A História da Medicina
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Historia da Medicina

 

A importância do estudo da História Geral

"É no estudo do passado das sociedades, buscando resgatar e compreender suas realizações, que descobriremos as motivações e os efeitos das transformações pelas quais passou a humanidade, reunindo, assim, os elementos que ajudam a explicar nossa atualidade." Cláudio Vicentino


Cronologia histórica

Para uma melhor compreensão dos fatos históricos, utilizaremos um modelo didático conhecido como periodização da história. O fluxo histórico, todavia, é contínuo e sem interrupções, servindo a divisão do tempo em períodos aos propósitos de cada historiador. Assim, em nosso estudo, adotaremos a seguinte cronologia histórica:

Pré-história – Idade Antiga – Idade Média – Idade Moderna – Idade Contemporânea

A pré-história corresponde à primeira etapa da evolução humana, iniciando-se com o surgimento dos primeiros hominídeos (Australopithecus) há cerca de 4 milhões de anos e estendendo-se até o aparecimento da escrita, por volta de 4000 a.C.

Período Paleolítico (Idade da Pedra Lascada) – até 10000 a.C.:

O homem pré-histórico vivia em bandos que moravam em cavernas ou nas copas das árvores. Sua subsistência alimentar estava baseada no extrativismo vegetal (frutos, brotos e raízes), na caça e na pesca.

Neste período deu-se a descoberta e o controle do fogo, permitindo aquecimento contra o frio, defesa contra o ataque de certos animais e uma melhor preparação dos alimentos.

Período Neolítico (Idade da Pedra Polida) – de 10000 a 4000 a.C.:

Caracterizado pelo desenvolvimento da agricultura e domesticação de animais. Inicia-se a criação de aldeias e formação das primeiras famílias (tribos). Surgem as habitações de madeira, de barro e as tendas de couro.

A partir do domínio da fundição de certos metais, como cobre, bronze e ferro, o homem passou a substituir os utensílios de pedra e madeira pelos feitos de metal.

Registra-se o surgimento de formas rudimentares de escrita (desenhos e símbolos).

Idade Antiga (4000 a.C. – 476): iniciando-se aproximadamente em 4000 a.C., com o advento da escrita, e estendendo-se até a queda do Império Romano no ano 476. Durante esta fase encontramos as estruturas da servidão coletiva, típicas do Oriente e as estruturas escravistas do Ocidente clássico.

Antigüidade Oriental: A civilização egípcia; as civilizações da mesopotâmia (sumerianos, acadianos, Império Babilônico e Império Assírio); a civilização dos hebreus; a civilização fenícia e a civilização medo-persa.

Antigüidade Clássica: A civilização grega; a civilização romana.

Idade Média (476 – 1453): iniciando-se em 476 e estendendo-se até 1453, quando terminou a Guerra dos Cem Anos, na Europa, e a cidade de Constantinopla caiu em mãos dos turcos otomanos. Durante o período medieval prevaleceu a estrutura socioeconômica feudal no Ocidente.

Fatos históricos relevantes: O sistema feudal. A Igreja Católica. As invasões bárbaras e o Império Romano do Oriente. A expansão árabe. A expansão do comércio. A urbanização e o crescimento demográfico. A cultura medieval européia: educação, filosofia, literatura, música, arquitetura e ciências.

Idade Moderna (1453 – 1789): iniciando-se em 1453 e estendendo-se até 1789, quando teve início a Revolução Francesa. Durante esta época, consolidou-se progressivamente uma nova estrutura socioeconômica que ainda conservava poderosos resquícios da ordem feudal medieval. Esta estrutura é comumente denominada capitalismo comercial.

Fatos históricos relevantes: O mercantilismo: a expansão marítima e a Revolução Comercial. O Renascimento: artes e ciências. A Reforma religiosa. O Estado moderno: o absolutismo. O mundo colonial. O Iluminismo e o liberalismo político. A queda do Antigo Regime. A independência dos Estados Unidos da América.

Idade Contemporânea (1789 – até hoje): iniciando-se em 1789 e estendendo-se até os nossos dias. Em nosso século, o capitalismo atingiu a sua maturidade e plena dinamização, alcançando progressivamente sua globalização.

Fatos históricos relevantes (século XVIII): A Revolução Francesa. A era napoleônica. A Revolução Industrial. O liberalismo econômico e as novas doutrinas sociais.

Fatos históricos relevantes (século XIX): A hegemonia política e econômica da Europa Ocidental (França e Inglaterra). A independência da América espanhola e do Brasil. O neocolonialismo. O imperialismo na África, na Ásia e na Oceania.

Fatos históricos relevantes (século XX): A Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A Revolução Russa (1917): o governo de Lênin (1917-24) e o governo de Stálin (1924-53). A crise econômica de 1929. Os regimes totalitários: nazismo e fascismo. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Guerra Fria. O socialismo na China e em Cuba. A nova ordem econômica internacional: a globalização.


A medicina antiga (pré-história)

Na pré-história encontraremos um homem vivendo em íntimo contato com a natureza, com desenvolvimento intelectual incompleto e modo de vida primitivo. A convivência com o mundo – animais predadores, fenômenos naturais e certas doenças – era geradora de enorme tensão, sendo a sobrevivência a principal preocupação dos diversos agrupamentos de hominídeos.


As doenças eram vistas como forças desconhecidas, sobrenaturais; as constantes ameaças naturais geravam uma enorme tensão, um grande medo das doenças e da própria morte.

Há algumas evidências na paleontologia e na antropologia que permitem-nos concluir que a medicina pré-histórica evoluiu de práticas mágicas, instintivas e empíricas.

O uso de rituais mágicos estava baseado na crença de que os demônios da natureza eram os responsáveis pelos inúmeros males e pelas mortes.

Encontrados crânios pré-históricos com orifícios de trepanação: orifícios de diferentes formas e tamanhos; às vezes vários orifícios em um único crânio.

Na França: escavações na gruta de Les Trois Frères encontraram diversas gravuras de homens com cabeças de animais (veados) – ritual para afastar os maus espíritos?

Enfim, a história da medicina estava estreitamente ligada à da religião – finalidade comum: a defesa do indivíduo contra as forças do mal (demônios, maus espíritos).


A medicina na Mesopotâmia

 

1. Aspectos históricos, geográficos e culturais.

1.1. Civilizações da Mesopotâmia:

Sumérios (4000 a.C. – 2000 a.C.)

Assírios e babilônios (2000 a.C. – 1580 a.C.)

1.2. Localização:

Norte da Península Arábica. Vale de Ur (Iraque).

Golfo Pérsico => Rios Tigre e Eufrates.

1.3. Economia, sociedade e cultura:

Economia baseada na agricultura irrigada, artesanato com metais finos e comércio.

Cidades-Estados, onde deus era o proprietário da cidade, o sumo-sacerdote seu administrador e todos os habitantes eram seus servos.

Sacerdotes com funções religiosas e administrativas.

Religião: politeísta (muitos deuses e demônios).

Cultura: astrologia (calendário solar e cronologia/horas). Leis codificadas.

2. A medicina dos sumérios

A medicina da civilização suméria baseava-se na astrologia (magia e empirismo).

Os astros governavam as estações; as estações determinavam as doenças.

O sangue continha toda a força vital do organismo. O fígado era o centro de distribuição do sangue.

O fígado era o órgão mais importante do corpo humano; sede da alma. Eles faziam adivinhações utilizando-se de fígados de animais.

3. A medicina dos assírios e babilônios

A astronomia e a astrologia tornaram-se mais importantes, pois serviam para que o rei pudesse conhecer e seguir as orientações dos deuses.

Demônios: Nergal (demônio da morte e da destruição) e Nasutar (demônio das pestes).

Divindades curadoras: Ninib, Gula e Ninazu (símbolo: cajado e serpente).

Astronomia (racional e científica) e astrologia (mágica e ritualística) => suportes para a arte-ciência médica da época. A prática médica era prerrogativa dos sacerdotes.

As cirurgias deviam ser praticadas pelos homens do povo.

Código de Hamurábi (1948-1904 a.C.) =>à dispunha sobre a responsabilidade civil e penal dos médicos e determinava acerca dos honorários.

Os sacerdotes deviam prestar contas com os deuses; os cirurgiões perante o Estado.

Os médicos assírios e babilônios eram astutos observadores da natureza: contribuíram com importantes avanços para a medicina empírica.

Os médicos assírios usavam medicamentos sob diferentes formas: comprimidos, pílulas, pós e enemas, pessários e supositórios.

O prognóstico do doente era decidido por meio de adivinhações e de augúrios baseados no exame do fígado de carneiro. Doente soprava nas narinas do animal que depois teria seu fígado examinado. Eram também utilizadas as análises de sangue, urina e saliva do doente.

Conheciam doenças dos olhos e ouvidos, reumatismo, doenças cardíacas e doenças venéreas.


A medicina no Egito



1. Aspectos históricos, geográficos e culturais.

1.1. Período de auge da civilização:

  • Antigo Império (3200 a.C. – 2300 a.C.)
  • Médio Império (2300 a.C. – 1580 a.C.)
  • Novo Império (1580 a.C. – 525 a.C.)

1.2. Localização:

  • Nordeste da África. Região desértica do Vale do Rio Nilo.
  • Heródoto (historiador grego): "O Egito é uma dádiva do Nilo".

1.3. Economia, sociedade e cultura:

Economia baseada na agricultura (trigo, cevada, algodão, papiro, linho), na criação de animais (cabras, carneiros e gansos) e na pesca. Outras fontes: construção de barcos; produção de tecidos e vidros.

Aristocracia e classes: Faraó e sua ampla família real => os sacerdotes => os nobres => os funcionários públicos (escribas) => camponeses. Novo Império: soldados e escravos.

Religião: politeísta e antropozoomórfica. Sociedade monogâmica.

A religião tinha uma grande influência na vida cotidiana: política e jurídica.

