamos" pelos 20 milhões de dollars que o Eximbank americano havia emprestado para a construção da usina de Volta Redonda.

Em 1943, Getúlio garante a Roosevelt em sua visita ao Brasil, que durante a guerra continuará fornecendo aos USA tudo o que eles julgarem necessário.

Quase nos últimos dias de seu governo, Getúlio faria entrar em vigor a lei antitruste, pela qual o Estado poderia expropriar qualquer empresa cujos negócios lesassem os interesses brasileiros, o que dizia respeito diretamente a trusts e cartéis internacionais, isto é, acordos comerciais realizados entre empresas que conservam sua autonomia mas dividem entre si os mercados suprimindo, desta maneira, a livre concorrência.

Getúlio, porém, foi deposto menos de 3 meses depois. . . e a lei imediatamente revogada pelo presidente provisório José Linhares!

Permaneciam, assim, intocáveis os interesses da grande potência imperialista no Brasil.

A Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Japão saíram do conflito mundial devastados ou exauridos, necessitando de capitais norte-americanos para sua reconstrução. Na China o processo de luta nacionalista já apresentava fortes tendências para a vitória dos socialistas. Na África e Ásia neocolônias européias começavam a se agitar em movimentos de emancipação liderados pelas frentes de libertação nacional.

Tudo isso irá repercutir na América Latina, e consequentemente no Brasil, em termos de consolidação da presença norte-americana no continente. Fortalecidos com a vitória na 2ª Guerra, mas vendo escapar de suas mãos os mercados orientais e africanos e crescer a influência do socialismo e o poderio da URSS e da China, os USA procurarão se equilibrar econômica e politicamente, estendendo seus mercados e sua influência política sobre o seu próprio continente.

Já haviam iniciado a invasão (. . . e foi assim que tudo começou). Tratariam, pois, nas próximas décadas, de consolidá-la.


BRAZIL, "O PARAÍSO DAS MÚLTIS"

Tal como fora previsto, o fim das ditaduras de Mussolini, na Itália, e de Hitler, na Alemanha, repercutiria também no Brasil com a queda do nosso ditador Getúlio Vargas.

Deposto Getúlio em 1945 e instalada a Constituinte, todo o trabalho de elaboração da nova Carta Magna foi acompanhado de perto pelo agente da Standard Oil, o americano Paul Howard Shoppel. Almejava ele, por meio de pressão, que se chegasse a uma solução constitucional conveniente aos interesses da empresa e do país a que servia. Deve ter ficado bastante satisfeito com a redação final do artigo 153, pelo qual concessões de exploração de recursos minerais e de energia hidráulica poderiam ser dadas a sociedades estrangeiras, desde que organizadas no país.

Não tardou muito e a Standard Oil incorporou a companhia brasileira de gás Esso, obtendo assim a concessão desejada. Seu exemplo foi prontamente seguido por outras empresas multinacionais de capital norte-americano, tal como veremos a seguir.

"O que é bom para os USA é bom para o Brasil"

Em 1946 o ex-chanceler Otávio Mangabeira beija publicamente a mão do general Eisenhower, então em visita ao Brasil, demonstrando abertamente ao mundo todo, com esse gesto tão simbólico, nossa situação de subordinação à política externa e aos interesses da América do Norte.

Nessa mesma ocasião, no governo de Dutra, organizávamos nossas Forças Armadas segundo o modelo oferecido pelos USA, e em 1947 formávamos a Escola Superior de Guerra auxiliados pela Missão Conselheira Norte-Americana, que aqui permaneceu 12 anos!

Essa missão exerceu grande influência na formulação de uma nova "Doutrina de Segurança Nacional e de Desenvolvimento Econômico", a qual iria garantir o alinhamento incondicional do Brasil em relação aos USA no triste capítulo da história da guerra fria entre os USA e a URSS.

Como demonstração incontestável de nossa posição no sistema mundial bipolarizado, nosso governo rompeu relações diplomáticas com a URSS, fechou o Partido Comunista Brasileiro e cassou o mandato de vários políticos socialistas.

Em 1952, com Getúlio novamente à frente na presidência do país, foi assinado um acordo militar entre o Brasil e os USA, pelo qual nos comprometíamos a ficar ao lado deles em qualquer situação de guerra, fornecendo-lhes, além disso, matérias-primas estratégicas, apesar de por lei terem sido declaradas nacionais as jazidas e minas e as substâncias utilizadas na produção de energia atômica.

Tudo isso se fazia em defesa do "mundo livre ocidental", ou seja, do sistema capitalista e contra a expansão da influência soviética e socialista.

Tal como no período anterior, a política de Vargas se mostraria novamente contraditória. Apesar do acordo militar, Getúlio tentaria uma aliança com a Argentina e o Chile, visando contrabalançar a influência norte-americana, já exageradamente forte em nosso continente.

Após intensa campanha popular nacionalista, instituía-se no Brasil de 1953 o monopólio estatal do petróleo. Nasciam a Petrobrás e a Eletrobrás, e Getúlio ainda pretendia interferir no controle de remessa de lucros para o exterior e no repatriamento do capital estrangeiro investido no Brasil, tentativa, aliás, infrutífera, que talvez também tenha contribuído para o desfecho trágico de seu governo, interrompido em 1954 com seu suicídio.

Morto Getúlio, seu sucessor Café Filho abandonou a política de retenção do capital dentro de nossas fronteiras e, pela Instrução n. 113 da Sumoc (Superintendência da Moeda e do Câmbio), abriu mais ainda as portas do país ao capital estrangeiro.

Os planos americanos para o Brasil, tal como para alguns dos outros países periféricos, não excluíam sua industrialização. Só que essa industrialização era baseada na instalação aqui de subsidiárias norte-americanas que produzissem os complementos necessários à matriz e montassem os componentes enviados de lá para cá, usando e pagando, evidentemente, a tecnologia deles importada, inclusive algumas máquinas e modelos já obsoletos em seu país.

Nosso território serviria ainda como ponte para os mercados dos países vizinhos, economicamente tão ou até mais dependentes do que o Brasil. Mas produziríamos bens que não concorressem com os dos USA.

Não foi por outro motivo que alguns anos depois os USA e o FMI (Fundo Monetário Internacional) se colocaram inicialmente contra o Pano de Metas de Juscelino Kubitschek, que propunha o desenvolvimento de indústrias de base no país. Talvez até mesmo se possa entender a tentativa de nosso presidente de restabelecer ralações comerciais com a URSS, cortadas anteriormente pelo governo Dutra, uma resposta à altura ao sonoro "não!" dado pelos aliados lá do Norte ao seu famoso plano.

Mas como, mesmo assim, foi mantida a Instrução n. 113 da Sumoc, os capitais norte-americanos continuaram a penetrar em nossa economia e, ao contrário do que temiam, obtiveram lucros até então jamais atingidos aqui no Brasil.

Aos grupos estrangeiros era permitido importar bens de equipamento em situação muito mais favorável do que a permitida aos nacionais. Além disso o que era considerado como "entrada de capital novo" não passava de reinvestimento de lucros feito pelas empresas estrangeiras, beneficiadas sobretudo pelos baixos salários pagos à mão-de-obra local. Não foi por outro motivo que se assistiu, a partir daí, a uma crescente desnacionalização do nosso parque industrial, uma vez que os grupos brasileiros passaram a achar mais interessante a associação com os internacionais, privilegiados por vantagens na importação de máquinas e equipamentos.

Em uma de suas mensagens ao Congresso Nacional, o presidente Juscelino faria uma análise do "clima de confiança" que o novo governo conseguira estabelecer no exterior:

"Fato de grande importância ocorrido em 1956 foi o renascimento do interesse dos capitalistas estrangeiros pelo desenvolvimento industrial do país. Esse renascimento se deve principalmente ao clima de confiança que o novo governo conseguiu estabelecer no exterior. A verdade é que hoje se transformou inteiramente o conceito em relação ao Brasil; o nosso País está ocupando o primeiro lugar como mercado para capitais estrangeiros (. . .)" .

Tentando esclarecer aos congressistas como foi que isso se tornou possível, continuou:

"Uma daquelas modalidades de ação consistiu em atrair investimentos estrangeiros diretos, através da concessão de incentivos ao estabelecimento de certas indústrias - a automobilística, por exemplo. Em outros casos recorremos a entidades oficiais de crédito, internacionais ou nacionais - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, o Export-Import Bank of Washington, o Istituto Mobiliare Italiano, o Assurance Crédit de France e várias outras - mediante a abertura de créditos bancários a favor do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, ou por ele garantidos. No levantamento de recursos estrangeiros, não raro se apelou para o seller’s credit, ou seja, a concessão, pelos fornecedores de maquinaria, de créditos a curto e médio prazos, garantidos ou não pelo governo do país exportador".

No período presidencial seguinte, Jânio Quadros conduziu nossa política externa em termos de alinhamento não-incondicional aos USA. Tanto assim que reatou as relações diplomáticas com a URSS, recusou-se a apoiar a invasão de Cuba, promovida pelos USA, condecorou "Che" Guevara em sua visita ao Brasil, enviou o vice João Goulart à China para contatos, tendo em vista futuros relacionamentos comerciais etc. Internamente, porém, nossa economia continuaria a seguir os rumos propostos pelo FMI, ficando nossas portas abertas ao capital internacional.

A política externa de Jango também descontentou os USA, sobretudo diante da postura brasileira, desfavorável à tentativa de Washington de obter o apoio maciço da América Latina contra o regime e o governo cubanos (1962).

Internamente os americanos se encontraram também ameaçados por dois projetos de Goulart: o seu plano de encampação de empresas norte-americanas e a Lei de limitação de remessa de lucros das multinacionais, que determinava o limite de saída de capital ao máximo de 10% do valor- dos investimentos registrados.

Por isso, quando a burguesia nacional se sentiu ameaçada pelas reformas de base (agrária, bancária, administrativa, fiscal, eleitoral., urbana etc.), também propostas por Jango, pela ação das ligas camponesas e dos sindicatos operários, pela participação da União Nacional dos Estudantes (UNE) em movimentos políticos e populares e pelo apoio de diversos setores da nossa intelectualidade a esses movimentos todos, ela pôde contar com o apoio não só das altas patentes militares como também dos USA na preparação do golpe que iria depor o presidente Goulart.

Em O governo Goulart e o golpe de 64 [Brasiliense, n. 48, col. Tudo é História], Caio Navarro de Toledo analisa a participação dos USA no movimento militar de 64, por ele denominado golpe "made in Brazil". Diz o autor que, no período imediatamente anterior à queda de Goulart, a influência e atuação do embaixador norte-americano junto ao palácio presidencial era tão grande; que entre nós era muito difundido o slogan: "Basta de intermediação: para presidente, Lincoln Gordon! "

Este embaixador se envolvia na escolha de ministros e assessores presidenciais e participava constantemente de composições e acertos políticos com militares, governadores, deputados, empresários e dirigentes sindicais objetivando minar as bases do governo federal.

Os recursos da "Aliança para o Progresso", criada para fornecer ajuda aos países subdesenvolvidos, foram nessa época grandemente direcionados para os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, cujos governadores (respectivamente Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto) faziam franca oposição a Goulart.

Exatamente no dia em que os militares brasileiros golpeavam os poderes da nossa república (31 de março), o Departamento de Estado Norte-Americano aprovava sigilosamente um plano de intervenção militar no Brasil (a operação "Brother Sam") caso uma guerra civil aqui se instaurasse em defesa do presidente deposto, tal como a CIA (central de inteligência americana) previa que iria acontecer. Os USA enviariam às costas brasileiras um porta-aviões de ataque pesado, destroyers de apoio, petroleiros bélicos, armas, munições, aviões de caça, aviões-tanques etc.

Nada disso porém foi necessário, para alívio do governo norte-americano e alegria de Lincoln Gordon, que, então, cumprimentou entusiasticamente nossas autoridades pelo sucesso do golpe "100% nacional".

A chamada Revolução de 64 inaugurava a fase de ditadura militar que duraria mais de 20 anos no Brasil. Permaneciam garantidos o nosso alinhamento automático aos USA e o pagamento das dívidas externas, com o início consequentemente de um novo ciclo de endividamento brasileiro. Além disso a ditadura entregaria pura e simplesmente nossas riquezas e nosso mercado às multinacionais, anulando medidas políticas e econômicas mais nacionalistas e independentes e trocando-as por nova legislação mais conveniente aos "eficientes colaboradores estrangeiros".

A burguesia brasileira se garantia como classe dominante apoiando-se na burguesia internacional. As múltis, com o apoio recebido, mantinham seus privilégios. O sistema econômico e o regime político defendido por ambas as mantinham associadas no poder.

No mesmo ano do golpe o embaixador do Brasil nos USA, Juracy Magalhães, afirmava, em um de seus discursos, que "O que é bom para os USA é bom para o Brasil", enquanto o presidente Marechal Humberto de Alencar Castello Branco declarava:

"No caso brasileiro, a política externa não pode esquecer que fizemos uma opção básica, que se traduz numa fidelidade cultural e política ao sistema democrático ocidental". (Entenda-se, aos USA.)

Tornava-se mais uma vez público o love affair (romance) vivido naquele momento pelos governos dos dois países.

E continuava tudo como antes. Ou melhor, até um pouco mais que antes.

"Não existe pecado do lado de baixo do Equador"

Com a Nuclebrás e o acordo nuclear assinado com a Alemanha se rompia no Brasil, em 1974, o monopólio estatal do urânio. No ano seguinte o mesmo ocorria com o do petróleo, ao serem assinados "contratos de risco" com empresa privada nacional ou de capital estrangeiro.

Em 1975, na Áustria, durante o l.º Seminário Internacional sobre Investimento no Brasil, promovido pela Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o nosso então ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, sugeria aos estrangeiros uma forma de burlar a lei que lhes permitia a aquisição de terras equivalentes a "apenas" 1 /4 do município onde se encontravam. Era só adquirir terras na divisa de dois, dizia ele, pois com 1 /4 de cada lado se chegaria ao equivalente à metade da área municipal. Aconselhava ainda aos interessados que se associassem a proprietários rurais brasileiros para usufruírem dos mesmos direitos fiscais dos nossos cidadãos.

