A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
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A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO


CAPÍTULO II

Se puder ser encontrado algum objeto ao qual este termo possa ser aplicado com algum significado compreensível, ele apenas poderá ser uma individualidade histórica, isto é um complexo de elementos associados na realidade histórica, que unimos em um todo conceptual do ponto de vista de um significado espiritual.

Devemos desenvolver no curso da discussão, como seu resultado mais importante, a melhor formulação conceptual do que entendemos aqui por espírito do capitalismo, isto é a melhor do ponto de vista que aqui nos interessa. Este ponto de vista não é , de modo algum, o único possível a partir do qual o fenômeno histórico que estamos investigando possa ser analisado. Resulta disso não ser necessário entender por espírito do capitalismo somente aquilo que ele virá a significar para nós, para os propósitos da análise.

É Benjamin Franklin quem nos prega nestas sentenças, o que Ferdinand Kürnberger satiriza em sua arguta e maliciosa Retrato da Cultura Americana. Ninguém duvidará que é o "espírito do capitalismo"que aqui se expressa de forma característica, muito embora esteja longe de nós o desejo de afirmar que tudo que possa ser entendido como pertinente a este "espírito"esteja nele contido.

Todas as atitudes de Franklin são coloridas pelo utilitarismo. A honestidade é útil porque assegura o crédito; do mesmo modo a pontualidade, a laboriosidade, a frugalidade, e é esta a razão pela qual são virtudes.

De fato, o summum bonum desta "ética", a obtenção de mais e mais dinheiro, combinado com o estrito afastamento de todo o gozo espontâneo da vida é, a cima de tudo, completamente destruído de qualquer caráter eudemonista ou mesmo hedonista, pois é pensado tão puramente como uma finalidade em si, que chega a parecer algo de superior à "felicidade" ou "utilidade" do indivíduo, de qualquer forma algo de totalmente transcedental e simplesmente irracional. O homem é dominado pela produção de dinheiro, pela aquisição encarada como finalidade última de sua vida.

O capitalismo, atualmente guiando a liderança da vida econômica de que necessita, pela seleção econômica dos mais aptos – escolhe os empreendimentos e trabalhadores de que tiver necessidade.

O espírito do capitalismo teve de lutar por sua supremacia contra todo um mundo de forças hostis. Um estado mental como um expresso nas passagens que citamos de Franklin e que receberam o aplauso de todo um povo, teria sido proscrito como o mais baixo tipo de avareza e como uma atitude inteiramente desprovida de auto-respeito, tanto na Antiguidade como na Idade Média.

Se o capitalismo não pode, como aprendemos de Franklin, utilizar-se de homens de negócio que pareçam absolutamente inescrupulosos em suas relações com outrem, menos ainda pode fazer uso do trabalho daqueles que praticam do liberum arbitrium indisciplinado. Assim, a diferença não repousa no grau de desenvolvimento de qualquer impulso de ganhar dinheiro.

O oponente mais importante o qual o "espírito" do capitalismo teve de lutar, foi esse tipo de atitudes e reação às novas situações, que podemos designar como tradicionalismo. Um dos meios técnicos usados pelo empreendedor moderno afim de assegurar a maior quantidade possível de trabalho por parte de "seus" homens é o pagamento por tarefa. Assim, o sistema de pagamento por unidades de produção é quase universal neste caso.

O homem não deseja "por natureza" ganhar cada vez mais dinheiro, mas simplesmente viver como estava acostumado a viver, e ganhar o necessário para este fim. O capitalismo moderno, onde quer que tenha começado sua ação de incrementar a produtividade do trabalho humano através do incremento de sua intensidade, tem encontrado infinitamente obstinada resistência deste traço orientador do trabalho pré-capitalista; e, ainda hoje, quanto mais atrasadas estejam as forças de trabalho, tanto mais tem que lidar com ela.

A força capitalística de uma empresa e o espírito pelo qual ela é dirigida estão geralmente ligados por alguma relação de adequação, não, porém, numa relação de interdependência necessária. E quando, apesar disso, usarmos provisoriamente a expressão espírito do (moderno) capitalismo para descrever aquela mentalidade que o ponto de vista profissional eqüivale ao ganho sistemático e racional do tipo do exemplo apresentado por Benjamin Franklin, isto se justifica pelo fato histórico de que aquela atitude mental tenha por um lado encontrado sua mais condizente expressão na empresa capitalista, enquanto por outro lado, a empresa dirivou sua força impulsora mas adequada do espírito do capitalismo. E veremos que nos primórdios dos tempos modernos, os empreendedores capitalistas não eram de modo algum nem os únicos nem os principais empreendedores do patriciado mercantil. Constituíam antes o estrato ascendente da classe média industrial inferior.

A administração de um banco, de um comércio de exportação atacadista, de um grande estabelecimento varejista, ou de uma empresa que negocie em grande escala com mercadorias produzidas a domicílio só é possível, certamente, na forma de uma empresa capitalista. Não obstante, todas elas podem ser dirigidas por um espírito tradicionalista.

Até mais ou menos meados do século passado, a vida de um produtor, pelo menos um muito dos ramos da indústria têxtil continental, era o que hoje poderíamos considerar confortável.