Cultura: matemática, astrologia (calendário solar), arquitetura e escultura.

2. A medicina egípcia

A medicina egípcia era fortemente influenciada pela religião (magia e crenças).

Acreditavam na imortalidade da alma => vida após a morte.

Os egípcios tinham elementar conhecimento de anatomia humana. A técnica de embalsamar era uma prova deste conhecimento. O embalsamamento era destinado tão somente aos nobres e reis. Anubis era descrito como o Deus dos Embalsamadores – a ele caberia a função de preparar os corpos que deveriam estar conservados para que a alma imortal dele fizesse uso na outra vida.

Múltiplos deuses: Amon-Rá (deus sol); Re (deus da vida); Osíris (deus da morte).

O médico egípcio era um homem de cultura e erudição. Havia hierarquia entre os médicos. Homens e mulheres podiam exercer a medicina.

Os médicos podiam ser remunerados por meio de presentes. Os médicos da família real e dos nobres tinham assegurado os seus sustento; aqueles que trabalhavam nos templos recebiam de acordo com o orçamento do templo.

O médico egípcio mais famoso foi Imhotep: arquiteto e médico do Rei Zozer (3150 a.C.). Ele foi também sacerdote, escriba, astrônomo e grão-vizir. Responsável pela construção da primeira pirâmide de Sakkara.

Para a medicina egípcia a função vital do organismo estava na respiração e na circulação. O coração era o centro do corpo humano.

A prática médica dividia-se em duas escolas: a empírica, cara e reservada aos ricos e à família real; a mágico-ritualística, barata e popular.

A prática médica era dividida em inúmeras especialidades, de acordo com um órgão ou função orgânica determinada. Assim, tínhamos os especialistas dos olhos, dos dentes, do coração, dos intestinos. Curiosidades: 1) Um dos postos mais importantes e cobiçados era o de "Abridor do Crânio do Faraó". 2) O médico Irj (2.500 a.C.) é descrito como tendo sido o "Guardião do Ânus Real" – um excelente proctologista!

Utilizavam remédios variados: mel, cerveja, frutas e especiarias, ópio, produtos de origem animal (gordura, sangue, excrementos), sal e antimônio.

As cirurgias incluíam, dentre outras práticas, as drenagens de abscessos e furúnculos, a extirpação de tumores e a trepanação.

 

 

A medicina grega

 

Aspectos históricos e culturais da Grécia antiga.

Localização:

Sudeste da Europa, entre o mar Egeu e o Mediterrâneo.

A Grécia antiga abrangia o sul da península Balcânica (Grécia européia ou continental), as ilhas do mar Egeu (Grécia insular) e o litoral da Ásia Menor (Grécia asiática). A partir do século VIII a.C., o território da Grécia européia foi ampliado com a fundação de diversas colônias no Mediterrâneo ocidental, principalmente no sul da Itália, que passou a chamar-se Magna Grécia.

Sociedade:

Organização da polis =>cidades-estados. Esparta, Atenas, Corinto, Éfeso e Mileto.

Sociedade patriarcal: indivíduos => genos (famílias) => fratria => tribos => demos.

Formas de governo: monarquias, oligarquias e democracias.

Religião: politeísta e antropomórfica. As principais divindades eram: Zeus, o senhor de todos os deuses; Hera, a esposa de Zeus – protetora das mulheres e do casamento; Atena, filha de Zeus e de Hera – protetora das artes e da sabedoria; Apolo, também filho de Zeus e de Hera – deus da luz e da beleza masculina; Artemis, deusa da caça e da justiça; Hermes, mensageiro dos deuses e deus do comércio; Afrodite, deusa do amor e da beleza feminina. Heróis divinizados ou semideuses: Hércules, famoso por sua força descomunal; Teseu, que matou o Minotauro do palácio de Creta, libertando Atenas; Perseu, que matou a Medusa, monstro que transformava em pedra todos que a olhavam; Édipo, o decifrador do segredo da esfinge, que subjugava Tebas.

Cultura:

A herança cultural deixada pelos gregos foi muito rica e influenciou toda a civilização ocidental. Os gregos valorizavam muito a beleza e a coragem.

Artes: arquitetura, escultura e música.

Teatro: comédia e tragédia; as máscaras (persona); Ésquilo => criador do gênero tragédia – Os persas, Os sete contra Tebas e Prometeu acorrentado; Sófocles => Édipo- Rei, Antígona e Electra; Aristófanes => comédias – As vespas, As nuvens, As rãs; Eurípedes => Medéia, As troianas, As bacantes, dentre outras.

História: Heródoto ("Pai da História") – prosador das Guerras Médicas. Outros historiadores famosos: Xenofonte e Tusídides.

Poesia: Homero => Ilíada: sobre a guerra de Tróia (Ílion, em grego); Odisséia: conta as viagens do herói grego Ulisses (Odisseu, em grego).

Filosofia: philo (amizade) e sophia (sabedoria) => filósofo = amigo do saber. Alguns filósofos importantes: Tales de Mileto, Anaxímenes, Anaximandro, Pitágoras, Protágoras, Sócrates, Platão e Aristóteles.

Ciências: matemática, geometria, lógica, botânica e medicina.


A medicina grega

No início da civilização grega sua medicina sofreu enorme influência dos egípcios e babilônios. Os gregos utilizaram-se da matemática egípcia e da astronomia babilônica para fundamentar a filosofia e a lógica da medicina grega.

Acreditavam na influência dos deuses nas questões relativas à vida e à morte, sendo a doença vista, inicialmente, como um castigo dos deuses. Na religião grega os mortais estavam fadados a morrer, não havia promessa de vida eterna.

A medicina grega baseada na mitologia identificava a cura a diversas divindades. Não apenas Apolo, Artemis, Atena e Afrodite, mas também os deuses do submundo eram capazes de curar ou evitar doenças. O culto a Esculápio parece ter evoluído dessas entidades, pois o seu símbolo, a serpente, é uma representação antiga das forças do submundo da magia e um sinal sagrado do deus da cura entre as tribos semitas da Ásia Menor.

De acordo com a lenda, Esculápio foi filho de Apolo com uma jovem terrestre; Apolo determinou que o centauro Quíron fosse o tutor e seu professor na arte de curar. Quíron era o mais sábio dos centauros e um excelente cirurgião. Em vários momentos a Mitologia se mistura com a História, restando a dúvida de que Esculápio tenha de fato existido; um médico humano e de enorme capacidade profissional.

Esculápio possuía duas filhas que o auxiliavam na arte de curar: Panacéia – versada em conhecimentos sobre todos os remédios da terra, capaz de curar qualquer doença humana. Hígia (ou Higéia) – responsável pelo bem-estar social, pela manutenção da saúde e prevenção das doenças; cuidava da higiene e da saúde pública.

Nos templos destinados a Esculápio realizavam-se os rituais de cura. Os mais famosos ficavam em Epidauro, Cnido, Cós, Atenas, Cirene e Pérgamo, sendo visitados ainda no século V d.C. Quando os tratamentos feitos por médicos leigos falhavam, as pessoas procuravam auxílios nesses santuários. O tratamento era constituído de banhos e jejum. Drogas (poções) eram empregadas para relaxar e adormecer os doentes. As curas deveriam acontecer durante o sono do paciente, que ao acordar deveria relatar seus sonhos. Antes da saída do templo o doente fazia uma oferenda em dinheiro ou objetos de valor e deixava o registro de sua cura numa placa a ser exposta na entrada dos templo, a fim de divulgar os sucessos alcançados.

Foi o culto a Esculápio que despertou nos gregos o interesse em reconhecer a importância que a esperança e a ansiedade do paciente tinham para sua cura. Aqui estávamos diante dos primórdios da psicoterapia ou da medicina psicossomática.

A filosofia representou enorme influência na medicina grega, por seu caráter inquisidor e racional. A escola filosófica de Pitágoras (580-489 a.C.), sediada na cidade de Crotona (Itália meridional), proporcionou os fundamentos para a medicina científica.

O médico mais famoso da escola de Crotona foi Alcmeon, um jovem contemporâneo de Pitágoras que deu as bases científicas à medicina grega. Era um mestre da anatomia e da fisiologia – descobriu os nervos ópticos, a trompa de Eustáquio (ouvido) e fez a distinção entre veias e artérias. Em sua obra "Sobre a natureza" ofereceu explicações plausíveis (racionais) sobre as doenças e sugeria meios de prevenção e de cura. Entendia a doença como um desequilíbrio do corpo, sendo esta desarmonia decorrente de diversos fatores como má nutrição (dietas irregulares ou inadequadas) e fatores externos (clima e altitude). Outro notável membro desta escola foi Empédocles (500-430 a.C.), cuja teoria dos humores perdurou por vários séculos. Acreditava que o mundo era composto por 4 (quatro) elementos: fogo, ar, terra e água. Os líquidos corporais representados pelo sangue, linfa, bile amarela e bile negra eram representações destes elementos da natureza, sendo seu equilíbrio a razão da saúde humana. Assim teríamos a seguinte combinação: fogo (quente) => sangue; ar (frio) => linfa; terra (seco) => bile amarela; água (úmida) => bile negra. Esta era a famosa Doutrina dos Humores.

HIPÓCRATES (O Pai da Medicina) – Nascido na ilha de Cós, em 460 a.C., era filho e neto de médicos, tendo aprendido medicina com os mesmos, na então famosa Escola de Cós. Hipócrates conquistou enorme reputação devido a seu talento e habilidades extraordinárias. Substituiu os deuses pela acurada e perseverante observação clínica de seus pacientes. Foi o idealizador de um modelo ético e humanista da prática médica, dedicando-se de modo incansável à arte de curar. Criou métodos de diagnóstico, baseado na inquirição (filosofia) e raciocínio (lógica). As descrições de Hipócrates costumavam ser precisas e objetivas. Hipócrates escreveu diversas obras, sendo a ele atribuídos 72 textos e 42 histórias clínicas. As obras éticas e o juramento fazem parte do chamado Corpo Hipocrático (Corpus Hippocraticum). Dentre suas obras mais famosas podemos destacar: Sobre as epidemias, onde descreve doenças como pneumonia, tuberculose e malária; Sobre ares, águas e lugares, um tratado sobre saúde pública e geografia médica; Sobre a dieta, alertando para a importância de uma dieta equilibrada e saudável; Aforismos, descreve sua experiência cotidiana por meio de 400 provérbios, como estes: "A vida é tão curta, a arte demora tanto a aprender, a oportunidade vai logo embora, a experiência engana e o julgamento é difícil"; "A doença extrema requer curas extremas".