Como se pode ver, nossa história, neste último século, tem registrado mais recuos do que avanços com relação aos interesses brasileiros, em face das pressões internacionais e objetivos escusos da nossa própria classe dirigente.

Burlavam-se visivelmente as poucas leis que ainda poderiam proteger o mínimo possível os direitos e necessidades das classes baixas e médias brasileiras e até mesmo do investidor nacional.

Em 1978, por exemplo, soube-se finalmente que a Philips do Brasil importava de sua matriz holandesa, por 12 dollars a unidade, circuitos elétricos que haviam sido produzidos no Nordeste brasileiro e exportados para a Holanda por 1 dollar apenas. Seus lucros eram assim remetidos disfarçadamente para o exterior em prejuízo do nosso fisco e, portanto, da economia nacional.

Outro arranjo muito utilizado foi remeter às matrizes 5% do valor das rendas aqui obtidas sob a forma de pagamento por "assistência técnica", na maioria das vezes nem sequer utilizada, livre de qualquer taxação.

Em vez de investimento as matrizes preferem agora fazer empréstimo às próprias filiais, pois assim os lucros são remetidos travestidos de pagamento de juros, também isentos de imposto de renda. Mas é sobretudo com a nossa indústria automobilística que podemos perceber melhor o "jogo de cintura" tanto das múltis como do governo brasileiro enquanto parceiros de um mesmo bloco econômico.

Desde o seu início, em 1961, já se tornava evidente que ela não atendia absolutamente às necessidades reais de nosso país. A produção de carros de passeio ultrapassava a de caminhões, ônibus e utilitários, na proporção de 85 000 para 60 000.

Com nossos baixos salários e uma classe média percentualmente insignificante e economicamente inexpressiva dentro do conjunto geral do país, o mercado brasileiro não conseguia absorver toda a crescente oferta de automóveis. Além disso, a falta de transporte coletivo agravava ainda mais a situação das camadas de renda inferior da nossa população.

Nesse clima de "vento-a-favor" da ditadura, multissoluções governamentais vieram em socorro dos produtores. Inauguraram-se então os consórcios, créditos diretos ao consumidor, campanhas publicitárias estimulando a compra do "carro do ano" como forma de elevação de status.

O Pró-Álcool também ajudaria a aumentar a demanda do automóvel, uma vez que fazia frente ao elevado preço da gasolina, que conduzira à retração o mercado brasileiro de automóveis, com a crise do petróleo, a partir da década de 70.

Além disso, ainda se criavam, em benefício da Ford, Volks, Chevrolet, Fiat etc., incentivos fiscais e estímulos à exportação.

E como isso tudo ocorria também em outros países periféricos, prejudicando-os da mesma forma, não tardou muito e começou a se desenvolver em nosso continente um certo sentimento antiamericanista.

Esse sentimento, gerado sobretudo no seio dos setores mais esclarecidos politicamente, se manifestou muitas vezes, a partir da década de 60, sob a forma de grafites e atos públicos de protesto contra enviados do governo dos USA em visita às nações latino-americanas. Aqui no Brasil se podia ler constantemente nos muros das grandes cidades: "Yankee, go home!" "Abaixo o imperialismo norte-americano" ou "Tio Sam, fora do Brasil". A UNE também organizou várias demonstrações antiimperialistas de grande significação na época.

Como resposta, os USA reagiram pressionando os governos latino-americanos no sentido de neutralizarem ou amenizarem as desigualdades e conflitos sociais, garantindo um mínimo de sobrevivência às classes trabalhadoras e até uma certa elevação do padrão de vida da classe média.

Evitavam-se assim a atração exercida por doutrinas socialistas e as crises de xenofobia, ou seja, de repúdio ao estrangeiro, garantindo-se os mercados conquistados durante as últimas décadas.

Em 1971 a imprensa oficial dos USA publicava uma afirmação feita durante o 92.° Congresso do Comitê de Relações Exteriores a respeito da política dos USA no Brasil:

"Honestamente, a melhor maneira de nos desembaraçarmos dessa pequena área de dificuldades (o sentimento antiamericano na América Latina) não é cessar os investimentos americanos, mas fomentá-los de tal forma que essa gente comece a ter uma galinha em cada panela e dois carros em cada garagem. Portanto, a empresa americana, sendo hóspede desses países, deve agir como um correto cidadão industrial ( . . . )".

Sob a proteção dos governos militares e com o "milagre brasileiro" garantindo não só "as galinhas nas panelas e os carros nas garagens" mas também eletrodomésticos, rádios, aparelhos de som e televisores em todos os lares da classe média e alta, as montadoras de veículos foram se transformando em cartéis. Assim fortalecidas, elas forçaram os preços para o alto para compensarem as quedas nas vendas em período de recessão, utilizando-se de táticas diversas para remeterem ilegalmente lucros para o exterior. A do "empréstimo concedido pela própria matriz" foi uma das mais utilizadas.

Em 1981 a Volks reagia à queda de 47% de sua produção no Brasil elevando o preço das unidades, reduzindo o número de empregados, exigindo aumento de produtividade dos trabalhadores remanescentes e aumentando em 23% sua exportação. Também lançou o Gol e o Voyage para atrair o consumidor de maior renda, sempre disposto a "qualquer sacrifício" para adquirir o "carro do ano".

A Ford e a GM, além dessas estratégias, introduziram os "carros mundiais" (Escort e Monza), de produção padronizada, cujo alto custo de produção da matriz era compensado pelo baixo salário pago pelas subsidiárias nas nações do terceiro mundo.

Já deu pra perceber quem ganhou com tudo isso.

O Brasil visto com um enfoque semelhante ao dos EUA:


IDIOMA E SUA CARGA CULTURAL

BRASIL OU BRAZIL?

Ao lado de um "grande" idioma, sempre há uma "grande" cultura!

As influências lingüísticas exercidas de uma nação sobre outra não podem ser consideradas apenas em sua forma mais essencial e primária, precisam ser levadas em consideração todo um conjunto cultural agregado ao idioma, que desta forma pode ser visto como elemento disseminação de cultura.

Há mais pessoas que acreditam nisso, como notamos nesta pergunta enviada ao Centro de Referência de Cultura Inglesa:

Mas o que mais me perturba é que a língua carrega consigo suas bagagens culturais, de momento; como tornar o inglês uma língua universal?

Você está absolutamente correta ao insinuar que língua e cultura são duas faces de uma coisa só. É por isso que domínio sobre línguas estrangeiras representa mais do que uma simples habilidade lingüística: representa aptidão multicultural bem como versatilidade de estruturar o pensamento por diferentes vias e de interpretar realidades sob diferentes óticas. Isto entretanto não implica no comprometimento de nossa língua mãe nem de nossa cultura. A propósito, o dia em que nossa preocupação se voltar à preservação de nossa identidade cultural, deveremos em primeiro lugar exercer maior controle sobre a televisão e barrar por exemplo a entrada da produção cinematográfica norte-americana de baixa qualidade, abrindo espaço para a produção artístico-cultural brasileira.

Através da intensa atividade de comércio com países do exterior, o Brasil tem sido fortemente influenciado pela língua inglesa, que, atualmente, pode ser considerada uma língua universal.

Falamos como o mundo!

O processo de invasão cultural norte-americana apresenta elementos, intensamente absorvidos e incorporados à nossa rotina diária, são menos claramente percebidos do que outros, tentaremos fazer um levantamento geral de sua presença em nosso cotidiano.

Acreditamos que algumas circunstâncias nos têm levado a encarar com excessiva naturalidade, ou até mesmo com certa indiferença, a predominância no Brasil desses elementos tão estranhos à nossa cultura.

Nossa extrema familiaridade com a língua inglesa, por exemplo, é uma dessas circunstâncias, porque depois do português ela é a língua que mais ouvimos, lemos e falamos no Brasil, embora estejamos cercados de países de língua espanhola e convivamos com imigrantes de várias nacionalidades, cujas "falas", aliás, a maioria dos brasileiros tem dificuldade até mesmo de identificar a origem.

Atualmente, em decorrência e paralelamente ao domínio comercial, a cultura americana chega até nós através do cinema, da música e de programas de televisão, por exemplo. Isso tem acrescentado um grande número de palavras ao nosso vocabulário, especialmente no que se refere a áreas como lazer, esportes e alimentação.

Além disso, o fato de os americanos dominarem uma boa parte do mercado ligado à tecnologia faz com que sejam introduzidas em nossa língua muitas palavras dessa área, especialmente aquelas usadas em computação.

Muitas palavras de origem inglesa já sofreram modificações e adquiriram forma própria dentro de nossa língua. Outras ainda conservam sua forma original e não estão disponíveis em dicionário, havendo certa controvérsia a respeito de sua inclusão no nosso vocabulário oficial.

Proliferam-se por isso palavras que não passam de hibridismos criados pela mistura do português com algumas características gráficas da língua inglesa, que lhes conferem um certo "sotaque" norte-americanizado, tão ao gosto da classe média brasileira atual. Para tanto são utilizados intensamente os sufixos -ax, -ex, -ox e -lândia, as letras k, y, w, consoantes dobradas ou mudas (em terminações de palavras), além do designativo de posse (ou genitive case) e o famoso up. E assim é que usamos Panex, Neutrox, Kibon, Success, Close-up, compramos na Gurilândia, comemos no Antonio’s etc.

Como, no entanto, algumas palavras inglesas já foram há muito tempo abrasileiradas em sua escrita, muitos jovens talvez nem se dêem conta de sua origem estrangeira. É o caso, por exemplo, das que citarei em grafia original para que melhor se evidencie a sua procedência: basket, hello, beef, cocktail e muitas mais.

Há outras que também são bastante utilizadas, mas nunca foram traduzidas para o português, como se sua forma de designação em língua inglesa fosse a única possível. É o caso de close, drive-in, show, slogan, office-boy etc. E ainda há aquelas que têm sua correspondente em nossa língua mas que insistimos ainda em usá-las no inglês por acharmos que dessa forma elas "soam" melhor. Dizemos muito mais drink quando nos referimos a aperitivo ou a uma bebidinha rápida qualquer, free-lancer para trabalhador independente ou autônomo, play-ground em vez de parquinho, overdose, quando poderíamos falar em dose excessiva, e assim por diante.

Exemplos de palavras incorporadas ao vocabulário oficial:

  • Bar: balcão diante do qual as pessoas, de pé ou sentados em bancos altos, consomem bebidas e iguarias leves.
  • Basquetebol: esporte disputado por equipes de cinco pessoas, e cujo objetivo é, num encontro de quarenta minutos, divididos em dois tempos, somar o maior números de pontos, fazendo com que uma bola de couro entre na cesta.
  • Bife: fatia em geral arredondada de carne bovina.
  • Clube: local de reuniões políticas literárias ou recreativas.
  • Esporte: o conjunto dos exercícios físicos praticados com método, individualmente ou em equipe.
  • Lanche : merenda, refeição pequena.
  • Pudim: iguaria de consistência cremosa e composição variada (laranja, pão, creme de leite, queijo, peixe, etc. ).
  • Repórter: pessoa que noticia ou informa pelos jornais, programa noticioso em rádio ou televisão; noticiários.
  • Uísque: aguardente feita de grãos fermentados de centeio, milho ou cevada.
  • Exemplos de palavras que mantêm a forma original do inglês:
  • Insight: compreensão repentina de uma situação.
  • Marketing: conjunto de estudos e medidas que provêem estrategicamente o lançamento e a sustentação de um produto no mercado consumidor.
  • Match : Partida entre dois jogadores ou duas equipes.
  • Meeting: reunião popular em que se discutem questões de interesse público.
  • Show: espetáculo de teatro, televisão, rádio, etc.
  • Shopping center: Reunião de lojas comerciais, serviços de utilidade pública, casa de espetáculo, etc., em um só conjunto arquitetônico.
  • Short: calça curta para esporte, de senhora ou de homem.

Obs.: muito se critica a respeito da inclusão dessas palavras em nosso vocabulário, já que todas elas podem encontrar substitutas em nossa própria língua.

Exemplos de palavras cuja inclusão é mais recente, e que ainda não são citadas nos dicionários: deletar, e-mail, fast-food, internet, joystick, modem, mouse, outdoor, self-service, video-game, software, script, hardware, laptop, notebook, entre muitas outras.


Uma análise sociolingüítica

O modelo de análise sociolingüística proposta por Hamel (1.988: 41-73), aplicado à política da linguagem, fez-me aceitar, pelo menos provisoriamente, as seguintes afirmações, hipoteticamente, como mais do que plausíveis:

1) A sociedade (a língua dominante), neste caso os EUA, está impondo paulatinamente seus padrões de apropriação e interpretação da experiência (Hamel, 1.988, p. 52), principalmente através da publicidade e propaganda ( que tem como função básica a persuasão);

2) Estamos passando por um processo veloz de substituição de códigos. Neste caso, o inglês está tomando o lugar, em níveis cada vez maiores de uso e prestígio, de sons, palavras e frases inteiras do português. Isto implica no que Hamel (1.989:46) chama de ‘bloqueio’ na consciência lingüística do falante da língua de menor prestígio, como é o caso do português em relação ao inglês no contexto da publicidade (e também fora dele). Segundo este autor, uma língua não é meramente "um canal" para determinados conteúdos de uma cultura, mas significa uma parte indissociável da estrutura e experiência mesma do pensamento, do saber social e da tradição cultural de uma etnia. A experiência acumulada determina nossas posições e atitudes em futuras situações, visto que interpretamos estas novas instâncias em relação às vividas anteriormente. Este processo constitui a consciência lingüística do falante/usuário. Hamel diz que há uma diferença entre produção e apropriação de uma experiência. A produção depende, em cada caso, do tema, das circunstâncias, do contexto social, etc. As diferentes maneiras de apropriação da experiência, por outro lado, correspondem às formas da linguagem , aqui devendo ser entendida como discurso: estão determinadas social e culturalmente e cristalizam em si as experiências anteriores. Quando nos apropriamos de uma experiência de uma maneira determinada, estabelecemos uma relação com uma experiência anterior bem específica através das categorias de uma língua determinada (Hamel, 1.989: 46-47, tradução minha).