A forma de organização era, em todos os aspectos, capitalista; a atividade do empreendedor era de caráter puramente comercial; o uso de capital, em giro, no negócio era indispensável; e finalmente, o aspecto objetivo do processo econômico, a contabilidade. Era racional. Era, todavia, se considerar o espírito que animava o empreendedor, um negócio de cunho tradicionalista: o modo de vida tradicional, a taxa tradicional do lucro, a quantidade tradicional do trabalho, a maneira tradicional de regular as relações com o trabalho, o círculo essencialmente tradicional de fregueses e a maneira de atrair novos.

Ora, em determinada época esta vida de lazer foi subitamente convulsionada, e freqüentemente sem nenhuma mudança essencial na forma de organização. O que sucedeu foi, geralmente, apenas isto: um jovem qualquer, de uma das famílias produtoras sai para o campo. Escolhe cuidadosamente tecelões para empregados, aumenta grandemente o rigor para supervisão sobre seu trabalho e transforma-os, assim, de camponeses em operários., começa a mudar seu método de mercado, buscando tanto quanto possível o consumidor final, começa a introduzir o princípio dos "baixos preços" e de "grande giro", aqueles que não fizeram o mesmo, tem que sair do negócio.

A velha atitude de lazer e conforto para a vida deu lugar à rija frugalidade que alguns acompanharam e com isso subiram, porque não desejavam consumir mas ganhar, enquanto outros, que conservavam o antigo modo de vida, viram-se forçados a reduzir seu consumo.

E, o que é mais importante nessa relação, geralmente em tais casos não foi uma corrente de dinheiro novo investida na indústria que ocasionou estas modificações, mas sim o surgimento de um novo espírito, o "espírito do capitalismo moderno".

O tipo ideal de empreendedor capitalista evita a ostentação e as despesas desnecessárias, assim como o gozo consciente de seu poder, e embaraçam-no os sinais de reconhecimento social que recebe. Em outras palavras, seu modo de vida distingue-se freqüentemente por uma certa tendência ascética.

Atualmente, sob nossas individualísticas instituições políticas e econômicas, com as formas de organização e estrutura geral peculiares à nossa ordem econômica, este "espírito" do capitalismo poderia ser, como tem sido compreensível puramente como produto da adaptação. Também o sistema capitalista necessita desta devoção à "vocação" para ganhar dinheiro, pois ela configura uma atitude para com os bens materiais que está tão intimamente adaptada a este sistema.

Com efeito ela realmente não necessita mais do suporte de qualquer força religiosa e sente que a influência da religião sobre a vida econômica, através de normas eclesiásticas, na medida em que ainda seja sentida, é tão prejudicial quanto a regulamentação pelo Estado.

Quem não adaptar sua maneira de vida às condições de sucesso capitalista é sobrepujado, ou pelo menos não pode ascender.

Alguns éticos daquele tempo, especialmente da escola nominalista, aceitaram como fato o desenvolvimento de formas de negócio capitalista e tentaram, não sem contradições, justifica-las, mais especialmente o comércio, como necessárias, e a "indústria" que nele se desenvolveu, como fonte de lucros legítima e eticamente inquestionável. Mas o espírito da aquisição capitalista era rejeitado como tupitudo pela doutrina dominante, ou pelo menos não era encarado como eticamente justificável. Uma atitude ética como o de Benjamim Franklin seria simplesmente impossível se ser imaginada. Esta era, principalmente, a atitude dos próprios círculos capitalistas. Enquanto estiveram presos à tradição da igreja, sua vida profissional foi, na melhor da hipóteses, algo moralmente indiferente ou tolerado mas, em todo o caso, por causa do constante perigo de choque com a doutrina da Igreja sobre sua usura, algo perigoso para a salvação.

A tentativa de descrever o racionalismo econômico como a feição mais destacada da vida econômica como um todo tem sido feita particularmente por Sombart. Este processo de racionalização no campo da ciência e da organização econômica determina indubitavelmente uma parte importante nos "ideais da vida" da moderna sociedade burguesa. O trabalho a serviço de uma organização racional para o abastecimento de bens materiais à humanidade, sem dúvida , tem-se apresentado sempre aos representantes do espírito do capitalismo como uma das mais importantes finalidades de sua vida profissional.

Poderia assim parecer que o desenvolvimento do espírito do capitalismo seria melhor entendido como parte do desenvolvimento do racionalismo como um todo, e poderia ser deduzido da posição do racionalismo quanto os problemas básicos da vida.


CAPÍTULO V

Numa época que o além era tudo e em que a posição social dos cristãos decorria da admissão à comunhão, a influência do sacerdote na cura das almas, a disciplina eclesiástica, e a pregação exerciam uma influência que nós, homens modernos, somos completamente incapazes de imaginar. Naquele tempo as forças religiosas, expressas através destes canais, tiveram uma influência decisiva na formação do "caráter nacional".