A medicina romana


Aspectos históricos e culturais da Roma antiga.

O Império Romano:

O poder do Império Romano se estendeu por uma região profundamente influenciada, e até mesmo transformada, pela cultura grega, que continuou a incorporar grande parte do continente europeu e do norte da África. A expansão do poder romano chegou a englobar todo o mundo mediterrâneo num sistema de dominação e transformou Roma num império que até hoje molda grande parte da cultura ocidental.

A formação do império romano, que tratava-se de fato de uma República, começa com a expulsão dos reis etruscos, por volta de 510 a.C.

Sociedade e cultura:

Por muito tempo, o típico cidadão romano era camponês e cultivava sua pequena propriedade, até que o organizado e forte exército romano, baseado no serviço militar compulsório, começasse a dominar diversos povos e expandisse o império romano.

Formas de governo: período republicano (República) e período monárquico (Império).

Religião: politeísta e antropomórfica.

A engenharia romana foi muito bem sucedida, existindo dentre seus legados grandes monumentos, suntuosas construções e excelentes estradas. Por todo o império, prédios e monumentos públicos mostravam o que os romanos consideravam apropriado a uma vida civilizada, quase exclusivamente urbana.

Os romanos se orgulhavam de serem duros e valentes, mas também gostavam de conforto. O gosto pelos banhos e pelo aquecimento central dos banheiros foi notável, sendo os romanos hábeis nos assuntos relativos ao trabalho de encanadores e saneamento. Elaborados aquedutos traziam água potável para as cidades, onde termas e banheiros públicos cuidavam da limpeza externa e interna. As casas particulares dispunham de saunas a vapor e salas de estar aquecidas.

Além da engenharia e da hidráulica, as inovações romanas foram poucas. Fizeram poucas contribuições para a ciência pura.

Caracteristicamente, a atividade intelectual que os romanos parecem mais ter admirado é prática: a lei (direito), e a oratória que a acompanhava. O Direito Romano influenciou sobremaneira a cultura jurídica ocidental.

A medicina romana

Os etruscos, que precederam os romanos, possuíam algum conhecimento de medicina. Acredita-se que os sacerdotes etruscos serviram de médicos aos romanos, que herdaram conhecimentos importantes de odontologia, de hidroterapia e sobre instalações sanitárias. Os etruscos também praticavam o diagnóstico por meio de adivinhações, utilizando-se de vísceras de animais, principalmente o fígado.

A medicina romana nos tempos antigos deve ter sido mágica e sobrenatural, baseada na crença de vários deuses, assim como na medicina grega. Durante a República a prática médica romana era reservada aos escravos, sendo o médico grego pouco valorizado por seus serviços. Todavia, durante o Império a medicina romana, por influência de famosos e bem sucedidos médicos gregos, tomou grande impulso, em particular nas questões relativas ao ensino médico.

Foi enorme a influência da medicina grega na prática médica romana, tendo sido gregos os primeiros e os mais importantes médicos em Roma. Os primeiros médicos gregos que chegaram a Roma eram charlatães, que gradualmente foram substituindo os serviços médicos praticados por escravos, sacerdotes, barbeiros e massagistas.

O primeiro médico grego a conseguir fama e honra em Roma foi Archagathos, um escravo livre que praticava a cirurgia.

Asclepíades de Prusa, nascido cerca de 125 a.C., foi o primeiro médico grego de formação a fazer sucesso em Roma. Estudara em Alexandria, no Egito, tendo sido exímio orador e professor de oratória. Descrevia as doenças como alterações dos humores e defendia a idéia de um corpo formado por partículas (átomos) que se moviam através de poros ou canais, sendo saúde e doença resultantes da contração ou relaxamento dessas partículas.

Na época romana, tanto a magia quanto a habilidade da parteira eram importantes para o sucesso do parto. O primeiro grande obstetra foi Sorano de Éfeso (98-138 d.C.). Era membro da escola metodista e praticou medicina em Alexandria. Escreveu um memorável tratado sobre as moléstias femininas, condutas nos partos e contracepção – Sobre as doenças das mulheres. É considerado o Pai da Ginecologia e Obstetrícia.

Famosos escritores romanos, chamados de enciclopedistas, contribuíram para a elaboração de famosos tratados sobre medicina, destacando-se Celso e Plínio.

Aulo Cornelio Celso foi o primeiro escritor médico a traduzir os termos gregos para o latim. Estudando os ferimentos de guerra, descreveu detalhadamente o processo inflamatório, por meio de seus quatro pontos cardeais: rubor, tumor, calor e dor. Celso, em sua grande obra médica (De res medica), descreveu diversas cirurgias, como as plásticas de nariz, lábios e orelhas, e as destinadas ao tratamento de hemorragias e de fraturas.

Caio Plínio Segundo (23-79 d.C.), conhecido como Plínio, o Velho, foi considerado o maior naturalista romano. Sua grandiosa obra, História Natural, em 37 volumes, revela uma admirável erudição. Nesta obra encontram-se variados registros sobre plantas medicinais e remédios a base de excreções de animais, bem como, conhecimentos sobre Anatomia, Fisiologia, Patologia e Farmacologia. Dos 37 volumes de sua obra, 13 foram dedicados às drogas, principalmente as originadas de plantas, entretanto, 19 remédios eram oriundos apenas do crocodilo.

Em Roma os procedimentos médicos racionais eram mesclados com práticas excêntricas e inusitada farmacopéia. O vinho era prescrito livremente, assim como as massagens, os banhos, as dietas e o repouso. Havia mais de 200 instrumentos cirúrgicos disponíveis para as operações.

Como visto anteriormente, no período imperial verificou-se um maior desenvolvimento da medicina racional. Neste período, nenhum médico em Roma foi tão aclamado e decisivo para a medicina romana como o grego Claudio Galeno.

Galeno nasceu em Pérgamo, por volta de 130 d.C., tendo estudado em Esmirna e Alexandria. No ano de 162 partiu para Roma, onde conquistou reputação de bom médico e escritor, contando com particular apoio de dois imperadores – Marco Aurélio e Lúcio Vero. Famosos eram o gênio experimental de Galeno e sua pouca tolerância com os demais médicos, insinuando que seus (os dele) conhecimentos acerca do diagnóstico e da terapêutica eram incomparáveis.

Galeno escreveu excelentes obras sobre Anatomia (Sobre preparações anatômicas) e Fisiologia (Sobre o uso das partes do corpo). Os tratamento empregados por Galeno derivavam do conceito da ação dos opostos (contraria contraribus curantur) – a terapia dos opostos (alopatia). Adotava a teoria do pneuma (espírito animal, espírito vital e espírito natural) para suas explicações sobre as doenças; discordava da Teoria dos Humores, tendo sido um ferrenho crítico dos ensinamentos hipocráticos. Além das dietas e das inúmeras drogas por ele desenvolvidas, também utilizava-se da fisioterapia e ações semelhantes. Galeno desenvolveu inúmeras preparações farmacológicas, sendo considerado o Pai da Farmácia.


A medicina oriental (China e Índia)


A medicina chinesa

A medicina na China recebe enorme influência dos ensinamentos filosóficos e religiosos, baseando-se tanto quanto tudo mais na cultura chinesa na tradição taoísta, no equilíbrio das forças antagônicas da natureza (microcosmo e macrocosmo) – o yin e o yang. São marcas características a concepção vitalista e holística da medicina tradicional chinesa.

A enorme influência de uma religião panteísta (taoísmo) explica a busca de soluções para os diversos males na natureza – produtos de origem vegetal, animal e mineral.

Ao imperador Shen Nung (2838-2698 a.C.) reputa-se o fato de ser o fundador da medicina chinesa. Sua obra Pen T’sao Ching (Herbário), com 3 volumes contendo uma lista de 365 ervas, prescrições e venenos, é a base da tradicional medicina chinesa. Outras obras foram publicadas, culminando com a obra Pen T’sao Kang Mu (Grande Herbário) de Li Shi-Chen, em 52 volumes contendo a descrição de 1871 tipos de drogas. Outro conceituado imperador na medicina foi Hwang Ti, a quem se atribui o Nei Ching (Livro da Medicina) – contendo uma impressionante descrição da circulação sangüínea, numa época em que as dissecações de cadáver eram proibidas.

Além dos herbários, contendo inúmeras preparações farmacológicas, a medicina chinesa contava com a milenar prática da acupuntura. Esta técnica que utiliza agulhas aplicadas em pontos específicos do corpo, a fim de estimular a energia vital do organismo a equilibrar-se e propiciar a cura dos males, representa o grande legado da medicina chinesa para a moderna medicina.

A partir da prática da acupuntura percebe-se o fabuloso conhecimento acerca da anatomia desenvolvido pelos médicos chineses.


A medicina hindu (védica)

A medicina na Índia divide-se em dois distintos períodos: o primeiro período, da medicina védica – baseada em textos sagrados como os livros de Veda (aprendizado), dentre os quais se destaca o Ayurveda (livro da medicina) – fortemente influenciado por lendas e revelações divinas; o segundo período, da medicina bramânica – que marcou o apogeu da medicina indiana.