3) Havendo a substituição pouco consciente de um padrão, ou estrutura lingüística por outros padrões ou estruturas, acontece também a ruptura entre as formas da linguagem (lexemas, estruturas gramaticais, etc.) e o sentido histórico social que adquirimos com elas em nossas experiências cotidianas. Isto quer dizer que, de certa maneira, nem todos os falantes do português, em dado contexto, saberão como definir ou categorizar o que vivem, o que querem dizer. Um exemplo disto é a confusão em nosso alfabeto que, segundo a gramática, contém 23 letras, excluídos o W, Y, e o K. No entanto, escrevemos Karla, Werley, Yara. A palavra ‘show’ confunde professores alfabetizadores. Em várias ocasiões, quando ministrando a disciplina Didática IV, no Curso de Letras da UFMT, perguntei a alguns professores, especialmente alfabetizadores, como é que eles ensinam as crianças a escrever esta palavra. Silêncio. Vocês vêem? Devemos ensinar nossas crianças a escrever SHOW ou XOU, como no Xou da Xuxa? A política do prestígio lingüístico pode dar a resposta. A expressão ‘Xou da Xuxa’ só é aceito devido a pessoa (ao status) da apresentadora Xuxa. Fora deste contexto, a palavra ‘Xou’ não será reconhecida como uma representação ortográfica correta do português. Quando destas experiências de questionar professores-alfabetizadores, pude constatar, a um nível hipotético, caras de surpresa, desconhecimento, dúvida e confusão: não se trata aqui do ‘bloqueio’ cultural referido por Hamel? Não falta ao professor alfabetizador uma definição mais clara de qual seja a norma lingüística de seu país a ser ensinada, e a ser utilizada por ele mesmo? Ir a um ‘show’ tem o mesmo sentido (valor ou prestígio) de se ir a um ‘espetáculo’? Dar um ‘help’ para alguém é a mesma coisa que dar uma ‘mão’ ou ‘ajuda’? Talvez , a nível de contexto gramatical apenas, mas ao nível discursivo-político, ‘dar um help’ se inscreve dentro de uma modalidade de variante lingüistica de maior aceitação entre um certo grupo de brasileiros (geralmente mais escolarizados, professores, médicos, adolescentes de classe média, etc.).


Os professores de inglês e o ensino deste idioma

Geralmente as atitudes pedagógicas do professor de inglês, ou seja, aquelas atitudes voltadas especialmente para a educação e para o processo de ensino aprendizagem, assumem aspectos que podem se desdobrar em :

a) Uma atitude político-cultural:

"Precisamos ter mais consciência, compreensão do que está acontecendo conosco em termos de penetração cultural/lingüística norte-americana, pela mídia."

b) Uma atitude didático-lingüística:

Tal atitude dá suporte à prática de ensino da língua inglesa, revelando a base da concepção de ensino e linguagem de alguns professores de inglês. Ressalte-se que o professor de inglês assume a projeção da mídia sobre a língua inglesa, ou seja, a projeção segundo a qual a aquisição do inglês significa o acréscimo de uma outra cultura, o que vem ao encontro de um fim utilitarista bem ao gosto do definição capitalista de cultura.

Guattari & Rolnik (1.983:17) apresentam três sentidos de cultura:

1) Cultura-valor; esta definição remete a um julgamento de valor, uma vez que determina quem tem e quem não tem cultura, isto determina quem pertence a meios cultos e a "meios incultos";

2) Cultura-alma coletiva; segundo este autores este é o tipo ‘mais democrático’ uma vez que afirma que todos têm cultura:

cultura negra, cultura underground, cultura técnica, etc. Trata-se esta da dimensão mais ambígua de cultura, uma vez que, de acordo com estes autores, "é uma dimensão semântica que se encontra tanto no partido hitleriano, com a noção de folk (povo), quanto em numerosos movimentos de emancipação que querem se reapropriar de sua cultura, e de seu fundo cultural."

3) Cultura-mercadoria: nesta concepção de cultura não há julgamento de valor (não se tem mais ou menos cultura), nem territórios coletivos de cultura mais ou menos secretos, como na concepção 2. Aqui, "a cultura são todos os bens: todos os equipamentos (casas de cultura, etc.), todas as pessoas (especialistas que trabalham nesse tipo de equipamento), todas as referências teóricas e ideológicas relativas a esse funcionamento, enfim, tudo que contribui para a produção de objetos semióticos (livros, filmes, etc.), difundidos num mercado determinado de circulação monetária ou estatal"

Correspondente à primeira concepção de cultura, ou seja, cultura-valor, o professor de inglês fala em "ensinar inglês para aumentar o nível cultural de seus alunos" . A conclusão que daqui se tira é a da inferioridade cultural da cultura brasileira com relação a cultura norte-americana. Para a segunda concepção, ou seja, da democratização da cultura, o professor procura valorizar nossa cultura, colocando a cultura norte-americana como diferente apenas. Geralmente, com esta atitude, o professor vê que o brasileiro "tem tanta criatividade quanto o americano", "que a cultura norte-americana é apenas diferente. Tem suas coisas boas". Correspondente à terceira concepção acima, o professor fala da ‘necessidade de se adquirir uma outra cultura’ , porém sem consciência de que se trata de uma concepção capitalística de cultura onde tudo é mercadoria. Deste ponto de vista o papel do professor resume-se em ‘vender’ o produto, o papel do aluno é do consumidor (tem que consumir senão fica pra trás, fica retrógrado, quadrado, não consegue emprego, etc.).

Brasileiros querem ter olhos azuis

Márcio Simões analisa e comenta a utilização generalizada, e muitas vezes inadequada, de palavras de origem inglesa na nossa linguagem.

Tomar "crítico" por "crucial" é globalizar o português sorrateiramente.

Mission-critical servers não são "servidores de missão crítica". A palavra inglesa critical tem o sentido de crucial ou decisivo, que não existe em crítico. Perigoso é o sentido mais próximo que crítico poderia ter de critical. Talvez a idéia de traduzir critical por crítico tenha sido influenciada pelo jargão dos militares da Marinha, em que uma área crítica é aquela muito visada pelos ataques do inimigo. Mesmo assim, quando americanos falam em mission-critical servers estão menos pensando em guerra que em servidores cujas funções são tão importantes para a empresa que a máquina não só não pode parar de funcionar, como também tem de funcionar sempre bem. Em português, seriam mais bem chamados de servidores de tarefas cruciais, missão crucial ou funções cruciais. Crucial também pode ser trocado por essencial, fundamental ou capital.

É comum ver palavras inglesas serem traduzidas com outras que, embora sejam escritas quase da mesma forma, não têm o mesmo sentido. Demonstration, que significa manifestação ou passeata, às vezes é traduzida por demonstração. Penalize, impor penalidade a, que deveria ser traduzida por castigar, punir ou prejudicar, é freqüentemente traduzida por penalizar, que significa causar pena ou desgosto a, magoar, afligir. "A sujeira do mendigo penalizou as crianças." Se houver muita insistência, talvez palavras como demonstração, crítico e penalizar ganhem sentidos que nunca tiveram. Tradutores preguiçosos ou amadores adorariam. Gramáticos e lingüistas reacionários teriam ainda mais motivos para continuar sonhando com fogueiras e paus-de-arara.

Por que o brasileiro adota palavras inglesas mesmo quando há bons equivalentes em português, ou por que faz traduções tão mal feitas? Por que usa budget em vez de orçamento, keynote speech em lugar de palestra fundamental? Para Hildo Honório do Couto, professor de Lingüística da Universidade de Brasília, um lingüista liberal e bem-humorado, brasileiros não gostam muito de si mesmos. "Vão para o exterior e adotam tudo, de miçangas a palavras." No fundo, diz o professor, há o desejo de ser alto, loiro, rico, de ter olhos azuis e de falar inglês. Hildo acha que, se a auto-estima do brasileiro estivesse em alta, possivelmente só adotaria palavras estrangeiras quando não houvesse bons equivalentes em português.

Pode-se contra-atacar: 50% das palavras são de origem francesa. Se os ingleses o fizeram, por que não nós?

Ocorre que a maioria dessas foi adotada justamente num período em que a elite inglesa evitava falar inglês, que considerava coisa de pobre. (Esse fenômeno está escrito no romance de Sir Walter Scott, Ivanhoe, ambientado no século XII). É por isso que as palavras inglesas de origem germânicas (usadas pelos ingleses pobres na época de Ivanhoe) são mais simples, calorosas e concretas (freedom, friendship, love); as de origem francesa são mais intelectuais e abstratas (liberty, amity, affection).

Emprestar palavras de outras línguas, ou alterar o significado de palavras existentes por causa da influência de outras línguas, é fenômeno tão velho quanto a existência de línguas. Na maiorias dos casos, palavras e significados irradiam-se centro para a periferia do império. Os Estados Unidos são o império moderno; têm comércio, indústria e ciência mais maduros e complexos. É natural e quase inevitável que, agora, os ingleses se vinguem dos franceses.

Puristas falam em proteger a língua portuguesa. "Protegê-la de quem?", pergunta Hildo. "Dos falantes?" O professor explica que, por mais criativos ou combativos que sejam alguns falantes, a língua é um produto da coletividade. Não há muito que fazer. "Se existe uma área em que ditadores não influem, é a língua." A influência inglesa seria menor, contudo, se a maioria dos profissionais (destaque aos de telecomunicações e informática) não lesse tantos textos em inglês e poucos em bom português. Na hora de falar ou escrever sobre temas técnicos, as palavras que vêm à mente desses profissionais ou são inglesas na grafia (budget) ou no significado (crítico).

Refletir sobre o melhor modo de traduzir uma expressão inglesa é um bom começo. Consultar vários dicionários também ajuda. Uma vez que se ache (ou invente) uma boa tradução, é melhor pôr a expressão inglesa entre parênteses. "Servidores de funções cruciais (mission-critical) são peças-chave na hora de se aventurar no comércio eletrônico." Amplia o número de leitores capazes de compreender a frase e deixa à vontade aqueles que conhecem o jargão. Hildo evita termos ingleses o máximo possível; mas, se inevitável, os usa. E zomba de quem pronuncia siglas à inglesa. "Não é gozado que digam eitch-bi-ou em vez de agá-bê-ó?"


CINEMA

LUZ, CÂMERA, E "AMERICANIZAÇÃO"…

No escurinho do cinema/ Chupando drops de aniz/ Longe de qualquer problema/ Perto de um final feliz// Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck/ Não vou bancar o santinho/ Minha garota é Mae West/ Eu sou o Sheik Valentino. (Flagra, Roberto de Carvalho e Rita Lee)

Os norte-americanos transformaram as atividades culturais em uma grande fonte de lucros, a cultura passou a ser produzida em escala industrial, por uma verdadeira indústria cultural.

Hoje já se generalizou o uso da expressão indústria cultural, empregada pela primeira vez na década de 40 (por T.W. Adorno e M. Horkeheimer), para esse ramo da produção capitalista desenvolvido em nosso século com a efetivação da sociedade de consumo, e cimentado nos avanços tecnológicos no setor dos meios de comunicação. Ao conjunto da produção da indústria cultural dá-se o nome de cultura de massa ou cultura pop, que não deve ser absolutamente identificada com cultura popular.

Quando se discute o real poder dos Estados Unidos, fala-se muito em tecnologia, fábricas de carros e de jatos. Nada disso deve ofuscar o dínamo cultural por meio do qual os EUA exercem um domínio incontrastável sobre os outros países. É freqüente ver autoridades francesas reclamando da invasão de seu território por produtos da cultura de massa americana, especialmente o cinema. A França mantém uma política protecionista ativa em benefício de sua indústria cinematográfica. Graças aos esforços do governo francês, os filmes de Hollywood hoje formam apenas um terço do que é lançado no país. Ainda assim, em 1998, a produção hollywoodiana conquistou seis das dez maiores bilheterias entre os franceses. Se não houvesse protecionismo, a França, por escolha dos próprios cidadãos, já teria fechado as portas de sua indústria de cinema. A batalha é mais inglória em outras partes do mundo. No ano passado, foram lançadas nos cinemas brasileiros 211 fitas. Mais de 60% delas eram americanas e oito figuraram entre as dez mais vistas. No Canadá, que divide com os Estados Unidos uma fronteira de dimensões continentais, o índice de filmes fornecidos pelo vizinho chega facilmente aos 90%. Os canadenses, claro, também se queixam, como a maioria dos brasileiros e franceses. Afinal, todas as pessoas que compram bilhetes nos guichês dos cinemas, em São Paulo, Toronto ou Paris, estão exercendo uma opção preferencial pelo cinema rico na versão Hollywood. Nos festivais, os jurados muitas vezes aplaudem belos filmes de cinemas pobres, mas esse critério, infelizmente, não costuma funcionar para as multidões. Com os filmes, os livros ou o rock vem outra coisa. "Os Estados Unidos não estão interessados apenas em exportar seus filmes. Eles querem exportar é "seu estilo de vida", acusa Gilles Jacob, diretor do Festival de Cannes.

O diagnóstico de Jacob é impecável. Só é preciso completar o raciocínio: não faltam, mundo afora, interessados em comprar esse produto de exportação, caso contrário ele não seria vendido. O que fascina as platéias, além dos efeitos especiais, é o retrato idealizado que as fitas fazem da sociedade americana, no qual sobressaem valores como vitalidade, dinamismo, mobilidade social, igualdade, justiça e a certeza de que é possível vencer pelo próprio esforço. Ou seja, tudo aquilo que compõe as aspirações da humanidade desde as revoluções democráticas do século XVIII, mas que até hoje ninguém desfruta a contento em parte alguma do planeta. Além disso, o cinema americano canta as glórias do consumo com um despudor que não se vê em nenhum outro. E, desde a derrocada do comunismo e a decolagem da globalização econômica, há cada vez mais candidatos dispostos a se render ao canto dessa sereia.