Podemos para efeito das discussões deste capítulo e em contraposição a discussões posteriores, tomar o protecionismo ascético como um todo. Entretanto, uma vez que é puritanismo inglês, oriundo do calvinismo, que nos dá a fundamentação mais conseqüente da idéia de vocação, colocaremos um dos nossos representantes no centro da discussão. Richard Baxter destaca-se entre muitos outros intérpretes teóricos da ética puritana, tanto pela sua posição eminentemente prática e pacífica, como pelo reconhecimento universal do valor de seus trabalhos, através de sua constante reendicão e tradução.

Tomando como exemplo o Saints‘Everlasting Rest ou o Christian Directory de Baxter, destaca-se imediatamente a ênfase colocada em sua discussão sobre a riqueza e sua aquisição, nos elementos ebioníticos da proclamação do Novo Testamento. A riqueza em si constitui sério perigo; suas tentações nunca cessam, e sua procura não é apenas desprovida de sentido, quando comparada com a superior importância do reino de Deus como moralmente suspeita.

A perda de tempo, portanto, é o primeiro e o principal de todos os pecados. A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessário para a saúde é absolutamente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do "Time is Money" de Fraklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus.

Mas o importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida. A expressão paulina: "Quem não trabalha não deve comer" é incondicionalmente válida para todos.

Resta-nos, ainda esclarecer especialmente aqueles pontos pelos quais a concepção puritana de vocação e a exigência de um comportamento ascético iria influir no desenvolvimento do estilo de vida capitalístico. A ascese orientava todo seu vigor pricipalmente contra uma atitude: a de desfrutar espontaneamente a vida e tudo o que ela tem para nos oferecer.

Contra isso sustentavam os puritanos a sua característica mais importante: o princípio da conduta ascética. A aversão do puritanismo ao esporte, não era devido por uma questão de princípio.

O impulsivo gozo da vida propiciado, tanto pela vocação como pela virtude, era, como tal, também considerado contrário à ascese racional, quer se apresentasse na forma do salão de jogos ou de baile senhorial, quer na forma do tablado e da taberna do homem comum.

Assim também era desconfiada e muitas vezes hostil a sua atitude frente aos valores culturais não diretamente religiosos. Isto não quer dizer, entretanto, que os ideais do puritanismo implicassem um trivial e estreito desprezo pela cultura. A verdade é justamente ao contrário, os maiores intérpretes do puritanismo eram, além de tudo, profundamente imbuídos da cultura do Renascimento.

Contudo, a situação altera-se completamente quando se analisa o campo da literatura não cientifica, e especialmente das artes plásticas.

O teatro era reprovável para os puritanos, e com a estrita exclusão do erótico e do corpóreoda esfera de tolerância, tornou-se impossível uma concepção tanto da literatura como da arte. O ascetismo secular do protestantismo opunha-se, assim, poderosamente, ao espontâneo usufruir das riquezas, e restringia o consumo, especialmente o consumo do luxo. Em compensação, libertava psicologicamente a aquisição de bens das inibições da ética tradicional, rompendo os grilhões da ânsia de lucro, com o que não apenas o legalizou, como também a considerou como diretamente desejada por Deus. A luta contra as tentações da carne e a dependência dos bens materiais era não uma campanha contra o enriquecimento, mas contra o uso irracional da riqueza.

No que se refere à produção de riqueza privada, a ascese condenava tanto a desonestidade como a ganância instintiva. A ânsia da riqueza com um fim em si era condenada, pois a riqueza em si era uma tentação. Aí surgia, todavia, o ascetismo como o poder que "sempre quer o bem quando cria o mal", o mal no caso sendo a riqueza e sua s tentações.

É certo, naturalmente, que toda literatura ascética, de quase todas as religiões, está saturada do ponto de vista de que o trabalho consciente, mesmo por baixos salários, da parte daquales a quem a vida não oferece outras oportunidades, é algo de sumamente agradável a Deus. Nisto a ascese protestante não produziu em si novidade alguma . Contudo, ela não se limitou a aprofundar até o máximo esse ponto de vista, pois produziu uma norma, que, sozinha, bastou para torna-la eficiente: a da sua sanção psicológica através da concepção do trabalho como vocação, como meio excelente, quando não único, de atingir a certeza da graça. Por outro lado, ela legalizou a exploração dessa específica vontade de trabalhar, com o que também interpretava como "vocação" a atividade do empresário. Não é difícil perceber quão poderosamente a procura do reino de Deus, apenas através do preenchimento do dever vocacional, e a estrita ascese imposta naturalmente pela Igreja, especialmente nas classes pobres, iria influenciar a "produtividade" do trabalho, no sentido capitalista da palavra. O tratamento do trabalho como "vocação" era tão característico para o moderno trabalhador, como a correspondente atitude aquisitiva do empresário.

Um dos componentes fundamentais do espírito do moderno capitalismo, e não apenas deste, mas de toda a cultura moderna: a conduta racional baseada na idéia da vocação, nasceu do espírito da ascese cristã.

Desde que o ascetismo começou a remodelar o mundo e a nele se desenvolver, os bens materiais foram assumindo uma crescente, e, finalmente, uma inexorável força sobre os homens, como nunca antes na História. Hoje em dia seu espírito religioso safou-se da prisão