Charaka e Susruta, os dois grandes médicos hindus, são responsáveis pelas principais obras da antiga medicina indiana – o Charaka Samhita, descrevendo os diversos tratamentos clínicos; o Susruta Samhita, contendo elementares conhecimentos de anatomia e descrições de técnicas cirúrgicas.

Apesar de carecerem de estudos mais densos sobre a anatomia, os indianos forma muito avançados na cirurgia, em especial a cirurgia plástica, como a rinoplastia.

Um papel importante da medicina indiana é a aplicação de rigorosas regras de higiene, fortemente influenciadas pela religião brâmane. Associam-se à higiene as dietas vegetarianas e a abstinência de bebidas alcoólicas.

A conquista muçulmana da Índia introduziu enormes influências da medicina árabe no país; todavia, em algumas regiões ainda persiste a medicina segundo o Ayurveda, demonstrando a convivência entre modernidade e tradição.


A medicina árabe


ASPECTOS HISTÓRICOS:

Idade Antiga (4000 a.C. – 476): iniciando-se aproximadamente em 4000 a.C., com o advento da escrita, e estendendo-se até a queda do Império Romano no ano 476. Durante esta fase encontramos as estruturas da servidão coletiva, típicas do Oriente e as estruturas escravistas do Ocidente clássico.

Idade Média (476 – 1453): iniciando-se em 476 e estendendo-se até 1453, quando terminou a Guerra dos Cem Anos, na Europa, e a cidade de Constantinopla caiu em mãos dos turcos otomanos. Durante o período medieval prevaleceu a estrutura socioeconômica feudal no Ocidente.

Fatos históricos relevantes: O sistema feudal. A Igreja Católica. As invasões bárbaras e o Império Romano do Oriente. A expansão árabe. A expansão do comércio. A urbanização e o crescimento demográfico. A cultura medieval européia: educação, filosofia, literatura, música, arquitetura e ciências.

A medicina árabe

O início da Idade Média é marcado por uma enorme influência do cristianismo sobre as diversas expressões culturais. A medicina, por influência do caridoso espírito cristão, uma vez que a Igreja encarava o cuidado dos doentes como uma missão, passa a ser encarada mais como obrigação moral (sacerdócio) do que como uma profissão remunerada. Esta forma de pensamento chegava a influenciar mesmo os movimentos considerados heréticos pela Igreja. A seita nestoriana é um bom exemplo – expulsos do Império, os nestorianos se instalam na Pérsia, onde fundaram a Escola Médica de Gondishapur (berço da medicina árabe).

A expansão do mundo árabe inicia-se a partir da unificação dos diversos povos que habitavam a península arábica. Inicialmente, os semitas árabes uniram-se aos sumérios, originando a poderosa civilização babilônia. Todavia, a vida religiosa era confusa e diversificada (judaísmo e cristianismo), sendo a unificação política e religiosa possível a partir das revelações de Maomé, que deram origem ao islamismo: religião monoteísta fundada sobre os ensinamentos do Corão – o livro sagrado do Islã.

Os primeiros 250 anos após a Hégira (fuga de Maomé para Medina – 16/07/622) assistiram a um extraordinário desenvolvimento da cultura árabe.

A família Bukht-Yishu era a mais famosa e respeitada da Escola Médica de Gondishapur. Para a medicina árabe, enorme influência tiveram os textos dos médicos gregos Hipócrates e Galeno, que eram traduzidos do grego para o árabe. Vários hospitais e bibliotecas médicas foram construídos a fim de impulsionar a medicina árabe.

Os médicos árabes mais famosos foram Rhazes e Avicena, do califado oriental, e Avenzoar, Averróis e Maimônides, membros da Escola de Córdoba (Espanha), a capital do califado ocidental.

Abu Bakr Muhammad ibn Zacaria, conhecido como al-Rhazes (860-932), era persa e estudou medicina em Bagdá. Rhazes produziu inúmeras obras sobre matemática, astronomia, religião e filosofia; porém, mais da metade de suas 237 obras versavam sobre medicina.

Abu Ali al-Husain ibn Sina, conhecido como Avicena (980-1037), nascido em Bukhara. Avicena era um garoto prodígio, tendo memorizado todo o Corão e diversas poesias árabes aos 10 anos; aos 16 anos afirmava conhecer toda a matéria médica, sendo nomeado médico e vizir do Emir em Hamadan. Avicena era dado aos prazeres – mulheres e vinho – tendo uma vida muito atribulada, chegando inclusive a ser preso.

A obra-prima de Avicena foi uma compilação dos ensinamentos médicos de Hipócrates e Galeno e biológicos de Aristóteles denominada Cânone (al-Quanum). Sua obra apesar de muito criticada serviu como o primeiro tratado médico utilizado pelas universidades européias.

A Escola de Córdoba – No século X, a cidade espanhola de Córdoba tornou-se o centro cultural da Europa. A população de mais de um milhão de habitantes dispunha de cerca de 52 hospitais.

Dentre os médicos da Espanha muçulmana destacaram-se Avenzoar, Averróis e Maimônides, como veremos a seguir.

Abu Mervan ibn Zuhr (Avenzoar, 1113-1162) nasceu em Sevilha, sendo descendente de uma abastada família de médicos, destacou-se por seu espírito crítico e dedicação às experimentações.

Abu Walid ibn Rushid (Averróis, 1126-1198) era cordobês e aluno de Avenzoar. Era mais conhecido como filósofo aristotélico que como médico, tendo estudado jurisprudência, filosofia e medicina e tornado-se magistrado em Córdoba e Sevilha. Seu texto médico mais famoso é o Colliget ou Coleção (Kitah al-Kullyat), que tratava-se de comentários sobre o Cânone de Avicena.

Abu Imram ibn Maimun (Maimônides, 1135-1204) era outro cordobês e aluno de Averróis. Ficou também mais famoso como filósofo e talmudista que como médico. A sua obra médica mais conhecida foi Fusul Musa (Aforismos), uma coleção de 1500 aforismos baseada em obras de Galeno e suas observações pessoais.

As escolas médicas árabes introduziram na medicina um grande número de drogas (químicas e herbáceas). Entre os medicamentos introduzidos pelos árabes destacam-se o âmbar, a almíscar, cravos-da-índia, pimentas, gengibre, a noz-moscada, a cânfora, a sena, o cassis e a noz-vômica.

Uma outra característica da medicina árabe que muito influenciou a medicina na Europa medieval foi o hospital. O hospital árabe era local de enorme efervescência cultura e científica, servindo a propósitos variados além da atividade médica – possuíam fontes, salões de leitura, bibliotecas, capelas e dispensários. Os conhecimentos da medicina grega foram fortemente enriquecidos pelos avanços dos árabes, em especial nas áreas da Química, Botânica, Farmácia e Administração Hospitalar.


A medicina bizantina


O Império de Bizâncio

Império Romano do Ocidente (Roma) e Império Romano do Oriente (Bizâncio).

Idade Antiga (4000 a.C. – 476): até a queda do Império Romano do Ocidente.

Idade Média (476 – 1453): estendendo-se até 1453, quando terminou a Guerra dos Cem Anos, na Europa, e a cidade de Constantinopla caiu em mãos dos turcos otomanos, com a morte do imperador Constantino XI e a queda do Império Bizantino.

O Império Bizantino, na maior parte do tempo, esteve formado pela Grécia, parte da Iugoslávia e pela Ásia Menor.

Desde o ano de 313, com a aceitação do Cristianismo por Constantino I, a Igreja passou a ter enorme influência sobre o Império Bizantino. O grande centro político e religioso do Império Bizantino era a cidade de Constantinopla.

A cidade de Constantinopla destacava-se por ser uma fortaleza quase inexpugnável, cujo brilhantismo de sua arte decorativa e de suas elaboradas cerimônias religiosas tratou de obscurecer as virtudes das cidades de Roma e Alexandria.

Neste contexto de ostentação e suntuosidade havia subúrbios que possuíam mosteiros, igrejas, escolas, casas de meditação e retiros religiosos. No ancoradouro e nas docas da baía fervilhava um enorme mercado, com comerciantes de todas as partes do Oriente próximo. A maior glória da cidade era a Basílica de Santa Sofia, construída no século VI pelo imperador Justiniano. Ainda contrastando com palácios e mercados havia quarteirões barulhentos e populosos, onde a miséria e as precárias condições de vida eram a regra.

Os bizantinos eram uma mistura de gregos, alguns romanos e uma variedade de frígios, hititas, gálios, semitas, persas, armênios e eslavos. A religião fazia parte do cotidiano do povo, estando os rituais e símbolos cristãos presentes em diversas atividades, como na diplomacia, na etiqueta da corte, nos atos e ordens oficiais e até na vida militar.

O Estado bizantino desenvolveu-se sofre forte poder central no qual os imperadores, como monarcas absolutos, comandavam a Igreja e o Governo e dominavam sobre os estabelecimentos militares e judiciários.

A medicina bizantina

A Igreja controlava a prática médica em Bizâncio. Além desta, no entanto, fervilhavam os feiticeiros e todo um mercado de amuletos, feitiços e encantamentos. Afinal, numa sociedade que não acreditava nem em drogas nem no estudo do enfermo havia poucas oportunidades para os médicos. Na Biblioteca do Vaticano encontra-se o famoso Juramento de Hipócrates escrito em formato de cruz num manuscrito bizantino do século XII. Deste modo, a medicina bizantina era essencialmente dogmática, orientada pela fé cristã que recorria aos espíritos de cura. Acreditava-se que cada santo era capaz de curar moléstias específicas, como Santo Artemis nas perturbações genitais e São Sebastião nas pestilências. As doenças e a morte eram, assim, consideradas como uma visitação divina, sendo considerada blasfêmia qualquer tentativa de explicação racional para as moléstias da época.

Os primeiros médicos cristãos foram aceitos com certa dificuldade, como os gêmeos árabes Cosme e Damião, de início martirizados pelo imperador romano Diocleciano e posteriormente beatificados e reverenciados com um santuário erguido em Constantinopla.