Nesse quadro, o cinema é a mais decisiva arma estratégica da indústria de entretenimento dos Estados Unidos. É ele que açula o gosto dos fregueses estrangeiros e abre caminho para novas fontes de lucro. Não à toa, todos os grandes conglomerados do setor – como Sony, Disney, Time Warner, Seagram, Viacom e News Corp. – têm em sua base um estúdio de cinema. Hollywood é, por assim dizer, a comissão de frente da força imperial americana, como tem sido desde os anos 20, quando se tornou a primeira onda verdadeiramente globalizadora do século XX. E, não custa lembrar, globalizada também. Como convém a um país formado por tantos povos e culturas, foi nos Estados Unidos que ilustres cineastas estrangeiros, como o austríaco Billy Wilder e os ingleses Charles Chaplin e Alfred Hitchcock, fizeram seus melhores trabalhos. Sem ter uma "alta cultura" com que brigar, Hollywood já nasceu rodando fitas em escala industrial, pronta para divertir multidões. Desde seus primórdios, vem colhendo e misturando influências sem o menor pudor. De ETs que querem voltar para casa, mortos que narram seus últimos dias de vida para a platéia ou halterofilistas austríacos que vêm do futuro para dizer "Hasta la vista, baby", não há limite para o que o cinema americano considera seu território. O saldo é discutível: para cada filme de qualidade, Hollywood distribui pelo mundo um punhado de bobagens sem nenhum valor. Mas essa voracidade pelo novo, que durante séculos fez crescer o Império Romano, é o que fortifica também o novo império americano. Por mais que isso doa a franceses, canadenses e alguns brasileiros.


A Sétima Arte Tupiniquim X Hollywood

As Chanchadas da Atlântida

Além de atrair o público que normalmente estava mais ligado ao rádio como instrumento de lazer, as chanchadas também representavam outra alternativa de entretenimento para pessoas de nenhum ou de baixo nível de escolaridade, que tinham dificuldades em ler as rápidas legendas dos filmes estrangeiros.

Embora considerado por alguns corno produto de baixa categoria, o filme brasileiro nunca tivera como nessa época tanta aceitação. Graças à chanchada, o cinema nacional pôde sobreviver às dificuldades e à concorrência estrangeira, embora nem mesmo em sua melhor fase contasse mais de 6% das películas em nosso mercado exibidor.

É preciso destacar também que algumas dessas produções nacionais tenderam ao deboche de tipos e mitos de importação criados sobretudo em Hollywood. Sátiras como Matar ou correr e Nem Sansão nem Dalila, por exemplo, representavam, de alguma forma, canais de escape para críticas à invasão cultural norte-americana.

O ressurgimento do Jeca

Mais apreciados ainda pelas camadas populares urbanas foram os filmes de Mazzaropi, tais como Sai da frente, Nadando em dinheiro, Chofer de praça e Jeca Tatu , já no final da década de 50. Começando em 1951 na Vera Cruz, montou sua própria companhia anos mais tarde, onde realizou 25 dos 32 filmes em que apareceu. Na década de 70 se preocupou com alguns temas da atualidade e em A banda das velhas virgens (1979) tornaria pública a tortura nas prisões.

Representando o nosso tipo caipira, ingênuo e perplexo diante da moderna civilização das grandes metrópoles e do mau-caratismo engendrado pela competição capitalista, seus personagens conquistavam a simpatia e produziam a identificação do público das classes mais marginalizadas, menos influenciadas pelos enlatados estrangeiros. Sobretudo porque, apesar de sua ignorância e sentimentalismo, os personagens criados por Mazzaropi acabavam sempre levando a melhor, pela sua vivacidade, nas aventuras contra patrões, exploradores e até contra o prefeito da cidade.

Mazzaropi representou, num país onde o produto nacional já estava se tornando desvalorizado, "uma das poucas coisas brasileiras dando Ibope". Até hoje, em algumas cidades do interior, seus filmes têm maior audiência do que Karatê Kid e Cobra, por exemplo.

Terra de Vera Cruz

Fundada em 1949 em São Paulo, a companhia de cinema Vera Cruz, durante curto período de duração (quatro anos), produziria, na década de 50, 22 filmes considerados artística e tecnicamente de muito boa qualidade. Iniciando seus trabalhos no período mais promissor do cinema brasileiro, a Vera Cruz escolheria um caminho bem diferente do trilhado pela Atlântida. Seu objetivo era produzir "filmes de classe" que abordassem temas mais sérios e fossem tecnicamente mais bem elaborados. Importou câmeras e aparelhagem de alta qualidade, contratou experientes técnicos ingleses e italianos e trabalhou com diretores e elenco do mais alto nível naquele momento.

Terra é sempre terra, Paiol velho, Ângela, Tico-tico no fubá, Uma pulga na balança, Floradas na serra, Sinhá moça etc., dirigidos por Tom Paine, Abílio Pereira de Almeida e Adolfo Celi, entre outros, consagravam também artistas como Eliane Lage, Tônia Carrero e Jardel Filho.

Extinta em 1952 por motivos financeiros, a Vera Cruz deixou, no entanto, historicamente falando, um saldo bastante positivo, representando um passo à frente em direção ao cinema de arte e à valorização de temas nacionais, tentando, assim, resguardar nossa identidade cultural da excessiva influência norte-americana.

Além de um ciclo de filmes sobre o cangaço, a década de 50 também registrou uma produção fora do esquema dos grandes estúdios, abordando temas urbanos com realismo. Como não ofereciam canal de escape e, ao contrário, conduziam ao questionamento das instituições, esses filmes não atraíam grande público e eram até criticados "por levarem para o exterior uma imagem negativa do Brasil" - eram os chamados filmes "malditos". Destacaram-se nesse gênero nomes como os de Alex Vianny, Nélson Pereira dos Santos, Roberto dos Santos e Gláuber Rocha (fazendo curtas-metragens).

Agulha no palheiro, Rio 40 graus, Rio Zona Norte, O grande momento e outras produções da Vera Cruz já prenunciavam a revolução pela qual passaria nossa "sétima arte" na década de 60: a do "Cinema Novo".

Mas, apesar disso tudo, ainda eram os filmes de Hollywood que predominavam em nossas programações.

Longe de qualquer problema, perto de um final feliz

Ainda na década de 50, além de certa continuidade na exibição de filmes de guerra, Hollywood já fazia películas cujos objetivos, ainda que velados, eram a desmoralização do mundo socialista e a supervalorização da chamada "civilização ocidental e cristã", da qual os USA se colocavam como legítimo representante e defensor, e que naquele momento era identificada com o sistema capitalista.

Nessa época já se iniciava um ciclo de filmes de suspense, espionagem e ação que chegaria ao auge, nas próximas décadas, com as aventuras de James Bond, o charmoso e eficiente Agente 007.

Também o clima de intolerância e censura imposto pelo macarthismo conduzia Hollywood à produção de "filmes leves'', do tipo água-com-açúcar, como os musicais e comédias românticas ou sofisticadas, far west e melodramas com final feliz. O importante era possibilitar o escapismo e a evasão da realidade, e vender. . . vender. . . vender!

Aperfeiçoamentos no campo do technicolor, do cinemascope, cinerama e som estereofônico melhoraram naturalmente a qualidade técnica dos filmes, atraindo mais público e estimulando a realização de superproduções pelos grandes estúdios.

Prosseguindo dentro dos moldes do star system (sucesso garantido pela popularidade de determinado artista ou diretor funcionando como carro-chefe de toda a produção), Hollywood vai aplicar ainda mais a técnica do ritmo rápido e grande movimentação cm cena, além de um tratamento seqüencial e quase didático do tema, tornando-o de fácil compreensão para as platéias "mais acomodadas".

A música, usada antes apenas incidentalmente, passou a ter maior importância no filme, gerando famosas trilhas sonoras.

Alguns padrões ideológicos, embora não diretamente políticos, foram nessa época bastante difundidos. Foi muito cultivada, por exemplo, a imagem da menina-moça ideal, romântica, bem-comportada, que conquistava seu "príncipe encantado" apôs muita paciência, renúncia, lealdade, fibra e naturalmente muitas lágrimas.

Dorys Day e Grace Kelly foram alguns modelos dessas donzelas casadouras, embora já começassem a ser explorados "símbolos sexuais" como, por exemplo, a mítica Marilyn Monroe. Valorizando suas formas esculturais e sobretudo o busto, Hollywood deixava porém bem claro, nas mensagens de seus filmes, que essas mulheres extremamente atraentes tinham um preço muito alto a pagar pelo seu sex-appeal. Durante 90 minutos de projeção, elas necessitavam provar que, a despeito de sua extrema sensualidade, eram, no íntimo, dóceis, carentes, frágeis e suficientemente maternais para que, quase no final da fita, o galã as reconhecesse como "dignas de desempenhar o papel de esposas e mães".

Os estereótipos masculinos também continuavam a ser veiculados pelos personagens leais, valentes, patrióticos e conquistadores desses filmes.

Temas bíblicos, históricos, epopéias e grandes musicais foram também bastante produzidos. Os 10 Mandamentos, Cleópatra, O maior espetáculo da Terra, Sete noivas para sete irmãos se tornaram inesquecíveis.

Esses foram alguns dos filmes que fizeram a cabeça da geração de "quarentões" e "cinqüentões" de hoje.

Por volta de 1955 surgem alguns cineastas norte-americanos que, reagindo ao esquema hollywoodiano, preferem abordar situações do cotidiano, com personagens comuns, elenco desconhecido e temática em geral desagradável à burguesia acomodada. Essas "ovelhas negras" do cinema americano, como Elia Kazan, Stanley Kubrick e J. Frankenheimer, por exemplo, chegarão até nós denunciando em seus filmes o conflito de gerações, preconceitos de raça, repressão sexual, injustiça social etc.

Como já estávamos acostumados aos filmes escapistas norte-americanos, esse gênero nunca chegou aos níveis de audiência daqueles açucarados e mais tradicionais.

Apesar da predominância dos norte-americanos, conseguíamos ainda assistir filmes do neo-realismo italiano e do intimismo psicológico francês, sueco, alemão e, mais raramente, um ou outro polonês, tcheco, russo ou espanhol.

No final dos anos 50 e início dos 60, sobretudo influenciados pelo cinema de Hollywood, já estávamos cultivando também como padrão ideal o homem do tipo halterofilista, com cabelo à escovinha ou com brilhantina, camisa de malha colante, bronzeado, barba feita e rosto perfumado com Acqua Velva, da Williams, calças far west (ou "rancheiras") ou de brim "coringa" (os nossos jeans de hoje), mocassins brancos, camisas ban-lon, jaquetas de couro ou modelo ban-tan, calça boca de sino etc.

As indústrias de beleza e moda feminina, inspiradas também nos americanos, lançavam o shampoo Richard Hudnut, o "permanente com Toni", make-up Angel Face, batom Tangee na tonalidade Pink Queen, calças compridas de helanca, sapatilhas de balé da Clark e meias soquete coloridas.

Supermercados tipo self-service, com carrinhos para compra e prateleiras repletas de latarias, foram também a grande novidade ou verdadeira "coqueluche" da época, surgindo primeiramente nas maiores cidades. Fazer compra semanal passava a ser considerado até um tipo de lazer: uma verdadeira cena de filme!

A coca-cola já estava substituindo a água, os sucos naturais e o guaraná em nossas refeições; a aquisição de aparelhos de TV e carros começava a se difundir na classe média e a "quadrinhomania" se instalava entre nós em revistas ou tiras, onde os personagens principais eram Roy Rogers, Zorro, Superman, Fantasma, Mandrake, Flash Gordon, Popeye etc. Já estávamos nos tornando súditos também do cada vez maior "império Disney". Faltava pouco para chegarmos ao ponto de não mais distinguir o que era brasileiro ou não em nosso país.

Nossa americanização chegava a galope, como qualquer "mocinho" de filme de cowboy, para lutar contra o vilão representado pelo nosso "atraso cultural"! E nesse bang-bang todo, muita coisa brasileira se destruiu.  


TELEVISÃO

VERSÃO BRASILEIRA…

A televisão pode ser considerada um verdadeiro fenômeno , pois ela conseguiu o que nenhum de seus antecessores conseguira: fazer parte da vida da maioria – ou da totalidade – das pessoas aqui no Brasil. Os norte-americanos, com seus objetivos imperialistas, jamais poderiam desprezar a ajuda deste aliado extremamente poderoso que serviu, serve, e futuramente servirá para a difusão das idéias e valores dos compatriotas do Pernalonga.

Bastante popularizada nos USA e na Europa, a TV só seria inaugurada no Brasil em 18 de setembro de 1950, quando então puderam ser captadas as primeiras imagens apresentadas pela Tupi de São Paulo.

Dez anos após, o número de televisores aqui existentes já era de um milhão e 800 mil, elevado para 6 milhões em 1970 e chegando a cerca de 18 milhões em 1978. Atualmente é o nosso veículo de comunicação mais importante, atingindo aproximadamente 70 milhões de brasileiros durante um período de tempo bem maior do que qualquer um dos outros.

Tal como a indústria fonográfica e a radiofônica, no Brasil a TV nasceu sob o signo da dependência ao capital norte-americano.

Sua tecnologia foi no início tolamente adquirida da RCA Victor e da GE, com dinheiro proveniente, em grande parte, do pagamento adiantado de multinacionais pela publicidade a ser feita através da Tupi durante seu primeiro ano de existência. Entre os primeiros anunciantes predominavam também os norte-americanos.

Suas propagandas eram elaboradas pela McCann Erickson, agência especializada, com sede nos USA. Um dos artifícios utilizados como reforço de divulgação do produto foi ligá-lo ao nome do programa financiado. Daí terem surgido, por exemplo, o Teledrama 3 Leões, Espetáculos Tonelux, Grande Gincana Kibon, Histórias Maravilhosas Bendix, Teatro Walita, Boliche Royal, Cine Max Factor etc.

A importância do patrocinador, então, era muito maior do que hoje, pois ele decidia o tipo de programa que divulgaria seu produto e escolhia e contratava diretores, produtores e o elenco que dele iriam participar. Restava à emissora apenas ceder equipamentos, mão-de-obra especializada e o uso de seus estúdios.

Também da América do Norte viriam os primeiros aparelhos receptores e o engenheiro Obermüller, da RCA, para treinar a equipe pioneira que trabalharia no setor. Aliás até hoje cerca de 3/4 dos equipamentos das nossas emissoras foram também importados de lá.

No início, o televisor era privilégio da elite social brasileira, pois custava três vezes mais do que uma boa eletrola e pouco menos do que um carro.

Como não tínhamos ainda acesso a filmes e programas norte-americanos para TV, exceto alguns documentários fornecidos por embaixadas e consulados, a matéria-prima de nossas emissoras era quase totalmente nacional. Muitos programas foram adaptados ou transplantados do rádio, de onde também foram contratados muitos profissionais.

Nos programas elaborados especialmente para o vídeo, já se podia notar a influência de alguns modelos que faziam sucesso na TV dos USA.

Nosso primeiro teleteatro, em 1950 (A vida por um fio), foi adaptação do enredo de um filme de Hollywood. O Repórter Esso, o Mappin Movietone, Imagens do Dia e Edição Extra utilizavam técnicas de noticiosos norte-americanos. O seriado Alô, Doçura, que lançaria John Herbert e Eva Wilma como o primeiro casal romântico da nossa TV, era elaborado dentro do espírito do I Love Lucy. O próprio O céu é o limite, programa que conseguiu a maior audiência televisiva durante muitos anos, era do tipo do norte-americano Professor Kiss e Enigma.

Finalmente na década de 60 a TV deixaria de ser "brinquedinho de luxo" de uma elite econômica para se tornar o mais importante ramo de nossa indústria cultural. A convergência de outros interesses político-econômicos (nacionais e norte-americanos) se tornaria responsável pelo crescimento do seu poder de influência na formação de opiniões e modos de ser.

"Quem não se comunica se trumbica"

A política desenvolvimentista de JK, dando ênfase sobretudo à indústria de bens de consumo duráveis, estimulou a produção de televisores por múltis estrangeiras aqui mesmo no Brasil, ampliando-se o número de aparelhos durante esse período para 700 mil só no eixo Rio-São Paulo. Porém, foram os governos militares que sucederam ao golpe de 31 de março de 1964 os maiores responsáveis pelo crescimento do poder da TV como veículo de divulgação, persuasão e formação da opinião pública no Brasil.

Três anos antes do início da ditadura, a TV já começava a ser utilizada pelos articuladores do golpe na propaganda contra o governo Jango, vinculando-o ao mito da "crescente comunização do país". Com o propósito de colocar sobretudo a classe média contra ele, a direita criou o Ipes (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) para organizar suas campanhas de doutrinação ideológica, que contaram também com o auxílio dos USA.

Tal como antes fizera Getúlio com o rádio, tomado o poder os golpistas tratarão logo de legitimá-lo, conquistando o apoio da opinião pública através dos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão.

Como nessa época ela já ultrapassara o rádio em popularidade, o governo iria se preocupar em reordenar seus rumos, investir na sua modernização tecnológica e ampliar a área de alcance de sua transmissão. Com o tempo, a TV iria se transformar no "espelho cor-de-rosa" e "cartão postal" do nosso regime militar.

Sob a tutela da ditadura militar, e em virtude da política econômica por ela adotada, o campo de ação das multinacionais, sobretudo norte-americanas, se ampliará muito mais ainda aqui no Brasil. Também para elas será bastante interessante atingir, pela TV, um número muito maior de pessoas, de modo a garantir, em escala nacional, um mercado consumidor mais amplo, capaz de absorver a crescente produção de suas subsidiárias "nacionais".

Para a indústria cultural dos USA o crescimento de nossa televisão será particularmente vantajoso, uma vez que seus "enlatados" poderão ser vendidos e bastante consumidos no Brasil.

Assim sendo, por motivos diferentes porém convergentes, essas três grandes forças políticas e econômicas voltaram suas atenções "com muito carinho" para nossa TV.

O objetivo comum era interligar todo o país através dos meios de comunicação. A integração nacional tornaria possível a difusão massiva e maciça de mensagens que garantiriam a padronização de opiniões, desejos e valores, colocando-se facilmente no mercado maior quantidade de produtos, tanto materiais quanto ideológicos. A Embratel (1965), o Ministério das Comunicações (1967), o videotape e os satélites de comunicação tornariam tudo isso possível.

A ordem, então, passava a ser urna só - investir na televisão. Mas para tão importante tarefa seria necessário um agente que se mostrasse à altura.

Surgindo em 1965, a TV Globo de imediato pareceu a mais perfeitamente talhada para desempenhar esse papel.

Nascida de acordos assinados desde I962 pelas Organizações Roberto Marinho com o grupo Time-Life (que investiu 5 milhões de dollars na sua instalação), a Globo foi denunciada por isso dois meses após ter sido inaugurada, sendo também instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar suas ligações com o grupo norte-americano.

Embora a CPI concluísse que os acordos infringiam preceitos constitucionais que proibiam a participação de estrangeiros na orientação intelectual e administrativa de canais de TV, o governo Castelo Branco, fazendo vista grossa, rolou o processo até o período de Costa e Silva, quando se decidiu então que não houvera violação da lei, e o caso foi arquivado.

A emissora iniciava suas atividades sob proteção dos governos militares e ligada ao capital norte-americano. Transformada, nos últimos 20 anos, na mais poderosa rede de televisão brasileira, "jamais desmereceu a confiança nela depositada por seus aliados".

Para justificar a atitude do governo e evitar "novos incidentes judiciais", o dinheiro americano entrou no Brasil convertido em cruzeiro pela Time-Life Incorporated, com sede no Rio de Janeiro, e camuflado em pagamento a assistência técnica. Esta, por sua vez, se estendia ao campo da administração, propaganda, noticiário, controle, contratação e organização de recursos humanos, treinamento de pessoal brasileiro nos USA ou envio de técnicos para treiná-los aqui, além do fornecimento de programas e venda de anúncios.

"Eu vi um Brasil na TV . . . "

Com a "ajuda" estrangeira e o apoio militar, a Globo atingiria, em pouco tempo, os maiores índices de audiência e de investimentos publicitários. Além de programações atraentes às mais diversas camadas sociais e grupos etários (em horários próprios), o "padrão de qualidade" atingido por ela também seria o grande responsável pela conquista da preferência popular.

Importando padrões de administração, produção e programação e enlatados norte-americanos, contava ainda com ultramodernas câmeras portáteis e a melhor equipe de artistas, jornalistas, técnicos etc. A partir de 1969, centralizando suas produções no Rio para diminuir os custos, contratou emissoras independentes nos outros estados - as afiliadas - que formaram a rede emissora e repetidora da programação carioca.

Em setembro de 1969 foi levado ao ar pela primeira vez o Jornal Nacional, quando então os brasileiros, nas mais diversas localidades, assistiram, simultaneamente, a posse da Junta Militar que sucedeu a Costa e Silva. Os satélites se responsabilizaram pelas conexões nacionais e internacionais.

Em 1972 nossa primeira transmissão em cores mostraria o presidente Médici na Feira da Uva.

Foi assim, bem equipada, que nossa TV, e mais do que qualquer outra a Globo, espalhou, por todo o Brasil, imagens positivas dos norte-americanos, o desejo de consumir os produtos de empresas em expansão, a mais completa apatia e conformismo político e/ou o apoio irrestrito aos atos do regime que de 1964 a 1984 se impôs sobre nós.

Atuando por meio de redes nacionais, a TV promovia a integração do país. As mesmas informações, novelas, enlatados e comerciais eram levados a toda parte, substituindo-se a riqueza da diversificação regional de nossa cultura pela homogeneização segundo modelos de um só e mesmo fornecedor de padrões: o eixo Rio-São Paulo, já devidamente invadido pelos valores norte-americanos.

Juntamente com as FMs, mas muito mais do que elas, a TV participou ativamente do processo de colonialismo cultural interno (carioca/ paulista) e externo.

Mesmo nas regiões mais quentes do Brasil, o tennis e as calças Lee começaram a ser usados; nas regiões mais centrais ou áridas, os comportamentos dos surfistas de Água-Viva e dos "meninos do Rio" foram imitados; e até nos lugares onde os ritmos essencialmente brasileiros eram os mais ricos passou-se a dançar o rock, nas recém-inauguradas discotecas do tipo Dancing Days.

Se fosse possível também a esses brasileiros adquirir "em latas" um pouco do mar de Ipanema, uma vista do Rio obtida de uma cobertura da Vieira Souto ou flocos de neve norte-americana para enfeitar o seu Natal, provavelmente haveria todo um país disposto a comprar tais ingredientes do "bolo civilizatório" que se "instituiu" em nosso país.

Essa situação de colonialismo cultural foi muito bem retratada no filme Bye-bye Brasil, de Cacá Diegues, e na sua música-tema, de autoria de Chico Buarque.

Já em 1978, 80% do que se via em nossas "telinhas" não tinha nada a ver com a realidade da população televisiva: enquanto cerca de 50% da programação era de origem estrangeira, apenas 4% estava voltada para determinados interesses regionais e só 14% para os locais.

Comparando os dados acima com dados mais recentes podemos notar uma diferença na televisão brasileira. Embora os canais por assinatura americanos venham ganhando espaço na Ásia, Europa e América Latina, a televisão aberta se mostra bem mais refratária à influência ianque. A Rede Globo, por exemplo, quase não está exibindo mais seriados americanos. Acha mais compensador bancar os altos custos de produzir seus próprios programas.

A TV nos transformava em "dois Brasis". E aquele em que a gente vivia não era igual àquele que a gente televia. Mesmo na atual situação o Brasil mostrado nos seriados, e demais programas nacionais não demonstra a realidade da maioria da população brasileira, porém agora estes programas colocam em pauta realidades, problemas e estilos de vida próprios da sociedade brasileira.

"Um tranqüilizante após um dia de trabalho"

Durante a ditadura militar, o governo faria amplo uso de três de seus maiores meios de influência sobre o maior veículo de comunicação: regime de concessão dado pelo Estado para exploração comercial da TV, investimentos em propaganda política pelo vídeo e interferência da censura oficial no setor das comunicações de massa.

Impedindo a transmissão de notícias e programas que pudessem ameaçar a estabilidade do regime, elaborando documentários, manipulando informações e produzindo propagandas difundidas entre toda a população, o governo trataria de ir moldando a opinião pública segundo seus interesses maiores.

Fornecendo aos telespectadores canais de evasão do cotidiano que os distanciavam do centro das discussões políticas mais importantes, nossa TV seria transformada em veículo sobretudo de entretenimento. Novelas, seriados, o Fantástico e programas humorísticos seriam gêneros sempre muito bem-vistos pelas nossas autoridades.

Por outro lado, através dela se procurará também mobilizar artificialmente as energias da população, canalizando-as para grandes campanhas nacionais de assistência ou do tipo "Campanha da pechincha" e "Diga não à inflação", dando ao brasileiro a ilusão de estar participando ativamente do processo de criação do "Brasil Grande".

Usando-se também o vídeo, o sentimento patriótico do brasileiro seria manipulado pela ditadura de forma a afastá-lo o mais possível de militâncias ou manifestações que de algum modo pudessem mudar o quadro político nacional. A Copa do Mundo de 1970, o sesquicentenário da nossa Independência (1972), slogans como "Brasil, ame-o ou deixe-o", letras de canções ufanista do tipo "Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil" serviriam de bons pretextos para colocar "90 milhões de brasileiros em ação, numa corrente pra frente" que os conduziria, afinal de contas, exatamente a. . . nada! ! !

O olho da censura também esteve esse tempo todo bastante alerta. Num período de cinco anos, só nas emissoras do Rio foram registrados os seguintes vetos no campo do telejornalismo: 1973 - 97; 1974 - 103; I975 - 16; 1976 - 7; 1977 - 20. Entre eles encontravam-se notícias relacionadas com o fechamento do Congresso pelo Executivo, o Pacote de Abril, o manifesto de cientistas contra o acordo nuclear Brasil-Alemanha etc.

Novelas e seriados foram parcial ou totalmente impedidos de ir ao ar e pelo menos 53 obras imortais da literatura universal, nas quais se baseariam, não puderam ser divulgadas.

Em 1984 a TV Gazeta teve seus transmissores lacrados, foi processada e ficou dois dias fora do ar por ter exibido uma entrevista telefônica feita com o político Orestes Quércia, que se encontrava em Brasília durante a votação da emenda Dante de Oliveira pelas "diretas já".

Ao mesmo tempo nossas TVs se viam invadidas por programas e propagandas elaboradas pela equipe técnica da Aerp (Assessoria Especial de Relações Públicas do Presidente da República), enviada aos USA exatamente para aprender "algumas coisinhas" sobre esse assunto. A construção da Transamazônica e da ponte Rio-Niterói e a criação do PIS (Plano de Integração Social) e do Proterra (Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste) foram temas extremamente explorados. Juntamente com as reportagens de Amaral Neto, por exemplo, alimentaram o mito do "Brasil, país do futuro" e do "milagre brasileiro".

O governo Médici foi o que mais explorou a TV com esses objetivos. Enquanto nas prisões as pessoas eram torturadas, a TV mostrava o simpático presidente, identificado com a média dos cidadãos brasileiros, com um radinho de pilha ao ouvido, torcendo pela seleção na Copa do México e gritando, patrioticamente, "pra frente, Brasil! ! ! " Aliás, em 1973 Médici daria bem a medida da importância da TV para a sustentação do regime. Afirmava ele, conforme cita Sérgio Pompeu (Uma instituição nacional, Retrato do Brasil, São Paulo, Editora Política, 1985, v. 2):

"Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a TV para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante apôs um dia de trabalho"

No entanto, nesse mesmo "ano de paz", segundo dados de Darcy Ribeiro (Aos trancos e barrancos - como o Brasil deu no que deu, Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1985) a repressão política causaria a morte de Lincoln Cordeiro Oest, juntamente com 38 militantes da esquerda; a polícia política assassinaria o estudante Alexandre Vanucchi Leme, da Aliança Libertadora Nacional, e estouraria a guerrilha do Araguaia, planejada e montada pelo PC do B que, juntando-se a posseiros, lutava por terras na Amazônia. Sessenta e sete guerrilheiros e um número desconhecido de posseiros seriam mortos pelas Forças Armadas e ainda teriam suas mãos decepadas e enviadas para serviços de identificação policial.