O mais célebre médico bizantino foi Oribásio, nascido em Pérgamo (cidade de Galeno) e aluno de Zeno de Chipre. Foi médico palaciano do imperador Juliano, tendo escrito diversas obras sobre dieta na gravidez, contracepção, escolha de enfermeiras e moléstias infantis. Sua famosa obra Euporista era um manual de orientação sobre acidentes e doenças que poderiam ocorrer a viajantes que não dispusessem de auxílio médico imediato.

Aécio de Amida (século VI), nascido no Tigre e educado em Alexandria, foi o médico do imperador Justiniano. Sua obra Tetrabiblos era um compêndio com 16 volumes acerca de todo o conhecimento médico produzido até o século VI. Em seus tratamentos combinava misticismo cristão com superstição pagã; entre seus diversos métodos contraceptivos, recomendava o uso de um dente de criança suspenso sobre o ânus da mulher.

Alexandre de Trália, irmão do arquiteto que planejou a basílica de Santa Sofia, foi um médico de rara independência mental. Seus 12 livros foram traduzidos para o árabe e o latim. Era um profissional de muita experiência, para a hemoptise ele sugeria repouso e poções de vinagre. O último dos grandes médicos bizantinos foi o cirurgião e ginecologista-obstetra Paulo de Égina, que mencionou as ligaduras de trompas, descreveu os pólipos nasais e realizou extirpação de amígdalas.

Quando, no século XV, o Império Bizantino desintegrou-se, a medicina na Europa encontrava-se em franca expansão – eram famosas as escolas médicas de Salerno, Bolonha, Montpellier e Oxford – iniciava-se, assim, o Renascimento.


A medicina medieval


A Idade Média. O período medieval.

Idade Média: iniciando em 476 e estendendo-se até 1453, quando terminou a Guerra dos Cem Anos, na Europa, e a cidade de Constantinopla caiu em mãos dos turcos otomanos, com a morte do imperador Constantino XI e a queda do Império Bizantino.

As expressões Idade Média e Idade Moderna foram criadas durante o Renascimento, no século XV. Demonstrando repúdio ao mundo medieval, em particular ao sistema feudal, os renascentistas forjaram tendenciosamente a concepção de que a Idade Média fora "uma longa noite de mil anos", a "Idade das Trevas", em que mergulhara a cultura clássica após a queda de Roma. Neste período, a ciência perdeu vitalidade e a parceria com a filosofia se dissolveu; a filosofia construiu uma nova aliança, dessa vez com a teologia.

O período medieval caracterizou-se pela preponderância do feudalismo, estrutura econômica, social, política e cultural que se edificou progressivamente na Europa centro-ocidental em substituição à estrutura escravista da Idade Antiga.

O feudalismo começou a se formar a partir das transformações ocorridas no final do Império Romano do Ocidente e das invasões bárbaras, alcançando seu apogeu no final da Alta Idade Média, período compreendido entre os séculos V e X. A estruturação do feudalismo se fez em meio a guerras contínuas, decorrentes das invasões dos bárbaros e de suas constantes disputas pelo poder.

O declínio do feudalismo, que já se esboçava no século X, prosseguiria até o século XV, constituindo-se no período denominado Baixa Idade Média.

No feudalismo, a posse da terra era o critério de diferenciação dos grupos sociais, rigidamente definidos: de um lado, os senhores feudais, cuja riqueza provinha de posse territorial e do trabalho servil; de outro, os servos, vinculados á terra e sem possibilidades de ascender socialmente. Assim, a sociedade feudal era composta por dois grupos sociais (estamentos): os senhores feudais (clero e nobreza) e os servos (população camponesa).

A Igreja cristã tornou-se a maior instituição feudal do Ocidente europeu. Sua incalculável riqueza, a sólida organização hierárquica e a herança cultural greco-romana permitiram-lhe exercer a hegemonia ideológica e cultural da época, caracterizada pelo teocentrismo. Atuando em todos os níveis da vida social, a Igreja estabeleceu normas, orientou comportamentos e, sobretudo, imprimiu nos ideais do homem medieval os valores teológicos, isto é, a cultura religiosa.

Ao contrário da teologia, as ciências, como a astronomia, a medicina, a matemática e a física, não avançaram muito no mundo medieval; a Igreja repudiava qualquer forma de pensamento que colocasse em risco as convicções religiosas, impondo, dessa forma, barreiras à indagação científica.

A medicina monástica.

Como era de se esperar, a medicina medieval cresceu ligada à Igreja, sendo fortemente influenciada pela convicções religiosas. No século VI, em Monte Cassino (entre Roma e Nápoles), um nobre italiano chamado Benedito de Nursia fundou uma comunidade monástica denominada Ordem Beneditina. Seus membros faziam votos de pobreza, castidade e obediência; aperfeiçoaram o ofício da caligrafia e do iluminismo, e transcreveram textos gregos e latinos remanescentes. Em Monte Cassino, como em toda a Europa, o primeiro médico medieval foi um padre ligado a alguma ordem religiosa.

A medicina monástica (ou monastérica) era simples e praticada por monges que apenas conheciam a medicina popular, extraindo remédios das ervas medicinais cultivadas nos jardins dos mosteiros.

O declínio da medicina monástica deu-se no século XII, quando as autoridades eclesiásticas recearam que os monges estivessem por demais afastados de seus votos religiosos por razão de seus deveres médicos.

No início do século XIII, as atividades médicas foram banidas dos mosteiros, passando o conhecimento médico da época a ser transferido para escolas e universidades leigas. A partir desta época, os hospitais floresceram em toda Europa, em especial pela influência e interesse pessoal do Papa Inocêncio III, que fundou, em 1204, um grande hospital em Roma. Os hospitais do Espírito Santo, como ficaram conhecidos, surgiram em diversas cidades: em Paris, o Hôtel-Dieu, ao lado da catedral de Notre Dame; o Hospital de São Bartolomeu e o Hospital de São Thomás, ambos em Londres.

A Escola de Salerno.

O primeiro centro medieval de Medicina leiga surgiu junto ao Mar Etrusco, numa estação de cura. Na cidade de Salerno, ao sul de Nápoles, durante o século X, reuniu-se uma comunidade de médicos, professores, estudantes e tradutores, com a finalidade de criar a primeira faculdade de medicina do Ocidente. Seu corpo docente de médicos, professores, freiras e monges foi o primeiro dos tempos medievais.

Um dos mais famosos professores de Salerno foi Constantino, o africano, que trouxe consigo uma ampla coleção de manuscritos árabes. Neste famoso centro de ensino médicos as mulheres também ensinavam, dentre as quais destacou-se Trotula, uma das "damas obstetras de Salerno" (as outras eram Abella, Constanza e Rebeca), que escreveu sobre moléstias femininas e de pele – De Mulierum Passionibus.

Em Salerno, a obra mais famosa e mais editada (cerca de 1500 edições) foi o Regimen Sanitatis Salernitanum, que destacava-se por sua isenção de superstições e baseava-se em fontes galênicas, hipocráticas e pseudoaristotélicas.

Salerno estimulou o renascimento da tradição hipocrática, inspirou uma nova literatura médica pela publicação de mais de 50 novas obras, fomentou o estudo e desenvolvimento da cirurgia e traçou o esboço da vida universitária.

A fundação das Universidades.

O primeiro centro medieval de Medicina leiga surgiu junto ao Mar Etrusco, numa estação de cura. Na cidade de Salerno, ao sul de Nápoles, durante o século X, reuniu-se uma comunidade de médicos, professores, estudantes e tradutores, com a finalidade de criar a primeira faculdade de medicina do Ocidente. Seu corpo docente de médicos, professores, freiras e monges foi o primeiro dos tempos medievais.


A medicina renascentista (século XVI)


O Renascimento.

As transformações socioeconômicas iniciadas na Baixa Idade Média e que culminaram com a Revolução Comercial na Idade Moderna afetaram todos os setores da sociedade, ocasionando inclusive mudanças culturais. Intimamente relacionado à expansão comercial, à reforma religiosa e ao absolutismo político surgiu um grande movimento cultural burguês denominado Renascimento.

O Renascimento enfatizava uma cultura laica (não-eclesiática), racional e científica, sobretudo não-feudal. Buscando subsídios na cultura greco-romana, O Renascimento foi a eclosão de manifestações artísticas, filosóficas e científicas do novo urbano e burguês.

No conjunto da produção renascentista, começaram a sobressair valores modernos, burgueses, como o otimismo, o individualismo, o naturalismo, o hedonismo e o neoplatonismo; entretanto, o elemento central do Renascimento foi o humanismo, isto é, o homem como centro do universo (antropocentrismo), a valorização da vida terrena e da natureza, o humano ocupando o lugar cultural até então dominado pela divindade e pelo extraterreno.

O Renascimento científico: Como visto, a efervescência cultural da Renascença impulsionou o estudo do homem e da natureza. O Universo já não era mais aceito como obra sobrenatural, fruto dos preceitos cristãos. O espírito crítico do homem partiu para a ciência experimental, a observação, a fim de obter explicações racionais para os fenômenos da natureza. O Renascimento retirou da Igreja o monopólio da explicação das coisas do mundo. Aos poucos, o método experimental passou a ser o principal meio de se alcançar o saber científico da realidade.

A crítica, o naturalismo, a dimensão humana culminaram no racionalismo, no empirismo científico dos séculos XVI e XVII. Dessa forma, as principais barreiras culturais do progresso científico foram suficientemente abaladas para não mais representarem ameaça ao progresso capitalista burguês em curso.

A medicina renascentista.

A medicina dos séculos XVI e XVII caracterizou-se pelo racionalismo científico, fundamentado nas experimentações e no espírito crítico. Durante o século XVI, as universidades italianas, francesas e alemães libertaram-se gradualmente dos credos e ensinamentos eclesiásticos. Contribuiu enormemente para o desenvolvimento da medicina nesta época a invenção da imprensa.