E mais ainda: o pintor mineiro Volpini seria preso e condenado por pintar um quadro considerado subversivo; Josué de Castro, o intelectual brasileiro mais conhecido no exterior, morreria em seu exílio em Paris sem ter tido permissão do governo para voltar ao país; a peça Calabar, de Chico Buarque, já ensaiada e montada, seria proibida; e os jornais receberiam bilhetes da censura que diziam: "Está proibida a publicação da ocorrência de tiroteio na rua da Mooca, com a morte de três terroristas".

Enquanto essas coisas aconteciam, nós víamos um Brasil na TV que não era, em absoluto, o espelho do nosso verdadeiro país.

Os meios de comunicação haviam sido transformados em anestésicos e analgésicos socioculturais. Não é de se estranhar que cerca de 80% das emissoras brasileiras receberam suas concessões de funcionamento durante esse período, e que, no mesmo ano em que Médici se declarava tão tranqüilo diante de um televisor, só nos três canais do Rio foram exibidos l446 filmes, dos quais apenas dez nacionais e quase todos os demais norte-americanos.

O povo brasileiro cada dia mais se despolitizava. Com um, aparato de comunicação tão poderoso, nenhuma notícia verdadeiramente importante e real era dada a nação.

É bem significativo o depoimento dado em Televisão e vídeo (Fernando Barbosa Lima, Gabriel Priolli e Arlindo Machado, in Coleção Brasil - os anos de autoritarismo, Rio de Janeiro, Zahar, 1985):

"Perdemos nesses 20 anos muito tempo. O Brasil montou um grande parque eletrônico, ultramoderno, para ouvir: 'Nada a declarar'. Era absolutamente ridículo a todos nós, profissionais e espectadores; só poderíamos sentir vergonha de tão terrível opereta ( . . . ) A saída mais digna para os telejornais foi copiar o estilo e a forma dos informativos norte-americanos".

Apesar de aumentarmos a produção de atrações nacionais para a TV, os norte-americanos possuem ainda uma presença muito forte na TV brasileira, emissoras como a MTV e outras que seguem o padrão de suas sedes norte-americanas, os canais a cabo, e a associação como a feita pelo SBT com a Warner, e a Disney mostram que eles ainda premanecem entre nós.  


MÚSICA

SOMOS NÓS QUE QUEREMOS CONHECER A SUA MÚSICA

Logicamente, a música norte-americana já havia penetrado no Brasil, mas foi através do rock, que a música do país do Tio Sam passou a exercer maior influência no comportamento dos jovens em todo mundo, e conseqüentemente do Brasil também. Podemos considerar como o grande expoente rock norte-americano o cantor Elvis Presley, que enlouquecia as platéias.

Nas ondas do rock

"Rolling stones gather no moss"

Quando se iniciou a década de 60, o rock'n'roll parecia estar em plena decadência. Seria pois a folk song que serviria de fundo musical tanto para o movimento hippie como para todos os outros da juventude contestatória norte-americana de então. As duas grandes figuras dessa época foram Joan Baez e Bob Dylan.

A folk song acabaria, no entanto, abrindo caminho para o advento de um novo tipo de rock, sobretudo depois do estímulo dado pelo novo som dos britânicos Beatles e Rolling Stones e das mudanças introduzidas pelo próprio Dylan. The Mama's and the Papa's, Genesis, Led Zeppelin, Queen, Pink Floyd, Janis Joplin e Jimmy Hendrix, entre outros, despontaram como grandes astros ou grupos dessa nova fase.

Surgidos da classe operária, tanto os Beatles como os Rolling Stones injetariam, no início dos anos 60, sangue novo ao rock'n'roll, que começava a perder o caráter rebelde de seus primeiros tempos. O nome do segundo grupo, tirado da letra de um blues, refletia por si só sua filosofia anticonformista: "Rolling stones gather no moss".

A partir de 1967 os próprios Beatles se transformariam, abandonando as canções de amor adolescente da fase do "yeah! yeah! yeah!" para fazerem músicas carregadas de lirismo poético, contestação e amadurecimento político.

Desde então o movimento jovem dessa década e o rock não poderão mais ser vistos em separado.

Nos USA, em 1967, o Monterey International Pop Festival reuniu 50 mil pessoas. Em 1969, em Bethel, mais de 400 mil jovens entre 16 e 30 anos se juntaram para ouvir, cantar e dançar o rock. No mesmo ano, no festival de Woodstock, cerca de 500 mil "rebeldes" viveram em conjunto três dias de paz, amor e... muita música. Em 1973 o show de Allman Brothers, The Band e Grateful Dead, em New York, bateu esse record concentrando 600 mil pessoas.

De 1970 a 1980 o rock era o ritmo preferido de 40 milhões de americanos entre 15 e 25 anos e, no final da década, só nos USA a indústria fonográfica faturava um dollar por habitante vendendo discos de rock. Transformado pela indústria cultural em negócio rendoso, seria exportado para o resto do mundo sob as diversas formas que tomou nos últimos anos: progressive, art-rock, glitter (ligado aos andróginos), sci-fi-rock, punk, reggae, discotheque, new wave, funk, neo-progressive etc.

Produzido, industrializado e consumido em massa, também o rock da segunda fase foi perdendo nos últimos anos o impacto revolucionário que o caracterizou no início para se transformar no ritmo da juventude como um todo, independentemente de postura política, ideologia, engajamentos ou alienação. Seu lugar, porém, na história, junto dos movimentos de resistência dos anos 50, 60 e 70, está definitivamente assegurado.

A juventude contratadora brasileira cria um novo estilo de música com influências do jazz: a Bossa Nova, outros movimentos musicais surgiram como a alienada Jovem Guarda e a engajada tropicália.

À procura de dados concretos sobre isso, verificamos a programação de seis emissoras de rádio de FM de São Paulo no período de 10 , a l4 de setembro de 1986, no horário das 13 às 16 horas. A presença do rock norte-americano ou inglês, sem dúvida alguma, foi extremamente marcante e em alguns casos até mesmo dominante.

Embora não devamos confundir um rock com outro, preferimos não fazer aqui qualquer distinção entre eles no cômputo geral das músicas mais ouvidas. E isso por três motivos principais: 1º) porque são maiores as semelhanças do que as diferenças, sendo o rock britânico herdeiro cronológico do americano; 2º) porque quando as músicas inglesas aqui chegaram já estávamos devidamente preparados pelos yankees para bem recebê-las; 3º) porque, inclusive, em geral é através de gravadoras, distribuidoras ou revistas ligadas a multinacionais norte-americanas que tomamos conhecimento da música inglesa.

Num total de seis horas de audição de música em seis emissoras da cidade, a proporção de norte-americanas ou inglesas foi, em média, de 44,8 %, 53% de música nacional e apenas 2,2% de outras nacionalidades. Em duas estações (Antena 1 e Jovem Pan) o índice de música internacional chegou a ser superior a 50%.

Se levarmos novamente em conta a quantidade de brasileiros que não domina ou conhece o idioma inglês, concluiremos que os ouvintes de FMs não entendem cerca de 50% das músicas que escutam, embora alguns as repitam, cantando, mesmo sem compreendê-las.

Hoje em dia ao contrário do que se imagina, não tem sido tão fácil para os americanos estabelecer sua hegemonia em outras áreas da cultura de massa além do cinema. No mercado de rock e música pop, a concorrência britânica é acirradíssima, sem falar na disputa com os artistas locais. Na Espanha, Alemanha e França, os artistas desses próprios países respondem por metade das vendas, em média. No Brasil, a preferência pela produção nacional bate nos 80%.

Outro ponto que devemos analisar é que música americana é altamente difundida, pela MTV – Brasil, e pelas emissoras de rádio, em especial por duas das de maior audiência no Brasil a Jovem Pan e a Transamérica.  


ESPORTE

" ABREM-SE AS CORTINAS"

Se precisássemos definir um idioma para a maioria dos esportes com certeza seria o inglês a língua escolhida. Essa conclusão é lógica levando-se em consideração que grande parte dos esportes praticados aqui Brasil são de origem inglesa ou norte-americana como por exemplo o vôlei, o basquete, e até mesmo o futebol.

Normalmente, quando assistimos às transmissões esportivas lemos ou ouvimos palavras como ace, boxer, match, meeting, rally, record, ring, round, score, sprint, doing, point entre tantas outras bom você não se lembrar de muitas mais passe a prestar maior atenção, oportunidades não faltarão já este é um ano olímpico.

O país do football

"tu és o orgulho deste esporte bretão"

É preciso abrir uma parte especial para o futebol, o principal esporte do brasileiro que projetou o Brasil e muitos atletas no cenário mundial, até chamamos este país de o país do futebol. Pois bem, este esporte tão nacional teve sua origem na Inglaterra e foi trazido para o Brasil como esporte de elite e que posteriormente caiu no gosto popular.

Neste desporto é comum palavras em inglês ou que tiveram origem em vocábulo da língua britânica, como por exemplo corner (escanteio), pênalti (penalty = penalidade), gol (goal = objetivo), time (team), fairplay (jogo limpo) tão exigido pela FIFA. Também existem agremiações com nomes em inglês: Sport Club Corinthians Paulista, Sport Club do Recife, Grêmio Football Porto-Alegrense.

Rodeio

Outro esporte que foi invadido pelo inglês é o rodeio. Não é que há palavras na língua portuguesa que sirvam para denominar o cowboy, antigo peão e as demais pertencentes ao mundo country, mas o idioma dos norte-americanos, grandes adeptos dos rodeios, deu maior status à caipira festa do peão.

Agora, o rodeio apresenta provas como desafio do bulldog, bareback, e pode ser realizado indoor.

E todo atleta deve saber que dopind é ilegal, e por isso são realizados exames anti-doping.


CRIANÇAS

DAS BOLAS ÀS BARBIES

"Um dia houve crianças que nunca viam TV"

A presença da TV em nossos lares tem se tornado ainda mais marcante desde que começou a ser usada também para outros fins como o videocassete, video-game, teletextos etc.

As crianças da classe média urbana que moram em apartamentos e já nasceram com televisão em casa são as que mais a assistem, numa média de seis horas diárias. Aos 19-20 anos terão passado mais tempo "televendo" do que em qualquer outra atividade, exceto o sono.

Segundo alguns psicólogos, muitas crianças têm substituído progenitores, professores e outros adultos do seu círculo de amizades pelos telepersonagens e heróis, tomando-os como modelos na estruturação de suas personalidades. Muitas delas preferem o vídeo à companhia dos pais.

Produtos de uma sociedade que substituiu o gramado pelo concreto, tornou as ruas perigosas e trocou os quintais, jardins e terrenos baldios por minúsculos play-grounds, pouquíssimos meios sobram a essa "infância confinada" de se distrair, além da TV, dos quadrinhos e dos brinquedos industrializados.

Como no Brasil esse lazer "enlatado" é quase todo importado procuraremos analisar agora quais os conteúdos e mensagens mais característicos das produções destinadas ao público infanto-juvenil.

"Todo sucesso tem o seu avesso." Ou não? . . .

Tanto os enlatados da TV como os quadrinhos oferecidos a nossas crianças utilizam cenas com excesso de imagens em movimento contínuo e ultra-acelerado. Como também cada minuto é muito caro no vídeo, esse ritmo se intensifica ainda mais durante os comerciais.

Sem tempo para decodificar as mensagens recebidas e refletir sobre seus significados, as crianças vão incorporando como verdadeiro tudo o que lhes é apresentado, desenvolvendo pouquíssimo o espírito crítico e a necessidade de pesquisa para comprovação. São facilmente persuadidas a seguir as "imposições" de modelos que lhes são feitas porque isso acontece de forma agradável, sedutora e aparentemente "racional".

Por isso a publicidade lhes apresenta artigos com propriedades e poderes que realmente não têm. Além disso, garante a força de pressão das crianças sobre seus pais, mesmo no consumo de produtos que não lhes dizem diretamente respeito, oferecendo-lhes brindes, figurinhas, miniaturas e cupons.

Segundo depoimento de algumas mães, a publicidade tem se tornado na TV a parte mais apreciada pelos bebês. E aqui no Brasil ela está a cargo de agências norte-americanas ou segue seus padrões, sendo os maiores anunciantes as múltis da mesma origem.

Na década de 70 fez muito sucesso entre nós o programa infantil Vila Sésamo, financiado pela Xerox e co-produzido pela Globo e TV Cultura, dentro dos moldes do norte-americano Sesame Street. Além do Brasil foi apresentado em cerca de 70 países. Era uma combinação de marionetes, cenas vivas, desenhos e humor, com a finalidade principal de ministrar para os pré-escolares, de forma divertida, noções básicas de alfabeto e números.

A partir de então, muitos de nossos programas infantis passaram a incorporar algumas de suas técnicas, também com o adulto comandando a ação e privilegiando-se a figura do apresentador, dos artistas convidados e os desenhos, em detrimento das próprias crianças que, tanto no vídeo como em casa, permanecem passivas, na maior parte do tempo, como simples espectadoras.

As músicas e discos lançados por esses programas tornam-se hits no mercado fonográfico, substituindo as tradicionais cantigas infantis, folclóricas e outras de temática nacional. Além disso, estimuladas à imitação, as crianças se transformam em "cópias mirins" de cantores e dançarinos de rock ou dos próprios apresentadores. Aliás, a produção em série de artigos ligados aos apresentadores e personagens dos programas provocam verdadeiras avalanches de consumo infantil.

Quanto aos temas e personagens do mundo televisivo (seriados, desenhos, anúncios etc.), algumas características constantemente detectadas refletem sem dúvida a ideologia dominante: machismo, adultocentrismo, racismo, superficialismo, conformismo etc. Além disso as ações se desenvolvem dentro de tramas que podem conduzir tanto à agressividade quanto à insensibilidade e mesmo à apatia diante do sofrimento humano.