Os médicos renascentistas eram humanistas e letrados; pertenciam a classes privilegiadas e tinham estudado em importantes universidades. O italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos mais brilhantes e completos humanista do Renascimento, representou a essência desta comunhão de conhecimentos. Ao longo de sua vida, a obra de Leonardo da Vinci incorporou as tendências de cada um dos movimentos culturais da época e ele foi de pintor e escultor a urbanista e engenheiro; de músico e filósofo a físico e botânico; de inventor a médico. Leonardo da Vinci, mestre das artes e das ciências, interessou-se pela anatomia, sem preconceitos e com um enorme senso de observação; seus desenhos demonstram que ele foi o criador da ilustração médica e da arte de desenhar em anatomia e fisiologia – do ponto de vista histórico poderia ser considerado o pai da anatomia.

As fontes principais eram os ensinamentos de Hipócrates, Galeno e Avicena, sendo, contudo, cada vez mais praticadas as dissecações e os estudos de anatomia e fisiologia. A anatomia e a cirurgia, até então ensinadas em conjunto, a partir de 1570 tornaram-se disciplinas autônomas. Aos poucos surgiram inúmeros estudiosos com a finalidade de questionar os autores clássicos.

A medicina universitária, seguidora dos ensinamentos clássicos, encontrou no alemão Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, vulgo Paracelso, um formidável oponente, ferrenho inimigo. Paracelso dedicou-se ao estudo da medicina, da magia e da alquimia, sendo defensor de uma medicina baseada em novos conceitos, diversos daqueles ensinados por Galeno.

Paracelso desenvolveu inúmeros preparados farmacêuticos, optando por fórmulas mais simples e com ingredientes provenientes da natureza. Utilizou inúmeras substâncias minerais, como enxofre, mercúrio, chumbo, cobre, ferro e antimônio.

Paracelso foi professor de medicina na Universidade da Basiléia, onde rompeu com a tradição, ensinando em alemão no lugar do latim; queimou em público as obras de Galeno e Avicena, mas, apesar de sua fúria iconoclasta, concordava com Hipócrates quando este defendia que o lugar do médico era na cabeceira do doente. Seu admirável conhecimento prático refletiu-se em suas obras sobre cirurgias e sobre farmacologia, tendo sido responsável pela introdução de muitos produtos novos.

Um famoso médico e contemporâneo de Paracelso foi o professor de medicina na Universidade de Paris, Jean Fernel (1497-1558), autor dos termos fisiologia e patologia, cujos ensinamentos reunidos na obra Universa medica permaneceram válidos por dois séculos. Girolamo Cardano foi outro homem brilhante da época, cujos estudos de matemática e filosofia associaram-se à prática médica.

Ambroise Paré (1517-1590), inicialmente um barbeiro-cirurgião em Paris, depois estabelecido como cirurgião doméstico no Hôtel-Dieu e, finalmente, como cirurgião do exército, foi considerado o maior cirurgião da Renascença. Muito inteligente e rompendo com os ensinamentos clássicos, aboliu a cauterização das feridas e defendeu a ligadura de artérias para controlar as hemorragias. Paré transformou-se no ídolo dos soldados, ao abandonar a prática atroz de utilizar óleo fervente para cicatrizar as feridas, método que produzia dores insuportáveis e extensas áreas de inflamação e necrose tecidual. Paré foi um médico que tinha enorme respeito pelos poderes curativos da natureza e da fé. Certa ocasião, ao ser felicitado por uma cura, respondeu: "Je le pansay, et Dieu le guérit" (Eu o tratei, Deus o curou).

Sem dúvidas, a área do conhecimento médico que mais se expandiu durante o Renascimento foi a anatomia. Uma enorme revolução seria testemunhada a partir da publicação da obra De humani corporis fabrica, cujo autor, um jovem médico flamengo, Andreas Versalius (1514-1564), é considerado o maior anatomista de todos os tempos. Nascido em Bruxelas, filho de uma família de tradição na arte médica, Andreas Vesalius estudou nas Universidades de Paris e Pádua; nesta última recebeu seu diploma de médico "com elevada distinção" num dia, no dia seguinte foi nomeado professor de Cirurgia e no terceiro iniciava seu curso de Anatomia. Suas aulas de anatomia combinavam dissecação de cadáveres, esboços e palestras, atraindo estudantes, professores, clérigos, nobres e soldados.

Em 1538 foram publicadas suas Tabulae anatomicae sex, seis pranchas anatômicas utilizadas por seus alunos. Em 1543, surgiu o seu monumental e memorável trabalho sobre Anatomia, o De humani corporis fabrica libri septem, conhecido universalmente como Fabrica. Essas obras representaram um grande avanço para o conhecimento científico da época, em virtude de sua formidável base experimental.

Na Renascença observou-se formidável avanço da obstetrícia, sendo publicados muitos livros escritos em idiomas diversos, em vez do tradicional latim. As diversas publicações sobre obstetrícia foram acompanhadas de numerosas obras sobre pediatria, como a obra inglesa de Thomas Phayre – Book of children – Livro das crianças; e a obra italiana De morbis puerorum (Sobre as doenças das crianças).

Durante o Renascimento, a posição social dos médicos ascendeu, as recompensas eram altas e valorizava-se o conhecimento científico dos dedicados médicos. Deste modo, vimos que o moderno racionalismo renascentista imprimiu enorme progresso ao conhecimento médico, este necessário para a desejável superação do dogmatismo e da magia que acorrentavam a medicina medieval.


A medicina barroca (século XVII)


A Idade Barroca (século XVII).

Cenários: Político – Monarquia X Parlamentarismo.

A Reforma Protestante e a Contra-reforma.

Econômico – Mercantilismo: as grandes companhias mercantis.

Colonização: colônias na África e Américas.

Surgimento do sistema financeiro (bancos).

Cultural – racionalismo científico.

Figuras ilustres:

  • Thomas Hobbes (filósofo e jurista) – Na sua famosa obra "Leviatã" defende o Estado.
  • John Locke (filósofo e médico) – defende o direito natural (jusnaturalismo).
  • René Descartes (matemático) – racionalismo científico.
  • Rembrandt (pintor) – Sua famosa tela "A aula de anatomia do Dr. Tulp" (1632).
  • Blaise Pascal (matemático) – procurava impor limites ao excessivo racionalismo.
  • Francis Bacon – utilizou-se do raciocínio indutivo; criador do método científico – defendia a ciência como a base de todo o conhecimento.
  • Johannes Keppler e Galileu Galilei – famoso estudos de astronomia.
  • Robert Boyle – transformou a alquimia no que hoje conhecemos como química.

Famosos médicos barrocos (século XVII).

Nesta época foram observados grandes avanços na anatomia e na fisiologia.

  • Thomas Willis – Estudos sobre o sistema nervoso (neuranatomia). Circulação cerebral.
  • Regnier de Graaf – estudos sobre glândulas, pâncreas, testículos e ovários.
  • William Harvey (1578-1657) – descreveu a circulação sangüínea (pequena circulação = coração/pulmões e grande circulação = coração/corpo).
  • Marcello Malpighi (1628-1694) – fundador da histologia – anatomia microscópica. Descreveu a circulação capilar, concluindo os estudos de William Harvey.
  • Antoni van Leeuwenhoek (1632-1723) – comerciante de tapetes holandês, inventor do microscópio; descreveu certas bactérias e os espermatozóides (denominava de vermes).
  • Thomas Sydenham (1624-1689) – considerado o hipócrates inglês. Sua astuta observação clínica e valoroso espírito crítico contribuíram para a descrição de inúmeras doenças: varíola, escarlatina, histeria e a Doença de São Guido (depois denominada de Coréia de Sydenham).
  • Paolo Sacchia – grandes contribuições para a medicina legal.
  • Bernardino Ramazzini – desenvolveu inúmeros estudos sobre as doenças ocupacionais; considerado o "Pai da Medicina do Trabalho".

A medicina iluminista (século XVIII)


A Idade da Razão (século XVIII).

A Europa do século XVIII foi o berço de uma grandiosa revolução intelectual – o movimento denominado "Iluminismo". Esta época ficou conhecida como a "Idade da Razão" ou "Idade da Luz", em contraposição com o período medieval ("Idade das Trevas").

O racionalismo foi aplicado a todos os setores da sociedade: política, economia, filosofia, ética, religião e, consequentemente, nas ciências.

Predominava a idéia de um universo mecânico, um universo que funcionava como uma máquina. O corpo humano também era visto como uma máquina. A esta forma de ver o mundo (paradigma) denominou-se mecanicismo.

Esta foi a era de grande influência dos filósofos franceses, os iluminados. Grande repercussão teve a obra coletiva "Encyclopédie", com seus 28 volumes. Dentre seus autores, destacamos: Montesquieu, também autor da obra jurídica "O Espírito da Lei"; Jean le Rond d’Alembert; François-Marie Arouet (Voltaire); Jean-Jacques Rousseau; Denis Diderot.

A medicina iluminista (século XVIII). Famosos médicos iluministas.

Na medicina iluminista prevaleceu uma acirrada disputa entre duas correntes filosóficas: Animismo – que defendia a existência da vida (anima) a partir da união de matéria e alma; dentre seus defensores destacava-se o médico e filósofo alemão Georg Ernst Stahl. Vitalismo – que incluía, além da matéria e da alma, a força vital como elemento essencial para a existência da vida; dentre os vitalistas destacaram-se Theophile de Bordeu e Joseph Barthez, criador do termo princípio vital.

Carl von Linneus (1707-1778) – médico e botânico sueco, mais conhecido como Lineu, responsável por importantes estudos de sistemática (classificação) de plantas e animais.