Nos enlatados em geral predominam homens, na faixa etária de 24 a 45 anos, que são comumente profissionais liberais, defensores da lei, detetives etc., aparecendo rarissimamente operários e trabalhadores rurais. No universo apresentado, tudo se compra, se vende e se consome, nunca aparecendo o desenvolvimento ou a origem humana de seu processo de produção. Enfim, à criança é apresentado o sistema capitalista "sem a presença incômoda do proletariado". Por isso a única ameaça ao "bom andamento do sistema" vem dos ladrões, corruptos, traficantes e espiões, e não das contradições internas e conflitos sociais dele originados.

Acontece também, e isso é grave, que pela aparência física ou outras indicações sutis (como nomes, língua falada e vocabulário), os vilões são muitas vezes identificados com certas minorias raciais, grupos nacionais ou classes sociais mais baixas. Como é muito comum que apresentem tiques nervosos, gestos compulsivos e atitudes de maldade ou insegurança, a marginalidade e a subversão aparecem como sintomas de desequilíbrio emocional individual e não de desequilíbrios e desigualdades sociais. Os problemas ficam assim desvinculados de suas verdadeiras origens e não são vistos como formas de resistência.

Os "mocinhos", ao contrário, são em geral brancos, limpos, equilibrados, apresentam bom grau de escolaridade e se mostram muito inteligentes, reforçando assim a idéia de que a normalidade e a saúde mental estão ligadas ao ajustamento às normas sociais, não importando a quem elas beneficiem.

Se os "mocinhos" e "mocinhas" são em quase 100% dos casos brancos, então aos outros grupos étnicos ficam reservados os papéis de coadjuvantes, figurantes e, não raro, subalternos.

Exceto pelas super-heroínas (na melhor das hipóteses) ou bruxas e feiticeiras, que aparentemente são os únicos personagens femininos liberados nas historias, à mulher compete ou o papel exclusivo de esposa e mãe ou as funções tradicionalmente encaradas corno feitas para ela. Até no caso das super-heroínas ou mocinhas que formam dupla com o super-herói ou "galã", é este ainda que acaba tornando a iniciativa e as salva no momento mais crucial da trama.

Quando há confronto entre países (mesmo imaginários), os norte-americanos (ou personagens com eles identificados) sempre são os mais idealistas, humanitários e honestos e, portanto, "os que têm razão".

No caso de violência, cada vez mais presente nos desenhos e filmes infantis, ela fica mais restrita à lula entre super-heróis, policiais e gangsters ou habitantes de planetas diferentes. A violência originada na luta de classes está ausente do mundo apresentado para a criança, bem como a militância política, a solidariedade de grupo, os movimentos de resistência social etc. foram banidos como vias de acesso a um mundo mais justo e socialmente equilibrado. As soluções dos problemas acabam ficando restritas à competência individual dos heróis.

O mundo "inocente" de Walt Disney

Foi depois da 2ª Guerra que o Brasil passou a sofrer a invasão dos quadrinhos norte-americanos, e já na década de 50 revistas mensais com histórias completas se tornaram habituais.

Lançado entre nós em 1950, o Pato Donald inaugurava as atividades da Editora Abril, cujo proprietário, Victor Civita, um nova-iorquino, filho de imigrantes italianos, se apoiara em um empréstimo de 1,5 milhão de dollars, recorrendo no início da empresa constantemente à ajuda bancária norte-americana. Hoje a Abril representa o maior império editorial brasileiro.

Desde então, os quadrinhos norte-americanos têm dominado nosso mercado, favorecidos pela não-regulamentação para a sua entrada no Brasil, pela eficiência dos sindicatos internacionais de distribuição e porque saem mais baratos do que o produto nacional, uma vez que seus custos de produção já foram cobertos há muito tempo pelo próprio consumo interno do país de origem. O presidente Goulart tentou, ainda que "suave e lentamente", garantir mais espaços para o quadrinho brasileiro nas edições de revistas e jornais do país. Por decreto, eles deveriam corresponder no mínimo a 30% do conjunto editado a partir de l.° de janeiro de 1964, aumentando a porcentagem para 40% em 1965 e para 60% um ano depois.

Com o golpe militar de 1964 a lei "não pegou". Roteirizadas e desenhadas aqui no Brasil, algumas historinhas de Disney até serviram a certos interesses mais imediatos do regime. Na época de Médici, por exemplo, Zé Carioca se mudaria, "feliz da vida", de uma favela para uma casa adquirida do BNH!

Em 1974 o deputado Jorge Paulo (PDS-SP) apresentou um projeto pelo qual 50% das historinhas, no conjunto das editoras, deveriam ser nacionais. Aprovado pela Câmara só em 1984, o projeto encontrou no Senado uma emenda que, servindo aos interesses de alguns editores brasileiros, considerava nacionais as histórias de personagens estrangeiros desde que elaboradas no Brasil. A AQC (Associação dos Quadrinistas e Cartunistas) repudiou o projeto e a emenda, preferindo o decreto de Goulart, que, com algumas ressalvas, vigora até hoje. Naturalmente na base da "Lei? Ora, a lei. . ."

Segundo informação do Jornal da Tarde de 30 de janeiro de 1988, a Editora Abril teria triplicado, em 1987, os títulos de gibis estrangeiros ("O dia, a hora e a vez do quadrinho brasileiro", Suplemento "Programe-se"). Dentre os mais cotados estão os de Walt Disney. Ariel Dorfman e Armand Mattelart analisam muito bem suas histórias em Para ler o Pato Donald - comunicação de massa e colonialismo (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1982).

Indicaremos aqui apenas alguns aspectos ideológicos dessas produções, omitindo outros que já foram comentados na avaliação geral que fizemos das "personagens televisivas". Não discutiremos a qualidade técnica dos quadrinhos, que é, sem dúvida alguma, admirável.

Cerca de 50% das histórias analisadas por Dorfman e Mattelart mostram os patos (Donald, os sobrinhos, tio Patinhas etc.) envolvidos com outros povos e nações, à procura de tesouros. Pelas pistas que nos são dadas acabamos por identificar esses povos como do terceiro mundo.

Os nativos dessas regiões são apresentados como pessoas musculosas e fortes, de bom coração mas com cérebro infantil, sugerindo a idéia de servirem muito mais como mão-de-obra em trabalho braçal do que como agentes intelectuais do processo de produção, além de necessitarem da "tutela" de estrangeiros "mais capazes".

Esses nativos vivem sem necessidade de trabalhar, em verdadeiros "paraísos". As riquezas que lá existem, naturais ou culturais, aparecem por obra da chuva, mar, vulcão ou vento, caem do céu, vêm de outro planeta ou foram ali enterradas por povos já extintos.

Contentam-se com presentes que são puras "quinquilharias", em troca dos quais entregam essas riquezas. Os presentes produzidos por uma civilização altamente tecnológica (a de Patópolis) são utilizados pelos nativos como brinquedos ou objetos mágicos de adoração, pois eles não têm condições de entender o seu significado.

O verdadeiro "saque imperialista" realizado pelos "patos" em relação aos outros povos não aparece, portanto, como tal, uma vez que fica legitimado pelo fato de as riquezas não terem para eles a mesma serventia (de produzir lucros) que têm para os civilizados, além de não lhes pertencerem, uma vez que não foram por eles criadas.

A divisão internacional do mundo em países produtores de matérias-primas, alimentos e mão-de-obra barata e países produtores de ciência, tecnologia e industrializados é passada suavemente como natural para as crianças e a exploração imperialista fica justificada pelo esforço e capacidade maiores demonstrados pelos civilizados.

Em muitas histórias que envolvem "selvagens bonzinhos", estes vão aprendendo com o tempo que há "patos" (estrangeiros civilizados) bons e "patos" maus. Ambos desejam suas riquezas, só que os primeiros pagam por ela (com quinquilharias, bem entendido), e os segundos não. Os "patopolenses" têm então a chance de se mostrarem defensores da justiça e da lei, ajudando os nativos a se livrarem dos "outros pilantras". E como o conseguem, passam a ter o direito de decidir acerca da distribuição da riqueza do país, tornando-se ainda porta-vozes de seus habitantes, o que nos faz lembrar da Emenda Platt, da atuação do Birô norte-americano na América Latina devido ao crescimento da influência da Alemanha nazista na região, de como os USA se apresentaram como nação amiga a nos proteger da "ameaça comunista e infiltração soviética" durante o período da guerra fria e, mais recentemente, do seu apoio aos exilados cubanos e aos "contras" nicaragüenses em suas tentativas de derrubar os governos revolucionários de seus países.

Aliás, todo movimento de emancipação do terceiro mundo em relação ao imperialismo yankee ou de substituição do sistema capitalista pelo socialista é minimizado, ridicularizado ou apresentado como "subversão da ordem natural do mundo social" (como se existisse essa ordem natural! . . ). Passeatas, atos públicos, seqüestros, terrorismo, tudo é mostrado como fato passageiro, ato isolado e articulação de pessoas mentalmente desorganizadas e as revoluções são apresentadas como uma "troca inconseqüente de tiros ou de tiranos".

Essas histórias todas, de conteúdos eminentemente imperialistas, são traduzidas em mais de 30 idiomas e lidas em mais de l00 países. Seus personagens aparecem em relógios, roupas, sapatos, enfeites para quartos, lustres e móveis infantis. Enquanto seus produtores e o país ao qual pertencem obtêm lucros inestimáveis e garantem sua hegemonia no mercado internacional de produtos culturais, nós, os "selvagens bonzinhos do terceiro mundo", por alguns minutos de diversão, continuamos, pela vida afora, "pagando o pato"!

Para finalizar, gostaríamos de sugerir ao leitor que comparasse os gibis de origem norte-americana com os dos personagens do brasileiro Maurício de Souza, por exemplo.

A diferença é gritante, a começar pelo desenho, que, nos importados, é extremamente cheio de detalhes. Os quadrinhos possuem cenários perfeitos, são repletos de objetos (nada é esquecido!) e cheios de personagens, inclusive figurantes. Os balões onde aparecem as falas são muito explorados, bem como os bump!, crinck!, grrr!, vupf! etc., que indicam ruídos, impulsos ou ação.

Esses recursos dão extrema movimentação às cenas e estimulam uma leitura muito rápida, como se as legendas fossem desaparecer, tal qual no cinema. Os leitores passam, por isso, muito superficialmente pelas histórias, quase sem tempo para reflexão ou para apreciar tanta riqueza de detalhes, a não ser, evidentemente, que sejam leitores adultos, preocupados mais em analisar do que em se divertir.

Ler uma revistinha dessas é quase como assistir TV ou brincar com divertimentos eletrônicos. O que importa é a rapidez. As imagens e informações são tantas que ao chegarmos ao fim quase não nos lembramos mais de tudo que acabamos de "consumir". Essas histórias refletem sobretudo o mundo adulto, ainda que em miniatura, e a idéia da competição, de querer levar vantagem em tudo, a violência e o individualismo estão sempre muito presentes.

Nas histórias do Maurício o desenho é mais simples e os personagens desenvolvem sua ação em espaços mais amplos (porque mais vazios). Nossa atenção é então atraída para a expressão de seus rostos e seus gestos, levando-nos a uma aproximação maior (quase de intimidade) com eles. Os balões são também menos utilizados, havendo muitos quadros sem legenda, a ponto de algumas histórias poderem ser entendidas até por crianças ainda não alfabetizadas. Além disso possibilitam, com esses "silêncios", algumas pausas para meditação.

O ritmo dado a essas histórias é, conseqüentemente, mais lento, o que não significa perda de dinamicidade. Ao contrário, isto é até muito positivo, uma vez que podem ser mais bem saboreadas, pois exigem observação mais atenta, e porque nos dão mais tempo para reflexão.

Os personagens centrais são infantis ou adolescentes e o mundo retratado é aquele das brincadeiras, sonhos, frustrações, medos, problemas e alegrias comuns às pessoas dessa idade. Por isso, os minileitores acabam se identificando nesses quadrinhos, que apresentam também pais, professores, padres, trabalhadores braçais e intelectuais, animais domésticos, armazéns, quintais, feiras, salas de aula e ambientes caseiros muito semelhantes àqueles com quem eles se relacionam seu dia-a-dia.

Há personagens mais ricos e ou os mais pobres, loiros, morenos, gordos, magros, mulatos, índios, homens, mulheres etc., que são tratados pelo autor e sua equipe em igualdade de condições. A fantasia não é em nenhum momento descartada, e, na mesma história, os humanos convivem ou até conversam com seres pré-históricos, anjos, sacis, lobisomens, vampiros e extraterrestres.

Além de divertirem, as tramas desenvolvidas fornecem elementos que podem ajudar as crianças a entender melhor os amigos, os adultos, a realidade da vida em geral e também a si próprias.

Se o caro leitor não se lembra mais dessas histórias, então "vale a pena ver de novo".

Brincadeira é coisa séria?

A forma como, com que e com quem brincamos é muito importante na formação de nossas atitudes, no desenvolvimento de habilidades e na interpretação da realidade em que vivemos.

O ato de brincar, no entanto, está cedendo cada vez mais lugar ao consumo de brinquedos, que no Brasil são elaborados em geral de acordo com os moldes importados ou alugados dos USA.

A Estrela, que controla 45% do mercado, é quem recebe a preferência das empresas norte-americanas, pois o retorno em royalties pela venda de seus moldes lhes proporciona de 2 a 4% de participação no faturamento total durante o tempo em que o brinquedo permanece em venda no Brasil.

Para minimizar os custos, nossas indústrias importam modelos que já se encontram "em baixa" nos USA, como aliás costuma acontecer em todo o setor dos enlatados culturais.

Numa cultura colonizada como a nossa, porém, possuir um modelo de brinquedo norte-americano, sobretudo da mais alta tecnologia, até confere status, como no caso dos video games e de uma porção de outros artefatos mecanizados e eletrônicos sofisticados.

Quanto mais os brinquedos denotam sua origem yankee e ligação com os personagens dos quadrinhos e da TV, mais atraentes se tornam. Daí o sucesso dos uniformes de super-heróis, dos kits ligados a seriados, dos aviões da USA Air Force etc.

Têm sido muito exploradas nos últimos anos as coleções de bonecos do tipo Falcon, Playmobil, Suzy, Fofolete, Moranguinho e muitas outras. São bastante lucrativas, pois exploram o hábito de colecionar, tão comum na infância e adolescência. É o consumismo estendendo suas garras também ao mundo infantil.

No caso do Playmobil, os carros, por exemplo, não são de marcas aqui encontradas, vêm com inscrições em inglês (como Police e Fire Chief) e acompanhados de placas de trânsito onde se podem ler stop, bus etc. Os militares e policiais carregam bandeiras dos USA, os índios usam canoas, cavalos e roupas como os de lá e as construções urbanas vêm com rótulos de identificação muito pouco esclarecedores num país de língua portuguesa: bank, saloon, circus, miners, hotel, sheriff"s office, fort union e drugstore.

Muito em moda aqui no Brasil por volta de 1979-1980, o boneco Falcon, em suas quatro versões, personificava um agente secreto norte-americano que se envolvia em ações militares e paramilitares. Inúmeros kits com acessórios diversos foram vendidos para completá-lo. Criado nos USA durante a fase de intervenção militar no Vietnã do Sul contra os vietcongues (e difundido no Brasil durante o governo Médici), tornava-se fácil deduzir que o "inimigo" que ele combatia era o comunista.

Na segunda metade da década de 80, Falcon foi substituído, na preferência infantil, pelo He-Man e sua irmã She-Ra, que ocuparam o horário nobre infantil dentro do Xou da Xuxa (Rede Globo). Suas revistas passaram a vender muito também e a Estrela logo lançou os bonecos, veículos de guerra e castelos, componentes da série.

Hoje quem faz mais sucesso na mesma linha do Falcon é o Rambo.

Embora perfeitos em sua estrutura miniaturizada e na riqueza de detalhes, muitos dos atuais brinquedos importados tiram da criança a alegria da descoberta e da recriação. Seguindo as instruções que os acompanham, apertando controles remotos, repetindo enredos de filmes ou as tramas dos quadrinhos que os inspiram, resta à criança fazer com o brinquedo o que seus produtores estabeleceram. Tendo ele uma única função e a criança um só caminho a percorrer, as brincadeiras tornam-se enfadonhas e por isso mesmo os objetos são logo descartados e substituídos por outros cujos anúncios também prometem aventuras que não vêm.

É preciso lembrar também que alguns brinquedos chegam a adquirir até mesmo características de um ser real, com nome próprio, personalidade, família, passado, objetos pessoais e, portanto, um script de vida. Isso sem falar na influência que exercem sobre o rumo dos acontecimentos até em certos ambientes adultos.

Vejamos, a título de exemplo, o caso da boneca Barbie. Responsável por 40% do rendimento da Mattel Incorporation (cerca de 400 milhões de dollars), a "mais famosa boneca do mundo" completará 30 anos de existência em 1989 (atualmente Barbie já passou dos 40 anos). Para comemorar o evento acaba de ser editado, após dez anos de pesquisa, o livro Barbie; her life and times (Barbie, sua vida e suas épocas), que custa nada menos que 25 dollars.

O autor é o estilista Billy Boy, que coleciona a boneca desde a infância e dela possui 11 mil exemplares. No 25.° aniversário da boneca, com apoio da Mattel, ele promoveu uma grande exposição nos USA e Europa. Especialmente para essa exposição alguns de seus colegas mais famosos, como Yves Saint-Laurent, criaram modelos exclusivos para a Barbie.

Além de considerá-la símbolo da cultura e do estilo de vida americano, Billy Boy declara em seu livro: "Eu sabia que quando Barbie entrou na minha vida seria uma longa relação. Ela era a mulher perfeita. A deusa longamente esperada. A eterna procura estava encerrada. Meu interesse em moda e sociologia brota desse encontro".

Algumas universidades americanas têm realizado pesquisas ligadas à "boneca-fenômeno". Ora ela é apontada como culpada por incentivar o consumismo, ora é vista como "barômetro das atitudes da sociedade americana em relação à mulher". Existe até um filme experimental que tentou relacionar a morte da cantora Karen Carpenter por anorexia (falta de apetite e perda constante de peso) ao modelo de mulher oferecido por Barbie. Aliás, uma universidade fez uma tentativa de transferir as proporções físicas da boneca para a escala humana. O resultado foi que anatomicamente isso era impossível (informações retiradas de "A Boneca Barbie faz 30 anos em 89 mas seus pais estão falindo", Folha da Tarde, 29 jan. 1988).

Mas nem sempre é feito de beleza e charme o mundo dos brinquedos. A violência tem chegado cada vez mais nele, com uma proliferação de armas e veículos bélicos sofisticados e identificados como americanos, preparando a garotada para a aceitação das bombas nucleares e da corrida armamentista entre as grandes potências.

Também lançado entre nós, o Grow Jogo - War declaration tem caráter declaradamente imperialista, pois os participantes disputam entre si os países do mundo (!!!).

Há também os fliperamas, video games e microcomputadores lúdicos, que surgiram quando o mercado norte-americano para circuitos integrados de máquinas calculadoras se saturou. A solução encontrada foi aplicar a tecnologia disponível em "brinquedos inteligentes", capazes de formar desafios, armar jogos etc.

Embora os adeptos da modernização do país os encarem como positivos, o fato é que eles comandam a ação da criança, determinando seus atos, o nível de dificuldade de suas brincadeiras, além de alguns dispensarem companheiros e às vezes até a participação mais efetiva de seu proprietário, pois certos brinquedos podem até jogar sozinhos. Acabam funcionando como máquinas adestradoras de crianças, nelas desenvolvendo apenas reflexos bem treinados e rápidos, eficientes em situações repetitivas, semelhantes àqueles desejáveis nas "linhas de produção".

Além disso a competição que sugerem, na maior parte dos casos, exige destruição ou eliminação de alguma coisa: em geral, um inimigo.

O ritmo acelerado que impõem ao jogador, o suspense dos perigos e a expectativa do prêmio ou resultado final viciam de tal forma os adeptos desse tipo de lazer que qualquer atividade que exija reflexão, leitura, escrita, escuta ou esquematização mais demorada acaba sendo considerada desagradável, desanimadora e rejeitada.

E daí . . . bye-bye estudo, bye-bye trabalho, bye-bye militância política. . . Bye-bye Brasil! . . .

Não queremos dizer com isso, evidentemente, que todas as crianças estão fadadas a ser defensoras da ideologia dominante ou ser por ela manipuladas só porque nas suas horas de lazer se viram às voltas com objetos do tipo que acabamos de analisar. Mesmo porque há algumas que nem sequer gostam deles e outras que nem os podem adquirir.

Na verdade quando se trata de seres humanos, cada um é um e ele só, reagindo particularmente de uma ou outra forma às experiências pelas quais passa na vida. Além disso existe a influência da família, de outros adultos, da escola e de todo um mundo concreto à sua volta, lhe proporcionando vivências muito diferentes daquelas do mundo da ficção.

Se não fosse assim todos os adultos de hoje, que receberam (ainda que em pequena escala) aquelas mesmas mensagens ideológicas, deveriam ser pessoas acomodadas ao sistema. E felizmente não são todos assim.

No entanto não podemos ignorar, ou nos calar, diante do fato de que certos tipos de lazer que hoje são oferecidos às crianças funcionam como instrumentos de dominação de classe e de nação sobre nação. Afinal, se é verdade que nem todos sucumbem à ação de tais instrumentos, é verdade também que há aqueles que sucumbirão. É bom portanto estarmos alerta.

Criando em 1928, Mickey ficou cada vez menos engraçado à medida que assumia a imagem de "cidadão bem comportado", mas o papel de símbolo do Império Disney e a preferência em termos de merchandising permanecem com ele até hoje.


PROJETO DE LEI

Recentemente, o Deputado Federal Aldo Rebelo (PC do B – SP), visando proteger a identidade cultural da língua portuguesa, apresentou um projeto de lei que prevê sanções contra o emprego abusivo de estrangeirismos. Mais que isso, declarou o Deputado, interessa-lhe incentivar a criação de um "Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa".

Leia alguns dos argumentos que ele apresenta para justificar o projeto, bem como os textos subseqüentes, relacionados ao mesmo tema.

"A História nos ensina que uma das formas de dominação de um povo sobre outro se dá pela imposição da língua. (...)"

"...estamos a assistir a uma verdadeira descaracterização da Língua Portuguesa, tal a invasão indiscriminada e desnecessária de estrangeirismos - como ‘holding’, ‘recall’, ‘franchise’, ‘coffee-break’, ‘self-service’ - (...). E isso vem ocorrendo com voracidade e rapidez tão espantosas que não é exagero supor que estamos na iminência de comprometer, quem sabe até truncar, a comunicação oral e escrita com o nosso homem simples do campo, não afeito às palavras e expressões importadas, em geral do inglês norte-americano, que dominam o nosso cotidiano (...)"

"Como explicar esse fenômeno indesejável, ameaçador de um dos elementos mais vitais do nosso patrimônio cultural – a língua materna -, que vem ocorrendo com intensidade crescente ao longo dos últimos 10 a 20 anos? (...)"

"Parece-me que é chegado o momento de romper com tamanha complacência cultural, e, assim, conscientizar a nação de que é preciso agir em prol da língua pátria, mas sem xenofobismo ou intolerância de nenhuma espécie. (...)"

(Dep. Fed. Aldo Rebelo, 1999)

"Na realidade, o problema do empréstimo lingüístico não se resolve com atitudes reacionárias, com estabelecer barreiras ou cordões de isolamento à entrada de palavras e expressões de outros idiomas. Resolve-se com o dinamismo cultural, com o gênio inventivo do povo. Povo que não forja cultura dispensa-se de criar palavras com energia irradiadora e tem de conformar-se, queiram ou não queiram os seus gramáticos, à condição de mero usuário de criações alheias."

(Celso Cunha, 1968)

"Um país como a Alemanha, menos vulnerável à influência da colonização da língua inglesa, discute hoje uma reforma ortográfica para 'germanizar' expressões estrangeiras, o que já é regra na França. O risco de se cair no nacionalismo tosco e na xenofobia é evidente. Não é preciso, porém, agir como Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, que queria transformar o tupi em língua oficial do Brasil para recuperar o instinto de nacionalidade. No Brasil de hoje já seria um avanço se as pessoas passassem a usar, entre outros exemplos, a palavra ‘entrega’ em vez de ‘delivery’."

(Folha de São Paulo, 20/ 10/ 98)


NÚMEROS

A CULTURA AMERICANA EM NÚMEROS: 

  • Das 100 maiores bilheterias do cinema de todos os tempos, 93 são produções exclusivamente americanas;
  • 25% do mercado mundial de filmes é controlada pela indústria de cinema dos Estados Unidos;
  • Um terço das vendas do mercado fonográfico mundial está concentrado no mercado americano;
  • Seis dos dez artistas musicais campeões de vendas em todos os tempos são dos Estados Unidos;
  • 14 bilhões de dólares é o total arrecadado anualmente pelos 300 parque temáticos americanos, quatro vezes a receita gerada pelos turistas estrangeiros no Brasil.


CONCLUSÃO

O Brasil pode ser comparado a um diamante que começou sue processo de lapidação muito antes do seu "descobrimento" pelos portugueses, podemos dizer que cada povo que para cá imigrou representa uma face nova na lapidação deste jóia, e quanto maior o número faces maior o seu brilho.

Partindo deste princípio, temos de reconhecer que os americanos também contribuíram e ainda contribuem para a formação de nossa identidade nacional, porém a presença da língua inglesa é desproporcional se comparada à dos outros idiomas das nações que para cá vieram como por exemplo italianos, alemães, japoneses etc.

Essa presença desmedida pode ser explicada por alguns fatores, herdamos de nossa pátria mãe o domínio da Inglaterra, que posteriormente passou a ser de sua colônia na América os Estados Unidos da América. Não podemos nos esquecer, que somos independentes é graças a esses dois países porque foram os EUA o primeiro país a reconhecer nossa liberdade e a Inglaterra quem nos emprestou dinheiro para que Portugal reconhecesse a independência proclamada por um membro da coroa portuguesa.

Outro fator além do supracitado e dos referidos no trabalho como a música, o cinema, a TV, a informática, e consequentemente a Internet, também é atualmente um dos fortes aliados americanos para a disseminação de sua língua- visto que este é o idioma falado neste mundo virtual- e não só desta mas também de sua cultura e modo de vida, os quais muitas vezes são extremamente diferentes do modo brasileiro.

Não devemos desprezar a cultura americana, contudo não podemos passar a ver o mundo através do ponto de vista norte-americano, tornando-nos alheios à nossa verdadeira realidade, pois apesar de sermos americanos também, somos sul-americanos com um clima, um povo, uma cultura, uma história muito diferente da deles, nunca fomos iguais a eles, e a partir do momento que notarmos essa diferença veremos que não somos piore nem melhores que eles só diferentes deles. Por isso, precisamos nos adequar à nossa realidade, e esta adequar-se ao mundo.

The End!

Perdão, é apenas força do hábito, nós só queríamos dizer:

Fim!


BIBLIOGRAFIA

Livros:

ALVES, Júlia Falvene. A invasão cultural norte-americana, São Paulo: Moderna, 1988.

BUENO, Francisco da Silveira et alii. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, 11. ed./ 10ª triagem. Rio de Janeiro: FAE, 1986.

CEREJA, William Roberto & MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: Linguagens: Literatura, Gramática e redação-2, 2ed.- São Paulo: Atual, 1994.

CRESPO, Regina Aída. Iniciação a Sociologia, São Paulo: Moderna, 1994.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda et alii. Minidicionário da Língua Portuguesa, 3. ed.- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

Revistas:

Simonetti, Eliana et alii- Susto no império americano. Veja, São Paulo, , abr. 2000.

Sites:

http://www.culting.com/crcpub/rsbci239/rv023907.htm

http://www.culting.com/crcpor/index.htm

http://www.coc.com.br/fuvest00/2fase/dia03/tema.htm

http://www.jose-antonio.pro.br/simbio.htm

http://www.kplus.com.br/literatura/dezembro99/artigo2.htm

http://www.languageshop.com.br/veja/p_072.html