Hermann Boerhaave (1688-1738) – este famoso médico holandês foi considerado o maior médico do século XVIII. Assim como Thomas Sydenham, seguia a doutrina hipocrática – defendia a utilização dos poderes curativos da natureza e uma rigorosa observação clínica. Foi um conceituado professor, tendo inúmeros alunos famosos como Albrecht von Haller (fundador da neurofisiologia), Gerard van Smieten (criador da primeira clínica universitária, era um exímio administrador hospitalar) e Leopold Auenbrugger (estudos sobre diagnósticos a partir do exame físico, criou um método para percussão do tórax).

Giovanni Battista Morgani (1682-1771) – fundador da moderna patologia, a partir de estudos sobre as diferenças anatômicas entre um corpo sadio e um corpo doente.

Lazzaro Spallanzani (1729-1799) – fez estudos notáveis sobre a digestão, a circulação e o processo reprodutivo. Com criteriosos estudos utilizando sapos (Bufo rana), combateu a teoria da geração espontânea, descrevendo a necessidade de participação dos gametas masculino e feminino para a reprodução. Considerado o "Pai da Reprodução Humana".

Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794) – fundador da química moderna. Realizou inúmeros estudos sobre a fisiologia da respiração, concluindo tratar-se de um processo de combustão, onde dava-se a queima do oxigênio (O2) e a produção do gás carbônico (CO2).

Franz Anton Mesmer (1734-1815) – a partir de seus estudos sobre magnetismo animal, desenvolveu uma técnica de tratamento baseada na emissão de ondas magnéticas pelas mãos – mesmerismo.

Samuel Hahnemann (1755-1843) – criador da homeopatia. Utilizando conceitos do vitalismo (princípio vital), defendeu o uso de substâncias capazes de produzir sintomas semelhantes aos das doenças a serem curadas (similitude = similia similibus curantur), a partir de doses mínimas (não tóxicas). Na homeopatia o doente deve ser tratado como um todo indivisível (holismo), sendo a doença apenas uma manifestação do desequilíbrio da energia vital.

Edward Jenner (1749-1823) – nascido em Berkeley, Gloucestershire. Estudou em Londres, sendo aluno do famoso cirurgião escocês John Hunter (1728-1793) e de seu irmão William Hunter (1718-1783), mais célebre anatomista do século XVIII. O Dr. Edward Jenner observou, ao comparar a varíola humana com a varíola bovina, que as jovens leiteiras que haviam adquirido a varíola bovina tornavam-se "resistentes" à forma humana da doença. Deste modo, a partir da coleta de secreção das pústulas da leiteira Sarah Nelmes, Jenner inoculou o jovem James Phipps, em 14 de maio de 1796, tendo este tornado-se resistente (imune) à varíola humana. Nascia, assim, a vacinação (vacina => vaccina => vacum => vaca). Este foi, sem sombra de dúvidas, o maior triunfo da medicina preventiva de todos os tempos.


A medicina no século XIX


A medicina no século XIX

Idade Contemporânea: iniciando-se em 1789 e estendendo-se até os nossos dias.

Fatos históricos relevantes (século XVIII): A Revolução Francesa. A era napoleônica. A Revolução Industrial. O liberalismo econômico e as novas doutrinas sociais.

Fatos históricos relevantes (século XIX): A hegemonia política e econômica da Europa Ocidental (França e Inglaterra). A independência da América espanhola e do Brasil. O neocolonialismo. O imperialismo na África, na Ásia e na Oceania.

O século XIX produziu mudanças mais radicais na estrutura da sociedade humana do que havia sido visto nos mil anos anteriores. Em apenas quatro gerações, as velas deram lugar ao gás, que em seguida foi substituído pela luz elétrica; as estradas de ferro suplantaram as diligências; navios a vapor cruzaram o Atlântico; balões e aeronaves invadiram os céus; as pessoas se comunicaram por meio do telégrafo, do rádio e do telefone. A máquina a vapor inaugurava, assim, uma nova época – A Era Industrial.

A expansão das cidades industriais na Europa permitiu que uma nova estruturação da sociedade a partir de um novo modelo de produção.

A mecanização e o desenvolvimento industrial do século XIX beneficiaram diretamente a medicina, propiciando a invenção de novos instrumentos terapêuticos e de diagnóstico, como o estetoscópio, o oftalmoscópio e a seringa hipodérmica.

A era das grandes conquistas

Neste século, grandes conquistas da ciência propiciaram uma prodigiosa evolução no conhecimento humano, deslocando o eixo egocêntrico para uma maior integração do homem com as demais espécies.

Na Química observou-se as sínteses de diversas substâncias, como o álcool etílico e a uréia; moléculas foram descritas e novas reações foram aperfeiçoadas.

Na Física, a conservação da energia e os estudos da termodinâmica permitiram a criação do gerador elétrico (Michael Faraday, 1831) e mais tarde do motor elétrico; a primeira lâmpada incandescente elétrica foi viabilizada pelo americano Thomas Edison (1879).

Em 1895, os raios de ondas curtas de William Roentgen permitiram ao homem ver através da matéria. Em 1898, o casal Pierre-Marie Curie descobriram o elemento rádio, que iria revolucionar o tratamento do câncer, a partir da radioterapia.

O grande naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) descreve a sua teoria da evolução – em sua famosa obra "A origem das espécies" (1859) expôs a lei da seleção natural, abrindo novos horizontes para a medicina. A genética inicia-se a partir dos estudos com ervilhas do monge gregoriano Johann Mendel.

Anatomia, histologia e fisiologia

A velha teoria dos humores foi contestada por Rudolf Virchow, um dos baluartes da medicina do século XIX. Em sua histórica obra, "Patologia celular" (1858), Virchow descreve o corpo como um conjunto de células (tecido), definindo a doença como "a vida modificada pela reação celular contra estímulos anormais".

Na primeira metade do século, a Fisiologia libertou-se da especulação metafísica e tornou-se uma ciência natural baseada em pesquisa experimental. O grande nome desta época foi Claude Bernard (1813-1878), cujas pesquisas e conceitos lançaram as bases da Fisiologia moderna, tendo criado a noção de equilíbrio funcional (homeostase). Ele foi também o fundador da Medicina Experimental – em 1865, escreveu sua memorável obra "Introduction à l’étude de la médicine experimentale" (Introdução ao estudo da medicina experimental).

Importantes contribuições à fisiologia foram dadas pelos médicos americanos John Richardson Young (1782-1804), que demonstrou a importância do suco gástrico no processo de digestão; e William Beaumont, cirurgião do Exército dos Estados Unidos, que observando uma fistula gástrica acidental do canadense Alexis Saint Martin, publicou inestimáveis informações sobre a composição do suco gástrico, o processo digestivo e a fisiopatologia da gastrite.

Mais contribuições neste campo foram patrocinadas pelos estudos de Ivan Petrovitch Pavlov (1849-1936), trazendo novos dados sobres a digestão gástrica e pancreática e o importantíssimo conceito do reflexo condicionado. Outro gigante da Fisiologia nesta época foi Hermann Ludwig von Helmholtz (1821-1894), que estudou o mecanismo da audição, a fisiologia das contrações musculares e inventou o oftalmoscópio.

Patologia e microbiologia

Um dos mais famosos patologistas do século XIX foi René Laënnec (1781-1826), aluno de Bichat e de Corvisat, inventor do estetoscópio e o primeiro a criar um sistema de diagnóstico completo para problemas dos pulmões e do coração.

Nas descrições de diversas doenças foram adotados variados epônimos, a começar pela clássica descrição da paralisia agitante feita em 1817 pelo aluno de John Hunter, James Parkinson (1755-1824). Seguiram-se os grandes nomes do Guy’s Hospital: Richard Bright (1789-1858), que fez da urinálise um significativo método diagnóstico; Thomas Addison (1793-1860), com sua clássica descrição da síndrome da deficiência supra-renal; e Thomas Hodgkin (1798-1866), que deu seu nome à doença do sistema linfático (leucose).

As especialidades médicas

Na Obstetrícia, o marco histórico foi a luta contra as altas taxas de mortalidade em virtude da febre puerperal. Oliver Wendell Holmes, em 1842, recomendava que as parturientes não deveriam ser atendidas por médicos que realizavam necropsias, sem que antes os mesmos lavassem as mãos em cloreto de cálcio e mudassem as roupas. Cinco anos depois, o austríaco Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865) demonstrou que a mortalidade por febre puerperal (septicemia) poderia ser reduzida em cerca de 80% com banhos de cloreto de cálcio – enfrentou enorme e violenta oposição, sendo ridicularizado, o que o levou à loucura e a uma morte precoce.

A Dermatologia desenvolveu-se a partir do enfoque histológico de Ferdinand von Hebra (1816-1880) e seu filho Hans, na Nova Escola de Viena. A Urologia desenvolveu-se a partir dos avanços na cirurgia de próstata e em cauterização renal, endoscopia e citoscopia.

Anestesia. Anti-sepsia e assepsia.

O século começou com a descoberta do óxido nitroso (gás hilariante) em 1800 por Humphrey Davy, utilizado apenas como passatempo, até que em 1845, um dentista de Connecticut chamado Horace Wells utilizou-o para uma extração dentária.

O pioneirismo do uso do éter na anestesia é creditado ao Dr. Crawford Williamson Long (1815-1878), da Georgia, sem que nada tivesse sido por ele publicado. Em 1844, William Thomas Green Morton (sócio de Wells) usou o éter para realizar uma obturação dentária; dois anos depois, o Dr. John Collins Warren, do Hospital Geral de Massachussets, passou a usá-lo em suas cirurgias.. O clorofórmio foi introduzido como anestésico no ano seguinte. Aliás, os termos "anestesia" e "anestésico" foram propostos pelo Dr. Oliver Wendell Holmes. A anestesia local e loco-regional tornou-se possível em 1884 com a descoberta de Karl Koller das propriedades anestésicas da cocaína.

A descoberta da etiologia microbiana de inúmeras doenças, levada a cabo por um cientista que não era médico, o filho de um curtidor, chamado Louis Pasteur (1822-1895), possibilitou um maior controle das infecções. De outro turno, contribuíram para avanços nesta área as descobertas de Roberto Koch (1845-1910), que descreveu o bacilo da tuberculose; e Joseph Lister (1827-1912), que introduziu nas cirurgia a prática da desinfecção das partes contaminadas do corpo (anti-sepsia). Os anti-sépticos e a anestesia mudaram os rumos da cirurgia.

A era da anti-sepsia foi seguida pela da assepsia. Os cirurgiões, em vez de procurar limpar os focos infectados das cirurgias, buscaram eliminar os agentes nocivos (bactérias) da sala de cirurgia (campo cirúrgico) – esterilização pelo calor e substâncias químicas.


A medicina no século XX



IDADE CONTEMPORÂNEA (1789 – até hoje): iniciando-se em 1789 (Revolução Francesa) e estendendo-se até os nossos dias. Em nosso século, o capitalismo atingiu a sua maturidade e plena dinamização, alcançando progressivamente sua globalização.

Fatos históricos relevantes (século XX): A Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A Revolução Russa (1917): o governo de Lênin (1917-24) e o governo de Stálin (1924-53). A grande crise econômica de 1929. Os regimes totalitários: nazismo e fascismo. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Guerra Fria (EUA X URSS). O socialismo na China e em Cuba. Uma nova ordem econômica internacional: a globalização.

A MEDICINA CONTEMPORÂNEA

No século XX, houve inúmeras mudanças no modo de vida do homem, alterando profundamente sua vida social e econômica, ampliando o horizonte humano diante do universo. De igual modo, a Medicina sofreu enormes transformações, sobretudo nos seus aspectos científico e tecnológico. A Medicina passou a contar cada vez mais com a colaboração decisiva de outras áreas do conhecimento humano, como a Física, a Bioquímica, a Antropologia e a Sociologia.

No início do século, a ocorrência de uma guerra de dimensão global (Primeira Guerra Mundial) e, em seguida, o colapso do sistema capitalista diante da crise econômica de 1929, estabeleceram novas forças políticas a partir do surgimento do Socialismo na URSS e a emergência de regimes totalitários, como o Nazismo e o Facismo. Estas novas ordens políticas, atuando nas relações internacionais, provocaram tensões que culminaram com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial. Um cenário de destruição, imposto por sérias dificuldades econômicas e pelo desarranjo social, estabelecia-se em diversos países, tanto no mundo ocidental como em alguns países orientais.

Neste contexto a Medicina experimentou um enorme avanço, sobretudo em sua impressionante revolução tecnológica, propiciada pelos avanços das pesquisas científicas e nas produções da indústria de transformação. Assim, construiu-se um novo paradigma: a chamada medicina tecnológica ou tecnocientífica.

Avanços científicos e as bases da nova medicina

O conhecimento do átomo e o domínio da energia atômica a partir dos processos de fissão e fusão nuclear.

A Teoria da Relatividade de Albert Einstein cria uma nova concepção de universo no qual tempo e espaço são entidades relativas; a luz é definida como composta por massa e energia (partícula-onda).

Os astrofísicos descrevem a expansão do universo e o surgimento em um dado momento de grande contração-expansão (big bang). Inicia-se a conquista do espaço com as viagens espaciais tripuladas e os satélites em órbita da Terra.

Os bioquímicos e biofísicos exploram os meandros da célula, descobrindo suas reações metabólicas e as estruturas dos genes. Em 1953, James Watson e Francis Crick descrevem a estrutura do DNA em dupla hélice. Surgem os avanços da genética e da engenharia genética – agora no século XXI temos o desvendar do genoma humano.

Os fisiologistas descrevem as enzimas, os eletrólitos e os hormônios, desvendando os mistérios do metabolismo e de suas complexidades funcionais.

O microscópio eletrônico permitiu avançarmos da estrutura celular para uma investigação molecular e atômica das bactérias e vírus.

Os progressos da Física trouxeram enormes contribuições práticas, sobretudo na área do diagnóstico: os isótopos radioativos da Medicina Nuclear; a eletroforese e a espectofotometria nas Análises Clínicas; o eletrocardiograma, o eletroencefalograma e o eletromiograma nos estudos da Fisiolopatologia; as radiografias, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética na Imagenologia, Ortopedia e Neurocirurgia; a arteriografia digital e o cateterismo cardíaco na Angiologia e na Cardiologia; dentre outros.

A jovem disciplina da Psicologia, nascida no século anterior, ganhou envergadura de duas maneiras: pela investigação experimental e pela psicografia subjetiva. Importantes correntes surgiram nesta época: a psicologia gestáltica (gestalt) desenvolvida pelos alemães Kurt Koffka, Max Wertheimer e Wolfgang Kohler; o behaviorismo do americano John Watson; a psicobiologia de Adolf Meyer.

Introduzida pelo médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), a psicografia subjetiva representou uma notável contribuição para a Psiquiatria, ao enfatizar o conceito de que o homem é uma totalidade – um organismo biológico e histórico. Freud defendeu que o inconsciente, e não o consciente, constitui a maior parte da mente humana, estando subdividido em três partes interdependentes: id, ego e superego.

Um dos discípulos de Freud, o médico suíco Carl Gustav Jung (1875-1961), postulou dois sistemas do inconsciente: o pessoal, constituído por repressões e desejos suprimidos, e o arquetípico, composto de vivências herdadas ao longo da existência humana (inconsciente coletivo).

Outras técnicas desenvolvidas em Psiquiatria, hoje completamente em desuso, foram o emprego do choque de insulina para tratar algumas psicoses, introduzido por Manfred Sakel (1900-1957); a terapia do eletrochoque, introduzida pelos italianos Ugo Cerletti e L. Bini; e o polêmico método de tratamento de certas psicoses pela lobotomia pré-frontal, demonstrado pela primeira vez por Egas Moniz (1874-1956).

Uma nova era na Farmacologia teve início em 1935 quando o alemão Gerhard Domagk descobriu as propriedades bactericidas da sulfanilamida, a precursora das sulfonamidas, que se tornaram as primeiras "drogas miraculosas" do século XX ao combaterem eficazmente inúmeras doenças infecciosas, especialmente a pneumonia e a peritonite pós-cirúrgica. Em seguida, num pequeno e desorganizado laboratório em Londres, a contaminação de uma cultura de bactérias pelo fungo Penicilium notatum proporcionou ao Dr. Alexander Fleming (1881-1955) a oportunidade de ampliar o arsenal terapêutico contra as doenças infecciosas. A penicilina, nome dado por Fleming à substância isolado daquele fungo, permaneceu como curiosidade laboratorial até a Segunda Guerra Mundial, quando foi ampliada sua produção e desenvolvido seu uso pelos ingleses Howard Florey e Ernest Chain no combate às infecções provenientes dos ferimentos, reduzindo drasticamente as mortes deles decorrentes.

À penicilina seguiu-se a descoberta da estreptomicina em 1944 pelo Dr. Selman Waskman e seus assistentes. Depois, na esteira dos antibióticos naturais, surgiram os antibióticos semisintéticos e os sintéticos, grande fonte de riqueza para a indústria farmacêutica na atualidade.

As universidades, como centros de ensino médico, passaram a desenvolverem-se como enormes e bem equipados centros de pesquisa e de tecnologia médica. Parcerias com as indústrias farmacêutica e de equipamentos tornaram as universidades os locais preferidos para a atuação dos médicos pesquisadores.

O papel do médico durante o século XX foi expandido e intensificado: assumiu uma maior função pública, com crescente responsabilidade social; os formidáveis avanços da medicina impuseram a necessidade de manter-se o médico sempre atualizado, contribuindo para o fortalecimento da especialização e o aparecimento de novas especialidades. No início do século, o clínico geral (médico de família) trabalhava sozinho, possuindo notável conhecimento de todo o arsenal terapêutico então disponível, quase sempre cabendo dentro de sua maleta; sua prática dava-se em seu consultório ou na casa dos pacientes; os hospitais eram usados tão somente para os segregados e os indigentes.

Atualmente o papel do médico vem mudando progressivamente: de profissional liberal passou a ser um assalariado; a prática individualista deu lugar aos grupos de profissionais – equipes multiprofisionais e com alto grau de especialização e resolutividade; o hospital passou a ser o ambiente preferido para o ensino médico e para a assistência de inúmeros pacientes; o volume de informações cresce vertiginosamente, sendo disponíveis em milhares de revistas especializadas, em eventos científicos nacionais e internacionais e por meios eletrônicos (VCR, CD-ROM e internet); surgiram os planos e os seguros de saúde para intermediar as relações entre médicos e pacientes; os laboratórios farmacêuticos transformaram-se em poderosas corporações transnacionais; os diagnósticos e tratamentos obedecem a rigorosos critérios científicos, adotando-se a tecnologia como suporte indispensável e necessário; os custos com a saúde são cada vez mais elevados e a exclusão tende a ampliar o universo dos desassistidos e despossuídos; a assistência médica, assim como a sociedade capitalista globalizada, está hierarquizada e estratificada.

A Medicina do século XX, apesar das enormes dificuldades enfrentadas pelos povos de países subdesenvolvidos, pode-se orgulhar de inúmeras façanhas: o controle ou a erradicação de doenças potencialmente letais, como a varíola, a sífilis e a temível AIDS; a redução das taxas de mortalidade das neoplasias malignas, em especial as leucemias; a redução da mortalidade infantil com as medidas preventivas e de saneamento básico; o domínio do processo reprodutivo, pela contracepção ou pelas técnicas de reprodução assistida; melhoria na segurança e nos resultados de diversos procedimentos cirúrgicos, com adoção de técnicas de endoscopia, videocirurgia, telemetria e robótica.

Deste modo, totalmente apoiada por inúmeras ciências e tecnologias, a Medicina pode encarar o futuro com confiança e determinação, certa do antigo conhecimento de que o homem sempre pedirá a ajuda e a compaixão dos outros homens.